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Professor de História do CAEL é destaque no YouTube

 

Arão Alves, graduado e pós-graduado na FEUC, faz vídeos para a internet e ajuda estudantes de todo o Brasil a passar no vestibular

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

O fluxo de conhecimento compartilhado por um professor, geralmente, é paralisado por uma questão física: as aulas têm horário de início e fim, assim como o expediente da escola. Mas há quem consiga subverter isso de alguma maneira e ultrapassar esses limites físicos e temporais. Estamos falando do professor Arão Alves, que desde 2000 leciona História no CAEL.

Com bastante experiência em sala de aula, Arão está no CAEL desde 2000. (Foto: Gian Cornachini)

Com bastante experiência em sala de aula, Arão está no CAEL desde 2000. (Foto: Gian Cornachini)

Formado em Ciências Sociais e História pela FEUC, e também pós-graduado por nossa instituição, Arão faz parte de um grupo social que muitos não conseguiriam entrar: os desinibidos. Isso mesmo. Os “sem vergonha” — no bom sentido da expressão. Pronto para experimentar novos caminhos além dos tradicionais, o professor decidiu botar a cara na web e expandir suas aulas para a internet, podendo, assim, ajudar estudantes não só do CAEL, mas de todo o Brasil, a compreender melhor temas importantes de sua área do conhecimento.

O Blog do Professor Arão Alves já existia há 6 anos quando o docente ousou dar um passo além e criar conteúdo em vídeo para o YouTube. Primeiramente, em seu canal pessoal e, recentemente, em um espaço mais profissional chamado “História em Gotas: Sua dose de conhecimento”.

Canal do professor Arão no YouTube. (Imagem: Reprodução)

Canal do professor Arão no YouTube. (Imagem: Reprodução)

“Eu comecei a fazer um blog com o objetivo de passar material para os alunos. Aí eu tive a ideia de fazer vídeos mais curtos e mandava o link para os alunos, para complementar a aula”, conta Arão, que abraçou de vez a ideia de se tornar um professor “youtuber”: “O retorno dos alunos foi sendo muito legal, então eu comecei a aprender sobre edição de vídeo, para fazer melhor”.

O bom trabalho do professor tem rendido muitos depoimentos de pessoas elogiando a qualidade do material, que é capaz de ajudar até mesmo quem sonha em passar no vestibular para uma boa universidade.

Estudante relata experiência com o canal. (Imagem: Reprodução/YouTube)

Estudante relata experiência com o canal. (Imagem: Reprodução/YouTube)

“Você vê a felicidade de uma pessoa, e que foi você quem colaborou com isso. É muito emocionante. Quem é professor, sabe o valor de ajudar a realizar sonhos de pessoas, e que sequer você irá conhecê-las”, diz Arão.

Mas nem todo conhecimento compartilhado na internet é tão bom assim. O professor alerta que vivemos em uma sociedade que se preocupa mais com a estética do que com a qualidade do conteúdo. E isso pode ser bastante perigoso.

“As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras. A internet está cheia de informação. Mas até que ponto essa informação é realmente conhecimento, tem base, ou é apenas uma opinião?”, alerta o professor.

Arão: "As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras". (Foto: Gian Cornachini)

Arão: “As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras”. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo ele, o ideal na hora de procurar material online para complementar os estudos é verificar se quem compartilhou a informação é um especialista na área, principalmente porque, para Arão, vivemos um momento complicado de nossa História:

“A História no Brasil está sendo colocada para o canto, desvalorizada por interesses políticos. Aos poucos, é apresentada a nós uma História que agrada e que não tem base científica. E aí você constrói uma memória histórica extremamente problemática”, criticou ele.

Quem quiser ficar por dentro de diversos temas de História, e com a chancela de qualidade de um especialista na área, basta seguir o canal História em Gotas no YouTube (clique aqui para acessá-lo), com vídeos novos todos os sábados, às 18h. E a melhor parte: é de graça e está pronto para ser visto e revisto a qualquer momento e de qualquer lugar.

Letras: Semana Acadêmica do curso completa 25 anos com dezenas de atividades

 

Durante quatro dias de evento o público pôde enriquecer seus conhecimentos com palestras, mesas-redondas, oficinas e diversas outras programações

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Há quem diga que parece ter sido ontem que o curso de Letras das FIC promoveu, pela primeira vez, sua Semana Acadêmica. Mas o fato é que o evento já está na 25ª edição, garantindo o sucesso de sempre, seja por meio de suas ricas palestras ou por relatos e experiências de estudantes e professores com um único objetivo: fortalecer o saber teórico, técnico e humano do universo das Letras. E, neste ano, para comemorar seu Jubileu de Prata, a temática central foi “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo” — fio condutor de quase meia centena de atividades, entre comunicações científicas, palestras, mesas-redondas, oficinas, exposições e muito mais. Um resumo da Semana Acadêmica — que aconteceu de 31 de maio a 3 de junho, nos períodos da manhã e da noite — você confere a seguir.

Reencontro com a FEUC: ex-alunos relembram trajetória acadêmica

Para introduzir os graduandos no clima dos 25 anos da Semana, uma mesa-redonda foi organizada com a presença de ex-alunos de destaque. Ao público, eles contaram um pouco sobre como foi seu percurso acadêmico e as experiências pós FEUC.

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

O ex-agente da Polícia Militar Rodrigo Torres está apaixonado por dar aula e valoriza a mudança de carreira: “Graças a Deus eu saí da PM. Hoje eu faço o que gosto, e isso não tem preço. Não desistam e não parem de estudar. Tem que chegar em casa, sentar e pesquisar, preparar a sua aula, porque o aluno não vai engolir tudo o que você disse”.

Ramayana Del Secchi Linhares se formou recentemente e já atua como professora no Município, tendo dicas a oferecer: “Na maioria das vezes o aluno não acredita que é capaz porque os pais também não acreditam. Cabe a vocês, que tiveram uma boa formação, mostrar que esse aluno é capaz, porque se a educação não for para fazer diferença, então ela não valerá a pena”, ressaltou. Armando de Carvalho, que trabalha com educação para presidiários, concorda com Ramayana e procura, assim como a professora, transformar a vida dos detentos por meio da educação: “É muito importante atuar como incentivador, estimulador daquela criatura à sua frente que está ansiosa para ouvir o que você tem a dizer. O segredo todo é inspirar”, afirmou.

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Embora não pretenda ser professora, a atriz Gui Soarrê, também formada recentemente em Letras nas FIC, valoriza a profissão dos colegas: “Lecionar não é a minha grande paixão, mas eu acho uma profissão heroica. Vou usar a poesia e o teatro para também tocar as pessoas, usar o poder humanizador da arte para tocar essa essência humana”, disse Gui.

A coordenadora do curso, Arlene da Fonseca Figueira, fez uma análise das falas, destacando o respeito de todos pela figura do educador: “Nem todos são professores, mas todos são ex-alunos bem sucedidos, cada um com suas escolhas. E a voz que me encantou aqui é o respeito ao professor. Nossa sociedade e os políticos não têm esse mesmo respeito, mas só conseguiremos ir à frente quando respeitarem o professor e valorizarem a educação”.

CD “No caminho das Letras” é lançado no evento

Os professores Erivelto da Silva Reis e Arlene da Fonseca Figueira, à frente do subprojeto “Produção de Acervo de Áudio” (Letras/Português) do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) nas FIC, aproveitaram a Semana Acadêmica para apresentar aos estudantes o CD “No Caminho das Letras”. A produção, destinada a deficientes visuais, reúne diversas gravações de clássicos da literatura em domínio público, além da obra do poeta Primitivo Paes, lidas por estudantes do Ensino Fundamental II da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guaratiba. Erivelto revelou a satisfação de ter concluído o trabalho: “Esse CD é um motivo de orgulho para nós. Despertamos a leitura e compreensão do que os alunos liam e discutiam. Eles se tornaram sujeitos de sua própria leitura e entendiam que a pessoa cega que ouvirá os áudios dependerá da emoção, boa leitura e interpretação do texto”.

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Joyce da Silva dos Santos, uma das alunas bolsistas do subprojeto e que apresentou um resumo do trabalho aos licenciandos, contou o que aprendeu com a atividade do Pibid: “Eu não posso simplesmente chegar na escola e apresentar Machado de Assis sem contextualizar e mostrar o que posso tirar dali. A gente tem que puxar um ganchinho com as nossas experiências para perceber os efeitos da literatura em nossa vida e ver o que ela tem em comum com a gente”, destacou ela.

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Homenagem póstuma à ex-coordenadora do curso

A 25ª Semana de Letras também dedicou uma atividade a relembrar uma figura bastante importante para o curso das FIC: a professora Miriam da Silva Pires, falecida em fevereiro de 2013, quando era professora do curso de Letras da UFRRJ. Antes de passar no concurso para aquela instituição (em 2010), Miriam foi, durante anos, coordenadora de Letras das FIC. Ela esteve na organização de diversas edições da Semana Acadêmica, colaborando com a consolidação de um dos eventos mais importantes da FEUC.

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Os professores Erivelto Reis — que teve a oportunidade de ser aluno de Miriam — e Flávio Pimentel — que teve a honra de compartilhar mesas-redondas com a professora — contaram os momentos mais marcantes que tiveram com ela e destacaram sua importância para o curso de Letras das FIC: “Você ficava impressionado de onde vinha tanto conhecimento e as relações que ela estabelecia entre as diferentes áreas do saber. Celebrar a memória dela é celebrar o legado de uma pessoa que lutou a vida toda para que a educação transformasse a vida das pessoas”, ressaltou Erivelto. “Em nossas conversas entre filosofia e literatura havia uma proximidade muito grande [dos saberes], até o ponto de que eu nunca mais deixei de apresentar alguma coisa na Semana de Letras”, lembrou Flávio.

Antes de partir para os EUA, uma colaboração com a Semana

André Nascimento se formou em Letras (Português/Inglês) nas FIC em 2014, emendou na pós-graduação em Língua Inglesa, também na FEUC e, agora, ruma aos Estados Unidos para cursar, com bolsa integral, o mestrado em Português e Literaturas pela The University of New México (leia a reportagem “Da FEUC para o mundo” sobre a conquista do mestrando). Durante os próximos anos, André vai pesquisar a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas, mas, antes de partir para terra dos ianques, ele deu uma “palinha” dos seus estudos como convidado a palestrar na Semana de Letras. “O Carandiru e o medo: a masculinidade e a violência social em voga (des)cortinados pela narrativa fílmica” foi o tema de sua apresentação, que buscou esclarecer a relações machistas e de masculinidade no filme brasileiro Carandiru (2003).

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo André, a lógica de estupro dentro do presídio passa por um conceito de “herói” de uma “mitologia invertida”, além da constante necessidade de se autoafirmar como forte e macho: “Para que um detento tenha status de homem, ele precisa diminuir o outro. No banho, eles nunca ficam de bunda para o outro, ou seja, uma questão de autoafirmação”, ponderou André. “Um prisioneiro precisava fazer uma cirurgia, mas o médico disse que seria muito arriscado. E, ainda assim, o homem afirmou ter duas balas no corpo e que, portanto, aguentaria. Mesmo em meio à dor, afirmar-se como homem era altamente relevante”.

Para o estudante, esses fenômenos acontecem porque o homem latino-americano segue um padrão do que é ser homem, por diversas vezes carregado de valores sexuais: “É preciso ter uma habilidade sexual como maratonista para se aprovar e nunca pode dizer não ao sexo com uma mulher, porque aí a sua masculinidade seria confrontada”, explicou.

O Ciclo do Café e a produção literária

Em um intercâmbio entre História e Literatura, os professores Erivelto Reis, de Letras, e Márcia Vasconcellos, do curso de História, articularam contexto histórico e a produção artística e literária durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba.

Márcia falou das condições específicas que tornaram essa região privilegiada para a produção de café, na época, e forjaram os grandes barões do período. Além de mostrar o desejo deles em integrar a nobreza:

“Ao contrário de outras áreas, onde os cafeicultores investem em grandes inventários e casas opulentas para demonstrar riqueza e poder, em Vassouras não vai ficar só nisso, e como consequência surge uma vida urbana e cultural”, explicou. O professor Erivelto complementou: “Para eles, apenas ser rico não era suficiente, eles queriam fazer parte da elite. Conhecer a história desse período ajuda a gente a entender a ideia de elite no Brasil”, revelou.

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Também foi colocado por ambos os professores o papel da escravidão nessa sociedade. Márcia destacou as estratégias de sobrevivência e leitura dos escravos como sujeitos históricos. Erivelto, que faz pesquisa na região, contou que o tema é ausente nas visitas guiadas e museus do local, e fez um apelo aos estudantes: “Fica o convite para a galera de Literatura para, quando estudar romantismo, discutir essas relações, sobretudo aquela geração condoreira, Castro Alves, Gonçalves Dias. É preciso perceber o que esses homens estão vendo para escrever literatura. E eles estão vendo isso aí, sofrimento, escravidão, poderio econômico, opulência, esses homens achavam que não iam empobrecer nunca”.

A literatura dentro dos livros e no palco

Além de palestras, mesas-redondas e comunicações coordenadas, a Semana de Letras também apostou no lúdico como forma de conhecimento. Em sintonia com o tema do evento, “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo”, o espetáculo teatral “De dentro dos livros” arrancou risadas e também levou à reflexão. A peça fez uma oposição entre leitura e tecnologia, na qual personagens dos livros se materializaram em busca de novos leitores, já que estão desaparecendo devido ao interesse das crianças pela tecnologia.

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

A ideia de apresentar a obra partiu da estudante do 3º período de Letras Amanda Barboza, que também foi monitora da Semana. Ela, que é atriz e integra o Grupo Pipa, disse ter se surpreendido com o resultado, já que o espetáculo é mais voltado para o público infantil. “Eu até chamei uns alunos do CAEL para assistirem, mas as pessoas mais velhas também gostaram muito e riram bastante, porque mesmo as peças infantis têm apelo para outros públicos. O teatro foi a minha primeira profissão, conseguir a arte com a minha segunda profissão, que é ser professora, eu achei ótimo”, disse.

“As minhas raízes são aqui”

Pelos corredores da FEUC, no último dia da Semana de Letras, o professor Gustavo Adolfo da Silva  poderia passar despercebido pelo pátio não fosse o cumprimento dos mestres do curso de Letras acolhendo-o, agradecendo sua presença e parabenizando-o. Convidado a palestrar, ele não pôde participar por conta de outros compromissos, mas fez questão de prestigiar o evento. Gustavo, que é professor aposentado pela UERJ, cursou mestrado e doutorado na UFRJ e tem 13 livros publicados — sendo três de poesia — garante que a FEUC é a sua casa: “A minha graduação foi aqui, minha primeira especialização foi na FEUC, sou morador de Campo Grande. Eu dei aulas aqui durante dez anos, as minhas raízes são aqui”, disse.

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre 1974 e 1984 Gustavo lecionou disciplinas de Filologia, Sintaxe e Estilística. Sua atuação como professor, no entanto, foi passada adiante por meio de seus livros e das histórias de colegas. O professor Erivelto foi um dos que o encontraram e não perdeu a oportunidade de agradecê-lo: “Querido mestre, que satisfação reencontrá-lo. Seja bem-vindo a esta casa mais uma vez, é uma inspiração para nós. A sua presença nos honra muito e nos incentiva a continuar, porque os seus ensinamentos são importantes e a sua trajetória profissional é de inspiração para todos nós”, saudou.

Ligeiramente tímido, ele agradeceu o reconhecimento e o dedicou ao magistério: “Quando a gente está nessa idade, eu tenho 70 anos, sempre dedicado ao magistério, o magistério foi minha vida, é muito bom ouvir isso. É muito gratificante, para mim, ter o reconhecimento de ex-alunos, daqueles que leram os meus trabalhos. São coisas que a gente pode dizer que valeu a pena. A atividade docente vale a pena pelo reconhecimento de todos aqueles que eu convivi ao longo da minha vida”, acentuou.

Enquanto esperava sua neta que estuda no CAEL, ele aproveitou para mostrar, aos estudantes, seus livros que estavam à venda na banca do evento. Desconhecido da maioria, mas fundamental para a história do curso de Letras das FIC.

Mais fatos e fotos:

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda "Letramento literário como ferramenta de inclusão", na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda “Letramento literário como ferramenta de inclusão”, na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda "Pibid na formação continuada do docente" e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda “Pibid na formação continuada do docente” e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso "Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca", que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso “Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca”, que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

‘No Pibid eu descobri o que eu queria fazer da minha vida’

 

A fala emocionada de uma das bolsistas do Pibid Letras demonstra um pouco a importância do Programa de Iniciação à Docência

Por Pollyana Lopes
emfoco@feuc.br

É de Raissa Lima a fala que dá título a esta matéria. As palavras foram pronunciadas no lançamento do CD produzido pelo subprojeto de Letras, com gravações das crianças da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guaratiba, lendo textos clássicos. Depois de um ano inteiro de atividades desenvolvidas nas escolas públicas da região, os subprojetos de História, Ciências Sociais e Letras do Pibid promoveram em novembro eventos para apresentar à comunidade os resultados das atividades.  O Pibid Letras reuniu toda a comunidade escolar em torno de uma grande cerimônia, já os estudantes das escolas estaduais Irineu José Ferreira e Fernando Antônio Raja Gabaglia lotaram o auditório da FEUC para debater a questão de gênero junto de bolsistas, coordenadores e supervisores dos subprojetos de Ciências Sociais e História. Em agosto, os bolsistas de Geografia já haviam apresentado, no Centro Interescolar Miécimo da Silva, os documentários realizados com os estudantes de lá em seu subprojeto.

Auditório lotado durante um dos debates da segunda edição do Pibid em Movimento. (Foto: Gian Cornachini)

Auditório lotado durante um dos debates da segunda edição do Pibid em Movimento. (Foto: Gian Cornachini)

II Pibid em Movimento

O debate “Violações e violência de gênero: processo histórico e resistências” contou com a participação da professora do curso de História Marcia Vasconcellos e a advogada, assistente social, teóloga e pastora da Igreja Metodista Rute Noemi da Silva Souza. Mas o destaque da conversa foi a madura participação dos estudantes, que fizeram intervenções com falas empoderadas, contaram vivências particulares e casos de violências sofridas.

Marcia buscou mostrar, em sua fala, que o machismo que perpassa as relações sociais atualmente é herança direta do sistema patriarcal, que colocava apenas os homens como autoridade legítima das famílias. Para isso, ela apresentou casos de mulheres que, durante o período da escravidão no Brasil, romperam essa mentalidade. Entre os casos documentados que a professora apresentou destacam-se o da mulher branca, oriunda de um grupo da elite, que geria o patrimônio da família, mesmo com a repreensão dos filhos; e o das negras escravas que, com trabalho lícito de venda de tabuleiros, compravam a liberdade e se tornavam arrimos de família, com posses registradas e casamentos em regime de separação de bens.

“O que eu quero mostrar para você é que as mulheres sempre resistiram ao patriarcalismo. Não eram todas as mulheres ricas que viviam sob a égide dos maridos, e as mulheres negras escravas utilizavam meios lícitos, e não apenas o roubo e a prostituição, para comprarem a própria liberdade e se tornarem pessoas autônomas”, explicou Marcia.

Rute Noemi: pastoraressaltou a necessidade de se quebrar o ciclo da violência. (Foto: Pollyana Lopes)

Rute Noemi: pastora ressaltou a necessidade de se quebrar o ciclo da violência. (Foto: Pollyana Lopes)

Já Rute Noemi da Silva Souza utilizou sua formação multidisciplinar para instigar os estudantes a pensarem o quanto são atingidos, cotidianamente, por diversas formas de violência, e como também podem ser reprodutores dessa lógica. Ela utilizou a definição de palavras como violência, gênero, agressividade, machismo e espiritualidade para levar os estudantes a reflexões e atuação por uma cultura de paz.

“Como eu faço para ter essa cultura de paz? Primeiro você precisa ficar inquieta, inquieto com tudo isso que está sendo dito para você. Para meninas: não tenham medo de namorado! Não tenham medo de usar a roupa que vocês usam, porque a culpa do estupro não é da sua roupa, a culpa do estupro é do estuprador. Ele que está praticando um crime. E, olha, eu sou uma pastora. A gente tem que se libertar dessas amarras que fazem com que a gente só reforce a violência”, reiterou Rute.

Depois da longa apresentação das palestrantes, os estudantes ocuparam o microfone com questionamentos e proposições. A colocação de mulheres transgênero no mercado de trabalho; gordofobia na escola; o papel da mulher negra na sociedade, ainda mais marginalizado que das mulheres brancas, e a fetichização por elas sofridas; a violência sofrida por homens pobres, que reproduzem essa lógica, foram alguns dos temas trazidos pelos alunos, junto de exemplos e experiências pessoais.

“O discurso do feminismo é importante para todas, mas é mais importante para as mulheres negras como eu. Quando eu vejo feministas como Clarice Falcão e Emma Watson recebendo total apoio da população porque batem na tecla do feminismo, eu reparo que o que elas falam já foi dito por pessoas negras há muito mais tempo. As blogueiras negras, Malcon X, Martin Luther King, os Panteras Negras, todos figuras negras que estão batendo na tecla do machismo e da opressão muito antes de Clarice Falcão e afins. Mas ainda assim, porque ela é branca, bonita, classe média, tem toda a atenção da sociedade. Legal, mas pessoas da minha cor estão morrendo muito mais do que pessoas da cor dela”, provocou Marcele Lopes, estudante do 3°ano do Colégio Estadual Irineu José Ferreira.

Clássicos da literatura para quem não pode ler

No subprojeto de Letras do Pibid FIC, os bolsistas promovem oficinas de leitura com estudantes do primeiro segmento da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guratiba. O objetivo é desenvolver a capacidade de interpretação e compreensão na leitura, o que já é uma causa nobre, mas os exercícios são gravados e o produto dos áudios também tem finalidade generosa: CDs com as gravações serão distribuídos para escolas e institutos que orientam cegos.

Os professores Erivelto e Arlene palestram em evento do subprojeto de Letras. (Foto: Pollyana Lopes)

Os professores Erivelto e Arlene palestram em evento do subprojeto de Letras. (Foto: Pollyana Lopes)

No evento de lançamento do volume I do audiolivro “No caminho das Letras”, o pátio da escola recebeu bolsistas, estudantes, pais e professores. Foi com grande alegria e orgulho que todo o grupo apresentou o resultado dos trabalhos desenvolvidos dentro da escola desde março deste ano. Foram oficinas diárias, com leituras de textos clássicos de domínio público, que incluíam autores como Casimiro de Abreu, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Olavo Bilac, além do poeta pernambucano, radicado em Campo Grande e frequentador das atividades da FEUC nos últimos anos de vida, Primitivo Paes.

Dentre os alunos mais assíduos nas oficinas está Ingryd Estefane Ferreira de Campos, de 11 anos. A estudante do 6°ano estava acompanhada da mãe, Gleicy Ellen Ferreira de Jesus, no lançamento do audiolivro. “Ela agora está bem melhor, pegando mais livros para ler na biblioteca e também na igreja. E na leitura, em vista do que ela era, está bem melhor”, conta a mãe, que acrescenta que o desenvolvimento de Ingryd ultrapassa a leitura: “Ela também está até se expressando melhor. Às vezes, conversando, ela consegue encaixar melhor algumas palavras, se expressar melhor”, conta.

Elo entre os graduandos e os estudantes, as professoras supervisoras perceberam os resultados dos trabalhos para além das leituras que eram gravadas, como comentou Joice Mara Gonçalves de Souza, uma das supervisoras. “Foi muito bom ver os alunos participando das oficinas e melhorando o desempenho nas outras matérias, se prontificando para fazer as leituras”, disse.

O progresso e o crescimento intelectual também afeta os bolsistas que, depois de uma série de orientações e discussões internas em coletivo para preparar as oficinas, encontram na escola espaço para o exercício da docência. Joyce Silva dos Santos, do 6º período, está no projeto desde o início, ainda no segundo semestre de 2014. Ela conta como amadureceu sua atuação enquanto professora no programa: “O crescimento que eu pude obter a partir das pesquisas e do trabalho diretamente com eles foi espetacular. Nós desenvolvemos pesquisa na área de letramento, relacionadas à produção do audiolivro e, principalmente, nós desenvolvemos essa prática pedagógica que é o que a gente mais estuda, a mediação literária”.

Alunos da escola Euclides da Cunha no lançamento do CD "Caminho das Letras". (Foto: Pollyana Lopes)

Alunos da escola Euclides da Cunha no lançamento do CD “Caminho das Letras”. (Foto: Pollyana Lopes)

As possibilidades enriquecedoras do programa também foram colocadas por outros bolsistas em declarações emocionadas. Isadora Lins contou que foi chamada de professora, pela primeira vez, no projeto; Andreia da Silva Neto Passos falou sobre a relação entre teoria e prática que o Pibid possibilita; e numa das falas mais comoventes, que dá título a esta matéria, Raissa Caroline da Silva Lima contou que se descobriu na profissão: “Eu entrei no projeto esse ano e não esperava que seria uma experiência tão maravilhosa. Fiz amigos e cresci como ser humano. Eu vou sentir muita saudade, porque antes do projeto eu não sabia que eu queria ser professora e foi uma experiência maravilhosa, porque no Pibid eu descobri o que eu queria fazer da minha vida”, contou, entre um soluço e outro, a estudante.

Como a atividade foi realizada durante o dia, os estudantes do EJA (Educação de Jovens e Adultos) participantes não puderam estar presentes, pois só frequentam a escola à noite. Vendo a quase decepção deles, a bolsista Flávia Daiana, do 6º período de Literaturas, não pensou duas vezes: providenciou para o horário noturno uma cerimônia quase igual, com entrega de certificados e muita emoção. “È bacana ver nossos bolsistas tomando iniciativas e acolhendo os alunos como um verdadeiro educador deve fazer”, comentou a professora Arlene Figueira, coordenadora do subprojeto de Letras.

Prontos para fazer a diferença

 

O recado está dado: certos da escolha pela licenciatura, nossos alunos querem ser professores e transformar a educação 

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes
emfoco@feuc.br

Alguns dos muitos aprovados em concursos: amor e expectativa para entrar em sala. (Foto: Gian Cornachini)

Alguns dos muitos aprovados em concursos: amor e expectativa para entrar em sala. (Foto: Gian Cornachini)

A carreira do magistério está em baixa? A julgar pelos números do Ministério da Educação, que mostram sempre menos ingressantes nos cursos de licenciatura com relação aos anos anteriores, pode-se dizer que sim. Uma das explicações seria o investimento do Governo em cursos de engenharia e tecnologia, que têm atraído mais estudantes devido à demanda do mercado. Tal fenômeno é semelhante na FEUC (menos ingressantes nas licenciaturas), e aqui também temos a particularidade de ter aberto, nos últimos anos, novos cursos nas modalidades de bacharelado e tecnólogo. Entretanto, professores e alunos das licenciaturas relatam um maior entusiasmo com relação à carreira, e isso pode ser atribuído ao “gás” trazido pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) e às repetidas aprovações que muitos vêm obtendo em concursos públicos, confirmando a profissão como de grande potencial de empregabilidade.

De acordo com o Censo de Educação Superior de 2013, o número de concluintes das licenciaturas em todo o Brasil vinha crescendo timidamente até 2011 (apenas 2,1%, se comparado a 2010), mas teve queda: foram 4% menos formados em 2012, em contraposição a 10,3% mais bacharéis e 16,2% mais tecnólogos. Isso significa menos professores aptos a ingressar no mercado, anualmente. Além disso, o estudo do MEC “PNE e os desafios da Meta 15”, abordado em setembro pelo jornal O Globo, aponta que 40% dos professores do ensino médio poderão se aposentar nos próximos seis anos, revelando uma possível abertura de vagas ainda maior para quem realmente quer ser professor.

Arlene Figueira, diretora de ensino da FEUC, explica que a desqualificação da carreira docente é um dos motivos de desinteresse na área: “São salas lotadas, baixos salários e falta de plano de carreira, mas é preciso mudar isso”, observa ela, que leciona na rede municipal há 23 anos. Segundo Arlene, já se vislumbra um movimento pela melhora do ensino e do trabalho do professor, mas é necessário que todos lutem por isso: “A educação foi massacrada por muito tempo, desde a ditadura militar. Mas a pressão tem feito diversas prefeituras desenvolverem, agora, um plano de carreira melhor. O próprio Pibid é um desses movimentos de tentar qualificar. Dou aula há mais de vinte anos e nunca tinha visto no magistério pessoas ganhando bolsas para melhorar a docência. E a ‘Pátria Educadora’ só irá existir mesmo com propostas de uma educação que transforme, porque a gente só muda de política e de comportamento com a educação”.

E aí repetimos a pergunta: a carreira do magistério está em baixa? Na FEUC, pode ser que não.

 

Encontro de histórias e conquistas

 

Ramayana garantiu uma vaga para professora quando estava no 2º período de Letras. (Foto: Gian Cornachini)

Ramayana garantiu uma vaga para professora quando estava no 2º período de Letras. (Foto: Gian Cornachini)

Ramayana Del Secchi Linhares cursou formação de professores no ensino médio e, por isso, pôde assumir o cargo de Professor 2 quando passou em seu primeiro concurso, ainda estando no 2º período da graduação. Já em prática, ela reconhece as dificuldades da rede pública: “É um desafio imenso. E você tem que estar muito bem preparado, ter uma estrutura muito boa para fazer a diferença na vida do seu aluno, independente de a escola ter estrutura ou não”. Literata, Ramayana pretende fazer pós-graduação em Estudos Literários na FEUC quando se formar, e cita Fernando Pessoa para mostrar seu empenho na carreira docente, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

Da metalurgia na CSA para o magistério. Esse foi o caminho do recém-formado em Geografia Ricardo Ferreira da Cunha, que escolheu a educação pública como uma área mais segura e tranquila para trabalhar: “Falam sobre o trabalho do professor, que não tem uma estrutura boa. Em parte é verdade, mas nada que você não possa encarar. E na indústria eu passava uma rotina muito ruim. Eu vi na educação uma maneira de sair daquilo, de ter mais estabilidade. E não estou arrependido. Foi a melhor coisa que eu já fiz na vida”, revela, com orgulho.

Ricardo trocou a metalurgia pela licenciatura, e já passou em seis concursos para a educação. (Foto: Gian Cornachini)

Ricardo trocou a metalurgia pela licenciatura, e já passou em seis concursos para a educação. (Foto: Gian Cornachini)

Ricardo já trabalha em escola. É inspetor de alunos no CIEP 311 Deputado Bocayuva Cunha, em Paciência, desde o início da graduação. Mas a vontade mesmo era de estar nas salas de aula. Ele já passou em seis concursos, e atualmente aguarda os resultados oficiais de vagas para o ensino municipal e estadual em Angra dos Reis, onde pretende trabalhar integralmente. “Eu já lido com adolescente no Colégio, assim não vou ser pego de surpresa, apesar de em sala de aula ser diferente, claro. Mas não vou correr. Estou ansioso, quero dar aula, virar professor!”, afirma ele.

Descobrir qual carreira seguir nem sempre é fácil. Pedro Pimenta Pieroni precisou ser pressionado pelo chefe a ingressar na universidade para obter uma promoção, e só assim se encontrou profissionalmente. “Mudei a minha vida toda quando vim fazer Ciências Sociais. Desisti daquela ideia de estudar para ganhar dinheiro. Comecei a fazer faculdade de Administração porque o meu antigo chefe me mandou fazer uma faculdade para ser promovido. Eu fiz supletivo e não tive sociologia na escola. Fui ter o primeiro contato com a sociologia na faculdade de Administração. Aí eu juntei um dinheirinho, pedi demissão para estudar e estou aqui até hoje com o objetivo de dar aula, dar aula no ensino público”, completa.

Há também quem descubra a vocação para o magistério só na segunda graduação, em área totalmente diferente. Alex Rosa da Silva ainda cursava Relações Públicas quando sua professora de antropologia observou seu talento em dialogar de maneira didática. Alguns anos depois de formado ele resolveu seguir o conselho de fazer uma licenciatura e ingressou no curso de Ciências Sociais. Formou-se no primeiro semestre deste ano e também passou no concurso do estado do ano passado. Questionado sobre a certeza de ser professor, ele afirma, enfático: “Absoluta! Eu já sou professor, inclusive dou aulas no CAEL. E acredito que posso fazer a diferença no ensino público porque não quero ser mais um na educação. Pegar toda a educação pública e dizer que é ruim, é o que o capital quer”, opina.

Para alguns, realizar o sonho de estudar e se tornar professor pode vir um pouco mais tarde. Luciana Silva de Souza, que estampa a capa desta edição da revista FEUC em Foco, era dona de casa e se ocupava com a rotina dos filhos e em fazer tapetes. “Mas eu era uma dona de casa meio estranha, que lia Marx, Dostoiévski. Eu gosto de política, de economia”, conta. Com os filhos independentes, o interesse por esses assuntos a levou, finalmente, a iniciar uma graduação. E ela não teve dúvidas quanto ao curso: “Escolhi fazer Ciências Sociais para compreender as relações sociais, para me descobrir. Por exemplo: por que as mulheres são tratadas de forma diferente dos homens? Para descobrir, por exemplo, sobre o racismo, sobre a homofobia. Para compreender as políticas públicas, principalmente, o porquê de algumas serem destinadas mais para alguns setores e não para outros — a educação, por exemplo”.

Pedro, Alex e Luciana, de Ciências Sociais, mudaram suas atribuições para lecionar. (Foto: Gian Cornachini)

Pedro, Alex e Luciana, de Ciências Sociais, mudaram suas atribuições para lecionar. (Foto: Gian Cornachini)

Luciana passou no concurso do estado de 2014 para a região de Queimados, mas teve que pedir fim de fila, pois ainda não havia se formado. Prestes a colar grau, ela aguarda sua vez de entrar em sala de aula como professora. “Desde criança eu sempre quis ser professora, mas a vida vai levando a gente para outros caminhos. O professor guarda dentro de si um conhecimento muito grande e transformador, não de manipulação, mas transformador, de colocar as pessoas conscientes do meio e do mundo. Ele não tem só o papel de ensinar a pessoa para colocá-la no mercado de trabalho”, reforça.

Com apenas 21 anos, Caroline Melo da Silva é pedagoga formada e já tem história ligada à docência. Descobriu-se na educação por meio do sonho da mãe, que ela também abraçou ao entrar em contato com a pedagogia: “Minha mãe sempre quis que eu fosse professora. Comecei o normal, acabei gostando muito e resolvi seguir. Consegui uma bolsa, vim para a FEUC e aí gostei mais ainda, porque aqui tive professores que me inspiraram muito”, conta. Caroline passou no concurso de Duque de Caxias para dar aulas na educação infantil. Ela já trabalha no setor  administrativo de uma escola e não vê a hora de entrar em sala de aula: “Eu prestei concurso para Caxias e a gente tem visto a demanda, a dificuldade que as escolas estão enfrentando. Acho que agora eu tenho uma forma de ajudar com o meu conhecimento — que é tão pouco ainda — essas crianças que vão vir para mim de um lugar que eu ainda não sei qual é, mas que, com certeza, têm muita necessidade”, acredita.

Formada em Pedagogia, Carol quer usar seu conhecimento para ajudar crianças a progredir. (Foto: Gian Cornachini)

Formada em Pedagogia, Carol quer usar seu conhecimento para ajudar crianças a progredir. (Foto: Gian Cornachini)

É comum que o sonho da sala de aula venha acompanhado da motivação em continuar estudando e se aperfeiçoando. Concursada, Mônica Silva do Nascimento começou a trabalhar em 1987 como auxiliar na educação infantil e, agora no 2º período de Pedagogia, busca se especializar. Para ela, o curso tem um papel diferente: “A graduação melhora meu desempenho como profissional na minha área de trabalho. Ela faz a diferença. As pessoas que trabalham comigo já notaram que o meu modo de agir está diferente. Eu fiz o caminho inverso, mas já está tendo bons resultados”, ressalta.

Nesse grande encontro de histórias sobre nossos futuros professores, há também curiosas surpresas. Alguns alunos têm relatado a aprovação nos concursos mesmo sem ter dedicado tempo extraclasse para estudar. É que o conteúdo dado em sala de aula está tão fresquinho na cabeça, que não fica difícil conseguir bons resultados. Exemplo disso são as amigas Andressa do Nascimento Corrêa e Lucimar Kaizer dos Santos, do 7° período de Pedagogia, que tentaram o mesmo concurso para Duque de Caxias. Elas aguardam, agora, a avaliação de títulos e a classificação geral para, então, saber se serão chamadas. De qualquer maneira, ambas têm muito a se orgulhar, pois fizeram a prova apenas com base no que aprenderam em aula: “Com a preparação que eu tive no curso consegui passar em uma colocação legal. E eu considero que fiquei bem para quem não estudou especialmente para a prova”, relata Andressa.

Lucimar também pensa assim, principalmente porque fez a prova quando estava abalada emocionalmente: “Passei por problemas dentro de casa e não queria fazer a prova. Mas eu fiz muitas amizades aqui, e minhas colegas me incentivaram a ir. E, mesmo despreparada, eu passei!”, destaca ela. Aliás, motivo para se orgulhar não lhe falta. Ex-vendedora de cosméticos, Lucimar chegou ao ensino superior aos 40 anos. Cansada do comércio, ela se encantou pela educação: “Para mim foi um momento de superação, porque quando eu cheguei aqui eu estava há vinte e poucos anos sem estudar. Estou fazendo o meu terceiro estágio, e isso me mostrou a importância de estar em sala de aula. Eu vi que gosto e quero ser professora mesmo”, diz ela, lamentando não ter ingressado na licenciatura há mais tempo: “Se tivesse estudando antes, eu saberia até educar meus filhos melhor. A faculdade fez uma diferença muito grande na minha vida. Você adquire bastante experiência, até mesmo se alguém quiser te enrolar, você vai saber argumentar, ter um poder de crítica”, valoriza.

Já as pedagogas Verônica Faustina Nogueira e Andressa Gonçalves da Silva Rodrigues não deixaram passar as oportunidades. Elas fizeram o concurso de Caxias quando estavam no último período da graduação, no início deste ano, e ambas têm planos de ingressar na pós-graduação das FIC enquanto aguardam ser chamadas. Andressa acertou 43 das 50 questões da prova e ressalta que o seu mérito está ligado à formação que teve nas aulas: “A faculdade nos deu conteúdo próprio de concurso. Não tive tempo de estudar, e eu posso afirmar que o conteúdo que é dado na FEUC é preparando os alunos para a carreira profissional e também para qualquer concurso público”, destaca. E Verônica pondera que a licenciatura nas FIC foi um diferencial em sua vida: “Foi um divisor de águas. Eu entrei de um jeito e hoje sou muito melhor”. A pedagoga já dá aulas no ensino privado, mas pretende se realizar no ensino público: “O sonho de todo professor, todo profissional, é um trabalho público. Vou me realizar porque é isso que a gente busca”, afirma.

Isabela Marques, que também é pedagoga, formada em 2012, fez concurso no ano seguinte e agora foi chamada. Ainda falta uma etapa, a prova prática, mas ela está confiante de que vai passar, pois tem certeza de que o conteúdo aprendido na graduação foi completo: “Tudo o que caiu no concurso, eu aprendi na FEUC. Fez toda a diferença, porque eu não fiz formação de professores”, ressalta ela, que não vê a hora de começar a dar aula e fazer a diferença: “Acho que temos que colocar o ser humano acima de tudo, antes mesmo do conteúdo, e valorizar aquele indivíduo”, salienta.

O objetivo de Sabrina Damasceno Born de Barros, ao se inscrever na prova de Duque de Caxias, era adquirir experiência em concurso. Para surpresa da estudante, que na ocasião cursava o 5º período de Letras-Espanhol, ela passou na prova. Se já tiver colado grau quando for chamada, dará aulas em sua área. “Eu não não me preparei. Realmente passei com base nos estudos que tive aqui”, revela a aluna, contando sua expectativa com o futuro emprego: “Dizem que a rotina é um pouco puxada, mas minha intenção é essa: fazer a diferença, ajudar os adolescentes, as crianças a progredirem em suas vidas estudantis e profissional. E ajudar a sociedade a ser um pouquinho melhor”.

Apesar de facilmente encontrar casos de estudantes que passaram nos concursos apenas com o preparo que a graduação já oferece, Érick Patrick, estudante do 6º período de História, avalia também ser necessário o esforço pessoal nos estudos. Ele, que passou no concurso do estado de 2014 e no do município de Caxias deste ano, debruçou-se na bibliografia da prova, inclusive comprando livros que ainda não tinha: “Como eu não trabalho, estudo todos os dias, de segunda a sexta, de manhã e à tarde”.

Esforço e muito estudo. Essa também foi a fórmula de Leandro de Sousa Martins, recém-formado em Matemática e professor do CAEL, aprovado no concurso do estado de 2014. “Ao meu ver, os professores, pelo menos na área de Matemática, incentivam você a fazer o concurso, dão a base, tiram as dúvidas, mas não é só isso. Você tem que ir além para conseguir passar”, recomenda. Leandro participou de uma série de projetos extra-aula, como preparação para o Enade, Desbloqueando (que oferecia aulas de reforço para a comunidade), resolução de questões de concurso para o YouTube e o Pibid. “Tudo isso me deu uma base para passar nesse concurso. Além de estudar em casa, porque eu adoro estudar, aprender! E eu quero ir além da faculdade”, declara.

Questionado sobre a realidade do ensino público, ele destaca as experiências que já teve no estágio e no Pibid: “A gente trabalhava no Pibid as operações básicas, que são a base para toda a matemática, de forma lúdica, divertida, aplicando jogos para tirar o estigma de que a matemática é muito difícil. Com certeza, isso vai fazer toda a diferença”, diz Leandro, certo de que é possível fazer uma transposição didática do conteúdo científico e trazer para a realidade do aluno.

 

Ensino básico melhorado e superior enriquecido

 

Algo que tem ajudado os alunos das FIC a ter certeza de que querem mesmo o magistério é a participação no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid). Além da PUC, a FEUC é a única outra instituição particular de ensino do Rio incluída no programa do Governo Federal, que concede bolsas de R$ 400 para que os licenciandos desenvolvam pesquisas e atividades didático-pedagógicas em escolas públicas da região, em parceria com docentes desses colégios e sob supervisão de professores das FIC. São cerca de 170 bolsistas atualmente, oriundos de todas as licenciaturas, menos Computação.

Grupo de bolsistas do Pibid de História durante visita à Alerj: aprendizado para ser repassado. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo de bolsistas do Pibid de História durante visita à Alerj: aprendizado para ser repassado. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes de Ciências Sociais realizam oficinas inspiradas na realidade do ambiente em que a escola está inserida, com a finalidade de instigar o pensamento críticos dos jovens. Os de Geografia utilizam ferramentas audiovisuais para criar curta-metragens como experimentação metodológica. Já os graduandos em História trabalham a análise crítica com estudantes do ensino médio sobre a educação e o ensino da disciplina. Quem é do Pibid de Letras (Português-Inglês) faz pesquisas sobre os pontos fortes e fracos do trabalho desenvolvido por professores de língua inglesa em sala de aula, enquanto os de Letras (Português) estão focados em identificar principais dificuldades de leitura dos estudantes. Os licenciandos em Matemática desenvolvem materiais didáticos para auxiliar no melhor desenvolvimento cognitivo dos alunos. Os futuros pedagogos trabalham o letramento de crianças por meio de contos, cantigas de roda, quadrinhos e elementos da cultura popular. E os integrantes do subprojeto Interdisciplinar, que engloba bolsistas de todas as licenciaturas, desenvolvem ações didático-pedagógicas a partir da utilização de livros das literaturas africanas e afro-brasileira.

A aluna Mariana Mendonça de Oliveira, do 3º período de Geografia, é bolsista do Pibid desde março e já colhe bons frutos no projeto que desenvolve com outros colegas no Centro Interescolar Estadual Miécimo da Silva, em Campo Grande. Ela orientou estudantes do 2º ano do ensino médio e técnico em Edificações a produzir um documentário sobre a valorização da cultura africana e afrodescendente no Rio de Janeiro. “Esse trabalho me ajudou a conhecer mais sobre a cultura africana e a saber como orientar mais os alunos. A gente vem aqui no horário das aulas de Geografia e ajuda eles, tem uma vivência na sala de aula, conhece o dia a dia deles, o que eles passam e as suas necessidades”, explica Mariana.

No entanto, o benefício de ter uma formação mais sólida não se restringe apenas aos bolsistas do Pibid, pois o programa tem o caráter de promover a troca entre a universidade e a escola de formação básica, e a melhoria do ensino público é o principal objetivo. Foi possível notar essa transformação durante a mostra de curtas apresentados no final de agosto, no Miécimo. A aluna do 2º ano de Edificações Eliana Cristina Gomes da Silva, de 15 anos, participou da produção do documentário e avalia o projeto como de grande importância para desconstruir preconceitos e instigar o pensamento crítico: “Agora eu acho que está sendo mais comum debater o tema da cultura negra por causa deles [pessoal do Pibid]. As pessoas usam termos racistas como se fosse normal. Exemplo: falar que a pessoa é morena. Muita gente chega em mim hoje e já não fala mais isso porque sabe que eu acho totalmente errado, porque a pessoa ou é branca, parda ou negra. Morena é uma forma de embranquecer a pessoa”, diz Eliana, com firmeza.

Esse caráter de colocar o estudante para pensar, sem dúvida, é marca do programa. Em julho, a FEUC recebeu alunos de dois colégios parceiros do Pibid e, em uma tarde de muita interação, o tema da redução da maioridade penal esteve em discussão. Após palestras de Renato Teixeira de Sousa, membro da Comissão de Segurança Pública da OAB, e Tobias Faria, educador popular do IFHEP, os alunos se dividiram em grupos, sob orientação dos bolsistas do Pibid, e debateram sobre suas opiniões a respeito. Ao fim do encontro, eles apresentaram suas conclusões, revelando se mudaram ou não de opinião em relação ao assunto. Entre os que mudaram, a maioria alegou estar mal-informada sobre os motivos de quem defende a criminalização dos jovens a partir de 16 anos. “A gente é bombardeado o tempo todo por muitas informações e não sabe separar o que tem um princípio verdadeiro do que não tem. Nossos pais não sabem nos passar como usar a tecnologia a nosso favor, como uma ferramenta para pesquisar. Nós só seremos melhores com mais educação”, analisou a estudante Nathália, do colégio Raja Gabaglia.

Alunos do colégio Raja Gabaglia falam sobre maioridade penal em evento do Pibid. (Foto: Gian Cornachini)

Alunos do colégio Raja Gabaglia falam sobre maioridade penal em evento do Pibid. (Foto: Gian Cornachini)

Depoimentos como esse provam que professores com formação sólida são capazes de fazer mais pela educação. E é por isso que os integrantes do Pibid buscam, sempre que possível, aprofundar os conhecimentos em espaços além dos muros da faculdade ou das escolas. Vivian Zampa, que coordenou o subprojeto de História até o semestre passado, variava bastante as atividades com o grupo, e em julho levou os bolsistas à Praça XV de Novembro, à Alerj e à exposição de Picasso, no CCBB: “A ideia desse trabalho de campo é pensar as aulas de história de uma forma diferente, de observar o patrimônio histórico e social. E o Rio de Janeiro é um lugar muito privilegiado para nós, historiadores. Mas o principal objetivo foi o de mostrar que a História está viva, a História não precisa estar presa nos livros didáticos, ela não precisa estar presa ao convencional, ao cuspe e giz”, explica. O bolsista Allan Felipe Santana Fernandes, do 6º período de História, confirma a importância da experiência: “Achei a atividade de campo muito boa, de suma importância para a nossa formação docente. E a formação em História não é só metodologia, teoria, escrita, dentro de sala. Ter o contato com o patrimônio da nossa própria cidade é de suma importância, não só enquanto historiadores e professores, mas enquanto cidadãos cariocas”, reforçou.

 

Bolsista vê programa como meio de fortalecer sua formação

A maioria é crítica quanto à qualidade da escola pública que frequentou, por isso quer fazer parte da solução dos problemas e se tornar um professor melhor

 

grafico pibid 1Com o desejo conhecer melhor o perfil do bolsista Pibid/FIC e sua percepção sobre o projeto e as atividades desenvolvidas, a FEUC em Foco realizou uma breve pesquisa de opinião com o grupo, obtendo respostas de cerca de 70% dos integrantes então em atividade. Nesse universo de 106 bolsistas, constatamos que mais da metade (58%) cursa o 6º e o 7º período, portanto são estudantes prestes a se formar. Praticamente 90% deles estão em sua primeira graduação, sendo que 83% afirmam que fazem exatamente o curso que sempre quiseram, e quase a totalidade deles (93,4%) já ingressou na licenciatura com a intenção clara de atuar em sala de aula. E o que é um orgulho para a instituição: 100% afirmam estar gostando muito de seus cursos.

grafico pibid 2 - 3 e 4

Quanto à participação no Pibid, perguntamos se a vivência no programa os fez mudar a percepção sobre a carreira de professor, e somente 2 responderam que não, e justificaram dizendo que as práticas apenas reforçaram sua opção e o que já sabiam sobre a profissão. Os outros 104 revelaram que o programa mudou, sim, sua percepção, e as justificativas variaram em tom e intensidade, mas de modo geral giraram em torno da descoberta de que é possível mudar para melhor o que eles próprios experimentaram no ensino público.

“Tem me ajudado a perceber as possibilidades para além das mazelas do magistério”, disse um. “Antes eu achava que realmente o sistema moldava totalmente a forma de ensino na sala de aula, e com o Pibid percebi que o professor consegue contextualizar suas aulas de maneira autônoma”, afirmou outro. “Mudou o rumo da minha carreira e meu modo de ver a docência, mostrou que somos exemplos, somos mais políticos do que imaginamos”, constatou um terceiro. Sobretudo, as respostas demonstram o tanto que esta geração está empenhada em parar de só reclamar dos problemas e se incluir como parte da solução: “Aumentou o senso de responsabilidade com minha formação para poder atender os meus futuros alunos com mais propriedade e excelência”.

Por fim, quisemos saber a opinião deles sobre a relevância deste programa no contexto da necessidade de melhorar a educação. De novo as respostas foram otimistas, e o que observamos é que eles reconhecem a iniciativa do projeto de investir na melhor formação dos professores, e se mostram dispostos a fazer sua parte: “Um professor que tem a oportunidade de passar pelo Pibid durante sua graduação nunca mais será o mesmo. E, toda vez que pensar em desanimar, lembrará de suas práticas enquanto bolsista e se reinventará a cada dia”.

E como o que se quer é justamente profissionais mais autônomos e mais críticos, fechemos com este depoimento: “Acredito que o Pibid seja importante para os alunos esquecidos pelo poder público, para os professores que esqueceram o motivo de terem desejado estar em sala de aula trabalhando, para as escolas que se transformaram em prédios de frequência obrigatória e, principalmente, para um sistema que permitiu que tudo isso acontecesse, tratando a escola, a educação, os profissionais que dela vivem como um peso, e a população como um estorvo. Posso parecer agressiva, mas projetos de incentivo à educação deveriam ser mais comuns e de continuidade prolongada, ao contrário do que costumamos ver. Educação não deveria ser um luxo dos que podem pagar por ela, inclusive por ser algo em que toda a população investe, através dos impostos”. Então, que o Pibid tenha vida longa!

Uma fã de literatura e cinema

 

Renata Gomes — a ‘Glória Maria da educação’ — é professora de inglês e vice-coordenadora do curso de Letras

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Renata Gomes defendeu em junho sua tese de doutorado. (Foto: Gian Cornachini)

Renata Gomes defendeu em junho sua tese de doutorado. (Foto: Gian Cornachini)

Foi nas salas de aula das FIC que a professora de inglês Renata de Souza Gomes teve o insight do que viria a ser o seu tema de pesquisa no doutorado em Linguística Aplicada, que ela defendeu em junho passado no Programa Interdisciplinar de Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O título, ela chama a atenção, “parece até enredo de escola de samba”: “Estudo sobre possíveis ressignificações de A Streetcar Named Desire, de Tennessee Williams, na sala de aula de literatura dramática em um curso de Letras”. Trocando em miúdos, Renata investigou o quanto a literatura circula de forma mais fluente quando adaptada ao cinema.

“Quando comecei a dar aulas na faculdade, em 2009, já explorava essa interação entre literatura e cinema, levando à sala de aula versões cinematográficas de textos estudados, para estimular o interesse dos alunos. E foi essa experiência que acabou moldando a tese”, conta Renata, que também é vice-coordenadora do curso de Letras. De tanto ouvir questões do tipo “Se vi o filme, posso deixar de ler o livro?”, “Gostei mais do filme do que do livro” e “Acho que o diretor do filme corrompeu o sentido do livro”, a professora se interessou por investigar mais a fundo até que ponto o uso do cinema tinha o poder de alavancar o letramento crítico literário dos alunos, e para isso escolheu um autor de língua inglesa — o dramaturgo Tennessee Williams — e uma obra específica dele: a peça “Um bonde chamado desejo”.

Ela então formou três grupos focais de alunos: um que somente leu a peça, outro que apenas viu o filme e um último que leu a peça e viu o filme. E pôs todo mundo para debater, longamente. “Minha pesquisa consistiu em analisar essas falas, observando o modo como cada grupo construiu seu entendimento a partir do acesso que teve à obra, e de que maneira o cinema auxiliou nessa construção”, revela Renata. Segundo a professora, uma das principais conclusões da tese é que o uso do cinema na educação dá mais voz ao aluno, dessacralizando um pouco a literatura e tornando-a acessível a públicos maiores.

Especificamente no caso estudado, Renata observou que os estudantes se sentiram mais empoderados no campo literário, a partir da perspectiva de poderem atuar também como críticos: “Vendo que a versão cinematográfica era um modo de o diretor interpretar a obra literária, eles se permitiram também interpretar, o que é extremamente positivo no letramento crítico”, explicou a professora, que sempre sonhou fazer uma tese que não fosse engavetada depois. Para ela, os resultados obtidos apontam para a total pertinência da integração entre cinema e literatura na sala de aula: “Quando o professor se concentra apenas no estudo da crítica literária, o aluno se torna mero consumidor de teoria”, acredita.

Renata recebeu da FEUC uma plaquinha em homenagem à conquista profissional. (Foto: Gian Cornachini)

Renata recebeu da FEUC uma plaquinha em homenagem à conquista profissional. (Foto: Gian Cornachini)

Renata recebeu da FEUC uma plaquinha em homenagem à conquista profissional. (Foto: Gian Cornachini)

Renata recebeu da FEUC uma plaquinha em homenagem à conquista profissional. (Foto: Gian Cornachini)

Renata Gomes começou a cursar Letras muito cedo, aos 16 anos, e naquele momento ainda tinha uma pontinha de dúvidas sobre se deveria trocar para Jornalismo. Mas, quando teve a primeira aula de literatura de língua inglesa, as dúvidas se dissiparam: “Eu me encontrei, e na mesma hora disse: quero dar aula de literatura inglesa!”, conta a professora, fã de literatura e cinema, que além do ensino superior leciona também no básico, dando aula de língua inglesa em uma escola municipal.

O longo período de pesquisa no doutorado, somado ao trabalho diário e a problemas de saúde vividos em família, tornaram Renata meio reclusa nos últimos tempos. Tem poucos meses que ela voltou, timidamente, a se entregar a alguns prazeres, como sair com os amigos e pôr o cinema em dia. Para o futuro, os planos são ao mesmo tempo simples e trabalhosos: profissionalmente, fazer um pós-doutorado em letramento literário; na vida pessoal, aprender a cozinhar, construir sua casa e… casar — não necessariamente nesta ordem: “Não sei fritar um ovo!”.

E se o caro leitor sentiu falta da referência à idade da professora neste breve perfil, saiba que não foi por esquecimento de perguntar: “Eu não revelo! Sou uma espécie de Glória Maria da educação: ninguém sabe a minha idade. Meus alunos vivem fazendo apostas para descobrir. Então, se eu contar, acabo estragando um dos maiores prazeres deles”, despista a professora.

Procura-se professor de Inglês e Espanhol

 

Com a multiplicação de eventos internacionais na cidade, vinda de estrangeiros para trabalhar aqui e a implantação de lei que rege o ensino de língua estrangeira nas escolas, cada vez mais há espaço no mercado para a atuação de profissionais licenciados em idiomas estrangeiros 

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Fazer cursinho de inglês já foi moda em tempos passados. Hoje em dia, estudar e aprender o idioma é mais do que necessidade — e chega a ser estratégico, como é o caso de quem pretende fazer mestrado e doutorado ou trabalhar em atividades ligadas a empresas estrangeiras. Diante disso, a busca por cursos livres tem aumentado, e com ela a procura desesperada por bons professores de idiomas. Junte-se a isso a lei federal 11.161, de 2005, que instituiu a inclusão da Língua Espanhola no Ensino Médio, e está desenhado um cenário mais do que positivo para os formados nesses idiomas, sobretudo os que contam com diploma de Licenciatura: “O professor licenciado tem mais opções do que o mero instrutor de língua estrangeira, pois este só pode atuar nos cursos livres, enquanto o outro pode dar aulas também nas escolas regulares e nas universidades”, explica Renata Souza Gomes, vice-coordenadora de Letras das FIC.

Adriano Oliveira: após se graduar, instrutores trocam curso por escola. (Foto: Gian Cornachini)

Adriano Oliveira: após se graduar, instrutores trocam curso por escola. (Foto: Gian Cornachini)

O professor de espanhol Adriano Oliveira, graduado nas FIC e prestes a se doutorar pela UFF, confirma na prática o que diz Renata. Segundo ele, muitos alunos seus da graduação atuam nos cursos livres enquanto fazem a faculdade, e logo que se formam partem para concursos públicos ou buscam escolas privadas de ensino regular, que remuneram melhor: “Tem a questão do salário e também uma certa estabilidade que é maior nas escolas regulares”, diz Adriano, lembrando que nos cursos livres a rotatividade de professores é alta. De fato, o piso salarial do instrutor (R$ 11 a hora/aula, conforme o site do Sindelivre) é mais baixo que os dos professores (R$ 15 a hora/aula para os particulares, de acordo com o site do SinPro, e R$ 12 para os do município do Rio, conforme o Sepe). “E até na hora da aposentadoria há desvantagens”, diz Renata, lembrando que o instrutor não é enquadrado como professor, portanto não tem direito à aposentadoria especial com menos tempo de serviço.

Mas as diferenças não se resumem a isso. Hudson Barros, professor de inglês da Faculdade Machado de Assis (FAMA), que se graduou e doutorou pela UFRJ, conta que fez cursinho de inglês antes e também trabalhou como instrutor durante a faculdade. Depois de licenciado é que pôde refletir melhor sobre o tipo de aula que recebia no cursinho: “A preocupação era só com oralidade, pronúncia, e com dar aulas dinâmicas e motivadoras, mas não havia qualquer unidade metodológica, cada um ensinava de um jeito diferente, e boa parte das dúvidas dos alunos sobre o idioma não era respondida”, analisa.

Victor Ramos, que se formou ano passado nas FIC em Português/Inglês, aos 21 anos, mas que atuava como instrutor em cursinhos desde os 14, pois começou a estudar inglês muito cedo, diz que a faculdade mudou muito sua forma de lecionar: o conhecimento de literatura, cultura, fenômenos linguísticos e conceitos de educação trouxeram uma reflexão maior sobre todo o processo de aprendizagem. “Falo isso como ‘instrutor’ e como professor de escola regular. Hoje acredito que, mesmo havendo essa bipartição instrutor/professor, da qual sou contra, os instrutores devem considerar que a faculdade de Letras é o caminho para um trabalho mais adequado”, avalia.

Privilegiar fluência ou didática? De preferência, os dois

Bruna: exemplo de seus professores a motiva a dar o melhor em sala. (Foto: Acervo pessoal)

Bruna: exemplo de seus professores a motiva a dar o melhor em sala. (Foto: Acervo pessoal)

Bruna Serra, de 23 anos, concluiu Português/Inglês nas FIC em dezembro de 2012 e acredita que o domínio da didática tem ajudado neste seu início de carreira. Ela fez alguns processos seletivos, passou em concurso do município para lecionar Língua Portuguesa e dá aulas de inglês para turmas do 1º ao 6º ano em uma escola privada. Nas entrevistas que fez em alguns cursos de inglês, observou que a preferência é dada a quem melhor domina a língua, mesmo sem formação acadêmica. Ela diz que entende o lado dos donos de cursos, pois é mais difícil encontrar profissionais que aliem as duas coisas, mas avalia que os que tiveram formação didática saberão responder melhor às dificuldades dos alunos: “Na FEUC, aprendi com os professores o modo como eles tratavam o conhecimento, com comprometimento e seriedade. Pude ver a forma humana de interagir com os alunos, com companheirismo e respeito. Isso me motiva a dar o melhor como professora”, completa.

Dono do WSA, Paulo Roberto Magalhães Faria gosta da facilidade de poder trabalhar com instrutores ou licenciados em seu curso, mas afirma que dá preferência aos licenciados: “Eles já trazem um conhecimento didático forte. É óbvio que, como posso optar, quando aparece alguém que domina bem o idioma e tem o perfil exigido, contrato mesmo sem ser licenciado. Mas incentivo sempre que se graduem. Hoje, a maior parte das minhas equipes é de graduados ou de instrutores que estão buscando a faculdade”, diz.

Formação inicial e continuada é fundamental

É certo então que instrutor sempre dá aula ruim e professor graduado dá aula boa? Nem de longe existe essa lógica, afirmam Hudson Barros e Victor Ramos. Hudson lembra que há ‘instrutores’ e ‘instrutores’: “Alguns se mantêm como instrutores apenas temporariamente, e buscam a faculdade para se aperfeiçoar”, diz ele, lembrando que estes depois migrarão para escolas ou alcançarão uma posição de mais prestígio nos próprios cursos. “Lamentavelmente — completa Victor — há os que dizem dar aula em cursinho só para ‘ganhar uma graninha extra’, sem compromisso com o magistério”. Estes, na opinião dos dois, estarão fadados a uma carreira simplória.

Hudson: não necessariamente instrutor dará aula ruim e professor aula boa.(Foto: Gian Cornachini)

Hudson: não necessariamente instrutor dará aula ruim e professor aula boa.
(Foto: Gian Cornachini)

Atualmente cursando mestrado na UFF e lecionando tanto em cursinhos como em escolas regulares e faculdade — num total de 6 empregos — Victor considera fundamental a formação inicial e continuada para o professor: “Sugiro, como pessoa que viveu (e vive) nessa corda bamba, uma reflexão sobre a formação dos professores de línguas: se, de um lado, temos instrutores fracos em didática, de outro temos professores com carências linguísticas que só poderão ser superadas com o apoio alternativo”, opina Victor, que tem no currículo 8 cursos na área de inglês e 27 na de educação. “Na graduação em Matemática, por exemplo, não se ensina a tabuada, a somar e dividir; uma base é necessária e, por vezes, ‘correr atrás’ faz toda a diferença”.

O muito jovem Victor tem no currículo 8 cursos de inglês e 27 de educação. (Foto: Gian Cornachini)

O muito jovem Victor tem no currículo 8 cursos de inglês e 27 de educação. (Foto: Gian Cornachini)

Bruna Serra reconhece isso: ela tinha estudado inglês na adolescência e, ao entrar na faculdade, estava fora do cursinho há alguns anos, por isso teve dificuldades: “Desde o 1º período até o último me empenhei muito para aprender a gramática da Língua Inglesa. A cada período era um desafio, visto que eu não dominava a língua. Hoje eu ainda preciso aprender muito, principalmente na oralidade, mas a faculdade me ensinou muito na parte gramatical e didática”, diz.

Ainda a respeito da expansão do mercado de trabalho para os formados em Letras, Adriano Oliveira lembra que a busca por professores de português que ensinem aos estrangeiros que se mudam para cá levou à criação da Associação dos Professores de Português para Estrangeiros do Estado do Rio de Janeiro (Aple-RJ). Por meio dela, alunos de graduação e professores filiados podem obter informações sobre eventos, cursos, pós-graduação e até oportunidades de trabalho.

 

13 DICAS DE OURO

Diante da incrível trajetória de Victor Ramos, pedimos a ele que ensaiasse alguns conselhos para quem quer seguir a carreira de professor de língua estrangeira. Por lecionar inglês, ele faz referência direta a este idioma, mas as recomendações servem aos que estudam qualquer língua. “Não há uma receita, mas vou descrever alguns dos passos que tomei como referencial e trouxeram, como reflexo, seis empregos e a felicidade de estar no caminho certo”, adianta Victor.

1 – Tenha certeza de que é isso que você gosta e quer fazer, pois também existem outros empregos com carga horária flexível. Vamos tentar estimular o trabalho de pessoas que viveram em prol do ensino da língua. Quem sabe esse não seja o caminho para lutarmos por melhores condições de trabalho!?

2 – Defina um plano de metas consigo mesmo: provas que fará, nível a que chegará, cursos e locais em que trabalhará.

3 – Comece um estudo aplicado na língua inglesa, a princípio em um curso que se encaixe ao seu jeito de ser. Não existe o melhor curso, existe o curso que mais se adapta às suas necessidades.

4 – Após um conhecimento mais profundo da línguae nível de fluência, faça cursos complementares e faça provas de proficiência (Cambridge, Michigan etc.), pois elas dão reconhecimento internacional para sua competência na língua, como também dão pontos nos processos seletivos, além de atribuir bonificações nos planos de carreira.

5 – Entre na graduação em Letras: o conhecimento Intermediário da língua fará com que seu aproveitamento seja bem maior.

6 – Inicie sua carreira trabalhando com aulas particulares, o número de alunos é mais limitado e você vai adquirindo confiança e didática pessoal para turmas maiores.

7 – Faça uma rede de contatos com outros professores para troca de ideias.

8 – Participe dos treinamentos para “instrutores” oferecidos pelos cursos, assim você terá acesso às diversas abordagens, designs, propostas e metodologias.

9 – Atue em cursos de idiomas e em escolas. É interessante “passear” pelos dois, pois as propostas são diferentes e você acaba por adquirir “vícios” de um ou de outro quando fica muito tempo somente em uma área. Eu, por exemplo, trabalho com Fundamental, Médio, Superior, cursos de abordagem comunicativa e cursos com abordagem audiovisual – fazendo isso, estou “antenado” com todas as áreas.

10 – Faça concursos e participe de todos os processos seletivos, mesmo antes de terminar a graduação, pois tudo será experiência acumulada.

11 – Assista aulas de colegas e peça para que eles assistam algumas suas: trocar ideias é fundamental.

12 – Quando estiver em sala, busque atuar frente às necessidades específicas do grupo e peça feedback: o ensino da língua deve gerar algum resultado ao fim do período de ensino, seja a leitura, a oralidade ou o conhecimento da gramática.

13 – Seja um eterno apaixonado pelos fenômenos da língua e os relacione com a atualidade (atuando em seus estudos ou com suas turmas). A teoria deve ser vista na prática. Entendemos melhor que will, dentre outros usos, indica previsão quando vemos que Bruno Mars diz “It will rain”. E por fim só podemos entender o verb be se, de fato, entendermos quem somos e onde estamos.

Como o professor prepara uma aula?

 

A revista FEUC em Foco foi atrás de respostas

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Na última edição da revista, o estudante Gabriel Boti, do 9º ano do Ensino Fundamental, deu entrevista para a matéria “Estudo, Adrenalina e Diversão” (leia em http://migre.me/eNFt3). Depois de vê-la impressa, sugeriu uma pauta em cima de uma dúvida sua: “Eu queria saber como é que um professor prepara uma aula”, questionou o jovem. A revista FEUC em Foco foi atrás de respostas para a questão.

O coordenador do curso de Matemática das FIC, professor Alzir Fourny Marinhos, sugere algumas etapas na preparação das aulas: “O primeiro foco é a busca por respostas: o que pretendemos ensinar? O que esperamos alcançar? Ensinar para quem? Quais as competências e habilidades que podemos construir?”, lista Alzir. Para o professor, o planejamento nasce após uma análise da turma: “É necessário visualizar o conhecimento social e acadêmico dos alunos, que está subordinado a vários aspectos”, constata ele.

Essa análise é um dos pontos chaves na hora de preparar uma aula. Quem explica isso é Lorelaine Saurina Machado, professora do curso de Letras. Ela ministra aulas de estágio orientado — uma disciplina que, dentre outros objetivos, ensina o futuro professor a planejar suas aulas — e enfatiza a importância de o docente conhecer bem seus alunos para saber o que deve ser ensinado: “Cada turma tem a sua necessidade, suas especificidades. O professor descobre isso na prática, tomando conhecimento das deficiências de seus alunos”, afirma.

Outro ponto é que cada escola exige que os conteúdos sejam trabalhados à sua própria maneira, como explica Lorelaine: “Há escolas que só passam uma referência e o professor monta sua aula a partir dela. Já outras dão uma apostila com o conteúdo de cada aula pronta e ele é obrigado a seguir esse material. Mas isso não significa que o professor não possa buscar outras leituras paralelas para complementar sua aula — que é o que eu indico que seja feito”, esclarece ela.

E um exemplo de professor que prepara bem suas aulas? A revista FEUC em Foco fez uma rodada de perguntas a estudantes do CAEL durante um intervalo de aula. O nome que mais apareceu entre as respostas? “Cristiano da biologia”.

Professor utiliza recursos audiovisuais para dinamizar e exemplificar as aulas de biologia.(Foto: Gian Cornachini)

Professor utiliza recursos audiovisuais para dinamizar e exemplificar as aulas de biologia.
(Foto: Gian Cornachini)

O professor Cristiano Santiago Ferreira dá aula de biologia no colégio e tem boa reputação entre os estudantes, como revela Matheus Marques de Souza, de 16 anos, aluno do 1º ano de Edificações: “As aulas dele são muito interessantes porque chamam bastante a nossa atenção. Ele usa data show, mostra imagens, vídeos; não é só aquela coisa de explicação, sabe?”, observa Matheus.

Cristiano conta como prepara as aulas que fazem dele um professor querido entre os estudantes: “Eu delimito os objetivos que eu quero com as aulas e me preocupo em conectar as ideias abordadas para que tudo faça sentido”, explica ele. O professor faz essas conexões por meio de exemplos reais do mundo da biologia no próprio dia a dia das pessoas. Para isso, ele se utiliza de tecnologias como internet e projetores em sala de aula para exemplificar aquilo que está ensinando. Segundo Cristiano, essa técnica de ensino faz diferença no aprendizado: “A aula deve ser dinâmica, e a interação do professor com o aluno é importante. O estudante, quando estimulado, contribui para a aula acrescentando informações vivenciadas por si mesmo. Até nós, professores, acabamos aprendendo com eles”, revela Cristiano.

Para a professora Lorelaine, a aproximação com o estudante é outro ponto essencial para uma aula bem preparada e executada: “A gente tem que se dar a chance de ouvir o aluno para que ele diga o que realmente deseja aprender, ler, fazer, como ele quer crescer.  Isso é construção coletiva de conhecimento, e todos ganham dessa maneira. O professor não fica desmotivado, nem o aluno entediado”, assegura Lorelaine.

Matheus e seus colegas do 1º ano de Edificações prestam bastante atenção na aula de biologia.(Foto: Gian Cornachini)

Matheus e seus colegas do 1º ano de Edificações prestam bastante atenção na aula de biologia.
(Foto: Gian Cornachini)

Semana de Geografia e Meio Ambiente: 14º edição do evento começou hoje

Até sexta-feira serão debatidas questões ligadas ao ensino de Geografia e a formação de professores; atividade de campo será realizada no sábado

Da redação
emfoco@feuc.br

Começou hoje a XIV Semana de Geografia e Meio Ambiente (XIV SG&MA), que acontece entre os dias 5 e 8. O tema dessa edição é “Geografia e Meio Ambiente – repensando a prática do ensino em Geografia e a formação docente”. O evento acontece nas manhãs e noites dos dias 5, 6 e 7, das 8h às 12h e das 19h às 21h40min; e no sábado, dia 8, das 7h às 18h. Estão ocorrendo hoje – e se estendem até sexta-feira – diversas palestras sobre o tema proposto. No sábado haverá um trabalho de campo em Sepetiba, na cidade do Rio de Janeiro. Todas as palestras acontecem no Auditório FEUC e a participação nas atividades pode render até 32 horas de atividades complementares. As inscrições são realizadas no setor de Cursos Livres e o investimento é de R$ 20,00. Para assistir às palestras é necessário chegar com uma hora de antecedência e fazer o credenciamento.

"O livro tem seu discurso ideológico, muitas vezes associado à classe dominante" - Narayana Fernandes. (Foto: Gian Cornachini)

“O livro tem seu discurso ideológico, muitas vezes associado à classe dominante” – Narayana Fernandes. (Foto: Gian Cornachini)

Duas palestras abriram a 14ª edição da SG&MA. A primeira, proferida pela professora Narayana Fernandes de Sousa (Geografia/FEUC), teve como tema “O livro didático e a prática docente”. Narayana debateu o uso do livro didático em sala de aula e a necessidade de o professor não se ater somente a este objeto de ensino: “A gente não pode ter o livro como verdade, pois a verdade deve ser questionada. O livro tem seu discurso ideológico, muitas vezes associado à classe dominante. Portanto, o papel do professor é utilizar esse livro como mais um recurso para a sua aula, ou seja, uma espécie de apoio, e fazer uma análise crítica das questões abordadas pelo autor”, afirmou a professora.

Já a segunda palestra teve como tema “Do trabalho de campo à aula passeio” e foi proferida por Leandro Tartaglia, mestre em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor da rede pública do Rio. Falando para uma plateia de graduandos, Leandro ensinou como o professor deve planejar uma atividade de campo e debateu a importância de uma iniciativa dessa aplicada nas escolas: “O professor não precisa ir longe para explicar sobre o meio ambiente. Se a escola não dispuser de recursos, sugiro que você use sua criatividade e conhecimento geográfico do entorno em que você está inserido e aproveite esses espaços para promover atividades de campo”, destacou Leandro.

"O professor não precisa ir longe para explicar sobre o meio ambiente" - Leandro Tartaglia. (Foto: Gian Cornachini)

“O professor não precisa ir longe para explicar sobre o meio ambiente” – Leandro Tartaglia.
(Foto: Gian Cornachini)

Coordenador do curso explica a XIV Semana de Geografia e Meio Ambiente

Luiz Mendes de Carvalho Filho, coordenador do curso de Geografia das FIC, elaborou um texto explicativo sobre a XIV SG&MA. Confira abaixo:

O curso de Geografia da FEUC\FIC ao organizar a XIV Semana de Geografia & Meio Ambiente (XIV SG&MA) que ocorrerá entre os dias 05 e 07 de junho de 2013, nas dependências da FEUC, vai ao encontro dos anseios expostos pelo corpo discente na enquete realizada na XIII SG&MA: uma semana centrada na formação do docente, realidade do contexto escolar e perspectiva profissional do Magistério, em particular da Geografia. Desta forma a XIV SG&MA traz o tema: GEOGRAFIA & MEIO AMBIENTE – repensando a prática do ensino em Geografia e a formação docente.

Na construção dos objetivos e finalidades da XIV SG&MA teve-se a preocupação em pensar o ensino em Geografia e a formação docente não constrito ao modelo, ao didatismo desprovido de conteúdo e da percepção sem crítica ao mundo.  Ao contrário, ao refletirmos sobre a relação do livro didático com a prática docente estamos sinalizando a compreensão do papel e limite deste como instrumento formador.  O que qualifica ações que ao incorporarem o lúdico como recurso didático permitem a percepção do tempo e do espaço em sua dimensão cotidiana, sempre dinâmica, seja em escala histórica ou geológica.

A formação docente pressupõe o reconhecimento e posicionamento diante da relação entre a educação e as políticas públicas para as licenciaturas. Como também o qualificar “fazer ciência” como objeto e campo da prática docente, seja através da reflexão sobre a relação entre os projetos pedagógicos e ação do professor pesquisador, desembocando em procedimentos imprescindíveis para ensinar Geografia, tais como o trabalho de campo e a aula passeio. Tais enfoques e assuntos permeiam a XIV SG&MA.

Assim, contribuímos para a formação de um docente cidadão, crítico, capaz de contribuir para uma vida mais plena de sentidos e de solidariedade; consciente que os instrumentos utilizados na prática docente necessitam de constante reflexão, visando à eficácia dos processos de ensino e aprendizado.

É importante a participação do aluno, pois neste evento serão apresentados e debatidos temas de interesse à prática docente em Geografia comumente não trabalhada em sala de aula, além disto, muitos dos palestrantes atuam na rede de ensino municipal e estadual do Rio de Janeiro.  Outro ponto forte é a participação de ex-alunos do Curso informando suas experiências, expectativas e atuação no Magistério, sua continuidade de formação e titulação (Mestrado e Doutorado), apresentando sua visão como alunos e atualmente como profissionais de ensino, focando na importância da IES em sua formação e o esforço pessoal na busca de aprimoramento profissional e acadêmico.

A XIV SG&MA está organizada em diversas atividades: Conferência de Abertura, Palestras, Colóquios, Exposições, Trabalho de Campo, Atividades Cultural e Musical; distribuídas entre os dias 5 a 8 de junho.  Nos dias 5 a 7 de junho o evento acontecerá das 7h40min até 12h e das 18h até ás 21h50min. No sábado, dia 8 de junho, ocorrerá o Trabalho de Campo para a Baixada de Sepetiba (passando pelo Porto de Itaguaí, Ilha da Madeira e Guaratiba) com previsão de saída às 8h e retorno previsto às 18h. A temática do Trabalho será a evolução urbano-rural da Baixada.

A Comissão Geral, a Comissão Executiva e Monitores do evento, em concordância com a Coordenação do Curso, são responsáveis pela organização XIV SG&MA.  A Comissão Geral é composta pelos professores Artur Sérgio Lopes, Isaac Gabriel Gayer Fialho da Rosa, Rosilaine de Sousa Araújo e Heleno Getúlio Paulo.  A Comissão Executiva é composta pelos alunos Adilson Almeida Guimarães, Gisele de Freitas Berriel, João Carlos Cabral; os Monitores são representados pelos alunos Anice Duarte Lopes Montes, Danieli de Azevedo Gomes,  Eduardo Cândido das Neves, Flaviane Ferreira de Almeida, Marcella Gabi Caetano Santanna, Luma Pereira da Silva, Mirella Alves Porto de Oliveira, Rafaella de Lima Costa e Thiago de Oliveira Ribeiro.  Além disto, o aluno Nilton Santos é responsável pela “Exposição de Rochas” que ficará exposta durante todo o evento, e também atuará junto com os colegas Vinícius Barbosa Vianna da Mata e Thiago de Oliveira Ribeiro na atividade musical que acontecerá na sexta-feira, à noite.

A profa. Rosilaine de Sousa Araújo e o Prof. Artur Sérgio apresentarão trabalhos, sob a forma oral e pôster, junto com seus alunos, respectivamente, das disciplinas de Geografia Física do Brasil e Geografia Agrária.

As inscrições devem ser feitas no Setor de Cursos Livres/Cepope, o aluno que participe de todo o evento (manhã, noite e trabalho de campo) poderá obter até 32h/a.  O valor do investimento é de R$20,00/aluno para inscrições individuais, para grupos de dez alunos a inscrição será de apenas R$10,00.  O Trabalho de Campo será cobrado à parte, uma vez que só temos 40 vagas e o custo será de aproximadamente R$12,00/aluno.

O programa geral é apresentado a seguir:

Clique na imagem para visualizar a programação completa

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Por que temos medo de mudanças?

 

Por Rafael Dias Ribeiro
Mestre em Sistemas e Computação
e professor do Bacharelado em
Sistema de Informação das FIC

Com o dinamismo das organizações em uma economia cada vez mais orientada aos nanossegundos, as mudanças organizacionais serão sempre mais frequentes e necessárias.  Entender as mudanças, seus processos e seu poder de transformação (para o bem ou para o mal) é essencial para que qualquer organização possa se manter saudável e competitiva. Segundo dados do Gartner Group, cerca de 70% dos projetos de TI falham em uma de suas metas; já o CHAOS Group indica que perto de 50% dos projetos de TI são cancelados antes do tempo e, dos que chegam ao final, cerca de 82% são entregues com atraso; enquanto a KPMG revela que menos de 40% dos projetos finalizados atingem seus objetivos de negócio. Acredito que tais dados estejam bem próximos da realidade de outras áreas, não sendo exclusividade dos projetos de TI.

As boas práticas, como as apresentadas no Project Management Body of Knowledge (PMBok) ou em métodos emergentes como o SCRUM, aumentam as chances de sucesso de um projeto e são cada vez mais bem aplicadas. Um componente, porém, é frequentemente ignorado: a gestão de mudanças. Acredito que seja um fator crítico de sucesso para qualquer projeto organizacional e pode ser resumida como a atenção especial com o ser humano e suas peculiaridades.

Segundo o Human Change Management Institute (HCMI), a Gestão de Mudanças em Projetos tem como objetivo “planejar, aplicar, medir e monitorar ações de gestão do fator humano em projetos de mudança, ampliando as chances dos resultados esperados serem atingidos e superados”.

Daryl R. Conner, em seu trabalho Managing at the Speed of Change, delineia assim a receptividade a mudanças em culturas estáveis: 40% aceitam com muito convencimento; 30%, somente depois que a mudança foi bem sucedida; 20% aceitam com um pouco de convencimento; e apenas 10% o fazem de imediato.

Em circos, elefantes filhotes eram amarrados em cordas de até 1,5 metro de extensão durante seu treinamento; por certo tempo eles tentavam se libertar, sem sucesso. Ao atingirem a idade adulta, estavam condicionados a se manter naquela área restrita, desconhecendo a força que então lhes permitiria romper a corda sem grande esforço. Muitos profissionais na organização vivem como elefantes de circo: aprendem algumas ferramentas, desenvolvem certas habilidades e se limitam a elas. Mas por que temos tanto medo de mudar?

No contexto antropológico, o ser humano foi modelado durante milhares de anos para não mudar e sim manter o status quo sempre que possível. Antes das primeiras comunidades de caçadores e agricultores se estabelecerem, o homem era nômade e via-se obrigado a migrar toda vez que sua área se esgotava. Com o domínio das artes de cultivo e sobrevivência em uma determinada região, ele se estabeleceu, mas como ainda havia risco de sofrer invasões por outras tribos, construiu cercas e muralhas para garantir a zona de segurança e conforto e assim evitar a perda do espaço conquistado. Vemos este comportamento no inconsciente coletivo como o medo da mudança: é possível observar no meio corporativo que construímos nossos muros em atividades, áreas e departamentos para garantir nossa zona de conforto, e isso é refletido na dificuldade de implantação de novos projetos que alterem o funcionamento de processos ou a estrutura das organizações.

Decisões sempre implicam riscos, mas não tomar decisão também é um modo de decidir, normalmente com os piores custos para quem não se manifestou e para a organização. É comum observar organizações com cicatrizes de mudanças anteriores mal conduzidas, o que aumenta a sensação de insegurança e a resistênciaa inovações. Estas, porém, são necessárias e irão ocorrer cada vez com maior frequência.

A atenção na gestão de projetos – com um bom planejamento de comunicação, riscos, estratégias de identificação das partes interessadas antagonistas e protagonistas, assim como o uso de ferramentas e habilidades adequadas para a criação do plano de mudanças – pode incrementar as chances de um resultado positivo e duradouro. (http://www.rafaeldiasribeiro.com.br)