Tag: Zona Oeste

Com Pós na FEUC e encontro anual, Psicopedagogia ganha visibilidade na Zona Oeste

Com Pós na FEUC e encontro anual, Psicopedagogia ganha visibilidade na Zona Oeste

Curso de especialização da instituição mantém projeto de clínica para atendimento a moradores da região e promove eventos voltados para profissionais que atendem no bairro e adjacências

Por Pollyana Lopes

A partir dos conhecimentos da Psicologia, da Psicanálise e da Pedagogia, a Psicopedagogia é um campo de estudos dedicado aos processos de aprendizagem principalmente de crianças, mas também de adultos. A área é relativamente nova, por isso pesquisas, cursos de formação e atuação profissional chegaram ao Brasil apenas na década de 1970. Também por este motivo, os profissionais ainda batalham juridicamente para ter sua atividade regulamentada. Em 2014, o Senado Federal aprovou o texto que regulamenta a profissão, mas a lei aguarda sanção da Presidência da República.

Apesar de já existirem algumas graduações em Psicopedagogia no Brasil, geralmente, a formação de um psicopedagogo acontece em cursos de pós-graduação especializada, como os oferecidos pela FEUC. Aqui, nós ofertamos os cursos de Psicopedagogia Clínica, mais voltado para a atuação em consultórios e atendimentos individuais; e de Psicopedagogia Institucional, com formação mais direcionada para o trabalho em escolas e empresas, por meio de projetos e prevenção. O curso de Psicopedagogia Clínica conta com carga horária de 660 horas/aulas, já o Institucional tem 360 horas/aulas. Ambos são voltados a portadores de diploma de graduação de uma maneira geral, e, em especial, pedagogos, psicólogos, professores, fonoaudiólogos, médicos, terapeutas e psicanalistas.

 Responsabilidade Social e aprendizado na clínica

 Dentre as disciplinas do curso de pós-graduação em Psicopedagogia Clínica, destacam-se quatro Estágios Supervisionados, que podem ser cumpridos externamente, em consultórios particulares, ou aqui na FEUC. Com acompanhamento da professora Leila Queiroz Evaristo da Silva, coordenadora do curso, estudantes matriculados em estágios III e IV fazem atendimentos gratuitos a crianças da região. Quem faz estágio III trabalha o diagnóstico da criança, e quem cursa estágio IV atua na intervenção do processo de aprendizagem.

"O lúdico desenvolve a afetividade e o cognitivo", explicou a professora Leila. (Foto: Pollyana Lopes)

“O lúdico desenvolve a afetividade e o cognitivo”, explicou a professora Leila. (Foto: Pollyana Lopes)

“Quando nós fazemos o trabalho psicopedagógico, nós fazemos uma análise, que é o que chamamos de diagnóstico, para poder entender como aquele aluno aprende, ou o que dificultou a sua aprendizagem. Podem ser questões emocionais, neurológicas, patológicas. E o psicopedagogo tem essa função, de descobrir, de diagnosticar o que o estudante tem e o que interfere na sua aprendizagem. A partir disso, a gente cria estratégias onde nós vamos trabalhar a intervenção dessa aprendizagem. Isso se dá através de jogos e atividades que façam com que ele desenvolva o aprendizado, principalmente da leitura e da escrita”, explica a professora Leila.

 

O atendimento feito pelas estagiárias acontece individualmente com as crianças. Porém, por entender a importância de trabalhar o comportamento das crianças em coletivo, assim como a proximidade afetiva com os pais, a professora Leila organizou oficinas de brincadeiras. Durante uma hora e meia, crianças e mães que são atendidas pelo projeto brincam de jogo da memória, rabo de foguete, dominó e tangram, entre outros.

Estagiárias, mães e crianças atendidas pelo projeto. Todos se divertiram na oficina. (Foto: Pollyana Lopes)

Estagiárias, mães e crianças atendidas pelo projeto. Todos se divertiram na oficina. (Foto: Pollyana Lopes)

 “Para mim foi bom porque eu brinquei com o meu filho de uma forma que eu não brinco em casa. Eu normalmente não tenho esse tempo, eu tenho outra menina também e eles acabam brigando. E aqui brincamos eu e ele. Para mim foi ótimo, foi uma coisa que não acontecia há bastante tempo”, contou Gisele Ramos Viana, mãe do Ryan Alex Viana Diniz.

“O afeto faz a criança se desenvolver, faz até a gente, enquanto adulto, se desenvolver e perceber quem é o nosso filho, quem somos nós nesse dia-a-dia, nesse corre-corre”, explicou, às mães, a professora Leila. “A gente cresce, mas não devemos deixar de brincar, porque o brincar é importante e essencial na nossa vida. Ele estimula, nos traz alegria, faz com que a gente extravase energias, faz a gente ficar mais leve”, acrescentou.

 Encontro Psicopedagógico

 Mais uma atividade desenvolvida pelo curso é o Encontro Psicopedagógico, que este mês realizou sua segunda edição. Voltado não apenas para os estudantes do curso de pós-graduação da FEUC, mas também psicopedagogos já formados, fonoaudiólogos e professores que atuam na região, o evento debateu temas pertinentes à área, projetos que dão certo e também trouxe histórias de profissionais de êxito.

Público do encontro esteve atento foi participativo. (Foto: Pollyana Lopes)

Público do encontro esteve atento e foi participativo. (Foto: Pollyana Lopes)

“O psicopedagogo de Copacabana, Botafogo, da Zona Sul em geral, já tem um nome, é reconhecido, é procurado. Nossa região também tem esses profissionais, mas eles estão quietinhos, escondidos, enquanto fazem um trabalho belíssimo. Eu tive uma preocupação de escolher profissionais da nossa região, que fazem esse trabalho e que muitas vezes não conhecemos”, explicou a professora Leila.

 Neste ano, no sábado inteiro de palestras, foram discutidos temas como educação especial e inclusiva, dislexia, paralisia cerebral, transtorno de conduta, a nova Lei Brasileira de Inclusão e dificuldades da aprendizagem na escrita.

Professora Leila destacou, durante o encontro, a importância de valorizar o profissional da região. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Leila destacou, durante o encontro, a importância de valorizar o profissional da região. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das palestrantes foi a professora da FEUC Maria José Brum, que é especialista em Libras e em Educação Especial e Inclusiva. Ela falou sobre os temas que estuda e ensina, e explicou o papel da escola na construção de uma sociedade mais igualitária.

 “Tudo parte da escola. A escola é o espaço de formação dos cidadãos, de formar os indivíduos, da cidadania. Mas há aquelas escolas que transformam a realidade do indivíduo, e há aquelas escolas que ainda reproduzem o que existe. Mas quem é a escola? A escola somos nós. E quando falamos sociedade, também somos nós”, analisou Maria José.

Professora Maria José explica a diferença entre exclusão, segregação, integração e inclusão. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Maria José explica a diferença entre exclusão, segregação, integração e inclusão. (Foto: Pollyana Lopes)

Outra palestrante foi Carla Silva, psicopedagoga atuante na região, que é especialista em Educação Infantil e em Educação Especial e Inclusiva. Ela falou sobre a dislexia, um transtorno decorrente de uma formação diferenciada de uma parte do cérebro, que dificulta a decodificação de códigos enviados durante o estudo e, assim, causa problemas na aprendizagem escolar, principalmente na leitura, escrita e soletração. Carla começou mostrando uma imagem que questiona o que não é “dislequisia”, que ela prontamente respondeu:

 “Insuficiência pedagógica não é dislexia. Eu recebo muitas crianças no consultório com queixa de alfabetização. E quando a gente vai investigar, na escola, com os pais, o material escolar, a proposta que o professor está trabalhando, é uma proposta que não atende as necessidades daquela criança. E quando você começa a trabalhar de uma forma que alcança a necessidade da criança, ela começa a aprender. E aí somem todos os problemas. O que a gente percebe é que muitas vezes as propostas pedagógicas não são pensadas para alcançar todos e sim a maioria”, explicou.

Carla Silva, que o I Encontro Psicopedagógico falou sobre o método das boquinha, este ano apresentou alguns aspectos pertinentes à dislexia. (Foto: Pollyana Lopes)

Carla Silva, que o I Encontro Psicopedagógico falou sobre o método das boquinha, este ano apresentou alguns aspectos pertinentes à dislexia. (Foto: Pollyana Lopes)

Serviço

 O atendimento psicopedagógico gratuito acontece às quintas e sextas-feiras, de 16h30 às 19h. Já os cursos de pós-graduação em Psicopedagogia Clínica e Psicopedagogia Institucional irão abrir inscrições em dezembro, com previsão de início das aulas para março.

Psicopedagogia - zona oeste (5)

Psicopedagogia - zona oeste (9)Psicopedagogia - zona oeste (8)

 

FEUC além dos muros

 

Evento realizado no Instituto de Educação Sarah Kubitschek levou informações acadêmicas e profissionais aos estudantes e promoveu a troca de saberes entre universidade e escola

Por Tania Neves e Pollyana Lopes

Como parte das atividades do Dia da Responsabilidade Social 2016, a FEUC construiu uma feliz parceria com o Instituto de Educação Sarah Kubitschek (IESK), em Campo Grande, para a realização do “FEUC além dos muros”. Concebido por docentes e graduandos dos cursos da faculdade, o evento levou aos estudantes secundaristas do IESK, no dia 8 de outubro, uma série de atividades voltadas para as áreas de conhecimento acadêmico e os desafios na formação dos futuros profissionais. Foram palestras, oficinas, debates e aulas práticas abordando o conteúdo dos cursos e temas da atualidade, no intuito de compartilhar com os alunos informações que os ajudem a melhor conhecer algumas carreiras profissionais e refletir sobre questões importantes do mundo de hoje.

Estudantes do Sara, após a oficina de Pedagogia, uma das mais concorridas. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes do Sara, após a oficina de Pedagogia, uma das mais concorridas. (Foto: Pollyana Lopes)

Pedagogia Sob a coordenação das professoras Maria Licia Torres e Cláudia Miranda, os bolsistas do Pibib do curso promoveram duas oficinas, uma sobre o uso das linguagens artísticas como instrumento pedagógico para abordar os gêneros textuais em sala de aula e outra sobre o resgate da tradição oral por meio das cirandas. Apesar de a maior parte dos estudantes que optaram por essas atividades serem do Ensino Médio Regular e não da Formação de Professores, o entusiasmo foi grande.

Na oficina oferecida pelo subprojeto Interdisciplinar do Pibid FEUC, os estudantes conheceram um pouco da literatura africana e confeccionaram pulseiras. (Foto: Pollyana Lopes)

Na oficina oferecida pelo subprojeto Interdisciplinar do Pibid FEUC, os estudantes conheceram um pouco da literatura africana e confeccionaram pulseiras. (Foto: Pollyana Lopes)

“Fiquei encantada com a forma como eles se envolveram com as atividades. Chegaram a pedir um bis da Capoeira”, conta Maria Licia, considerando que o objetivo maior foi alcançado: “Levar os jovens a refletir sobre os processos de ensino e aprendizagem e a reflexão sobre temas sociais e culturais é muito importante, mesmo que eles não pretendam seguir a carreira docente”, avaliou. Professora tanto da FEUC quanto do IESK, Rita Gemino comandou uma oficina de produção de pulseiras, partindo da inspiração de um belíssimo conto africano, que era lido pelos participantes antes de cada um iniciar a montagem de sua pulseira. Também escritora, Rita tem longa experiência no uso do lúdico como meio de abordar os temas literários em sala de aula, e procura munir seus alunos e alunas com essa bagagem: “É importante que o futuro professor conheça a literatura africana para poder quebrar esses estereótipos de um continente que só tem pobreza e coisas negativas. A África tem uma cultura riquíssima, e é plural, são muitas Áfricas”, diz. Matemática Na oficina de Matemática, ministrada por bolsistas do Pibid e professores da FEUC, foram apresentadas aos alunos do IESK métodos de ensino de matemática para crianças que utilizam as mãos, e o chamado material dourado. A atividade foi aprovada pelas alunas do primeiro ano do Ensino Normal do Sara. Andréa Santana de Jesus e Vivian Cristina Barreto dos Santos comentaram:

Na oficina de matemática, os estudantes aprenderam técnicas para utilizar o material dourado, um jogo que facilita o aprendizado de unidades, dezenas e centenas. (Foto: Pollyana Lopes)

Na oficina de matemática, os estudantes aprenderam técnicas para utilizar o material dourado, um jogo que facilita o aprendizado de unidades, dezenas e centenas. (Foto: Pollyana Lopes)

“Eu me interessei pela oficina porque gosto de matemática e eu gostei muito de saber desses métodos mais práticos de se explicar. Quando eu aprendi era mais complexo, então, é bom a gente ficar sabendo de novas formas até para poder ensinar”, contou Vivian. “Eu já conhecia o material dourado, mas não sabia de todas essas formas de usá-lo. É uma coisa mais fácil e dá pra ensinar. E também mexe muito com materiais, com as mãos, é mais didático e a criança se diverte”, reforçou Andréa. Humanas Os cursos da área de Humanas propuseram caminhos bastante instigantes para acessar os conteúdos das disciplinas – como a charge, explorada pelo grupo de Geografia, e as histórias em quadrinhos, abordadas pelo de História. Nas duas salas a atenção e participação dos alunos era intensa. O professor Jayme Ribeiro ia fazendo as conexões entre acontecimentos históricos e os quadrinhos mais em voga naqueles períodos, mostrando como as mensagens políticas são passadas também por meio da cultura e do entretenimento, e os alunos se encantavam com o modo tão saboroso de aprender história. A professora Márcia Vasconcellos, que dividia com ele a apresentação, vibrava: “Ouvi mais de um aluno dizendo ‘puxa, agora já sei o que vou fazer: história!’. Eu, que amo ensinar história, só posso vibrar com isso”, comentou.

Jayme contextualizou histórias em quadrinhos clássicas, como Capitão América, e questionou o papel ideológico e político das imagens. (Foto: Pollyana Lopes)

Jayme contextualizou histórias em quadrinhos clássicas, como Capitão América, e questionou o papel ideológico e político das imagens. (Foto: Pollyana Lopes)

Já na atividade de Ciências Sociais, os alunos tiveram acesso às informações básicas sobre o curso e também conheceram um pouco do trabalho desenvolvido pelo Pibid, na Escola Municipal Amazonas, onde os bolsistas introduzem a Sociologia aos estudantes do 8º e 9º ano. Como forma de exercitar o senso crítico necessário à Sociologia, eles também assistiram um clipe musical e debateram sobre o conteúdo. “A gente também passou o clip da música Minha Alma, do Rappa. O vídeo mostra um pouco do genocídio do povo negro e agora, depois de debate, eles estão fazendo um trabalho expondo no papel o pensamento deles sobre o vídeo e sobre a sociedade em geral, numa forma de manifestação”, explicou Matheus Henrique Vaz, estudante do 3º período de Ciências Sociais e bolsista do Pibid.

Em um dos trabalhos apresentados pelos alunos da oficina de Ciências Sociais os estudantes demonstraram como a televisão pode mascarar a realidade. (Foto: Pollyana Lopes)

Em um dos trabalhos apresentados pelos alunos da oficina de Ciências Sociais os estudantes demonstraram como a televisão pode mascarar a realidade. (Foto: Pollyana Lopes)

Gestão e tecnologia O auditório recebeu palestras de três professores das áreas de gestão e tecnologia da FEUC. Rodrigo Neves, coordenador dos cursos de Informática da FEUC, buscou dar aos alunos um aperitivo do amplo universo que eles poderão encontrar nessa área; Cátia Regina França, coordenadora de Administração, falou sobre o curso mais procurado por estudantes em todo o Brasil, já que o campo de atuação do administrador é muito amplo. E Kattia Eugênia Medeiros, que coordena o tecnólogo em Automação Industrial, abordou características desse curso e também do tecnólogo em Sistemas Elétricos, lembrando que a exploração de novas fontes de energia – como a solar e a eólica – vem revolucionando este mercado e abrindo muitas oportunidades para os formados nessas áreas. “Vimos alunos muito interessados nesses temas, bastante participativos”, disse o professor Rodrigo. “Observamos que eles pouco conhecem sobre a algumas áreas, como sistemas elétricos e automação, e foi muito bom poder esclarecer dúvidas”, completou a professora Káttia. Outros convidados A segunda etapa do evento contou com outros convidados de fora da FEUC, como a graduanda em Biomedicina, Ingrid Verri Pinto, que explicou como proceder nos primeiros socorros em acidentes cotidianos; e da especialista em Literatura, Marcela Guimarães Valle, que falou sobre o fazer pedagógico e o cotidiano do trabalho docente. Também aconteceram palestras sobre temas atuais, educativos e de prevenção, como a discussão sobre os efeitos psicológicos e sociais consequentes do uso de drogas, orientado pela pedagoga e psicopedagoga, Isabella Marques Santos e o debate sobre violência contra a mulher e a Lei Maria da Penha, conduzido pela defensora pública e coordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), Arlanza Rebello. Entre outros aspectos, Arlanza apresentou as várias formas de violência contra a mulher além das já conhecidas violência física e sexual, como a violência patrimonial, moral e psicológica. “A violência patrimonial acontece quando a mulher tem seus objetos quebrados, quando ela não tem acesso a nenhum dinheiro porque o companheiro controla tudo; a violência moral, quando ela é caluniada, quando inventam mentiras a respeito dela, chamam de vadia; e a violência psicológica, quando ela é ameaçada, humilhada, quando o homem diz que ninguém gosta dela. E é importante a gente dizer, todas essas são formas de violência e são cobertas pela Lei Maria da Penha, porque elas não são menores”, explicou.

Outro aspecto apresentado por Arlanza foi a compreensão do conceito de mulher pela Lei Maria da Penha, que também abarca mulheres travestis, transexuais, transgêneros. (Foto: Pollyana Lopes)

Outro aspecto apresentado por Arlanza foi a compreensão do conceito de mulher pela Lei Maria da Penha, que também abarca mulheres travestis, transexuais, transgêneros. (Foto: Pollyana Lopes)

Avaliação do evento e da parceria A professora Jane Souza, que atua tanto no IESK quanto na FEUC, e que foi a ponte para esta parceria, mostrou-se eufórica com a participação da garotada: “Tivemos salas cheias em todas as atividades e estudantes empolgadíssimos, muitos pedindo para esticar a atividade, não querendo que acabasse. E professores do IESK também participando, assistindo em várias salas”, disse. A diretora do Instituto, Dayse Duque Estrada, avaliou como positivo o saldo da feira acadêmica e profissional. “Foi um dia diferente, foi uma atividade bastante estimulante que, com certeza, vai ter desdobramentos ao longo do ano com os professores que acompanharam as oficinas”, declarou. Para a FEUC, o dia também foi proveitoso e de aprendizado, como avaliou a professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais e uma das organizadoras do evento. “Para nós da FEUC foi uma oportunidade fundamental da gente esclarecer, para os estudantes do Ensino Médio, sobre os cursos universitários. Muitas vezes o estudante chega na universidade e não sabe muito bem o que é aquilo que ele escolheu. Foi um evento muito bacana, uma troca fantástica e eu acho que a gente tem que ampliar essa interlocução entre os diferentes níveis de ensino. Estou muito feliz com isso”, contou.

Resistências Feministas

Evento promovido pelo PACS debateu tema das violações socioambientais na Zona Oeste do Rio de Janeiro

Por Pollyana Lopes

Nos dias 16 e 17 de junho, a FEUC recebeu o seminário “Corpo, Conhecimento e Conflitos – Resistências Feministas e Territórios em Disputa”. Organizado pelo Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), o evento fecha o primeiro ano da pesquisa, promovida pela organização, sobre as ameaças e violações socioambientais na Zona Oeste do Rio de Janeiro e o protagonismo feminino nos movimentos de oposição, e contou com palestras, apresentação teatral e oficinas.

O objetivo do mapeamento é investigar, sistematizar e refletir sobre a realidade da região, na qual o meio ambiente e a população sofrem, cotidianamente, abusos de poder por parte do Estado e de grandes corporações para a implementação de indústrias siderúrgicas, de cimento, de água, além de condomínios de luxo. Como explica Joana Emmerick Seabra, que integra a gestão do PACS, a pesquisa também tem o propósito de fortalecer os grupos de resistências:

“Tem o componente da ação, a investigação não está descolada da ação, dos processos de mobilização, de organização popular que já acontecem. Então, o ideal é que esse processo de mapeamento seja um instrumento para dar mais insumos para fortalecer as lutas que todas nós já estamos inseridas. A pesquisa não é um fim, digamos, ela é um instrumento, ela é um meio”, explica.

Em uma das dinâmicas, os participantes apresentaram objetos que faziam referência ao território onde viviam. (Foto: Pollyana Lopes)

Em uma das dinâmicas, os participantes apresentaram objetos que faziam referência ao território onde viviam. (Foto: Pollyana Lopes)

O primeiro dia do evento foi marcado por palestras que debateram Educação Popular, os conflitos socioambientais no contexto latino-americano e a conjuntura da Zona Oeste. Já o segundo dia, foi marcado pelo debate e a experimentação da cartografia social, um momento em que as pesquisadoras conheceram melhor esta metodologia, que pode vir a ser a escolhida pelo grupo para o mapeamento.

Possibilitar efetivamente a participação de mulheres envolvidas com movimentos sociais da região foi um diferencial do evento. Além de oferecer almoço e o reembolso de passagens para os inscritos nos dois dias do evento, como o seminário foi voltado prioritariamente para o público feminino, já que elas são exclusivamente as pesquisadoras da investigação, também havia uma ciranda para as mães deixarem seus filhos e filhas.

Este talvez tenha sido um dos motivos pelo qual mulheres de diferentes formações e de lugares distantes participaram das mesas e oficinas, algumas contaram que precisam caminhar 8km até o ponto de ônibus mais próximo. Uma das que vieram de longe foi Valéria Santos. A tocantinense de Araguaína, que integra a regional Araguaia Tocantins da Comissão Pastoral da Terra (CPT), fez um panorama da questão da socioambiental e da disputa pela terra na sua região e compartilhou algumas práticas de resistência empregadas pela equipe da qual faz parte.

Uma das iniciativas apresentadas por Valéria foram os Caderno de Conflitos no Campo da CPT, onde a organização publica, anualmente, um levantamento de casos de violações de direitos. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das iniciativas apresentadas por Valéria foram os Caderno de Conflitos no Campo da CPT, onde a organização publica, anualmente, um levantamento de casos de violações de direitos. (Foto: Pollyana Lopes)

A exposição dela no evento, junto do vídeo Agronegócio vs. Povos Da Terra e a participação da plateia durante o debate tornaram evidentes como as violações de direitos contra a terra, o trabalho, a moradia, a água, a saúde das pessoas, são parecidas em todo o Brasil e na América Latina. O seminário, que se dispôs a debater as resistências femininas, e a pesquisa, com o objetivo de mapear as infrações socioambientais na região e também fortalecer os movimentos em defesa dos direitos humanos, cumprem o papel de conectar os grupos para compartilhar o conhecimento adquirido com a experiência cotidiana porque, como afirmou Sandra Quintela, integrante da equipe do PACS, em uma das palestras, “somos filhas e filhos da rebeldia, da resistência histórica” e juntas somos mais fortes.

Que Zona Oeste queremos? A questão norteou debate na FEUC

Representantes de movimentos sociais da região trouxeram temas que gostariam de ver contemplados nas políticas públicas, de modo a se sentirem mais pertencentes à cidade onde vivem

Por Tania Neves

“Se a Zona Oeste fosse nossa” foi o tema do Espaço de Diálogo aberto na noite de segunda-feira no Auditório FEUC, recebendo três mulheres representantes de movimentos sociais da região que trouxeram relatos e propostas para debate com o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, partido que há um ano e meio lançou o Programa/Movimento “Se a Cidade fosse nossa”, com o objetivo de recolher subsídios para sua proposta de gestão da cidade do Rio de Janeiro num eventual futuro governo. Bernardete Montezano, da Rede Carioca de Agroecologia Urbana; Bianca Wild, do Ecomuseu de Sepetiba; e Thamires de Lima Guedes, aluna de Ciências Sociais e educadora social na Fundação Xuxa Meneghel, abordaram alguns dos muitos temas que a população da região gostaria de ver contemplados nas políticas públicas municipais, como questões ambientais, segregação socioespacial e vulnerabilidade da juventude.

Plateia participa atentamente do Espaço de Diálogo

Plateia participa atentamente do Espaço de Diálogo

‘Na cidade que a gente quer, se produz alimento de verdade, alimento vivo!’

Após as boas-vindas dadas pelas professoras Célia Neves, coordenadora de Ciências Sociais, e Rosilaine Silva, coordenadora de Geografia, a jornalista e agricultora Bernardete Montezano iniciou o diálogo abordando as dificuldades enfrentadas pelos agricultores familiares na região, com a crescente invisibilização e inviabilização de sua atividade. Bernardete frisou que, se estivesse falando para um público de outro lugar, certamente teria que começar seu relato informando que esta cidade tem agricultura, pois, para além da vizinhança dos agricultores familiares, poucas pessoas sabem que o município do Rio de Janeiro produz alimentos. Segundo ela, o atual Plano Diretor exclui a agricultura e persegue o agricultor: “No Maciço da Pedra Branca, criaram um parque estadual nos anos 70 com regras feitas à revelia de quem já estava ali há gerações, cultivando a terra. Hoje tem até uma polícia específica para reprimir as pessoas que vivem e viveram ali a vida toda”, denunciou.

Bernardete tocou num ponto interessante sobre as Unidades de Conservação Ambiental, que se apresentam com o objetivo de preservar a floresta remanescente e a biodiversidade, e em nome disso combatem a agricultura em seu entorno: “Eles não concebem a presença de pessoas nas unidades de preservação, esquecendo que são justamente as pessoas que vivem lá que garantiram a sobrevivência dos bichos e das plantas”, argumentou.

A agricultora fechou sua fala descrevendo como seria a sua Zona Oeste: “Na cidade que a gente quer, se produz alimento de verdade, alimento vivo. Nessa nossa cidade, a Vila Autódromo fica, a agricultura fica, os agricultores e as agricultoras terão protagonismo”.

Ecomuseu: a comunidade desenvolvendo o território a partir da valorização de sua história

Bernardete, Bianca, Thamires e Freixo na mesa de debates

Bernardete, Bianca, Thamires e Freixo na mesa de debates

Professora e socióloga, Bianca Wild seguiu desenhando essa Zona Oeste dos desejos de quem nela mora ao explicitar os objetivos do Ecomuseu de Sepetiba, do qual é fundadora: ali se realizam ações museológicas para desenvolver o território, a partir da valorização do lugar onde as pessoas vivem. A ideia de ecomuseu é quando membros de uma comunidade decidem o que ali merece ser preservado e desenvolvido, incluindo desde o entorno natural até as construções, as populações e os modos de vida, entre outras características. Não por acaso, o lema do Ecomuseu de Sepetiba é “Espelho onde se revê e se descobre a própria imagem”, já que o ponto fundamental para os moradores é a Baía de Sepetiba, tão maltratada e degradada nos últimos 30 anos.

“A pesca e a balneabilidade, fundamentais para os modos de vida das marisqueiras e dos pescadores artesanais, foram arrasadas por este modelo desenvolvimentista que está aí. É isso que nós queremos recuperar”, disse Bianca, lembrando que a poluição causada principalmente pela multinacional TKCSA inviabilizou os meios de subsistência dessas populações tradicionais e empurrou marisqueiras para o trabalho de domésticas e pescadores para a construção civil. “A Zona Oeste que a gente quer vai valorizar as pessoas e sua história e sua memória, para que o ofício da pesca artesanal não se perca”.

E para os interessados em conhecer mais sobre o Ecomuseu de Sepetiba, ela deixou um convite: todo primeiro domingo do mês é feito um passeio de reconhecimento pela região, passando pelos lugares e histórias que a população quer preservar.

Jovens: entre outras dificuldades, precariedade do transporte impõe segregação socioespacial

A terceira convidada a falar foi Thamires de Lima Guedes, graduanda de Ciências Sociais nas FIC e educadora social do projeto Incidência Política e Participação Infantojuvenil (IPPI) da Fundação Xuxa Meneghel. Ela leu um relato sobre sua trajetória, da jovem de 16 anos atendida pelo IPPI até a militante e educadora social que hoje atua no mesmo projeto. Falou também dos problemas de Guaratiba, região onde mora, sobretudo os ligados à degradação ambiental, crescimento desordenado e precariedade de políticas públicas: “Guaratiba tem o tamanho de 65 Leblons, e nenhuma UPA. As ciclovias começam e terminam no nada. A criminalidade é cada vez maior, a violência parece não ter fim”, registrou.

Segundo Thamires, a precariedade do transporte público é um dos pontos que mais deixam transparecer que os governantes não enxergam esta cidade como sendo nossa. Afinal, quando não tem à disposição a oferta de um transporte rápido, farto e seguro, a população acaba sendo privada também de outros direitos, como cultura, educação, saúde, pois fica praticamente segregada naquele espaço em que os equipamentos públicos são raros ou mesmo inexistem. Na visão da educadora e estudante, é preciso dar mais voz e vez aos moradores da Zona Oeste, sobretudo os jovens, para que possam se apropriar mais do território em que vivem.

Em vez de Cidade Maravilhosa, um maravilhoso cenário para uma cidade

Na interlocução com as falas das convidadas, o deputado estadual do PSOL Marcelo Freixo começou definindo o “Se a cidade fosse nossa”: um movimento, em vias de se consolidar como um programa, que visa a recolher diretamente com a população subsídios para compor um futuro projeto de gestão para a cidade, de forma que as ações implementadas reflitam o que é melhor para a cidade real, de seus moradores, e não para a cidade vitrine, aquela que é vendida para os turistas e os investidores: “O Rio hoje é uma cidade mais de desejo do que de realidade, mais de negócios do que de direitos, onde quem vive não decide por ela. Os espaços de participação estão cerceados, principalmente na Zona Oeste e na Zona Norte”, disse.

Freixo: interlocução com os temas apresentados

Freixo: interlocução com os temas apresentados

O deputado concordou que o pior de todos os problemas é o do transporte, pois a mobilidade é ruim justamente para quem mais depende de se deslocar, que é o trabalhador e morador de localidades mais distantes. O que, segundo ele, resulta em não ter direito à cidade. Afinal, quando se gasta 3 horas e meia do dia para chegar a um lugar (Centro da cidade ou Zona Sul, por exemplo) e mais 3 horas e meia para voltar para casa, é como se te dissessem que não é para você ir àquele lugar, ele não te pertence. “Por isso que eu digo que o Rio não é a Cidade maravilhosa, e sim um maravilhoso cenário para uma cidade”, brincou o deputado, chamando a atenção para o fato de que não se deve aceitar a naturalização de que “ o trânsito é ruim assim mesmo”. Nada disso é natural: é assim porque interessa a algumas forças que seja assim. “É um processo perverso e pedagógico. Só muda isso se mudar a capacidade das pessoas de participarem”, frisou.

Quanto à questão do pouco acesso a bens culturais, Freixo apresentou alguns números que chocaram a plateia: enquanto nas Áreas de Planejamento 1 e 2 (que englobam a região do Centro e da Zona Sul) há 395 equipamentos culturais para cerca de 1,3 milhão de habitantes; as Áreas de Planejamento 3, 4 e 5 somam  cerca de 5 milhões de habitantes e contam com apenas 158 equipamentos culturais. “Podemos dizer que o morador das APs 1 e 2 tem o mesmo direito à cidade do que os outros?”, indagou o deputado.

Outro ponto que ele abordou, em resposta às muitas críticas feitas à empresa poluidora TKCSA, é a lógica de se receber uma empresa assim, dando R$ 500 milhões em incentivos fiscais em troca do fato de que ela geraria mil empregos na região. “Um complexo como a Cadeg, por exemplo, gera 6.800 empregos. Tem alguma coisa errada aí”, disse o deputado, em alusão ao fato de que a primeira causa poluição, degradação ambiental e doenças, enquanto a segunda abre opções de lazer, reforça a cultura regional e a convivência entre pessoas, além de ser igualmente uma atividade comercial lucrativa e que pagará impostos.

Freixo informou que todo o debate estava sendo gravado e que as propostas levantadas seriam incorporadas ao “Se a cidade fosse nossa”, e convidou todos e todas a conhecerem o site do programa/movimento e participarem com mais sugestões. Acesse AQUI a página.

Plateia reforçou pontos apresentados pelas convidadas e trouxe novos assuntos

Em sua participação, alunos e alunas das FIC e o público externo reforçaram os pontos abordados pelas convidadas, como as questões da degradação ambiental, crescimento desordenado e precariedade de transporte e segurança. E trouxeram novos pontos, como a luta de alunos e professores nas escolas ocupadas, a necessidade de expandir a malha ferroviária como opção para o nó da mobilidade urbana, as restrições impostas em certas áreas pela atuação da milícia.

I Encontro Popular de Saúde das Mulheres da Zona Oeste

A FEUC recebeu, na última quinta-feira evento que debateu a condição da mulher na sociedade a partir da saúde e da alimentação

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini

Integrando a programação da III Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária, aconteceu na FEUC, no dia 12 de maio, o I Encontro Popular de Saúde das Mulheres da Zona Oeste. Organizado pelo Comitê Popular de Mulheres da Zona Oeste, o evento foi marcado pela presença exclusivamente feminina, pelo afeto e emoção, principalmente das mulheres da plateia. Em suas falas, as palestrantes deixaram transparecer o engajamento, cada uma na sua área específica, com a melhora efetiva da condição da mulher na sociedade.

Mulheres se apresentaram e se emocionaram ao falar de suas trajetórias enquanto profissionais, mães e militantes. (Foto: Pollyana Lopes)

Mulheres se apresentaram e se emocionaram ao falar de suas trajetórias enquanto profissionais, mães e militantes. (Foto: Pollyana Lopes)

Falar sobre a saúde da mulher em debate e em rodas de conversas pode parecer, à primeira vista, distante do tema central do evento, que é a reforma agrária. Porém, no entendimento das organizadoras e das palestrantes, os alimentos são o principal determinante da saúde. De acordo com elas, a forma como o latifúndio se organiza, fazendo uso intensivo e abusivo de agrotóxicos, expulsando trabalhadores e trabalhadoras do campo e destruindo saberes tradicionais, ameaça tanto a saúde humana quanto a saúde da terra.

“Discutir saúde é o produto final de uma outra estrutura agrária, de uma outra sociedade que seja não baseada no latifúndio, no agronegócio. Reforma agrária e saúde são irmãs”, sintetizou a agricultora e quilombola Sílvia Baptista.

O evento ter lugar na FEUC reforça os laços da instituição com a Zona Oeste e seu compromisso com as pautas da região, como ressaltou a professora Célia Neves: “Para nós da FEUC é fundamental respirar esse ar. É uma enorme alegria receber e partilhar na discussão desses temas que são tão relevantes. Esse também é um compromisso da FEUC”.

 

Mesa ‘Desafios para pensar a Saúde da Mulher: conjuntura e práticas integrativas’

Elaine Pelaez é assistente Social no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), possui pós-graduações na área de Saúde Pública e integra o Fórum de Saúde do Rio de Janeiro. Em sua fala, ela apresentou o Fórum, que surgiu da necessidade “de unificar os lutadores e lutadoras da saúde pública de qualidade”, as demandas deste coletivo, e articulou a ideia de crise do capital, surgida nos anos 70, com a necessidade do sistema capitalista de manter altas taxas de lucro, diminuindo os investimentos em políticas sociais e da saúde.

Elaine enfatizou que a defesa por uma saúde de qualidade faz parte da busca por um outro projeto de de sociedade. (Foto: Pollyana Lopes)

Elaine enfatizou que a defesa por uma saúde de qualidade faz parte da busca por um outro modelo de de sociedade. (Foto: Pollyana Lopes)

“Esse discurso da crise é um discurso ideológico, porque é uma crise que serve para quem? Ela não é para todos, o ônus dessa crise vem sendo pago pelos trabalhadores. E alguns segmentos da população, as mulheres, os negros, a população que mora nas periferias, pagam um preço maior ainda”, explicou Elaine, que justamente por isso enalteceu o fato de o evento ter acontecido em Campo Grande, Zona Oeste do Rio: “O modo de produção capitalista tem uma forma de organização que é desigual, e os impactos desse sistema também são sentidos desigualmente em diferentes regiões do nosso país e das cidades”.

Para finalizar, Elaine mostrou que a defesa pela saúde pública é ampla: “A luta pela saúde não pode ser apenas pela melhoria da política pública da saúde. A luta da saúde é uma luta por mais direitos sociais, e mais do que isso: é uma luta por uma outra organização da sociedade. Por uma sociedade sem desigualdade, que não seja regida pelo capitalismo, que as relações não sejam pautadas pela exploração, pelos lucros. Uma sociedade que não tenha a opressão de uma classe sobre a outra, sobre as mulheres, sobre os negros, e que a gente consiga construir uma forma de vida pautada nas necessidades da classe trabalhadora”, concluiu.

Elaine contribuiu com informação a respeito dos entraves no Sistema Público de Saúde, diferente da fala da agricultora e quilombola Silvia Baptista, que, entre outros temas, instigou o público presente a pensar na relação entre a medicina alternativa, que utiliza plantas medicinais e fitoterapia, e a ciência tradicional, fruto de pesquisas que utilizam tecnologia de ponta. Ela, que integra a Associação de Produtores Orgânicos de Vargem Grande (Agrovargem) e a Rede Carioca de Agricultura Urbana, além do Comitê de Mulheres da Zona Oeste, levou um galho de aroeira, uma planta utilizada como antisséptico e que possui propriedades terapêuticas que tratam diarreia, dores no estômago, inflamações, e é adstringente e bactericida, para demonstrar a necessidade da interlocução entre os saberes tradicionais da medicina alternativa e a medicina tradicional.

Sílvia, que sempre se tratou com “remédios de mato”, ao entrar na menopausa buscou informação e formação nessa interseção para melhor se cuidar. Especialista em Gestão da Inovação em Fitomedicamentos, defendeu que o diálogo deve, obrigatoriamente, retornar para a sociedade e não ser apropriado de maneira mercadológica pelos laboratórios.

“Pesquisas científicas, ainda que elaboradas por laboratórios, são feitas pelos trabalhadores e pelas trabalhadoras. Todas elas, ou são explicitamente feitas com dinheiro público, no Brasil principalmente, ou elas são feitas com saberes construídos historicamente pela sociedade”, explicou ela, que também reforçou que a interlocução entre saberes tradicionais e medicina tradicional também precisa ocorrer no âmbito do direito à informação científica: “Embora no Brasil essa medicina que parte dos saberes tradicionais não esteja empoderada, institucionalizada, ela está aí, pelas ruas, pelos territórios. Por outro lado, essas mesmas comunidades tradicionais não tem acesso a interlocução com a medicina ocidental, com a tecnologia de ponta, fruto de pesquisas feitas com o dinheiro dessas pessoas”.

Formada em Relações Internacionais, Letícia falou sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. (Foto: Pollyana Lopes)

Formada em Relações Internacionais, Letícia falou sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. (Foto: Pollyana Lopes)

Das plantas e ervas para os direitos sexuais e reprodutivos: Letícia Maione, formada em relações internacionais e integrante da Coletiva Feminista Luiza Mahin, iniciou sua fala lendo uma parte do Manifesto por uma Convenção Interamericana de Direitos Sexuais e Reprodutivos. O intuito dela foi chamar atenção para o fato de que “falar de direitos sexuais e reprodutivos é também lembrar da história de resistência das mulheres indígenas e negras que sofreram o estupro colonial, e também as mulheres brancas da época que sofriam com uma rígida moral sexual católica que era imposta”.

Letícia articulou o corpo como um território e reforçou que ele também é um espaço onde as forças externas exercem poder:

“Ao mesmo tempo que tem toda uma história de avanço nessa história de luta das mulheres pelos direitos sexuais e reprodutivos, também as estruturas de poder patriarcais, racistas, capitalistas e hetoronormativas estão sempre se atualizando”, explicou ela, que enfatizou: “As formas de fazer política que usam os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres como moeda de troca são a expressão de um estado que está praticando violência sexual com os corpos das mulheres”.

Aline integra a equipe da Associação de Mulheres Ação e Reação (AMAR), do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (COMDEDINE-RJ) e já atuou como enfermeira no Sistema Único de Saúde por muitos anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Aline integra a equipe da Associação de Mulheres Ação e Reação (AMAR), do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (COMDEDINE-RJ) e já atuou como enfermeira no Sistema Único de Saúde por muitos anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Última a falar, Aline Nunes comoveu o público ao contar que, mesmo enfermeira, atuando na saúde pública há vários anos, reconhece que o conhecimento das mulheres da família foi mais importante para sua formação. Com ampla experiência e conhecimento de causa, Aline trouxe em sua fala explicações de como funciona o Sistema Único de Saúde na rotina, e do quanto a implementação de uma série procedimentos atrapalha o melhor atendimento à população e prejudica a saúde das trabalhadoras e trabalhadores.

Integrante de uma série de coletivos, como a Associação de Mulheres Ação e Reação (AMAR) e do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (COMDEDINE-RJ), ela agora levanta a bandeira da terapia e pede para ser apresentada dessa maneira. Depois de acender um incenso, ela declara: “A gente é feito de protocolos, e esses protocolos fazem parte de processo de esquecimento. Eles ajudam o esquecimento. Mas na verdade não existe protocolo, existe uma escuta, e quando você aprende a fazer isso você olha por todos os ângulos”.

 

Rodas de Conversas

Durante a tarde, o grupo se dividiu entre três rodas de conversas para discutir temáticas envolvendo a saúde da mulher: “parto humanizado e violência obstétrica”, “descriminalização do aborto e direitos sexuais e reprodutivos” e “plantas medicinais, indústria alimentícia e soberania alimentar” — este último, com amostras de plantas e incentivo ao cultivo de alguns alimentos, de modo a garantir o acesso a produtos de qualidade: “Que comida me conecta e traz à mesa a minha cultura? A nossa sociedade é doente e a saúde não se constrói só pelo plano individual. A água está poluída, o ar… Há de se aprender a se reconectar com a agricultura saudável e local”, salientou Sílvia Batista, da Associação de Agricultores Orgânicos de Vargem Grande e membro da Rede Carioca de Agricultura Urbana, além de integrante do Comitê Popular de Mulheres da Zona Oeste.

Sílvia é agricultora e quilombola e falou do quanto a saúde está relacionada com a alimentação. (Foto: Pollyana Lopes)

Sílvia é agricultora e quilombola e falou do quanto a saúde está relacionada com a alimentação. (Foto: Pollyana Lopes)

Sobre empoderamento feminino

Evento organizado pelo DCE-FEUC lotou auditório para debater a condição da mulher na sociedade

Por Pollyana Lopes

O Encontro de Mulheres da Zona Oeste foi o primeiro evento do ano organizado pelo Diretório Central dos Estudantes da FEUC e marcou o Dia Internacional da Mulher com informação, debate, argumentos e diálogo. Em comum, todas as palestrantes se mostraram firmes nas premissas, reflexivas sobre consensos e empoderadas na presença. O encontro começou com a exibição do vídeo institucional produzido pela FEUC que homenageia a diversidade e singularidade das mulheres e de um segundo vídeo, feito pela UNE, de cobertura da passeata ocorrida no dia 8 de março, em São Paulo, em defesa de direitos das mulheres e contra a violência de gênero.

Gabriella, Meire, Thiago e Rosineide na mesa do auditório enquanto Domingas e Ingrid continuavam o debate em uma sala de aula. (Foto: Pollyana Lopes)

Gabriella, Meire, Thiago e Rosineide na mesa do auditório enquanto Domingas e Ingrid continuavam o debate em uma sala de aula. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre os assuntos em pauta, ficou a cargo de Gabriella Dias, estudante do curso de História das FIC, falar sobre o feminismo de modo geral. A estudante explicou que se trata de um movimento social que luta pela igualdade de gênero, mas que dentro do feminismo existem vertentes que divergem na compreensão das causas da desigualdade, porém dialogam em muitos aspectos, pois têm um mesmo objetivo.

Para falar sobre a imagem da mulher negra, Ingrid Nascimento, também estudante de História nas FIC, apresentou exemplos da sexualização abusiva que atrizes e modelos negras passam com frequência. Ingrid apresentou casos de diferentes épocas, desde a Vênus Hotentote, mulher africana levada à Europa para ser exibida como um animal exótico, até a capa censurada do disco do músico Jonas Sá, que trazia apenas a região pélvica de uma negra nua.

Ao final do evento, mesmo com pouco tempo, as palestrantes comentaram e responderam questões levantadas pelo público. (Foto: Pollyana Lopes)

Ao final do evento, mesmo com pouco tempo, as palestrantes comentaram e responderam questões levantadas pelo público. (Foto: Pollyana Lopes)

Em uma das falas mais longas e contextualizadas, Meire Lucy Cunha, graduanda em Letras e bolsista do PIBID-FIC, apresentou o colorismo ou pigmentocracia, tipo de discriminação muito comum em países colonizados, em que as pessoas são mais excluídas e hostilizadas quanto mais escura for sua pele.

“Precisamos entender que em toda nação, todo povo que foi colonizado, as marcas da colonização vão permanecer. Porque a mais eficaz forma de colonização não é apenas territorial, não é apenas econômica. Ela se torna profundamente eficiente a partir do momento em que você convence aquele indivíduo que ele está incluído naquela condição que eu digo que ele está e, a partir daquele momento, ele acredita naquele papel e encarna aquela condição de dominação”, explicou a estudante.

Para falar sobre transfeminismo, Thiago da Silva Rodrigues, que é transexual, apresentou dados sobre a violência que mata travestis e transexuais cotidianamente e abordou a dificuldade de acesso ao mercado de trabalho por essas pessoas e as duas principais leis sobre pessoas trans: uma que tipifica e pune a discriminação, e outra que permite o uso do nome social em instituições de ensino.

“O Brasil é o país, no mundo, que mais mata pessoas trans. Estima-se que a expectativa de vida de uma travesti ou de uma pessoa trans, no Brasil, é de 30 anos de idade. Ao mesmo tempo, de acordo com uma pesquisa de um site pornográfico mundial, os usuários brasileiros são os que mais procuram por vídeos pornôs de mulheres trans. É o objeto sexual verdadeiro, mas não é objeto sexual declarado, é aquele objeto sexual da escuridão da noite, encoberto, que ninguém pode saber”, enfatizou.

Auditório da FEUC não suportou a quantidade de pessoas e o evento precisou ser dividido. (Foto: Pollyana Lopes)

Auditório da FEUC não suportou a quantidade de pessoas e o evento precisou ser dividido. (Foto: Pollyana Lopes)

Quem também contribuiu foi Domingas Mulenza, Diretora de Mulheres da UEE, que provocou os presentes com temas polêmicos como aborto e o projeto de lei do deputado Eduardo Cunha que dificulta, às mulheres, o acesso a políticas de saúde em caso de abuso sexual.

Por último, a professora das FIC Rosineide Cristina apresentou vídeos produzidos pela Casa da Mulher Trabalhadora (Camtra) sobre a violência contra a mulher, e provocou a reflexão dos presentes com questionamentos e exemplos.

A procura pelo evento foi tamanha que o auditório da FEUC não foi suficiente. Os presentes se dividiram entre o espaço e uma sala de aula, onde as mesmas palestrantes repercutiram o debate. Sobre a grande procura, inclusive de estudantes de outras universidades, Marcella Gouveia, diretora de cultura do DCE e uma das organizadoras do evento destaca:

“Mesmo que algumas pessoas tenham vindo apenas por causa das horas de atividades complementares, eles estavam aqui e participaram de um debate que é muito importante. Porque a gente precisa do debate para reafirmar e repensar certos conceitos que muitas vezes são adquiridos sem nenhum senso crítico, conceitos que vêm sendo construídos desde a infância, com brinquedos, em desenhos. O que não é discutido não é repensado, não tem visibilidade e não tem voz”.

Já Zélia Lemos, diretora de mulheres do DCE e também organizadora do encontro, reforçou o compromisso da FEUC com a formação de professores:

“O que eu penso ser principal para a gente trazer esse debate é porque a gente está em uma faculdade que forma professores. Como a Meire disse durante a palestra, a gente tem que estar constantemente desconstruindo e construindo em cima do que a gente fala, fugir de certos paradigmas, principalmente porque somos professores. A gente vai influenciar pessoas e, mesmo sem querer, a gente pode excluir alguém no discurso”, argumentou.

Na plateia também estiveram presentes estudantes de outras instituições de ensino da Zona Oeste. (Foto: Pollyana Lopes)

Na plateia também estiveram presentes estudantes de outras instituições de ensino da Zona Oeste. (Foto: Pollyana Lopes)

O evento, que aconteceu no dia 10 de março, destacou a condição da mulher negra na sociedade. O tema foi lembrado e debatido por quatro das seis mulheres presentes na mesa, que eram negras. A sensação, principalmente para mulheres que assistiam à palestra (como a repórter que escreve este texto) foi inspiradora. Não é comum assistirmos a mulheres tão diferentes afirmarem suas identidades de forma tão veemente e esbanjarem autonomia em discursos inteligentes e articulados. Ao promover o Encontro de Mulheres da Zona Oeste, o DCE-FEUC cumpre um papel essencial para a promoção da igualdade de gênero e mostra, pelo exemplo, as consequências positivas do empoderamento feminino.

‘Psico’ o quê?

 

A pergunta, comumente ouvida por quem trabalha na área, esconde a ciência importantíssima para o processo de ensino-aprendizagem

Por Pollyana Lopes
emfoco@feuc.br

Você sabe o que é a Psicopedagogia? Onde atua o profissional formado nessa área e qual a função social dele? Essencial para uma educação mais inclusiva, que atenda crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem e/ou síndromes genéticas que impedem o acompanhamento natural na educação formal, o psicopedagogo pode atuar tanto no ambiente institucional, em escolas e empresas, quanto em atendimentos particulares, clínicos.

Leila: "Quando chega uma pessoa com dificuldades, nós temos que diagnosticar ". (Foto: Pollyana Lopes)

Leila: “Quando chega uma pessoa com dificuldades, nós temos que diagnosticar “. (Foto: Pollyana Lopes)

É da interseção da Pedagogia com a Psicologia que surge essa área do saber que se dispõe a identificar e tratar a não-aprendizagem. A profissão ainda aguarda regulamentação, mas, em geral, o psicopedagogo tem formação em Pedagogia ou em Psicologia, e agrega ao currículo uma pós-graduação especializada, como as oferecidas pela FEUC.

No curso estão incluídas disciplinas como Pedagogia como Ciência da Formação Humana; Dinâmica de Grupo e Jogos; A Psicopedagogia e a Neurociência; Introdução à Psicopedagogia: a Epistemologia Convergente; Educação Inclusiva; além de estágios e seminários para produção do Trabalho de Conclusão do Curso.

“O psicopedagogo aprende um procedimento de trabalho. Quando chega uma pessoa com dificuldade, nós temos que diagnosticar onde está a dificuldade dela, se é da leitura, se é da escrita, se é algo orgânico, se é uma questão emocional, se é uma questão familiar, se é algo mental, psicológico, ou se tem algum comprometimento no cérebro. E aí então se desenvolve alguma estratégia para mudar esse quadro”, explica a professora Leila Queiroz Evaristo da Silva, que leciona nos cursos de Psicopedagogia Clínica e Psicopedagogia Institucional da FEUC.

A atuação do profissional só não tem mais notoriedade e reconhecimento devido à ausência de regulamentação. É o que busca a Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp) e os sindicatos recém-criados. Por outro lado, a perspectiva é ampla, pois a necessidade de normatizar a atividade é pungente e, com isso, virão os concursos públicos, como os que já aconteceram em várias cidades, que incluem São Paulo e Nova Iguaçu.

A Psicopedagogia em debate

Com o intuito de reforçar a importância do profissional da área e capacitá-lo ainda mais com debates atuais ligados ao tema, a FEUC promoveu, no dia 14 de novembro, o I Encontro Psicopedagógico, pioneiro na Zona Oeste. O evento trouxe profissionais da região e atraiu estudantes de outras instituições, debateu métodos, apresentou casos de sucesso e aproveitou para celebrar o Dia do Psicopedagogo, oficialmente comemorado em 12 de novembro.

“Esse encontro foi organizado pensando na nossa região, a Zona Oeste, Campo Grande, Santa Cruz, Mangaratiba, Seropédica, Itaguaí. Porque o psicopedagogo de Copacabana, Botafogo, da Zona Sul em geral, já tem um nome, é reconhecido, é procurado. Nossa região também tem esses profissionais, mas eles estão quietinhos, escondidos, enquanto fazem um trabalho belíssimo. Nós queremos que vocês conheçam esses trabalhos, para a gente partilhar e crescer”, explicou a professora Leila, que foi uma das organizadoras do evento.

Dentre as atividades, é possível destacar a participação das alunas do curso de Psicopedagogia Clínica, Isabela Carvalho Costa, Patrícia Bárbara Dias Duarte e Simone Otaviano, que estiveram presentes no X Congresso Brasileiro de Psicopedagogia, realizado em São Paulo, e trouxeram para o evento da FEUC os principais temas lá apresentados. Você pode ler mais sobre isso na cobertura feita pela FEUC em Foco, no link http://www.feuc.br/revista/?s=psicopedagogia.

Isabela contou como foi uma das palestras do X Congresso Brasileiro de Psicopedagogia. (Foto: Pollyana Lopes)

Isabela contou como foi uma das palestras do X Congresso Brasileiro de Psicopedagogia. (Foto: Pollyana Lopes)

A Psicopedagogia em debate

Primeiro Encontro sobre o tema trouxe profissionais da região e atraiu estudantes de outras instituições

Por Pollyana Lopes

A FEUC reforçou, no último sábado, a responsabilidade que mantém com o desenvolvimento da Zona Oeste. A instituição sediou o I Encontro Psicopedagógico, que contou com a participação de profissionais e estudantes de toda a região, debateu métodos e apresentou casos de sucesso. E aproveitou  para celebrar, durante o evento,  o Dia do Psicopedagogo, oficialmente comemorado em  12  de novembro.

As alunas que organizaram o evento junto da professora Leila, homenagearam-la ao final do evento. (Foto: Pollyana Lopes)

As alunas que organizaram o evento junto da professora Leila, homenagearam-la ao final do evento. (Foto: Pollyana Lopes)

“Esse encontro foi organizado pensando na nossa região, a Zona Oeste, Campo Grande, Santa Cruz, Mangaratiba, Seropédica, Itaguaí. Porque o psicopedagogo de Copacabana, Botafogo, da Zona Sul em geral, já tem um nome, é reconhecido, é procurado. Nossa região também tem esses profissionais, mas eles estão quietinhos, escondidos, enquanto fazem um trabalho belíssimo. Nós queremos que vocês conheçam esses trabalhos, para a gente partilhar e crescer”, explicou a professora do curso de Psicopedagogia Clínica e Psicopedagogia Institucional da FEUC e uma das organizadoras do evento, Leila Queiroz Evaristo da Silva.

É da interseção da Pedagogia com a Psicologia que vem a área do saber que se dispõe a identificar e tratar determinadas dificuldades de aprendizagem: a psicopedagogia. A profissão ainda aguarda regulamentação, mas, em geral, o psicopedagogo tem formação em Pedagogia ou em Psicologia, e agrega ao currículo uma pós-graduação especializada, como as oferecidas pela FEUC.

 

Homenagem e casos de sucesso

Depois da bela homenagem preparada pela Orquestra da FEUC, que tocou músicas como “Eu sei que vou te amar” e “Caravan”, as palestras começaram com a apresentação de Elza de Souza Nunes, idealizadora da unidade infantil do Instituto Vida Plena, em Seropédica. Elza, que é pedagoga e psicopedagoga formada pela FEUC, contou como surgiu a necessidade de criar o projeto e como foi a viabilização do mesmo. “Esse projeto surgiu da realidade que me cercava. Desde o período de estágio eu vinha com uma preocupação muito grande especificamente com as crianças da rede pública, que vivem em situação de risco social, como aquelas que não encontram condições familiares e financeiras de ir em buscar de um diagnóstico”, contou ela, que também explicou que a criação de uma unidade voltada para crianças foi possível a partir da parceria com Reni de Souza Silva Teixeira, presidente e fundadora do Instituto Vida Plena de recuperação para mulheres dependentes químicas.

Elza convidou Elanie, mãe de Marcus, portador da Síndrome de Asperger, a falar sobre como identificou a necessidade e encontrou ajuda no projeto Vida Plena. (Foto: Pollyana Lopes)

Elza convidou Elanie, mãe de Marcus, portador da Síndrome de Asperger, a falar sobre como identificou a necessidade e encontrou ajuda no projeto Vida Plena. (Foto: Pollyana Lopes)

Quem também contribuiu com debate foi Marta Maria Silva, pedagoga e psicopedagoga formada pela FEUC. A partir da experiência pessoal ela contou como a psicopedagogia modificou sua própria vida, deu dicas de como atuar e também destacou a importância de trabalhar com parcerias. Marta levou para contribuir com sua fala a gestora da escola parceira do seu consultório em Seropédica. Célia Glória, do Centro Educacional União Seropédica, apresentou brevemente o plano de ação da escola e destacou a necessidade de as escolas terem uma visão psicopedagógica. “Se a escola não atuar para verificar o problema, o psicopedagogo não consegue essa entrada para trabalhar. O aluno vai tendo problemas de repetência e outras dificuldades e ninguém reconhece efetivamente”, explicou.

 

Alunas apresentam temas de congresso nacional

O X Congresso Brasileiro de Psicopedagogia aconteceu em outubro, em São Paulo, e teve como tema “Releituras de Conceitos e Práticas Psicopedagógicas – Aprender em diferentes contextos”. Mesmo sendo do interesse de estudiosos e profissionais da área, não são todos que puderam comparecer ao maior evento nacional sobre o tema. No entanto, as alunas de Psicopedagogia Clínica Isabela Carvalho Costa, Patrícia Bárbara Dias Duarte e Simone Otaviano estiveram lá e trouxeram para o evento da FEUC os principais temas apresentados.

Patrícia Bárbara Dias, professora de Sociologia no Colégio Estadual Albert Sabin apresentou o debate sobre “Psicopedagogia e Neuroaprendizagem: avaliação e intervenção”, feito pela Pedagoga e especialista em Educação Especial, Psicopedagogia e Neuroaprendizagem Irene Maluf.

Público majoritariamente feminino lotou o auditório da FEUC. (Foto: Pollyana Lopes)

Público majoritariamente feminino lotou o auditório da FEUC. (Foto: Pollyana Lopes)

“Estudos mostram que, ao longo do crescimento da criança e do jovem, o desenvolvimento neurológico não ocorre de modo linear nas diferentes áreas do cérebro. Ou seja, em determinadas fases, o sucesso do aprendizado depende da adequação de estratégias de ensino às características daquela etapa específica”, apresentou Patrícia, que também levou um aluno seu, cego, para falar sobre a dificuldade de aprender e a necessidade de acessibilidade nos métodos.

Já Simone Otaviano trouxe para a FEUC o tema debatido pela psicóloga, especialista em psicoterapia infantil, psicopedagogia, sociopsicomotricidade Ramain Thiers, e a mestre em Educação Janete Cárrer, na palestra “Diversificando o campo de atuação em Psicopedagogia. Atuação psicopedagógica e envelhecimento ativo: possibilidades e realizações”.

Isabela contou como foi uma das palestras do X Congresso Brasileiro de Psicopedagogia. (Foto: Pollyana Lopes)

Isabela contou como foi uma das palestras do X Congresso Brasileiro de Psicopedagogia. (Foto: Pollyana Lopes)

“O envelhecimento está ligado às questões biológicas e subjetivas porque é algo natural. Nós perdemos a nossa tonicidade muscular, vamos perdendo a visão, audição, o raciocínio fica mais lento. As funções biológicas influenciam a qualidade de vida do idoso, e a psicopedagogia vem para reabilitar algumas dessas funções cognitivas”, contou.

“Desenvolvimento humano: como a tecnologia e outros produtos impactam o cérebro” foi o tema apresentado por Elvira de Souza Lima no X Congresso Brasileiro de Psicopedagogia e multiplicado por Isabela Carvalho Costa no I Encontro Psicopedagógico.

 

TDAH e encerramento

A professora das FIC, Cláudia Miranda, também participou do evento e falou sobre TDAH, um dos transtornos mais comuns. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora das FIC, Cláudia Miranda, falou sobre TDAH. (Foto: Pollyana Lopes)

Para finalizar o evento, a professora das FIC Cláudia Miranda – que é pedagoga, mestre em educação com especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional e em Psicomotricidade  - falou sobre um dos transtornos mais comuns que dificultam o processo de ensino-aprendizagem, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Cláudia explicou que esse é um dos principais problemas comportamentais crônicos da infância e que constitui cerca de 40% de todos os encaminhamentos para clínicas de orientação infantil.

No início do evento, a professora Leila destacou a participação de estudantes de outras instituições na platéia e explicou que um dos principais objetivos do evento é a formação continuada do profissional da região. “Aqui em Campo Grande nós não temos esses cursos de preparação, de atualização, de formação continuada para o psicopedagogo”, explicou. Com o fim do evento, Leila fez um balanço do encontro e concluiu: “acho que o objetivo foi alcançado e agora as pessoas também conhecem o trabalho da FEUC”.

Orquestra da FEUC homenageou pedagogos e psicopedagogos pelo dia que celebra a profissão. (Foto: Pollyana Lopes)

Orquestra da FEUC homenageou pedagogos e psicopedagogos pelo dia que celebra a profissão. (Foto: Pollyana Lopes)

Carla Silva também esteve presente no evento para apresentar uma forma diferente de alfabetização, o Método das Boquinhas. (Foto: Pollyana Lopes)

Carla Silva também esteve presente no evento para apresentar uma forma diferente de alfabetização, o Método das Boquinhas. (Foto: Pollyana Lopes)

(Foto: Pollyana Lopes)

(Foto: Pollyana Lopes)

 

(Foto: Pollyana Lopes)

(Foto: Pollyana Lopes)

(Foto: Pollyana Lopes)

(Foto: Pollyana Lopes)

 

(Foto: Pollyana Lopes)

(Foto: Pollyana Lopes)

(Foto: Pollyana Lopes)

(Foto: Pollyana Lopes)

 

Mulheres de Pedra

 

Coletivo feminino de artistas e artesãs de Pedra de Guaratiba produz encantamento e beleza com o que o mundo joga fora

PorTania Neves
emfoco@feuc.br

A velha casa da Rua Saião Lobato respira arte e cultura. Há mais de 30 anos é ponto de encontro de artistas locais da Pedra de Guaratiba e de “forasteiros” – gente que, cada vez mais, vem de longe para participar do Sarau Poético, uma das várias atividades que marcam a atuação do coletivo Mulheres de Pedra. Formado há cerca de 15 anos, na esteira da efervescência cultural do endereço onde inicialmente morava a pedagoga Leila de Souza Netto e o artista plástico Sérgio Vidal da Rocha, hoje o coletivo conta com 12 a 15 integrantes mais assíduas e pelo menos duas dezenas de mulheres que vão e voltam. A família acabou se mudando para outro lugar, e o coletivo fincou bandeira na simpática casinha de pescador, onde nos dias de reunião e trabalho as artistas e artesãs se espalham em mesas e cadeiras pelos diversos cômodos e até mesmo no terreiro, sob a sombra do arvoredo.

Junto ao painel “Água”, Leila posa com a filha Lívia e Juliana, a mais nova do grupo. (Foto: Tania Neves)

Junto ao painel “Água”, Leila posa com a filha Lívia e Juliana, a mais nova do grupo. (Foto: Tania Neves)

Leila de Souza Netto conta que o trabalho colaborativo começou com uma visita ao ateliê de Dora Romana, onde a artista plástica convidou as mulheres a expressarem sua arte em quadrados de pano, que depois seriam unidos e transformados numa grande colcha. Assim surgiram as colchas de retalhos – ou painéis temáticos, pois se pautam sempre por um assunto – que são a marca registrada das Mulheres de Pedra. “Foi uma descoberta para além do fazer arte, o que muitas de nós já fazia. Foi sobre o que fazer com a arte, porque não é só o trabalho artístico, tem principalmente o sentido da colaboração, de saber trabalhar com os outros, de se despir dos egos”, define.

Formada em Pedagogia pela FEUC em 1997, Leila trabalhou por mais de uma década administrando um curso particular para jovens e adultos em Campo Grande. Hoje, aos 60 anos, define-se como educadora popular. Além de artista e ativista social, claro. E tempera todas essas atividades – educação, arte, ativismo – com solidariedade e sustentabilidade: “A gente defende a economia solidária, o comércio justo. E faz esse trabalho não só porque precisa vender, ter renda, mas para mostrar que é possível reaproveitar coisas, reciclar, deixar menos pegadas no meio ambiente”.

Quando pedi para ver alguma coisa produzida por ela, Leila apareceu com aventais feitos de tecido reaproveitado de sombrinhas, aquelas que entortam em dias de chuva de vento e os donos jogam fora nas ruas. De tão lindos, não resisti e comprei um, rosinha florido, que ainda não tive coragem de sujar na cozinha… “Tirar do ambiente algo que estava lá poluindo e dar um uso, esse é o compromisso”, diz a artista. No coletivo há diversas mulheres que trabalham com peças recicladas e também com material novo, como é o caso de Andréa, conhecida pelas roupas e bijuterias de temática afro, em que mistura o velho e o novo. Juliana, a mais nova integrante, está se iniciando no artesanato com a produção de delicados ímãs de geladeira: bonequinhos feitos com lacre de latinhas de alumínio e massa de biscuit.

As colchas, ou painéis temáticos, reúnem a criação de várias mulheres sobre um tema. (Foto: Facebook/Mulheres de Pedra)

As colchas, ou painéis temáticos, reúnem a criação de várias mulheres sobre um tema. (Foto: Facebook/Mulheres de Pedra)

Fazer intercâmbios com outros coletivos do Brasil e do mundo tem sido importante para as Mulheres de Pedra, que com isso ganharam visibilidade nacional e internacional. Por exemplo, já mostraram seu trabalho no Fórum Social Mundial (em Belém, 2009) e por quatro vezes participaram da Semana da Solidariedade Internacional (em Paris), entre outras parcerias. Quem dá detalhes é Lívia, uma das filhas de Leila: “Já fizemos intercâmbios com coletivos do Rio Grande do Sul, Bahia e outros estados. E agora estamos conversando com o Mijiba, de mulheres negras da periferia de São Paulo, para trazê-lo aqui”.

E como fazer experimentações em novas áreas é com elas mesmas, as Mulheres de Pedra se inscreveram este ano no Festival 72 Horas Rio, em que os concorrentes recebem uma frase em torno da qual devem produzir um filme de 6 minutos em apenas 72 horas – contando desde a concepção, filmagem, edição, sonorização… tudo! Pois elas juntaram suas forças e talentos, atraíram outras parceiras mulheres e deram conta do recado tão bem que faturaram os prêmios de melhor filme, melhor som e melhor ficção com o belíssimo “Elekô”, que pode ser assistido no YouTube. A frase condutora do enredo? “Tudo faz sentido agora”.

O que não faz mais sentido é apenas continuar contando tantas coisas sobre essas guerreiras: está na hora de você ir lá conhecer pessoalmente. O Sarau Poético acontece no segundo sábado de cada mês, de 18h às 23h, sempre com apresentação de algum convidado especial, embora participações improvisadas de visitantes sejam bem recebidas. No último final de semana de setembro terá a Festa da Primavera, com a Rua Saião Lobato fechada para a montagem de mais de 40 barracas onde não somente as mulheres do coletivo, mas também outros artistas da região, vão expor e vender suas peças. Paralelamente será realizada a 1ª Mostra de Arte de Rua, com apresentação de artistas da Zona Oeste. E diversos outros eventos costumam ser marcados ao longo do ano, como o Vidas (Vivências, Interações e Visibilidades de Afro-Brasileiras), exposições, rodas de jongo e outros mais, sempre anunciados na página www.facebook.com/MulheresDePedra. Esse é pra curtir!

De gari a escritor, uma trajetória feliz

 

Campo-grandense por opção, Odir Ramos da Costa é autor de várias peças de teatro, dirigiu o Arthur Azevedo e teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Sabe aquelas pessoas sobre quem a gente diria “a vida de fulano rende um romance”? O campo-grandense por opção Odir Ramos da Costa é uma dessas pessoas. E o melhor de tudo: talentoso escritor, ele mesmo tascou no livro “Buquê para Faceira”, lançado há alguns meses, pinceladas do muito que viu e viveu ao longo de seus 79 anos, embora não se trate explicitamente de uma história autobiográfica. “O narrador fala na primeira pessoa, mas não se identifica. É um garoto que descobre o mundo num ambiente pesado que era a limpeza urbana na época ainda da tração animal”, revela Odir.

Esse garoto, fosse o autor, teria nascido em Rio Bonito e chegado em Campo Grande aos seis meses de idade, junto com a mãe, que se separara do pai. Odir foi criado pela mãe e o padrasto, que se tornou seu melhor amigo e exemplo de vida. E pelas mãos de quem foi parar na limpeza urbana (hoje Comlurb), aos 18 anos, depois de “sobrar” na seleção para o Exército e não ter como voltar para o trabalho que fazia desde os 14 numa agência de publicidade, de onde saíra para cumprir o dever cívico.  “Sem emprego, me restou ir trabalhar com meu padrasto, que então varria ruas no Méier. Encarei por um ano e pouco essa função, depois passei para a parte administrativa, em Bangu, onde fiquei por mais uma década”, conta.

Odir Ramos da Costa teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região. (Foto: Tania Neves)

Odir Ramos da Costa teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região. (Foto: Tania Neves)

O padrasto de Odir, Atílio, fora por muitos anos um bem-sucedido gerente de um barracão de laranjas em Campo Grande, quando esta era praticamente a única atividade econômica da região. Com esse trabalho, deu uma vida confortável à família. Mas a Segunda Guerra Mundial e a fumagina, que dizimou os laranjais, quebraram a atividade, e Atílio mudou-se com a família para a Ilha do Governador, onde se tornou padeiro. Foi assim que Odir se iniciou na vida do trabalho, aos 7 anos, ajudando o padrasto nas entregas: enquanto o homem conduzia a carroça, o menino deixava o pão e o leite nas portas, numa jornada que ia das 5h às 6h40m da manhã, e dali ele emendava na escola.

“Tempos depois voltamos para Campo Grande, e eu continuei meus estudos no Almirante Saldanha. Aos 14 anos comecei a trabalhar no Centro, numa agência de publicidade dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Eu vi nascer a TV no Brasil”, relembra. A primeira função de Odir era praticamente de boy: ele levava os clichês com os anúncios publicitários para os jornais e depois levava as publicações para os anunciantes verem. Transferido para o setor de anúncios fúnebres, passou ele mesmo a redigir as notas, depois que descobriram que sabia datilografar. “Eu adorava a palavra féretro. E fazia com a maior dedicação os comunicados fúnebres, que seriam lidos na Rádio JB. Pensava assim: ‘graças a mim esse cara não cairá no esquecimento’. Considerava importante”.

Voltando à limpeza pública, foi ainda paralelamente ao trabalho como gari que Odir começou a colaborar em jornais da região — Tribuna Rural foi um deles — e a escrever suas peças de teatro, ramo em que conquistou reconhecimento público e acumulou prêmios, entre eles o 2º lugar no concurso do Serviço Nacional de Teatro, em 1975, com “Sonhos de uma noite de velório”. Ele então já era repórter do Jornal de Campo Grande, onde trabalhou por 17 anos.

Seu livro está à venda em www.livrariacultura.com.br. (Imagem: Divulgação)

Seu livro está à venda em www.livrariacultura.com.br. (Imagem: Divulgação)

No vasto currículo de Odir, além de 7 peças escritas e uma em andamento, consta ainda a direção do Teatro Arthur Azevedo, nos anos 80, e uma passagem como editor pelo Jornal de Hoje, de Nova Iguaçu, nos anos 90. Uma vida dedicada ao jornalismo e ao teatro, e sempre envolvido com as questões culturais e sociais da Zona Oeste. Casado com Ana Maria, tem quatro filhos (dois do primeiro casamento), dois netos e um bisneto. Hoje aposentado, dedica-se somente à literatura e à dramaturgia. Seu mais recente livro, “Buquê para Faceira”, foi lançado pela portuguesa Chiado Editora, e pode ser comprado no site da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br). “Se passar de mil exemplares vendidos, será revertido para o espanhol e o inglês, e ganhará o resto do mundo”, avisa, orgulhoso.