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Arte, emoções e talentos marcam a 26ª Semana de Letras da FEUC

 

Evento tradicional do curso revelou muita criatividade do público interno e externo; livro de poesias foi lançado

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

Uma bela edição da Semana de Letras aconteceu entre os dias 31 de maio e 2 de junho, na FEUC, e cumpriu com o propósito de trazer estudantes e visitantes da comunidade para compartilhar conhecimento, arte e emoções. Além das tradicionais palestras e oficinas, o número 26 do evento contou, este ano, com apresentações teatrais, declamações de poesia e dança típica, regados de muita criatividade e sensibilidade de quem foi a público expor seus trabalhos.

A começar por uma das apresentações de trabalhos que mais chamou a atenção dos estudantes. A aluna Marina Monteiro, do curso de Letras da UFRRJ, veio compartilhar com os alunos da FEUC suas análises sobre o funk carioca, que tem se mostrado um exemplo de resistência feminina no cenário artístico-musical.

Marina exibiu algumas letras de cantores homens que, segundo ela, sexualizam e objetificam mulheres, como em “Vem todo mundo“, de MC Catra. Em seguida, apresentou letras de funkeiras que retratam, também a partir de conotações sexuais, a resistência feminina ao machismo, como a música “A P**** da B***** é minha“, da Gaiola das Popozudas.

Estudante da UFRRJ apresenta análise sobre machismo no funk. (Foto: Gian Cornachini)

Estudante da UFRRJ apresenta análise sobre machismo no funk. (Foto: Gian Cornachini)

“O homem trata de uma forma baixa o corpo da mulher, como um objeto. Ele só quer sexo. E a mulher também vem com o mesmo discurso, mas para retratar a forma de liberdade que ela trata com seu corpo”, ressaltou Marina.

No quesito emoção, tanto a educação quanto a arte foram expressadas com angústia, dúvidas e esperança no evento. A professora de Língua Brasileiras de Sinais (Libras) Ana Carla Ziner Nogueira, da UFRRJ, tem uma irmã surda e vivencia a experiência de entender, de perto, os desafios enfrentados pela comunidade surda no Brasil. Na Semana de Letras, ela deu uma palestra sobre a importância da educação de surdos com o objetivo de chamar a atenção dos alunos para um grupo ainda tão excluído das possibilidades de crescimento profissional, intelectual e social.

Professora Ana Carla Ziner, da UFRRJ, chama a atenção para o ensino de surdos. (Foto: Gian Cornachini)

Professora Ana Carla Ziner, da UFRRJ, chama a atenção para o ensino de surdos. (Foto: Gian Cornachini)

“Cerca de 85% a 90% dos surdos nascem em famílias de ouvintes. Eles não aprendem, desde cedo, uma língua primária. Na escola, são expostos à Língua Portuguesa e ensinados fonemas”, apontou Ana Carla. “Língua de Sinais é encarada como recurso pedagógico e não linguístico. E isso é lamentável, porque língua não é um recurso, mas uma necessidade humana”.

E a humanidade, controversa e repleta de dúvidas, foi tema do poema “Ser humano?”, escrito pelo estudante Lucas Hermsdorff, do 3º ano do técnico em Administração do CAEL. O jovem aproveitou um sarau da Semana de Letras para levantar questionamentos por meio da arte das palavras: “Um ser que se denomina racional, mas possui atitudes irracionais, pode se considerar pensante?”, lançou Lucas, interpretando o poema que mantinha bem decorado.

O que é ser humano? Poema de Lucas Hermsdorff, estudante do 3º de Administração do CAEL, levantou questionamentos em sarau. (Foto: Gian Cornachini)

O que é ser humano? Poema de Lucas Hermsdorff, estudante do 3º de Administração do CAEL, levantou questionamentos em sarau. (Foto: Gian Cornachini)

O poema do jovem divide páginas com outros textos no livro “Vozes em Construção”, organizado, escrito e confeccionado por alunos de Literatura Brasileira e Poesia do turno da noite (2017.1) e que conta, também, com textos de convidados, como o de Lucas. Em meio ao sarau, a obra — idealizada e coordenada pelo professor Erivelto Reis — foi lançada sob declamações dos textos que integram a antologia poética.

“Era um sonho muito grande que esse livro acontecesse”, revelou o professor Erivelto. “Foi um grupo que uniu ideais em torno da literatura, ao redor da poesia, com vivências tão diferentes, gente que teve coragem de tirar um poema do fundo da gaveta e colaborar”, destacou ele, emocionado.

Professor Erivelto idealizou livro "Vozes em Construção", lançado na Semana. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Erivelto idealizou livro “Vozes em Construção”, lançado na Semana. (Foto: Gian Cornachini)

O livro “Vozes em Construção” esta disponível, gratuitamente, para download. Clique aqui para baixar o e-book.

Inspirando esperança e alegria por uma formação que valoriza as raízes históricas da população, alunos da disciplina de Literaturas Africanas, orientados pela professora Norma Maria, fizeram um jogral a partir do poema “Grito Negro”, do autor moçambicano José Craveirinha e, em seguida, cantaram e dançaram a música zulu “Siyahamba”, todos caracterizados com vestimenta de influência africana.

A aluna Ingra de Assis, do 3º período, explicou a mensagem que Craveirinha quis passar em seu poema: “Ele queria transmitir a angústia e o sofrimento da escravidão na época; a vontade de encerrar algo que ele não queria mais”, disse Ingra.

A estudante Ingra explicou poema moçambicano que inspirou jogral no evento. (Foto: Gian Cornachini)

A estudante Ingra explicou poema moçambicano que inspirou jogral no evento. (Foto: Gian Cornachini)

A professora Norma, visivelmente empolgada com a apresentação, fez questão de elogiar os estudantes: “Vocês me surpreenderam e mostraram quanta capacidade, criatividade e amor pela arte vocês têm. É isso que queremos fazer, mostrar aos alunos a diversidade, mistura do indígena, do português e do africano, porque somos um único povo e não podem existir diferenças e discriminação”, ponderou Norma, pedindo um bis com apoio do público: “Queremos ver de novo, porque é só uma vez ao ano!”. Sob o som de um belo batuque, tudo virou alegria de novo.

Com direito a bis, dança, canto e batuque africano alegraram o público. (Foto: Gian Cornachini)

Com direito a bis, dança, canto e batuque africano alegraram o público. (Foto: Gian Cornachini)

Letras: Semana Acadêmica do curso completa 25 anos com dezenas de atividades

 

Durante quatro dias de evento o público pôde enriquecer seus conhecimentos com palestras, mesas-redondas, oficinas e diversas outras programações

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Há quem diga que parece ter sido ontem que o curso de Letras das FIC promoveu, pela primeira vez, sua Semana Acadêmica. Mas o fato é que o evento já está na 25ª edição, garantindo o sucesso de sempre, seja por meio de suas ricas palestras ou por relatos e experiências de estudantes e professores com um único objetivo: fortalecer o saber teórico, técnico e humano do universo das Letras. E, neste ano, para comemorar seu Jubileu de Prata, a temática central foi “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo” — fio condutor de quase meia centena de atividades, entre comunicações científicas, palestras, mesas-redondas, oficinas, exposições e muito mais. Um resumo da Semana Acadêmica — que aconteceu de 31 de maio a 3 de junho, nos períodos da manhã e da noite — você confere a seguir.

Reencontro com a FEUC: ex-alunos relembram trajetória acadêmica

Para introduzir os graduandos no clima dos 25 anos da Semana, uma mesa-redonda foi organizada com a presença de ex-alunos de destaque. Ao público, eles contaram um pouco sobre como foi seu percurso acadêmico e as experiências pós FEUC.

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

O ex-agente da Polícia Militar Rodrigo Torres está apaixonado por dar aula e valoriza a mudança de carreira: “Graças a Deus eu saí da PM. Hoje eu faço o que gosto, e isso não tem preço. Não desistam e não parem de estudar. Tem que chegar em casa, sentar e pesquisar, preparar a sua aula, porque o aluno não vai engolir tudo o que você disse”.

Ramayana Del Secchi Linhares se formou recentemente e já atua como professora no Município, tendo dicas a oferecer: “Na maioria das vezes o aluno não acredita que é capaz porque os pais também não acreditam. Cabe a vocês, que tiveram uma boa formação, mostrar que esse aluno é capaz, porque se a educação não for para fazer diferença, então ela não valerá a pena”, ressaltou. Armando de Carvalho, que trabalha com educação para presidiários, concorda com Ramayana e procura, assim como a professora, transformar a vida dos detentos por meio da educação: “É muito importante atuar como incentivador, estimulador daquela criatura à sua frente que está ansiosa para ouvir o que você tem a dizer. O segredo todo é inspirar”, afirmou.

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Embora não pretenda ser professora, a atriz Gui Soarrê, também formada recentemente em Letras nas FIC, valoriza a profissão dos colegas: “Lecionar não é a minha grande paixão, mas eu acho uma profissão heroica. Vou usar a poesia e o teatro para também tocar as pessoas, usar o poder humanizador da arte para tocar essa essência humana”, disse Gui.

A coordenadora do curso, Arlene da Fonseca Figueira, fez uma análise das falas, destacando o respeito de todos pela figura do educador: “Nem todos são professores, mas todos são ex-alunos bem sucedidos, cada um com suas escolhas. E a voz que me encantou aqui é o respeito ao professor. Nossa sociedade e os políticos não têm esse mesmo respeito, mas só conseguiremos ir à frente quando respeitarem o professor e valorizarem a educação”.

CD “No caminho das Letras” é lançado no evento

Os professores Erivelto da Silva Reis e Arlene da Fonseca Figueira, à frente do subprojeto “Produção de Acervo de Áudio” (Letras/Português) do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) nas FIC, aproveitaram a Semana Acadêmica para apresentar aos estudantes o CD “No Caminho das Letras”. A produção, destinada a deficientes visuais, reúne diversas gravações de clássicos da literatura em domínio público, além da obra do poeta Primitivo Paes, lidas por estudantes do Ensino Fundamental II da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guaratiba. Erivelto revelou a satisfação de ter concluído o trabalho: “Esse CD é um motivo de orgulho para nós. Despertamos a leitura e compreensão do que os alunos liam e discutiam. Eles se tornaram sujeitos de sua própria leitura e entendiam que a pessoa cega que ouvirá os áudios dependerá da emoção, boa leitura e interpretação do texto”.

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Joyce da Silva dos Santos, uma das alunas bolsistas do subprojeto e que apresentou um resumo do trabalho aos licenciandos, contou o que aprendeu com a atividade do Pibid: “Eu não posso simplesmente chegar na escola e apresentar Machado de Assis sem contextualizar e mostrar o que posso tirar dali. A gente tem que puxar um ganchinho com as nossas experiências para perceber os efeitos da literatura em nossa vida e ver o que ela tem em comum com a gente”, destacou ela.

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Homenagem póstuma à ex-coordenadora do curso

A 25ª Semana de Letras também dedicou uma atividade a relembrar uma figura bastante importante para o curso das FIC: a professora Miriam da Silva Pires, falecida em fevereiro de 2013, quando era professora do curso de Letras da UFRRJ. Antes de passar no concurso para aquela instituição (em 2010), Miriam foi, durante anos, coordenadora de Letras das FIC. Ela esteve na organização de diversas edições da Semana Acadêmica, colaborando com a consolidação de um dos eventos mais importantes da FEUC.

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Os professores Erivelto Reis — que teve a oportunidade de ser aluno de Miriam — e Flávio Pimentel — que teve a honra de compartilhar mesas-redondas com a professora — contaram os momentos mais marcantes que tiveram com ela e destacaram sua importância para o curso de Letras das FIC: “Você ficava impressionado de onde vinha tanto conhecimento e as relações que ela estabelecia entre as diferentes áreas do saber. Celebrar a memória dela é celebrar o legado de uma pessoa que lutou a vida toda para que a educação transformasse a vida das pessoas”, ressaltou Erivelto. “Em nossas conversas entre filosofia e literatura havia uma proximidade muito grande [dos saberes], até o ponto de que eu nunca mais deixei de apresentar alguma coisa na Semana de Letras”, lembrou Flávio.

Antes de partir para os EUA, uma colaboração com a Semana

André Nascimento se formou em Letras (Português/Inglês) nas FIC em 2014, emendou na pós-graduação em Língua Inglesa, também na FEUC e, agora, ruma aos Estados Unidos para cursar, com bolsa integral, o mestrado em Português e Literaturas pela The University of New México (leia a reportagem “Da FEUC para o mundo” sobre a conquista do mestrando). Durante os próximos anos, André vai pesquisar a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas, mas, antes de partir para terra dos ianques, ele deu uma “palinha” dos seus estudos como convidado a palestrar na Semana de Letras. “O Carandiru e o medo: a masculinidade e a violência social em voga (des)cortinados pela narrativa fílmica” foi o tema de sua apresentação, que buscou esclarecer a relações machistas e de masculinidade no filme brasileiro Carandiru (2003).

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo André, a lógica de estupro dentro do presídio passa por um conceito de “herói” de uma “mitologia invertida”, além da constante necessidade de se autoafirmar como forte e macho: “Para que um detento tenha status de homem, ele precisa diminuir o outro. No banho, eles nunca ficam de bunda para o outro, ou seja, uma questão de autoafirmação”, ponderou André. “Um prisioneiro precisava fazer uma cirurgia, mas o médico disse que seria muito arriscado. E, ainda assim, o homem afirmou ter duas balas no corpo e que, portanto, aguentaria. Mesmo em meio à dor, afirmar-se como homem era altamente relevante”.

Para o estudante, esses fenômenos acontecem porque o homem latino-americano segue um padrão do que é ser homem, por diversas vezes carregado de valores sexuais: “É preciso ter uma habilidade sexual como maratonista para se aprovar e nunca pode dizer não ao sexo com uma mulher, porque aí a sua masculinidade seria confrontada”, explicou.

O Ciclo do Café e a produção literária

Em um intercâmbio entre História e Literatura, os professores Erivelto Reis, de Letras, e Márcia Vasconcellos, do curso de História, articularam contexto histórico e a produção artística e literária durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba.

Márcia falou das condições específicas que tornaram essa região privilegiada para a produção de café, na época, e forjaram os grandes barões do período. Além de mostrar o desejo deles em integrar a nobreza:

“Ao contrário de outras áreas, onde os cafeicultores investem em grandes inventários e casas opulentas para demonstrar riqueza e poder, em Vassouras não vai ficar só nisso, e como consequência surge uma vida urbana e cultural”, explicou. O professor Erivelto complementou: “Para eles, apenas ser rico não era suficiente, eles queriam fazer parte da elite. Conhecer a história desse período ajuda a gente a entender a ideia de elite no Brasil”, revelou.

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Também foi colocado por ambos os professores o papel da escravidão nessa sociedade. Márcia destacou as estratégias de sobrevivência e leitura dos escravos como sujeitos históricos. Erivelto, que faz pesquisa na região, contou que o tema é ausente nas visitas guiadas e museus do local, e fez um apelo aos estudantes: “Fica o convite para a galera de Literatura para, quando estudar romantismo, discutir essas relações, sobretudo aquela geração condoreira, Castro Alves, Gonçalves Dias. É preciso perceber o que esses homens estão vendo para escrever literatura. E eles estão vendo isso aí, sofrimento, escravidão, poderio econômico, opulência, esses homens achavam que não iam empobrecer nunca”.

A literatura dentro dos livros e no palco

Além de palestras, mesas-redondas e comunicações coordenadas, a Semana de Letras também apostou no lúdico como forma de conhecimento. Em sintonia com o tema do evento, “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo”, o espetáculo teatral “De dentro dos livros” arrancou risadas e também levou à reflexão. A peça fez uma oposição entre leitura e tecnologia, na qual personagens dos livros se materializaram em busca de novos leitores, já que estão desaparecendo devido ao interesse das crianças pela tecnologia.

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

A ideia de apresentar a obra partiu da estudante do 3º período de Letras Amanda Barboza, que também foi monitora da Semana. Ela, que é atriz e integra o Grupo Pipa, disse ter se surpreendido com o resultado, já que o espetáculo é mais voltado para o público infantil. “Eu até chamei uns alunos do CAEL para assistirem, mas as pessoas mais velhas também gostaram muito e riram bastante, porque mesmo as peças infantis têm apelo para outros públicos. O teatro foi a minha primeira profissão, conseguir a arte com a minha segunda profissão, que é ser professora, eu achei ótimo”, disse.

“As minhas raízes são aqui”

Pelos corredores da FEUC, no último dia da Semana de Letras, o professor Gustavo Adolfo da Silva  poderia passar despercebido pelo pátio não fosse o cumprimento dos mestres do curso de Letras acolhendo-o, agradecendo sua presença e parabenizando-o. Convidado a palestrar, ele não pôde participar por conta de outros compromissos, mas fez questão de prestigiar o evento. Gustavo, que é professor aposentado pela UERJ, cursou mestrado e doutorado na UFRJ e tem 13 livros publicados — sendo três de poesia — garante que a FEUC é a sua casa: “A minha graduação foi aqui, minha primeira especialização foi na FEUC, sou morador de Campo Grande. Eu dei aulas aqui durante dez anos, as minhas raízes são aqui”, disse.

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre 1974 e 1984 Gustavo lecionou disciplinas de Filologia, Sintaxe e Estilística. Sua atuação como professor, no entanto, foi passada adiante por meio de seus livros e das histórias de colegas. O professor Erivelto foi um dos que o encontraram e não perdeu a oportunidade de agradecê-lo: “Querido mestre, que satisfação reencontrá-lo. Seja bem-vindo a esta casa mais uma vez, é uma inspiração para nós. A sua presença nos honra muito e nos incentiva a continuar, porque os seus ensinamentos são importantes e a sua trajetória profissional é de inspiração para todos nós”, saudou.

Ligeiramente tímido, ele agradeceu o reconhecimento e o dedicou ao magistério: “Quando a gente está nessa idade, eu tenho 70 anos, sempre dedicado ao magistério, o magistério foi minha vida, é muito bom ouvir isso. É muito gratificante, para mim, ter o reconhecimento de ex-alunos, daqueles que leram os meus trabalhos. São coisas que a gente pode dizer que valeu a pena. A atividade docente vale a pena pelo reconhecimento de todos aqueles que eu convivi ao longo da minha vida”, acentuou.

Enquanto esperava sua neta que estuda no CAEL, ele aproveitou para mostrar, aos estudantes, seus livros que estavam à venda na banca do evento. Desconhecido da maioria, mas fundamental para a história do curso de Letras das FIC.

Mais fatos e fotos:

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda "Letramento literário como ferramenta de inclusão", na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda “Letramento literário como ferramenta de inclusão”, na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda "Pibid na formação continuada do docente" e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda “Pibid na formação continuada do docente” e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso "Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca", que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso “Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca”, que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Comunicação, mídia e redes sociais é tema da XXIV Semana de Letras das FIC

 

Durante três dias de evento, dezenas de atividades estiveram voltadas, em sua maioria, para as novas tecnologias da informação na sala de aula, além da manipulação e influência da mídia, análise de discursos da publicidade e programas televisivos

Por Gian Cornachini, Pollyana Lopes e Tania Neves
emfoco@feuc.br

Com 33 atividades programadas e mais exposição de pôsteres, foi realizada entre os dias dias 26 e 28 de maio a XXIV Semana de Letras das FIC. O evento abordou este ano o tema “Língua e Literatura: comunicação, mídia e redes sociais”, em diversos espaços de discussão, nos turnos da manhã e da noite. Para atender ao grande número de estudantes da faculdade e também os visitantes, havia atividades programadas para os mesmos horários, em ambientes distintos. Foram mesas-redondas, palestras, minicursos, sessões de comunicações e painéis.

A vice-coordenadora do curso de Letras, Norma Jacinto, lembrou que a diversidade de temas oferecidos na semana tem o objetivo de sempre conseguir despertar no aluno o interesse por algum específico: “Para os estudantes de Letras é muito importante essa diversidade porque eles farão o Trabalho de Conclusão de Curso, que no nosso caso é uma monografia, no sexto e no sétimo período, e é a partir daí que surgem novos temas. Porque, às vezes, em sala de aula, ele aprende o conteúdo, aplica em suas aulas, nos concursos, mas não tem acesso a outros assuntos”, explicou ela. “Com temas diversificados, eles podem descobrir o que fazer no TCC. Nós já vimos vários alunos escolhendo assuntos que surgiram a partir dessas palestras”, ressaltou.

Coral da UNATIL abriu a Semana de Letras cantando músicas de Dorival Caymmi e Roberto Carlos. (Foto: Pollyana Lopes)

Coral da UNATIL abriu a Semana de Letras cantando músicas de Dorival Caymmi e Roberto Carlos. (Foto: Pollyana Lopes)

Apresentações culturais e comunicador famoso

O primeiro dia do evento foi aberto com apresentações culturais genuínas da casa: na parte da manhã, o coral da Universidade Aberta à Terceira Idade Leda Noronha (UNATIL) se apresentou cantando músicas como “Prece ao Vento”, de Dorival Caymmi, “Como é grande o meu amor por você”, de Roberto Carlos, e uma adaptação do poema “As Sem-Razões do Amor”, de Carlos Drummond de Andrade, em homenagem aos professores. À noite foi a vez do coral Ecos Sonoros, regido pelo maestro David de Souza, soltar sua voz. Integrado por diversos alunos das FIC, o grupo musical sempre marca presença nos eventos acadêmicos.

Responsável pela abertura institucional da Semana, a coordenadora do curso de Letras, professora Arlene da Fonseca Figueira, fez uma fala de incentivo aos estudantes: “Dar aula é um privilégio porque nós aprendemos mais do que ensinamos. Já foram muitos temas em muitas semanas, mas nesta a gente vai tratar de um assunto muito especial que é a relação do professor com as novas tecnologias. O assunto é importante porque o nosso aluno é nativo desse mundo”, instigou Arlene.

Já na noite do segundo dia o destaque foi a palestra “Comunicar é emocionar”, do comunicador da Rádio Tupi Francisco Barbosa. Antes, o grupo de dança da UNATIL, comandado pela professora Sheila, brindou o público com uma linda coreografia para a música típica gaúcha “Chimarrita” – e já pegou o palestrante em sua própria rede: emocionado, Francisco Barbosa iniciou sua fala elogiando muito o grupo da terceira idade, e parabenizando a FEUC pelo projeto.

Francisco Barbosa, da Rádio Tupi: "Comunicar é emocionar!" (Foto: Gian Cornachini)

Francisco Barbosa, da Rádio Tupi: “Comunicar é emocionar!” (Foto: Gian Cornachini)

O foco da palestra de Barbosa foi a defesa de que o modo mais eficaz de se comunicar com um público – nos meios de comunicação, na família, entre amigos ou seja lá onde e como for – é emocionando esse público, falando com o coração e diretamente para o coração do interlocutor. Neste sentido, segundo ele, todas as pessoas são comunicadoras o tempo todo, pois sempre estão tentando sensibilizar o outro a partir de sua fala. “Na sala de aula, o desafio de se comunicar e emocionar fica maior ainda. Como tocar todo mundo ao mesmo tempo? Como ignorar um acontecimento que pode acabar com sua aula?” indagou o palestrante, para em seguida dar a receita: ser verdadeiro e sincero, e nunca esquecer de continuar sempre aprendendo.

Antenado nas novas tecnologias e nas redes sociais, o professor Victor Ramos trouxe exemplos bem sucedidos de uso das ferramentas em suas aulas. (Foto: Pollyana Lopes)

Antenado nas novas tecnologias e nas redes sociais, o professor Victor Ramos trouxe exemplos bem sucedidos de uso das ferramentas em suas aulas. (Foto: Pollyana Lopes)

Breves relatos sobre algumas atividades

Na palestra “As redes sociais como extensão da sala de aula de letras: experiências bem sucedidas em andamento”, o professor Victor Ramos colocou os professores como responsáveis por fazer a mediação entre os alunos e as aulas, utilizando as redes sociais. “Em linhas gerais, a gente sabe que a tecnologia vem entrando lentamente nas aulas. A gente encontra salas de aula muito bem equipadas em escolas, cursos de idiomas. A faculdade em si também tem um suporte de equipamentos, entretanto há uma relutância por parte dos docentes em aderir a esses recursos. Justamente pelo choque tecnológico”.

Contando a  própria experiência de criação de grupos no Facebook e no WhatsApp, ele declarou: “Nesses grupos o que a gente faz é disponibilizar todo o conteúdo das aulas, sejam slides, leituras, o material que está na copiadora, referências bibliográficas, vídeos de apoio e por aí vai. A gente conseguiu construir no Facebook um recurso de extensão da sala de aula”, disse Victor.

Já a professora Ana Lucia de Sousa de Azevedo abordou, em sua palestra, a formação de professores para as novas tecnologias. Ela apresentou um panorama das licenciaturas no Brasil com relação ao tema, mostrando em quantas universidades são oferecidas disciplinas optativas, em quais cursos, e quais são os modelos e estratégias para essa formação inicial dos professores. “Por que não uma disciplina já na graduação? Desde a graduação temos que colocar disciplinas que integrem o professor nas novas tecnologias”, indicou a professora.

Fabiana Júlio Ferreira comparou os dilemas dos personagens de The Walking Dead com os do homem pós-moderno. (Foto: Gian Cornachini)

Fabiana Júlio Ferreira comparou os dilemas dos personagens de The Walking Dead com os do homem pós-moderno. (Foto: Gian Cornachini)

O universo das histórias em quadrinho e seriados também foi tema de uma palestra da Semana de Letras. A professora Fabiana Júlio Ferreira trouxe para o debate a pergunta “Quem são os mortos vivos em The Walking Dead?”. Ao analisar HQs e episódios da série de televisão, Fabiana percebeu que o mundo apocalíptico zumbi levanta uma série de dúvidas e crises de identidade nos personagens muito semelhantes às nossas: “O personagem Carl, na quarta temporada, pergunta ‘quem somos nós’. O mundo deles está de pernas para o ar. Antes eram uma coisa, agora outra. E esse é o dilema do homem pós-moderno: identidade instável, com medo e incerteza de tudo, e solitário”, observou ela, lançando a dúvida: “Os zumbis são chamados de walkers, bitters e dead heads na série, mas por que não são chamados de zumbis? Porque a história não fala de zumbis, mas dos sobreviventes, do homem inseguro, incerto, assim como nós”, concluiu Fabiana.

Sessões de Comunicações Coordenadas

Espalhadas ao longo da programação, as apresentações de trabalhos de alunos mostraram muita qualidade. Entre os destaques, Meire Lucy Cunha e Karina Rangel Cruz abordaram “O impacto do discurso eurocentrista em uma literatura de Língua Portuguesa”. Karina, que é estudante de história das FIC, falou sobre o eurocentrismo em diferentes perspectivas, citando, inclusive o racismo científico. Já Meire, de Letras, “costurou” a percepção histórica apontando as relações explicadas por Karina na análise do conto “A menina Vitória”, do escritor angolano Arnaldo Santos. A estudante mostrou como a menina, uma professora mestiça que julga seus alunos de modo racista, é tão vítima da visão eurocêntrica que valoriza apenas os modos e costumes “brancos” quanto suas vítimas. “É um conto moderno, na verdade pós-moderno, mas que reflete de maneira muito vívida a colonização de Portugal em Angola”, explicou.

Vanessa Moreno Mota, mestranda pela UFRJ, falou sobre o aprendizado da língua inglesa em dispositivos móveis, principalmente por meio do aplicativo WhatsApp. A professora criou um grupo com seus alunos apenas com o propósito da interação utilizando exclusivamente a língua inglesa. Mas com o uso, pode notar que possíveis dúvidas eram sanadas pelos próprios estudantes: “Ou seja, a gente vê um aluno mais experiente auxiliando os outros”, destacou.

No trabalho “Carta dum contratado e Central do Brasil: A presentificação”, Alexandre Sampaio e Vânia Gonçalves de Almeida fizeram um paralelo entre o poema “Carta de um contratado”, do escritor Antonio Jacinto, com o filme brasileiro “Central do Brasil”. Na poesia, o eu lírico, que esta longe de sua terra natal, invoca a natureza para se comunicar com sua amada, já que ambos são analfabetos. Enquanto em Central do Brasil, Dora, personagem de Fernanda Montenegro, escreve e lê cartas narradas por desconhecidos que também não conhecem os códigos escritos.

Professora Ana Lucia destacou a importância de disciplinas voltadas às novas tecnologias já na graduação. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Ana Lucia destacou a importância de disciplinas voltadas às novas tecnologias já na graduação. (Foto: Pollyana Lopes)

Ainda nas comunicações, Vânia Gonçalves de Almeida e Edson Varela do Nascimento apresentaram o trabalho “Atos de linguagem no Facebook: As entrelinhas das redes sociais”, mostrando que muitas pessoas nas redes sociais tentam construir uma imagem diferente do que realmente são ou pensam, mas acabam traídas pelas  pistas deixadas em seus atos de linguagem. Por exemplo, o cara que se dá ao trabalho de fazer uma postagem dizendo que não quer papo com ninguém. Se não quisesse mesmo, porque  estaria ali se expondo? “Por isso é importante a gente analisar o que foi dito e também o que não foi dito, mas que está presente nesses atos de linguagem”, explicou Vânia.

Alany de Oliveira Ribeiro Novais e Gabriela Ribeiro abordaram “A construção do discurso nas propagandas publicitárias”, analisando respectivamente uma campanha do Hortifruti (Aqui a natureza é a estrela) e da Pepsi (Pode ser Pepsi?). Alany se propôs a desvendar o implícito nas peças publicitárias que transformavam legumes e verduras em estrelas de filmes famosos, e analisou o outdoor “Horta de  Elite”, em que um tomate aparece travestido de Capitão Nascimento, do filme “Tropa de Elite”: “É como se dissesse: as frutas do Hortifruti também são autoridades”, sentenciou Alany. Já Gabriela chamou a atenção para o uso da intertextualidade na publicidade do refrigerante: a pergunta do garçom ao cliente – “Pode ser Pepsi?” – é uma clara referência à concorrente Coca-Cola, e induz o consumidor a ter a Pepsi sempre como segunda opção. “A Pepsi era o quinto refrigerante mais vendido no Brasil, e conseguiu se tornar o segundo a partir da construção dessa imagem de ser a melhor segunda opção”, analisou Gabriela.

Alany de Oliveira Ribeiro Novais e Gabriela Ribeiro abordaram “A construção do discurso nas propagandas publicitárias”. (Foto: Gian Cornachini)

Alany de Oliveira Ribeiro Novais e Gabriela Ribeiro abordaram “A construção do discurso nas propagandas publicitárias”. (Foto: Gian Cornachini)

Painel e mesa-redonda

“A imagem da mulher negra na mídia” foi o tema da mesa-redonda  apresentada pelas estudantes Meire Lucy Cunha Araujo, Dandara Ribeiro Ignácio e o colega Thiago da Silva Rodrigues, todos bolsistas do PIBID/FIC. O grupo resgatou a história da condição da mulher negra na sociedade escravista brasileira para demonstrar o quanto elas sempre estiveram vinculadas à ideia de objeto sexual. Para isso, foram mostrados anúncios de jornal de venda de negras como ama de leite, ou “de pele clara” para o trabalho doméstico. Meire, que é negra, afirmou que “hoje, eu não vejo uma mídia que me representa. A mídia usa do movimento negro, das causas negras pra se promover de alguma forma, pra vincular um discurso que não é neutro politicamente. É importante que a gente entenda isso”, disse.

Meire Lucy Cunha e Karina Rangel Cruz utilizaram análises históricas para falar sobre a visão eurocentrista na literatura angolana. (Foto: Pollyana Lopes)

Meire Lucy Cunha e Karina Rangel Cruz utilizaram análises históricas para falar sobre a visão eurocentrista na literatura angolana. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre as sessões com mais componentes, os painéis das atividades 23 e 27 trouxeram cinco professores, incluindo docentes de diferentes cursos da casa e um convidado.

O professor de literatura da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Marcos Estevão Gomes Pasche, apresentou as diferenças de tratamento sobre a mulher feita pelos cadernos de bairro no jornal O Globo, contrapondo a carta de princípios do periódico publicada pelo jornal em 2011. Marcos explicou que os cadernos da Baixada e da Zona Oeste são os mesmo do jornal Extra, periódico da mesma organização, mas para público diferente. Ou seja, a coluna “Estilo” do Zona Sul é realmente de O Globo, enquanto a mesma coluna no Zona Oeste tem a angulação do jornal Extra, mais popular.

Atual professor da UFRRJ, o professor Marcos Pasche comentou sua alegria em voltar FEUC para palestrar na Semana de Letras. (Foto: Pollyana Lopes)

Atual professor da UFRRJ, o professor Marcos Pasche comentou sua alegria em voltar FEUC para palestrar na Semana de Letras. (Foto: Pollyana Lopes)

O professor mostrou as imagens da coluna de Lolô Penteado, exclusiva do caderno da Zona Oeste, na qual são comentadas as vestimentas de mulheres fotografadas na rua. Marcos identificou preconceito nos comentários da jornalista, que chegou a tachar uma das mulheres de “visão do inferno”. “Aqui nós temos uma questão de gênero colocada de uma maneira muito claramente preconceituosa. De acordo com essa jornalista, toda mulher deve ser um constante objeto de exposição ornamentada, a mulher deve estar sempre em estado de exposição e de apreciação dentro de um padrão que essa jornalista supõe ser correto”, criticou o professor.

Na palestra “A invenção de uma tradição: Anticomunismo e mídias na República Brasileira”, Jayme Lúcio Ribeiro, professor do curso de história das FIC, falou sobre as fotografias dos protestos contra a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores veiculadas pelas redes sociais ou em folhetos distribuídos nos mesmos eventos. Jayme explicou que o anticomunismo é uma ideologia inventada junto com o comunismo e que se sustenta em três bases: nas ideias liberais, no nacionalismo e na oposição à religiosidade. Mostrando uma série de imagens, o professor enfatizou que a questão religiosa não é do campo político, e que a associação do partido ao comunismo, apesar de não ter sentido politicamente, tem justificativas históricas. “O comunismo tem um campo específico de análise, que é o campo político. Agora, aqui eles estão associando o político ao religioso. É uma imagem que está extrapolando o campo do político. O PT é um partido político, não é um partido religioso, não é uma seita, muito menos fundou uma religião. Mas nas imagens essa associação é evidente. É evidente porque faz sentido historicamente e porque foi inventado em algum momento”, esclareceu.

Mesa interdisciplinar trouxe diferentes olhares sobre os meios de comunicação, literatura, política e redes sociais. (Foto: Pollyana Lopes)

Mesa interdisciplinar trouxe diferentes olhares sobre os meios de comunicação, literatura, política e redes sociais. (Foto: Pollyana Lopes)

“Entre a ordem e o acidente: Uma leitura de ‘Um general na biblioteca’, de Ítalo Calvino” foi o tema da fala do professor do curso de Letras das FIC Cícero César Sotero Batista. Ele lembrou que a leitura dos clássicos é sempre uma releitura, e que o texto de Calvino “é um texto ou um romance que exige uma participação ativa do leitor”.

Professor de filosofia de todas as licenciaturas das FIC, Flávio Pimentel contribuiu para o painel falando sobre a veiculação de opiniões em redes sociais, o desenvolvimento tecnológico e a necessidade de senso crítico. Para Flávio, é errônea a ideia de que, com a maior veiculação de informação, principalmente por meio das facilidades de acesso à internet, o homem contemporâneo estaria mais propenso ao desenvolvimento de um senso crítico. “No imaginário que nós temos, o desenvolvimento tecnológico traria, consequentemente, o desenvolvimento crítico do indivíduo, de modo que você teria um jovem muito mais antenado, muito mais ligado às informações do que em outros tempos. Me parece que a gente tem que ter um pé atrás, porque o fato de estarmos expostos a uma avalanche de informações de toda uma pluralidade não significa, de maneira alguma, o desenvolvimento da capacidade de crítica. Como se a capacidade de crítica fosse dada de mão beijada a partir do momento em que você toma contato com diversas informações. As coisas não se passam dessa maneira”, problematizou.

“A ‘libido’ do ódio: Literatura, informação e desinformação através da história das mídias e das redes sociais” foi o tema abordado pelo professor Erivelto da Silva Reis. A relação entre as postagens nas redes sociais e o desejo  de mostrar aos outros o que não se é. “O desejo de que a tua vida apareça através desses veículos motiva as pessoas a esse processo de interação. E quando o ódio é voltado pra punir, isso é uma questão política e aí o sistema entra muito forte. O conhecimento da cultura de um povo, de uma língua, é fundamental para que você não se deixe dominar por uma estratégia de dominação cultural que é essa do ódio. Grupos disseminam o ódio e daqui a pouco a gente perde o foco do que é a nossa cultura,  nossa identidade,  nossa individualidade”, disse.

Professor Erivelto da Silva Reis falou sobre "A libido do ódio". (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Erivelto da Silva Reis falou sobre “A libido do ódio”. (Foto: Pollyana Lopes)

Arte e cultura como tempero

 

 

Semana acadêmica é enriquecida por atividades que alimentam a alma

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Iniciada com um recital em homenagem ao poeta Primitivo Paes e encerrada com sarau de música e poesia, a XXIII Semana de Letras mais uma vez se destacou pela grandiosidade e variedade da programação, que contou com mais de 50 atividades e reuniu um público superior a 400 pessoas nos três dias do evento. Em meio às muitas palestras e apresentações de trabalhos acadêmicos, os participantes puderam também se deliciar com sessões em que o objetivo maior era mexer com as emoções e as sensações.

Sílvia e o filho Matheus Cesar visitam a instalação ‘Projeção de letras em luzes e formas’. (Foto: Tania Neves)

Sílvia e o filho Matheus Cesar visitam a instalação ‘Projeção de letras em luzes e formas’. (Foto: Tania Neves)

Foi o caso da instalação “Projeção das Letras em luzes e formas, sobre um olhar machadiano”, idealizada pelo aluno de Letras Adriano Marcelo com inspiração na obra e no universo de Machado de Assis. Numa sala toda revestida de tecido preto e com iluminação colorida, os visitantes eram convidados a ler pequenos trechos de obras do escritor e interagir com o ambiente. Muitos diziam experimentar uma sensação maior de atenção, que fazia com que os trechos lidos ficassem ressoando na cabeça mesmo depois de sair da sala. Para Adriano, esse efeito poderá fazer com que a pessoa depois busque aquela obra para uma leitura mais aprofundada. “Esse é o objetivo da instalação: propiciar a identificação da pessoa com a obra de Machado, a partir da curiosidade que uma proposta diferente pode provocar”.

A estudante de Letras Sílvia da Silva Ferreira gostou tanto que foi buscar o filho Matheus César, aluno do Pré 2 do CAEL, para ver também. E o que mais encantou o menino foi a máquina de escrever exposta sobre a mesinha no centro da instalação. “Aproveitei para explicar a ele que o computador não existiu desde sempre”, brincou Sílvia.

Grupo encena peça de Roberto Espina sobre contradições da propriedade privada. (Foto:  Ricardo Nielsen)

Grupo encena peça de Roberto Espina sobre contradições da propriedade privada. (Foto: Ricardo Nielsen)

No recital “Primitivo vive”, a presença da família do poeta na plateia foi um incentivo a mais para a performance emocionada de alunos e professores.    As filhas Joelma e Adriana e os netos Tiago, Diego e Derick acompanharam as boas vindas dadas pelo professor Erivelto Reis, a leitura de poemas feita por ele e os alunos Rafael Menezes, Carlos Alberto de Castro, Carlos Alberto Loureiro, Isabelle Brum, Julio Cesar Alves, Ramayana Del’Secchi, Raquel Ladeira, Elba Gaya e, por fim, um discurso emocionado da coordenadora de Letras, Arlene da Fonseca Figueira: “Educação não se faz só com conteúdos, metodologias. A arte também nos ajuda muito a aprender. E desde que o Erivelto trouxe o Primitivo aqui pela primeira vez, não parei de aprender com ele. Ele ensinou e encantou muito a nós todos”, disse Arlene, referindo-se à participação constante do poeta nos eventos acadêmicos e artísticos da FEUC.

O professor Cícero e os DVDs de Chico Buarque: momentos lúdicos durante palestras. 9Foto: Tania Neves)

O professor Cícero e os DVDs de Chico Buarque: momentos lúdicos durante palestras. 9Foto: Tania Neves)

Outro destaque cultural foi a apresentação da peça “O proprietário”, do dramaturgo argentino Roberto Espina, pelo grupo formado pelos alunos de Letras Maurício José da Fonseca e Suely do Carmo Resende, além dos professores do município Cimara Mattos e Will Tom. Segundo Maurício, o grupo é o único autorizado a representar as peças de Espina no Brasil. A obra – que Maurício adota bastante em encenação nas escolas – aborda a questão da propriedade privada, a partir de divertidos diálogos entre um sujeito que é dono de um lugar e outro que chega para usufruir do lugar.

Também nas atividades desenvolvidas durante os três dias de evento pelo professor Cícero Sotero Batista na sala de vídeos da Biblioteca, com base na obra de Chico Buarque (que acaba de completar 70 anos), o componente lúdico esteve em alta, já que Cícero apresentou muitos trechos de DVS de Chico para ilustrar suas explanações sobre as possibilidades de uso da canção popular em atividades de sala de aula. “A canção é um produto singular da cultura brasileira, pois faz uma ponte entre a cultura oral e a cultura escrita”, argumentou o professor, incentivando muito os alunos a explorarem essa peculiaridade quando se tornarem professores.

No encerramento da semana, houve fôlego ainda de parte do público para curtir a apresentação poético-musical “As belas canções de Chico”, no auditório. O sarau contou com a participação de Cícero, Erivelto e Flávio Pimentel, entre outros professores e alunos.

Língua e Literatura para todos os gostos

 

Palestras,  debates  e atividades culturais do encontro acadêmico do curso de Letras abrangeram temas variados e repetiram clima dinâmico de outras edições

 
Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Fiel ao que já se tornou uma tradição, a XXIII Semana de Letras movimentou os espaços da FEUC entre quarta e sexta-feira da semana passada, oferecendo cerca de 50 atividades espalhadas pelas manhãs e noites dos três dias de evento, a maioria reunindo um numeroso público. Entre os destaques estão a homenagem feita ao poeta Primitivo Paes, na noite de quarta-feira, com o auditório lotado; o Espaço Chico Buarque, coordenado pelo professor Cícero Sotero Batista, que teve palestras e oficinas durante todos os dias, no que o professor Erivelto Reis salientou ter sido o primeiro evento acadêmico no Rio de Janeiro em homenagem aos 70 anos do cantor e compositor; e a instalação “Projeção das Letras em luzes e formas, sobre um olhar machadiano”, idealizada pelo aluno Adriano Marcelo Leandro Monte. A exposição de pôsteres no pátio também foi um ponto alto, com quase duas dezenas de trabalhos, a maioria fazendo análise de discurso de temas atuais como Copa do Mundo, notícias de jornais e campanhas publicitárias.

O Maestro David de Souza rege o Coro Ecos Sonoros, formado por alunos e alunas, na homenagem a Primitivo

O Maestro David de Souza rege o Coro Ecos Sonoros, formado por alunos e alunas, na homenagem a Primitivo

A homenagem ao poeta Primitivo Paes, falecido ano passado, se iniciou com uma apresentação do Coro Ecos Sonoros, regido pelo maestro David de Souza, com canções ensaiadas especialmente para a ocasião (“Tem que ser assim”, “Vamos fugir”, “Wave” e “Alfabeto”). O sarau a seguir ficou a cargo do professor Erivelto Reis e um grupo de alunos que leram algumas das poesias de Primitivo. Na plateia, a família do artista – filhas e netos – prestigiou a apresentação. “Desde que Erivelto trouxe o Primitivo aqui, para participar de nossos eventos de Letras, eu aprendi muito com ele. Tudo para ele era motivo de alegria, riso, gargalhada. Ele me ensinou muito e ensinou também o meu filho a amar poesia. Ele via o Primitivo e ficava encantado com o jeito tão leve, genuíno, primitivo mesmo. Hoje ele tem 12 anos e passou a ter um gosto especial por escrever poesias, e me pergunta: ‘mãe, será que vou ficar igual a ele?’. Tomara que sim”, disse na abertura a professora Arlene da Fonseca Figueira, coordenadora de Letras.

Atividades espalhadas por diversos espaços da FEUC

Paralelamente à homenagem no auditório, outros eventos aconteciam, como as sessões de Comunicações Individuais e Coordenadas (com professores e alunos das FIC) e palestras dos professores convidados Ronaldo Lima Lins (“A humanidade ferida”), Carina Lessa (“Em Liberdade: um discurso falso mentiroso, se Silviano Santiago”) e Cida Gonda (“Literatura e Revolução dos Cravo”), entre outros.

Norma Jacinto na palestra "Repensando o Português":  é preciso respeitar a variedade linguística do país (Foto: Ricardo Nielsen)

Norma propõe “Repensar o Português”: é preciso respeitar variedade linguística do país (Foto: Ricardo Nielsen)

No segundo dia do evento, entre as palestras mais concorridas estiveram “Repensando o Português do Brasil com Rosa Virgínia Mattos e Silva, Rodolfo Ilari, Renato Basso e Marcos Bagno”, ministrada pela professora Norma Jacinto; “A inclusão e seus diferentes saberes”, pela convidada Bárbara Andrade; e “O discurso do jogo dos poderes: em foco a recente greve (2013) dos profissionais da rede pública da educação básica do Rio de Janeiro”, com a professora Arlene da Fonseca Figueira. Em sua fala, Norma ressaltou que não há um único modo correto de falar o português, e por isso os diferentes sotaques e saberes dos alunos devem ser respeitados e acolhidos pelo professor, sem prejuízo de sua função de ensinar a norma padrão. “O aluno tem uma gramática internalizada, que é a do grupo com o qual ele convive. Se não está de acordo com a norma padrão, não significa que ele não sabe português. Certa vez recebi um aluno que simplesmente não falava, pois o levaram a ter vergonha de seu sotaque nordestino. Então eu disse: ‘Você não fala que é pra eu não ouvir o sotaque lindo que você tem? Sou apaixonada pelo sotaque do Nordeste, sempre que passo um tempo lá eu voltou cantando…’ e o aluno passou a se sentir bem na turma e começou a falar”.

Barbara

Bárbara: declaração de amor à profissão e a duas professoras em especial (Foto: Ricardo Nielsen)

Também em sua palestra, a hoje professora da Faetec e ex-aluna das FIC Bárbara Andrade chamou a atenção dos futuros professores sobre a importância de eles se empenharem verdadeiramente pela inclusão dos alunos, vencendo as barreiras que se apresentam em vez de se render a elas: “Claro que há falha do sistema, nem sempre as condições necessárias estão dadas, mas muitas vezes há falha também do professor, ele também exclui, deixa de fazer o que está a seu alcance para o aluno se incluir. Dá trabalho? Tudo dá. Mas o professor que constrói uma atividade com o objetivo de contemplar um único aluno com comprometimento acaba tornando aquela atividade estimulante para todos”, ensinou, em seguida fazendo uma declaração de amor à profissão e a duas professoras da FEUC em especial: “Fui aluna daqui há 10 anos e estou muito feliz de retornar. E a prova de que o professor é fundamental na vida dos alunos é que tive aqui diversos professores que enriqueceram muito a minha prática, em especial as professoras Irene Viana e Ana Lúcia Rimes. Espero que vocês também encontrem referências assim”.

A abordagem crítica aos livros didáticos, feita no primeiro dia do evento em atividade com alunos tutoriada pela professora Arlene, voltou a ser tema  nas comunicações coordenadas que o professor Erivelto Reis mediou no dia seguinte.  Alunos e alunas apresentaram os resultados – acertos e dificuldades – da preparação de uma prova de aula. Muitos, como Guy Soarrê, relataram a dificuldade de encontrar em livros didáticos os temas que escolheram para abordar (no caso dela, as cantigas de trabalho que fazem parte do nosso folclore). O que corrobora a tese de Erivelto de que nem sempre o livro didático é suficiente para atender às necessidades da educação: “O professor não deve ser só um administrador do conteúdo proposto pelos livros, mas ter autonomia para testar outras possibilidades, adequar os conhecimentos à realidade de cada turma, cada aluno se possível. Paulo freire fazia isso, e conseguia aproximar as pessoas da leitura, do exercício da cidadania”.

Letras, luzes, Machado… e os 70 anos de Chico Buarque

A aluna de Letras Silvia da Silva Ferreira levou o filho Mateus César, do Pré II do CAEL, para ver a instalação

A aluna de Letras Silvia da Silva Ferreira levou o filho Mateus César, do Pré II do CAEL, para ver a instalação

Não houve quem entrasse na sala A405 que não saísse de lá encantado: a instalação do aluno Adriano Marcelo inspirada na obra e no universo de Machado de Assis era impactante. Num ambiente revestido de panos pretos, ele espalhou pelas paredes e chão cartazes com os resumos de 32 obras do escritor, com uma máquina de escrever no centro e um jogo de luzes que a todo momento ressaltava ou ocultava detalhes. O objetivo, segundo Adriano, era estimular a curiosidade dos visitantes. “Muita gente só olhava, outros liam trechos e memorizavam alguma coisa com a intenção de depois consultar a obra”, explicou.
 
Na sala de vídeos da Biblioteca, o professor Cícero Sotero Batista conduziu durante todos os dias uma série de palestras e oficinas tendo como mote a obra de Chico Buarque, que mês que vem completa 70 anos. A alma feminina, as canções e obra literária do compositor e escritor foram alguns dos temas abordados, sobretudo as possibilidades de uso da canção em atividades de sala de aula. “A ideia é trabalhar a canção como um produto singular da cultura brasileira, pois ela faz uma ponte entre a cultura oral e a cultura escrita. Pode-se começar com as canções e depois alçar voos maiores, estudando os textos mais integralmente”, disse o professor.

 Lançamento de livros

A Semana de Letras teve ainda o lançamento de dois livros: “Cinema no Brasil – Impressões”, do professor da FAMA Eleazar Diniz dos Santos; e “A face oculta do verso”, da professora das FIC Rita Gemino. Também poeta, ela reuniu no auditório um grupo de alunos das licenciaturas e, antes de falar especificamente sobre este mais recente livro, fez um apanhado sobre suas obras anteriores – muitas delas concebidas com o intuito de auxiliar o trabalho em sala de aula, em DVDs e CD-Roms – e contou com a colaboração de voluntárias para ler seus poemas.

XXIII Semana de Letras inicia com poesia, apresentação de trabalhos e debates

 

Programação conta com mais de 50 atividades distribuídas durante os três dias do evento, que acontece até sexta-feira (23)

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

A XXIII Semana de Letras das FIC começou nesta quarta-feira, trazendo 50 atividades espalhadas por diversos espaços da FEUC. Os temas são variados, mas o fio condutor central desta edição é “Discurso e intertextualidade: caminhos e descaminhos do dizer”. A expectativa é de que o evento, que vai até a sexta-feira, dia 23, movimente mais de 400 pessoas durante a programação, que conta com palestras de professores da casa e externos, cine-debates, saraus musicais, exposições de trabalhos dos estudantes, entre outras atividades.

Estudantes fazem o credenciamento no evento para participar das dezenas de atividades programadas. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes fazem o credenciamento no evento para participar das dezenas de atividades programadas.
(Foto: Gian Cornachini)

Manhã de poesia

Para começar a semana de forma agradável, uma das primeiras atividades marcadas foi “Momentos, Leituras, Releituras, Traduções de Sentimentos…”, conduzida pelo professor Mauro Ferreira de Oliveira e pela estudante do curso de Letras Priscila da Silva Lima. A dupla apresentou poesias e músicas, e fez uma análise dos sentidos e sensações desdobradas a partir daqueles textos.

Professor Mauro e a aluna Priscila discutem o universo da poesia. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Mauro e a aluna Priscila discutem o universo da poesia. (Foto: Gian Cornachini)

Em uma de suas falas, Priscila valorizou o uso de palavras inseridas em um determinado contexto, indicando que frases completas promovem ações prazerosas: “Quando digo ‘amo’, a gente sabe o que significa essa palavra, mas ela não representa muito. Mas quando digo ‘eu te amo’, além de te fazer feliz, você acaba fazendo o dia de outra pessoa feliz”, valorizou a estudante.

Mauro destacou que, para um poeta, existe uma maneira de não morrer: “Carlos Drummond não morreu, Machado de Assis não morreu. O homem descobriu uma maneira de sobreviver: através da arte”, observou o professor. “Toda vez que houver sentimento, vida, a poesia estará presente. E nós agradecemos, porque poesia é vida”, concluiu ele.

Apresentação de trabalhos

Filipe: "Os conceitos de morfologia são muito diluídos nesses livros didáticos". (Foto: Gian Cornachini)

Filipe: “Os conceitos de morfologia são muito diluídos nesses livros didáticos”. (Foto: Gian Cornachini)

A manhã de abertura da Semana de Letras também deu oportunidade para estudantes apresentarem seus trabalhos desenvolvidos em sala de aula. A professora Arlene da Fonseca Figueira, coordenadora dos cursos de Letras, esteve tutoriando a atividade “Discurso e intertextualidade: confronto entre os conceitos postulados pela Gramática Normativa e as propostas dos livros didáticos de Língua Portuguesa”. Alunos do 3° período do curso desenvolveram trabalhos em cima do tema que, segundo Arlene, é preciso ser debatido: “Os livros didáticos têm uma linguagem que não se aproxima muito dos estudantes. E você não matricula um aluno em uma escola sem antes gastar mais de R$ 1,5 mil com esses materiais, que são sempre os das mesmas editoras favorecidas em cartéis da educação”, lamenta Arlene.

Poema de Filipe Santos de Carvalho, estudante do 3º período de Letras/Inglês

Poema de Filipe Santos de Carvalho, estudante do 3º período de Letras/Inglês

O aluno Filipe Santos de Carvalho, do curso de Inglês, apresentou um estudo que demonstrava o confronto que há entre a Gramática Normativa e a Gramática Básica do livro didático. “Nós escolhemos um livro didático e fomos na Gramática Normativa para ver como os conceitos de morfologia são muito diluídos nesses livros didáticos, dando a impressão de que é só aquilo que existe”, explicou Filipe.

Em seguida, o estudante apresentou um poema que escreveu especialmente para seu trabalho (leia o texto na imagem ao lado). A mensagem central é de que o professor tem capacidade de ensinar de uma maneira diferente aquilo que é difícil. Para isso, basta ter criatividade.

A estudante Maria Teles, do 1° período de Espanhol, assistiu à apresentação do trabalho e refutou a teoria de Filipe: “É preciso ver em que escola você vai dar essa aula diferente, porque há lugares que não deixam fazer isso. Como é que vou dar uma aula em uma escola que não quer que o professor seja dinâmico?”, questionou Maria.

A resposta de sua dúvida veio em dose dupla. Filipe lamentou que é muito chato trabalhar em um lugar em que as pessoas não deixam você ir mais além: “Mas você ainda tem que achar uma maneira de cativar o seu aluno, por mais que não deixem você fazer seu trabalho como quer”, insistiu o estudante. Já a professora Arlene fez uma observação mais profunda, relembrando atitudes próprias durante seu percurso profissional na rede pública de ensino: “Eu tinha que pagar minhas contas, então entrei em uma escola que acabei vendo depois que não tinha meu perfil. Não dava mais para eu ficar lá, pois não conseguia fazer um bom trabalho. Resolvi pegar meu currículo e procurar outras escolas, me apresentar para coordenadores e dizer quais eram minhas propostas. E isso foi muito bom!”, contou ela. “Vocês têm que ter essa coragem, porque há lugares que são tão fechados que não dá para transpor barreiras. E aprender e ensinar são atos de amor, de carinho, que envolvem o riso, a gargalhada”, ressaltou a professora.

Arlene: "Aprender e ensinar são atos de amor, de carinho, que envolvem o riso, a gargalhada". (Foto: Gian Cornachini)

Arlene: “Aprender e ensinar são atos de amor, de carinho, que envolvem o riso, a gargalhada”.
(Foto: Gian Cornachini)

Sobre a XXIII Semana de Letras

Arlene, que além de coordenadora dos cursos de Letras é, também, Diretora de Ensino da FEUC, explicou a proposta desta edição da Semana de Letras e apontou suas expectavas para o evento. A professora espera que mais de 400 pessoas estejam envolvidas, de alguma maneira, com esse evento tradicional da instituição, que tem como objetivo este ano fazer o público pensar acerca dos discursos e ideologias por trás das falas: “Os alunos precisam refletir os discursos e as forças ideológicas que vendem muitas ideias e conceitos comprados por todos nós. Sendo mais críticos, os estudantes conseguirão conhecer os caminhos e descaminhos desses discursos”, explicou Arlene. “Por isso, espero que eles saiam daqui com uma pulga atrás da orelha em relação a tudo aquilo que é dito pela mídia, pelo poder e por nós, porque não há um dizer neutro. Todo dizer é cheio de significados”, finalizou.

Para acessar a programação completa do evento, clique AQUI.

Começa na quarta a XXIII Semana de Letras

 

O tema deste ano é “Discurso e intertextualidade: caminhos e descaminhos do dizer”, com 50 diferentes atividas programadas para as manhãs e as noites dos dias 21, 22 e 23 de maio

DaRedação
emfoco@feuc.br

São 50 atividades programadas, entre palestras, mesas-redondas, sessões de cinema, oficinas, comunicações coordenadas, apresentações de pôsteres, saraus musicais e lançamentos de livros. É a XXIII Semana de Letras prometendo mais uma vez movimentar salas, auditórios e corredores da FEUC durante três dias, de quarta a sexta-feira desta semana.

O tema deste ano é “Discurso e intertextualidade: caminhos e descaminhos do dizer”.  A maior parte das atividades tem vagas limitadas e por isso é necessário fazer inscrição.

Confira AQUI a programação completa do evento.

Pela valorização de artistas da Zona Oeste do Rio

 

A tradicional Semana de Letras chegou em sua 22ª edição e se deu a mais um objetivo: promover a cultura de Campo Grande e região

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Flávio no violão e Umberto no vocal: dupla foi a atração da noite. (Foto: Gian Cornachini)

Flávio no violão e Umberto no vocal: dupla foi a atração da noite. (Foto: Gian Cornachini)

Entre 13 e 15 de maio, o curso de Letras das FIC promoveu a XXII Semana de Letras. Durante as manhãs e noites daqueles três dias, o público interno e externo pôde participar de palestras, minicursos, mesas-redondas e oficinas, em sua maioria voltadas para o tema desta edição da Semana: “O papel da língua e da literatura na formação do indivíduo: uma questão de direitos humanos”. A extensa programação oferecida — foram 55 atividades e 68 palestrantes diferentes — atraiu um número de participantes que chegou a quase 350 pessoas, sem contar os visitantes.

No primeiro dia do evento mais importante do curso, a coordenadora, professora Arlene da Fonseca Figueira, disse a seguinte frase: “Não faz sentido separar a universidade dos artistas de nossa região”. Arlene se referia, principalmente, ao poeta Primitivo Paes, que faleceu em janeiro deste ano. O poeta pernambucano era morador do bairro de Campo Grande há mais de 30 anos e frequentava, nos últimos tempos, todas as atividades do curso, declamava seus poemas e fazia até apresentações teatrais. A XXII Semana de Letras homenageou o poeta em sua abertura e renomeou o Núcleo de Estudos em Linguagem (NEL) para “Núcleo de Estudos em Linguagem poeta Primitivo Paes”.

Professor Evento ‘planta semente’ na FEUC para florescer um espaço ainda maior para a cultura local. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Evento ‘planta semente’ na FEUC para florescer um espaço ainda maior para a cultura local. (Foto: Gian Cornachini)

O poeta foi uma das personalidades que a FEUC acolheu, abrindo espaço para que ele, até então pouco conhecido em Campo Grande, pudesse levar o seu trabalho a um público mais amplo, principalmente no ambiente acadêmico. E uma atividade do último dia da Semana de Letras deu uma boa receita de como começar a abrir as portas da FEUC para que a arte trafegue com mais naturalidade e se potencialize em um espaço de disseminação de conhecimento. O sarau poético-musical “Vinícius: a vida que me desculpe, mas a arte é fundamental”, fez uma homenagem ao compositor brasileiro Vinícius de Moraes por meio de apresentações musicais, análises e declamação de poemas. Os artistas da noite foram os quatro professores que conduziram a atividade: Cícerto Batista, Flávio Pimentel e Erivelto Reis, do curso de Letras, e Umberto Eller, do curso de Ciências Sociais. Umberto e Flávio foram a atração do evento: poucos conheciam o lado musical de Eller como cantor e de Pimentel como violonista.

O professor Umberto acredita que os artistas desconhecidos não são visibilizados, de certa maneira, por culpa da mídia: “Por mais que [a FEUC] seja um espaço em que as pessoas estejam ficando esclarecidas, é inegável a influência da mídia ditando aquilo que é bom. As pessoas acham que só há coisas boas naquilo que a mídia passa”, supõe Umberto. Cícero também fez uma crítica à desvalorização da arte regional: “Atualmente, há uma preocupação com a quantificação de tudo, infelizmente. Cultura é flor que demora a pegar. É como uma flor: às vezes pega, às vezes não. Mas em Campo Grande coisas belas podem muito bem florir e merecem ser vistas por um público bem mais amplo”, avalia Cícero.

Para o professor Flávio, abrir espaço para os desconhecidos reforça o papel da instituição na Zona Oeste: “Ela [a FEUC] pode servir de elo e de divulgação. Isso faz as ideias se ventilarem, realizando uma das funções de uma universidade, que é dar voz e acesso à cultura e discuti-la”, aponta o professor.

Em sua 22ª edição, a Semana de Letras plantou mais uma semente da valorização de artistas. O próximo passo é regá-la: “Essa abertura para artistas acontece dentro de uma semana de um curso, mas deve se expandir para toda a instituição e acontecer com mais frequência”, sugere o professor Umberto.

Um outro lado dessa história, apontado pelo professor Erivelto, é a troca que há entre cultura e ciência: “A FEUC tem interesse em dialogar com a comunidade, não só para dar voz a ela, mas para ampliar também o conteúdo científico que é produzido aqui”, diz o professor. “Nosso espaço acadêmico é um local dinâmico e pulsante para os debates e discussões que vão até a comunidade externa e promovem mudança social”, reforça o professor.

Cícero Batista analisou poemas de homenagem a Vinícus de Moraes. (Foto: Gian Cornachini)

Cícero Batista analisou poemas de homenagem a Vinícus de Moraes. (Foto: Gian Cornachini)

XXII Semana de Letras tem balanço mais do que positivo

 

Evento, que discutiu questões ligadas aos direitos humanos, teve mais de 350 alunos participando das atividades, fora os visitantes

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Na semana passada, a FEUC recebeu um dos maiores eventos das FIC: a Semana de Letras, que chegou em sua 22ª edição. O tema desse ano foi “O papel da língua e da literatura na formação do indivíduo: uma questão de direitos humanos”. Entre os dias 13 e 15, das 8h às 11h20m e das 19h às 21h50m, o público participou de atividades como palestras, minicursos, mesas-redondas e oficinas que aconteceram nas manhãs e nas noites de segunda, terça e quarta-feira.

Atividade de abertura da XXII Semana de Letras discutiu a obra do poeta Primitivo Paes. (Foto: Gian Cornachini)

Atividade de abertura da XXII Semana de Letras discutiu a obra do poeta Primitivo Paes. (Foto: Gian Cornachini)

Todas as atividades da Semana de Letras estavam voltadas, de alguma forma, para a questão dos direitos humanos, tema central do evento. Um exemplo foi a atividade que abriu a Semana: uma homenagem ao poeta Primitivo Paes – personalidade muito conhecida na FEUC e que frequentou, por diversas vezes, eventos do curso de Letras. Primitivo Paes era natural de Pernambuco e, por mais de 30 anos, morou no bairro de Campo Grande, no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em janeiro deste ano. Sua obra poética, que trata de temas relacionados aos direitos humanos, à infância e à liberdade, foi analisada em palestra proferida pelos professores Erivelto Reis e a coordenadora do curso, Arlene da Fonseca Figueira.

Língua estrangeira e identidades sociais

Outra questão discutida dentro do universo dos direitos humanos esteve presente na palestra proferida por Renata de Souza Gomes, professora do curso de Inglês, na manhã do segundo dia do evento. “O PCN de língua estrangeira e a construção das identidades sociais de gênero, raça e sexualidade” foi o nome da atividade proposta pela professora, que teve o objetivo de discutir a relação do Parâmetro Curricular Nacional de língua estrangeira com a formação cidadã de indivíduos – no caso, os alunos dos futuros professores formados em Letras.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) são documentos do Ministério da Educação que funcionam como uma espécie de guia para a estrutura curricular brasileira. O PCN de língua inglesa reforça que cada comunidade tem uma necessidade imediata na língua estrangeira. Ele prevê que a necessidade, em geral, é a leitura em vez da fala, pois o aluno da escola pública não terá tantas oportunidades de estar em contato com estrangeiros. A leitura, no caso, é considerada uma necessidade imediata, já que o contato com textos em língua estrangeira é, segundo o PCN, muito mais provável para a realidade dos alunos.

O PCN de língua estrangeira sugere, ainda, que a leitura deve ser sociointeracional, ou seja, o texto tem que ter relevância social e o aluno precisa interagir com esse texto e com os colegas para que aconteçam trocas de aprendizado. “O ideal é que os textos não sejam pré-fabricados, como, por exemplo, aqueles que contam o dia-a-dia de um garoto”, afirmou a professora Renata. “É interessante que os professores trabalhem textos reais, sejam de revista ou da internet, mas que levem à discussão dos problemas ideológicos, da construção das identidades e do combate ao preconceito”, explicou.

"O papel do professor é promover igualdade e respeito entre os grupos sociais" – Renata Gomes, professora do curso de Inglês. (Foto: Gian Cornachini)

“O papel do professor é promover igualdade e respeito entre os grupos sociais” – Renata Gomes, professora do curso de Inglês. (Foto: Gian Cornachini)

A professora Renata apontou na atividade que “não há nenhuma prática discursiva que seja neutra”. Para ela, “tudo em linguagem é carregado de ideologias”. Essas frases em aspas, ditas pela professora, são o ponto central da discussão do PCN de língua estrangeira na questão dos direitos humanos.

Durante a palestra, Renata afirmou que o objetivo do professor é educar, ajudar a formar cidadãos que compreendam sua própria cidadania. Por isso, o professor deve cruzar no conteúdo dado em sala de aula temas transversais que o PCN sugere, tais como “ética”, “saúde”, “meio ambiente”, “orientação sexual”, “pluralidade cultural” e “trabalho e consumo”. Para Renata, os mais difíceis de serem trabalhados são “orientação sexual”, “pluralidade cultural” e “ética”. “Esses temas esbarram nos valores da família, em conceitos pré-estabelecidos pela cultura”, argumentou ela.

A professora apresentou o conceito de “Currículo Oculto”, termo cunhado pelo filósofo francês Louis Althusser. Segundo o filósofo, a escola, a religião, a família e a mídia têm o poder de legitimar ideologias. Essas ideologias são reforçadas por todas as pessoas, desde momentos informais até a chamada de atenção do professor. Um exemplo de currículo oculto é o machismo que há escondido na ideologia da sociedade, inclusive do professor. Quando um garoto cai na escola e começa a chorar, é comum ouvir o professor dizer para que a criança não chore, pois “homem não faz isso”. É aí que entra o conceito de currículo oculto, que reforça preconceitos.

Renata propõe que o professor deva ser o mais transparente possível, pois ele está trabalhando com a formação de cidadãos que continuarão reproduzindo preconceitos e problemas com relação a identidades: “O papel do professor é promover a igualdade e respeito entre os grupos sociais. Ele trabalha com a língua, trabalha com discurso, com uma fala que tem muito poder. Por isso, é importante cruzar temas transversais em sala de aula para que o conteúdo faça significado e diferença ao aluno”, conclui Renata.

A discussão despertou novos olhares nos participantes da palestra. A estudante de Inglês Joseane Kelly Rodrigues, de 29 anos, repensou o papel de sua futura profissão: “O professor reproduz muita ideologia e preconceito em sala de aula. Eu não sabia de tudo isso, e é importante que a gente tenha conhecimento para conseguir lidar com essas questões e tentar fazer com que os alunos se respeitem”, afirmou a estudante.

Analfabetismo funcional e direitos humanos

A coordenadora do curso de Letras, professora Arlene da Fonseca, reforçou em sua palestra a importância de rever a educação e o papel do professor, de modo que beneficie a efetivação dos direitos humanos. “Analfabetismo funcional: violação dos direitos humanos” foi o tema da atividade desenvolvida por ela no início da última noite do evento.

Arlene da Fonseca, coordenadora do curso de Letras, chamou a atenção para os índices do analfabetismo funcional no Brasil (Foto: Gian Cornachini)

Arlene da Fonseca, coordenadora do curso de Letras, chamou a atenção para os índices do analfabetismo funcional no Brasil (Foto: Gian Cornachini)

Arlene separou dois artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (23 e 26) que afirmam que todo homem tem direito a um trabalho digno e que supra suas necessidades, e que todos têm direito à educação gratuita e elementar.

Durante a palestra, a professora discutiu os dois artigos colocando em questão os índices de analfabetismo funcional no Brasil – em 2012, o índice foi de 27% entre a população de 15 a 64 anos. A pesquisa é do Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF) e vem sendo realizada nos últimos dez anos. Segundo o órgão de pesquisa, apenas um em cada quatro brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Muitos alunos se formam no Ensino Fundamental e no Médio com habilidades de escrita e leitura rudimentares, sem capacidade de produzir textos plenos ou ler textos longos. Esses são os denominados “analfabetos funcionais”.

Para a professora Arlene, a realidade constatada pelas pesquisas fere os dois artigos postos em discussão: “O sujeito recebe um diploma da escola, mas não sabe escrever ou ler direito. Como é que ele vai ter direito ao trabalho? Que educação é essa que está sendo oferecida a esse sujeito?”, questionou a professora. “O jovem, que será adulto, ficará sempre na condição de subemprego, já que ele não será capaz de encarar o mercado de trabalho por não estar plenamente alfabetizado”, explicou.

O professor deve ter, segundo Arlene, consciência desse problema da educação brasileira: “A partir dessa consciência, o professor se opõe às políticas públicas que promovem uma educação de baixa qualidade para as classes menos favorecidas. Devemos questionar os índices que apontam avanço na educação. Eles revelam dados que a gente precisa explicar melhor, por isso a importância de conversar com os professores sobre a sua função em sala de aula”, comentou Arlene.

Atividades paralelas

Orquestra da FEUC tocou no evento. (Foto: Gian Cornachini)

Orquestra da FEUC tocou no evento. (Foto: Gian Cornachini)

Além das atividades direcionadas ao tema dos direitos humanos, a XXII Semana de Letras contou com apresentação musical do coral e banda da FEUC – na abertura e encerramento do evento. A banda emocionou o público com canções clássicas como “Think Of Me”, do musical “O Fantasma da Ópera” e a reprodução de trilha orquestrada do filme “Como treinar o seu dragão” (Dream Works Studios, 2010).

Outra atividade paralela foi o “Labirinto Literário”. Montada de um lado todo do pátio da FEUC, a estrutura simulava um trajeto entre a literatura portuguesa e brasileira dividido em 14 blocos temáticos, tais como barroco, romantismo, renascimento, entre outros.

O Labirinto Literário foi idealizado pelo estudante Adriano Marcelo Leandro Monte, do 5º período do curso de Literaturas. Para confeccionar a estrutura, foram utilizados quase 300 metros de tecido TNT, que serviram de divisórias para os blocos temáticos: “Eu quis criar tudo isso para mostrar a literatura de uma forma mais lúdica, diferente da aprendida em sala de aula; uma literatura que as pessoas pudessem ver, ler, tocar nos objetos, sentir o ambiente, a luz, a própria literatura”, contou Adriano. “Foi um trabalho bem maçante e desgastante montar tudo isso, mas valeu a pena”, revelou.

Aberto nos três dias do evento, Labirinto Literário simulou trajeto entre a literatura portuguesa e brasileira. (Foto: Gian Cornachini)

Aberto nos três dias do evento, Labirinto Literário simulou trajeto entre a literatura portuguesa e brasileira. (Foto: Gian Cornachini)

Balanço foi positivo

A coordenação do curso divulgou ontem, dia 23, informações sobre o balanço final da XXII Semana de Letras. O público foi grande: só o número de participantes chegou a quase 350 pessoas, sem contar os visitantes. Outro número de peso foram os 68 palestrantes diferentes, envolvidos em 55 atividades durante os três dias de evento.

Um questionário também foi aplicado para que o público avaliasse a Semana de Letras. De acordo a professora Renata, que também é vice-coordenadora do curso, o público foi muito participativo: “Os dados dos questionários mostram que a Semana foi muito bem avaliada pelos estudantes, os palestrantes foram bem aceitos e ainda houve muitas sugestões de que o evento deva acontecer durante a semana toda”, revelou a professora. “Fiquei muito contente em ver a movimentação dos estudantes querendo aprender mais, conhecer visões diferentes. Pretendemos aprimorar a Semana de Letras para que ela seja prazerosa e que contribua mais para a construção do conhecimento”, destacou a professora.

Começa a XXII Semana de Letras na FEUC

 

A participação no evento rende 20 horas de atividades complementares por turno, e as inscrições ainda podem ser feitas até a noite desta segunda-feira

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

A tradicional Semana de Letras da FEUC começou hoje e tem como tema “O papel da língua e da literatura na formação do indivíduo: uma questão de direitos humanos”. Entre hoje e dia 15, estão programadas 55 atividades distribuídas entre os períodos da manhã e noite. São palestras, mini-cursos, mesas-redondas, oficinas e comunicações que compõem a 22ª edição do principal evento do curso de Letras.

Homenagem ao poeta

A abertura da semana acadêmica homenageou o poeta Primitivo Paes. A palestra intitulada “A poética da liberdade na obra de Primitivo Paes” foi ministrada pela coordenadora do curso de Letras, professora Arlene da Fonseca Figueira, e pelo professor Erivelto Reis.

Atividade de abertura homenageia o poeta Primitivo Paes. (Foto: Primitivo Paes)

Atividade de abertura homenageia o poeta Primitivo Paes. (Foto: Primitivo Paes)

Primitivo Paes foi um poeta pernambucano que viveu por mais de 30 anos no bairro de Campo Grande, na capital fluminense. Primitivo costumava acompanhar, sempre que podia, as atividades acadêmicas e culturais da FEUC. E também fazia aqui apresentações teatrais e de poesias.

A poesia de Primitivo Paes trata de temas relacionados aos direitos humanos, à infância, à memória do autor, aos espaços onde viveu, além de homenagens à família, amigos e poetas dos quais gostava. “Primitivo era muito reativo à guerra, àquilo que corrompe a paz e a liberdade. Seu olhar era voltado às pessoas mais simples e aos jovens, em quem ele via a capacidade de transformar o mundo”, explica o professor Erivelto.

Outras atividades

Somente no primeiro dia da XXII Semana de Letras foram programadas 20 atividades para os estudantes. As opções vão de palestra sobre as canções de Gilberto Gil à mesa-redonda que discute a inclusão social por meio do ensino de línguas estrangeiras.

Há, também, oficinas que pretendem desenvolver competências técnicas na formação dos participantes. É o caso da oficina “Por que tanto medo da monografia”, realizada por Natália Coelho Chaves, estudante da pós-graduação em língua portuguesa e graduada em Letras/Espanhol pela FEUC.

Iniciada às 9h50m e programada, também, para as 20h30m da terça-feira, dia 14, a oficina tem o objetivo de esclarecer os estudantes sobre o temido trabalho de conclusão de curso: “A monografia não é um trabalho qualquer; exige força, coragem e, principalmente, dedicação. Mas vocês são capazes de fazer um trabalho magnífico”, encorajou Natália.

A atividade conta, ainda, com dicas de como escolher um tema para a monografia, como formatar o texto seguindo as regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e, até mesmo, dicas de vestuário para a apresentação do trabalho de conclusão de curso.

Evento continua nos dias 14 e 15

Na terça e quarta-feira, dias 14 e 15, a XXII Semana de Letras continua com as atividades programadas. Um dos destaques de amanhã é a palestra “O PCN de língua estrangeira e a construção das identidades sociais de gênero, raça e sexualidade”, proferida pela professora Renata de Souza Gomes (FIC-UFRJ), às 8h, no auditório do CAEL, e às 19h, na Sala de Projeção.

Na quarta-feira, último dia do evento, será possível conferir palestras como “Analfabetismo funcional: violação dos direitos humanos”, da professora Arlene da Fonseca Figueira, às 19h, na sala A416; uma oficina de referenciação na produção e na interpretação de textos, organizada pelo professor Victor Ramos da Silva (UFF), às 20h30m, na sala A416; e uma mesa-redonda sobre minorias, no auditório da FEUC, também às 20h30m.

A XXII Semana de Letras é aberta aos estudantes da FEUC e à comunidade. Para participar das atividades, é necessário fazer inscrição. O investimento é de R$ 10,00 para alunos e ex-alunos e de R$ 20,00 para o público externo. As inscrições podem ser feitas no setor de Cursos Livres até esta segunda-feira à noite. A participação em um dos turnos rende 20h de atividade complementar; para quem participar integralmente nos dois turnos, são contabilizadas 40h.

Para acessar a programação completa da XXII Semana de Letras, clique aqui.