Tag: Lúdico

Jogos, números e aprendizados

 

A XXII Octobermática trouxe o lúdico para o centro do debate sobre novas metodologias no ensino de Matemática

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini
4
emfoco@feuc.br

Os alunos fazem quase tudo: organizam as palestras, ministram oficinas, preparam materiais para serem apresentados nos estandes, enchem bolas de ar e coordenam as presenças. A XXII Octobermática ofereceu aos estudantes de Matemática não apenas palestras com profissionais de renome e temas relevantes, mas também um exercício de protagonismo na própria formação.

Camisa azul do evento destacou-se no auditório e no pátio da FEUC. (Foto: Pollyana Lopes)

Camisa azul do evento destacou-se no auditório e no pátio da FEUC. (Foto: Pollyana Lopes)

Na divisão das tarefas, os afazeres são claros e envolvem os estudantes de todos as turmas: os mais experientes, do 7º período, definem o tema, delegam as funções e controlam a presença dos alunos; os estudantes do 6º período preparam e ministram oficinas; quem está no 5º período fica incumbido de encenar uma peça teatral; e os demais são responsáveis pelos estandes. Com o trabalho partilhado, a participação e a presença de todos se torna ainda mais importante, como ressalta Ana Carla Pimentel de Albuquerque: “Nós, do 7º período, temos o privilégio de estar à frente organizando, mas isso é um trabalho em equipe que envolve todos, porque se um período não compartilhar da mesma ideia, da mesma vontade, já não sai da mesma forma, não sai com aquele brilho”.

Pois foi com brilho e muita alegria que tudo transcorreu. O lúdico não esteve presente apenas nos temas, mas também na descontração dos palestrantes e no trato entre alunos e professores, que se misturavam e se confundiam, todos com a camisa azul do evento deste ano. Um exemplo foi a professora Aline de Queiroz, que é formada em Tecnologia em Processamento de Dados e em Matemática, e dá aulas de Informática Educativa e Educação, Comunicação e Tecnologia. Interessada pelo tema, ela ouvia atentamente as explicações dos alunos sobre os jogos criados por eles: “Eu gosto muito de tudo o que tem a ver com jogo e Matemática, e acho muito interessante porque é esse tema que eu pesquiso no mestrado. Eu criei um jogo de tabuleiro virtual chamado ‘Avançando na Matemática’ – que tem foco nas operações multiplicativas – e apliquei aqui no CAEL. Você pode construir o conhecimento do aluno pelos jogos. O lúdico é prazeroso e é conhecimento!”, reforçou.

Palestras

"A ordem dos tratores não altera o viaduto". Essa e outras frases divertidas deram graça a palestra de Lucinha, como é conhecida Lúcia Villela.

“A ordem dos tratores não altera o viaduto”. Essa e outras frases divertidas deram graça a palestra de Lucinha, como é conhecida Lúcia Villela.

O tema da palestra era sisudo, o nome da palestrante inspirava respeito e seu currículo é de referência, mas a descontração de Lúcia Maria Aversa Villela, professora na UERJ, demonstrou, assim como o tema do evento, que é possível aprender matemática com diversão. Em meio a trocadilhos como “a ordem dos tratores não altera o viaduto”, ela falou sobre “História da Educação Matemática na formação de um professor: para que serve?!”, na qual diferenciou a história da Matemática e a história da educação matemática para apresentar aos futuros professores questões que problematizam o conteúdo que eles ensinarão em sala de aula.

Ela, que se define como Chacrinha – “o que eu quero é levantar questões, e não responder” – reforçou a necessidade de se pensar sobre a própria atuação a partir da história da Matemática: “O que é história da Matemática e como nós podemos utilizá-la? Apenas como alegoria, dando exemplos de tempos remotos, ou como curiosidade? Ou como mote de reflexões sobre a sua prática docente? Quem sabe, ainda, como disparadora para perceber o seu papel na profissão?”. A partir disso, ela explicou que “é importante efetuar um trabalho que atribua sentidos ao passado e ao presente, transformando esses materiais em reflexões sobre muitos aspectos”.

Com canal de vídeos de sucesso, youtuber Rafael Procópio ensina Matemática de forma divertida. (Foto: Gian Cornachini)

Com canal de vídeos de sucesso, youtuber Rafael Procópio ensina Matemática de forma divertida. (Foto: Gian Cornachini)

Matemática além do espaço físico da escola foi assunto central da palestra de Rafael Procópio, criador do canal de vídeos no YouTube “Matemático Rio”, onde posta aulas divertidas e com a finalidade de despertar o interesse do público pela área. Atualmente, o canal conta com cerca de 200 mil seguidores, e os passos para o sucesso foram revelados ao público da Octobermática. Segundo Rafael, o que conta em um canal educacional é o conteúdo: “Se você tem um conteúdo bom e atraente, o canal vai dar certo. Outra coisa é a consistência e a periodicidade das postagens”, atentou Rafael, que também deu dicas sobre técnicas de filmagem: “A primeira coisa é comprar um microfone, e não uma câmera. Você pode usar a câmera que tiver, mas áudio ruim cria incômodo e a galera vai sair do vídeo. Conforme o seu canal for crescendo, você vai investindo em equipamento”.

Mostra de trabalhos

A programação da XXII Octobermática manteve reservadas a manhã e a noite de um dia exclusivamente para os estudantes mostrarem, na prática, como é possível aprender brincando. Na apresentação de trabalhos nos estandes, turmas do 1º, 2º, 3º e 4º períodos exibiram os jogos que eles mesmos produziram. Teve versão fracionada de sudoku, espécie de quebra-cabeça baseado na colocação lógica dos números; explicações sobre o sorobán, ábaco que funciona na base cinco; e até pegadinhas, como na mágica dos números, em que o participante mentaliza um número aleatório, faz um determinado cálculo e o resultado da conta tem um símbolo que é adivinhado.

Grupo de Felipe Braga propôs jogo matemático de cartas. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo de Felipe Braga propôs jogo matemático de cartas. (Foto: Gian Cornachini)

O estudante Felipe Braga, do 2º período, propôs com seu grupo um jogo matemático de cartas com a finalidade de ajudar estudantes a assimilarem os conceitos da aritmética básica: “A gente trabalhou conhecimentos sobre adição com alunos do primeiro segmento pelo método da diversão, e foi uma experiência enriquecedora, no sentindo de que eu, como futuro professor, aprendi mais um método de transmitir o conhecimento que eu adquiri”, destacou ele.

Já a aluna Caroline Santana Ferreira, do 4º período, levou com sua equipe tabuleiros de xadrez e dama para extrair desafios e cálculos matemáticos desses jogos: “O tabuleiro é uma forma geométrica dividida em outras formas geométricas. Cada peça se move de maneira diferente, e essas formas se relacionam com fórmulas matemáticas. Isso estimula o aluno e ele aprende a se concentrar com o jogo e aplicar a matemática sem se dar conta”, notou ela.

Segundo a aluna Caroline Santana, os estudantes aprendem matemática com o xadrez sem perceberem. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo a aluna Caroline Santana, os estudantes aprendem matemática com o xadrez sem perceberem. (Foto: Gian Cornachini)

Amanda Silva, estudante do 1º ano do técnico em Química do CAEL, visitou os estandes e participou de algumas brincadeiras: “Achei legal, raciocinei bastante. Sempre fui meio lerda para a Matemática, e aqui foi legal. São técnicas que podem ajudar”.

Professor do curso de Matemática das FIC, Leandro Silva Dias explica que o debate sobre os jogos na Matemática é importante por dois motivos: “O tema é relevante porque na educação básica não basta para o aluno ter aula teórica de Matemática, ele tem que ter algo que tenha significado para que ele aprenda as operações matemáticas de forma completa”, afirma o professor. “E para os alunos daqui é importante eles aprenderem sobre isso, porque eles vão ser futuros professores de Matemática, terão que lidar com essas dificuldades e poderão criar os seus próprios jogos que tragam ganho na educação desse aluno”.

Teatro revelou ator inusitado

Como de costume, o público da Octobermática sempre pode contar com uma belíssima peça teatral encenada no encerramento do evento. Os estudantes do 5º período é que ficam responsáveis por criar a história e dar um show de talentos. Este ano, a peça apresentada foi “A Liga da Justiça Matemática”, com um enredo marcado por super-heróis das operações matemáticas em busca da real identidade por trás do vilão que roubou as tabuadas impressas – consideradas relíquias hoje em dia. Como o teatro já foi encenado, e no ano que vem uma nova história irá abrilhantar o palco do Auditório da FEUC, não considere a revelação como “spoiler”: Alzir Fourny, coordenador do curso, foi o culpado pelo sumiço das tabuadas! Estreando nos palcos, o querido professor se emocionou ao fim da peça e revelou a satisfação pelos estudantes darem a oportunidade de ele fazer algo novo em sua vida: “Estou com 63 anos e nunca fiz uma peça. Mas é um aprendizado. E quem proporcionou isso? Vocês, a Octobermática. Foi difícil me empenhar aqui na frente e decorar o texto. Mas vocês e todos que estão aqui vão ficar para sempre na minha mente. E sempre vou lembrar dessa oportunidade de participar desse momento. É o primeiro, e quero estar em todas as peças. Obrigado por tudo, a semana foi maravilhosa!”.

Em sua primeira peça de teatro, professor Alzir estreou como vilão. (Foto: Gian Cornachini)

Em sua primeira peça de teatro, professor Alzir estreou como vilão. (Foto: Gian Cornachini)

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 0 Flares ×