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De gari a escritor, uma trajetória feliz

 

Campo-grandense por opção, Odir Ramos da Costa é autor de várias peças de teatro, dirigiu o Arthur Azevedo e teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Sabe aquelas pessoas sobre quem a gente diria “a vida de fulano rende um romance”? O campo-grandense por opção Odir Ramos da Costa é uma dessas pessoas. E o melhor de tudo: talentoso escritor, ele mesmo tascou no livro “Buquê para Faceira”, lançado há alguns meses, pinceladas do muito que viu e viveu ao longo de seus 79 anos, embora não se trate explicitamente de uma história autobiográfica. “O narrador fala na primeira pessoa, mas não se identifica. É um garoto que descobre o mundo num ambiente pesado que era a limpeza urbana na época ainda da tração animal”, revela Odir.

Esse garoto, fosse o autor, teria nascido em Rio Bonito e chegado em Campo Grande aos seis meses de idade, junto com a mãe, que se separara do pai. Odir foi criado pela mãe e o padrasto, que se tornou seu melhor amigo e exemplo de vida. E pelas mãos de quem foi parar na limpeza urbana (hoje Comlurb), aos 18 anos, depois de “sobrar” na seleção para o Exército e não ter como voltar para o trabalho que fazia desde os 14 numa agência de publicidade, de onde saíra para cumprir o dever cívico.  “Sem emprego, me restou ir trabalhar com meu padrasto, que então varria ruas no Méier. Encarei por um ano e pouco essa função, depois passei para a parte administrativa, em Bangu, onde fiquei por mais uma década”, conta.

Odir Ramos da Costa teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região. (Foto: Tania Neves)

Odir Ramos da Costa teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região. (Foto: Tania Neves)

O padrasto de Odir, Atílio, fora por muitos anos um bem-sucedido gerente de um barracão de laranjas em Campo Grande, quando esta era praticamente a única atividade econômica da região. Com esse trabalho, deu uma vida confortável à família. Mas a Segunda Guerra Mundial e a fumagina, que dizimou os laranjais, quebraram a atividade, e Atílio mudou-se com a família para a Ilha do Governador, onde se tornou padeiro. Foi assim que Odir se iniciou na vida do trabalho, aos 7 anos, ajudando o padrasto nas entregas: enquanto o homem conduzia a carroça, o menino deixava o pão e o leite nas portas, numa jornada que ia das 5h às 6h40m da manhã, e dali ele emendava na escola.

“Tempos depois voltamos para Campo Grande, e eu continuei meus estudos no Almirante Saldanha. Aos 14 anos comecei a trabalhar no Centro, numa agência de publicidade dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Eu vi nascer a TV no Brasil”, relembra. A primeira função de Odir era praticamente de boy: ele levava os clichês com os anúncios publicitários para os jornais e depois levava as publicações para os anunciantes verem. Transferido para o setor de anúncios fúnebres, passou ele mesmo a redigir as notas, depois que descobriram que sabia datilografar. “Eu adorava a palavra féretro. E fazia com a maior dedicação os comunicados fúnebres, que seriam lidos na Rádio JB. Pensava assim: ‘graças a mim esse cara não cairá no esquecimento’. Considerava importante”.

Voltando à limpeza pública, foi ainda paralelamente ao trabalho como gari que Odir começou a colaborar em jornais da região — Tribuna Rural foi um deles — e a escrever suas peças de teatro, ramo em que conquistou reconhecimento público e acumulou prêmios, entre eles o 2º lugar no concurso do Serviço Nacional de Teatro, em 1975, com “Sonhos de uma noite de velório”. Ele então já era repórter do Jornal de Campo Grande, onde trabalhou por 17 anos.

Seu livro está à venda em www.livrariacultura.com.br. (Imagem: Divulgação)

Seu livro está à venda em www.livrariacultura.com.br. (Imagem: Divulgação)

No vasto currículo de Odir, além de 7 peças escritas e uma em andamento, consta ainda a direção do Teatro Arthur Azevedo, nos anos 80, e uma passagem como editor pelo Jornal de Hoje, de Nova Iguaçu, nos anos 90. Uma vida dedicada ao jornalismo e ao teatro, e sempre envolvido com as questões culturais e sociais da Zona Oeste. Casado com Ana Maria, tem quatro filhos (dois do primeiro casamento), dois netos e um bisneto. Hoje aposentado, dedica-se somente à literatura e à dramaturgia. Seu mais recente livro, “Buquê para Faceira”, foi lançado pela portuguesa Chiado Editora, e pode ser comprado no site da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br). “Se passar de mil exemplares vendidos, será revertido para o espanhol e o inglês, e ganhará o resto do mundo”, avisa, orgulhoso.

FEUC cede laboratório para trabalho de jornalista espanhol

 

Enviado especial de uma TV espanhola para cobrir no Rio a Jornada Mundial da Juventude, sacerdote jornalista precisava de um local com internet adequada para fazer suas transmissões

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Sacerdote e jornalista espanhol, Evaristo de Vicente Pachés utiliza laboratório de informática da FEUC para transmitir reportagens da JMJ à Espanha. (Foto: Gian Cornachini)

Sacerdote e jornalista espanhol, Evaristo de Vicente Pachés utiliza laboratório de informática da FEUC para transmitir reportagens da JMJ à Espanha. (Foto: Gian Cornachini)

Na segunda-feira, dia 15, a FEUC abriu suas portas para receber o sacerdote e jornalista espanhol Evaristo de Vicente Pachés e ajudá-lo em sua missão no Brasil: com uma semana de antecedência à Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o jornalista veio para cobrir o megaevento católico desde seus preparativos e precisou de um “estúdio improvisado” enquanto a infraestrutura de comunicação da JMJ não era franqueada aos correspondentes estrangeiros. A instituição cedeu um laboratório de informática a Evaristo e colocou um funcionário a sua disposição para que ele conseguisse fazer suas transmissões para a Espanha.

Evaristo é correspondente internacional do canal espanhol 13 TV em Roma, na Itália, e segue as viagens dos papas pelo mundo. Desembarcou no Brasil como enviado especial à JMJ. Formado em Direito, Teologia e Comunicação, o sacerdote trabalha há 13 anos na mídia e já foi radialista, diretor e apresentador de programas televisivos. Há quatro meses na 13 TV, Evaristo conta como funciona o canal religioso: “A 13 TV é mantida por empresários que decidiram fazer uma televisão para a família, com valores religiosos. Eles trabalham para manter a televisão, e a Conferência Episcopal espanhola é quem responde pelos conteúdos religiosos e o idealismo da TV”, explica o jornalista.

Três em um

Jornalista precisa se dividir em três funções: repórter, cinegrafista e editor de imagens. (Foto: Gian Cornachini)

Jornalista precisa se dividir em três funções: repórter, cinegrafista e editor de imagens. (Foto: Gian Cornachini)

Com a política de redução de gastos que acontece nas mídias do mundo inteiro – principalmente na Espanha, atingida também pela crise econômica – é cada vez mais comum multiplicar as funções dos jornalistas. No posto de correspondente internacional, Evaristo atua como repórter, cinegrafista e editor de imagens.

O sacerdote foi o único jornalista enviado ao Brasil pela 13 TV e comenta a dificuldade do canal em manter outros profissionais no exterior: “Minha televisão é privada e procura reduzir os gastos e, ao contrário do que muitos dizem, a Igreja Católica não tem dinheiro para ficar investindo na TV. Ela utiliza o dinheiro que tem para outras coisas”, diz. “A Espanha, por exemplo, tem milhões de pessoas necessitadas. A Igreja está ajudando essas pessoas, que não têm o que comer e onde dormir, e só alguma coisa sobra para investir nas TVs e rádios”, esclarece Evaristo.

Contato com a FEUC

Quando chegou ao Brasil, o jornalista precisava de um lugar com internet mais rápida para enviar suas reportagens à TV espanhola. De acordo com Evaristo, a estrutura da JMJ montada para a imprensa só passará a funcionar na semana em que o Papa Francisco chegar ao Rio de Janeiro: “A 13 TV quis que eu chegasse uma semana antes para que, com a chegada do Papa, eu pudesse preparar notícias diárias sobre o assunto. Mas encontrei-me em grande dificuldade, porque a estrutura para TVs só estará preparada para a semana da JMJ”, revela o sacerdote.

Padre Rafael Nuñez, da igreja São José, no bairro de Campo Grande, encontrou na FEUC um espaço para ajudar seu hóspede espanhol. (Foto: Gian Cornachini)

Padre Rafael Nuñez, da igreja São José, no bairro de Campo Grande, encontrou na FEUC um espaço para ajudar seu hóspede espanhol. (Foto: Gian Cornachini)

O jornalista chegou à FEUC por meio da professora do curso de Letras das FIC Silvia Neves. “Trabalho na FEUC e participo da Capela São José, na Estrada do Campinho, aqui em Campo Grande. O padre Rafael Nuñez, responsável pela capela, recebeu o padre Evaristo no Rio a pedido da 13 TV, para a qual ele já deu entrevistas sobre seu trabalho missionário no Brasil. Como a internet disponível na capela não atendia às necessidades do visitante, o padre Rafael pediu ajuda”, conta a professora, que consultou a instituição sobre a possibilidade de atendê-lo e recebeu resposta positiva. Foi então autorizado o uso de um dos laboratórios de informática pelo padre Evaristo e designado um funcionário do setor de suporte para ajudá-lo no que fosse necessário.

Quem está colaborando com o sacerdote é Vinicius Teixeira de Souza, de 21 anos, auxiliar de suporte técnico. Vinicius ajuda o jornalista com o uso dos equipamentos de informática e na correção de eventuais problemas na rede de internet.

No que poderia ser um grande problema, Vinicius está se saindo muito bem: Evaristo não fala português, mas o jovem estudou o idioma espanhol no Ensino Fundamental durante oito anos. “Está bem tranquilo de falar com ele. Quando não sei, tento usar outras palavras e sinônimos para uma comunicação ‘entendível’ e para que eu possa ajudá-lo no que precisar”, afirma o funcionário.

O auxiliar de suporte técnico Vinicius Teixeira ajuda Evaristo a fazer suas transmissões.(Foto: Gian Cornachini)

O auxiliar de suporte técnico Vinicius Teixeira ajuda Evaristo a fazer suas transmissões.
(Foto: Gian Cornachini)

Contraste Social

Evaristo chegou ao Rio de Janeiro na noite de domingo, dia 14, e voltará à Espanha no dia 28 deste mês. Há poucos dias no país, ainda não conseguiu visitar muitos lugares: “É a primeira vez que venho ao Brasil e, sinceramente, não estou vendo muitas coisas, só as autovias que ligam Campo Grande ao Centro do Rio”, lamenta o jornalista.

Mesmo assim, o pouco que conheceu foi suficiente para o sacerdote ter a atenção chamada para a desigualdade social do país: “Estive em Copacabana e na Glória. Fico impressionado com o contraste entre as duas situações: bairros muito bons e caros, que impressionam e onde vivem pessoas com muitas possibilidades; e outros bairros contrários. A palavra que os descreve é ‘precários’. Neles, vivem pessoas que têm só a roupa do corpo e algo para comer, nada mais”, observa o jornalista.

Apesar desse contraste social, Evaristo notou algo que já é um clichê das percepções estrangeiras sobre o Brasil: a felicidade das pessoas: “Percebi uma diferença entre o Brasil e a Europa, no caso da situação econômica da população. As pessoas que eu conheci e tenho falado nos diferentes lugares do Rio de Janeiro são felizes, sejam as mais ricas ou as mais pobres”, conta o sacerdote, que não poupou elogios: “Todos são muito felizes, tranquilos, amáveis, cordiais, afetuosos e carinhosos. Isso eu não tinha conhecido”, concluiu Evaristo.

‘Canções do Exílio’ em sessão especial na FEUC

 

Exibição teve a presença do diretor do documentário, o jornalista Geneton Moraes Neto, que sonha ressuscitar o circuito universitário dos anos 70

Por Gian Cornachini e Tania Neves
emfoco@feuc.br

“A gente saiu da ditadura para a ditamole”, disse um bem-humorado Jards Macalé ao comparar a violência explícita dos tempos do regime militar com a violência escamoteada dos dias de hoje. “Quem está nos movimentos sociais, na resistência ao capitalismo predatório, sente na pele que a repressão tem sido extremamente violenta”, afirmou a historiadora Regina Mesquita, referindo-se à ação da polícia contra comunidades que denunciam remoções nas áreas das grandes obras para Copa e Olimpíadas. “Por isso é importante discutir o passado, para que essas coisas não voltem a acontecer”, completou o aluno de História Carlos Eduardo Moreira.

Exibição teve a presença do diretor do documentário, o jornalista Geneton Moraes Neto, que sonha ressuscitar o circuito universitário dos anos 70. (Foto: Gian Cornachini)

Exibição teve a presença do diretor do documentário, o jornalista Geneton Moraes Neto, que sonha ressuscitar o circuito universitário dos anos 70. (Foto: Gian Cornachini)

A conversa aconteceu dia 4 de maio nos bastidores do evento “Canções do Exílio”, organizado por Moreira junto com o NEHPS. A exibição do documentário do jornalista Geneton Moraes Neto — do qual Macalé é um dos personagens, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Mautner — foi seguida de debate com alunos e visitantes que lotaram o auditório da FEUC. A mesa-redonda contou com Macalé, Geneton e Regina, e teve mediação da professora Vivian Zampa, coordenadora do curso de História (cobertura completa em http://migre.me/eIL1u).

Na ocasião, Geneton concedeu uma entrevista à FEUC em Foco. Veja a seguir:

 

‘O jornalismo é o primeiro rascunho da História’

 FEUC em Foco: Você tem levado seu documentário a plateias bem distintas. Quem considera que reage com mais entusiasmo, a geração que viveu aquela época ou os jovens, que pouco ouvem falar desses temas na escola?

Geneton Moraes Neto: A gente está tentando ressuscitar, com esse documentário, uma coisa que saiu de moda, que é o circuito universitário, uma coisa que existia nos anos 70. Eu me lembro dessa época, quando eu era estudante. De vez em quando tinha shows nas universidades, exibição de filmes, debates…  Infelizmente, se perdeu um pouco, porque naquele tempo também havia uma militância mais acentuada do que hoje. Já se fizeram muitos documentários com militantes, ex-guerrilheiros, há muitos depoimentos das pessoas que se engajaram na luta política naquele tempo. O diferencial do “Canções do Exílio” é que você pode ver como o AI-5 e aquela época mais dura da ditadura militar afetaram a vida e a carreira de grandes artistas brasileiros como, no caso, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Aí a geração mais nova se surpreende porque a maioria não sabe nem que Caetano e Gil foram presos, tiveram os cabelos cortados na prisão. E há também umas cenas no documentário, as histórias que eles contam, que são, eu diria, até meio típicas do temperamento brasileiro: o fato de um sargento ter levado um violão para Gilberto Gil na prisão é uma coisa que talvez não acontecesse na Alemanha, mas aqui no Brasil…

FF: O documentário fala de artistas populares, acha que isso pode ser um atrativo para que os jovens, a partir daí, se interessem por saber o que aconteceu naquela época a outras pessoas que não os artistas?

GMN: Eu acho. Apesar de se chamar “Canções do Exílio”, o documentário quase não trata de música especificamente, e quando trata de música é justamente música feita naquelas circunstâncias, contra a ditadura, como foi o caso de “Cálice”. Gilberto Gil descreve ali como compôs a música com Chico Buarque. A intenção não foi a de usar Gilberto Gil e Caetano Veloso como chamariz para despertar atenção sobre aquela época, mas tem esse efeito, especialmente sobre os mais jovens.

FF: Já te ouvimos dizer que uma das poucas coisas boas que o jornalismo pode fazer é produzir memória. Que tipo de memória o jornalismo da mídia hegemônica legará às gerações futuras sobre os dias de hoje?

“Escolhi a bandeira de que fazer jornalismo é produzir memória. Isso eu faço” — Geneton Moraes Neto.(Foto: Gian Cornachini)

“Escolhi a bandeira de que fazer jornalismo é produzir memória. Isso eu faço” — Geneton Moraes Neto.
(Foto: Gian Cornachini)

GMN: Em qualquer profissão você precisa ter uma bandeira. É bom ter uma bandeira que você use para se motivar. No meu caso, escolhi a bandeira de que fazer jornalismo é produzir memória. Isso eu faço, independentemente de onde eu esteja trabalhando. A gente tem que tomar partido dessa democracia absoluta da internet, que é uma revolução super bem-vinda. [A internet] está virando tudo de cabeça para baixo. Acho saudável, pois dessacralizou a figura do jornalista, que antigamente tinha aquela pretensão de ser o único intermediário entre o mundo e o público, e hoje isso mudou totalmente. Independentemente de eu estar na Globo News ou não estar, ter um blog ou não ter, eu guio meu trabalho por isso. E o “Canções do Exílio” foi feito assim, no esquema quase de guerrilha. Um amigo meu tem uma produtora micro, e a gente fez e exibiu no Canal Brasil, depois passou na Globo News também. É o exemplo de que se pode fazer. Aliás, isso eu sempre falo para os mais jovens: em vez de ficar se lamentando, faça. Tinha muito essa cultura da lamentação na minha geração, do tipo “ah, não dá para fazer porque é caro, e não sei o quê…”. Realmente, antes era difícil de você ter acesso a uma câmera de 35mm, mas hoje qualquer estudante secundarista tem um celular com qualidade digital. Então, não tem mais lugar para a lamentação. E é a hora de fazer: pega a câmera e faz, em vez de ficar reclamando que o mundo não liga para você (risos).

FF: Estamos aqui em uma instituição basicamente de formação de professores. Do ponto de vista do uso do conteúdo jornalístico, o que você recomenda a esses graduandos que, em breve, estarão nas salas de aula. Que conteúdo jornalístico esses futuros professores devem buscar, já que hoje a oferta é imensa?

GMN: Como estava dizendo, essa revolução [da internet] está mexendo com as estruturas do jornalismo. A única boa notícia para a grande mídia é que o valor da credibilidade nunca antes teve tanta importância. Aconteceu já comigo, eu conto sempre essa história: casualmente, era um sábado à noite e eu vi no Twitter alguém dizendo “O Obama vai falar daqui a pouco e parece que vai anunciar a morte de Bin Laden”. Aí eu fiquei pensando: será que é verdade isso? Quando você tem uma notícia dessas, o que você faz? Vai para o site do The New York Times para ver se é verdade (risos). Foi o que eu fiz, e era verdade. Tinha esse boato de que o Obama iria anunciar e realmente logo depois ele anunciou. Então você tem que pensar: “Onde é que a informação é processada com credibilidade, com qualidade?” É, ainda, nesses grandes meios. Então, independentemente de qualquer coisa, é claro que o professor, se for usar o jornalismo como fonte, tem que saber que ele é apenas o primeiro rascunho da História. Parece uma frase de efeito, mas é verdade: o jornalismo é o primeiro rascunho da História. Essa é uma bela função do jornalismo, apesar de que há distorções, claro. Mas se o jornalismo se esforçar para oferecer essa matéria prima para os professores, os historiadores, terá cumprido um belo papel.

“Pega a câmera e faz, em vez de ficar reclamando que o mundo não liga para você” — Geneton Moraes Neto. (Foto: Gian Cornachini)

“Pega a câmera e faz, em vez de ficar reclamando que o mundo não liga para você” — Geneton Moraes Neto. (Foto: Gian Cornachini)

FF: Aí depois é com os professores buscarem as contextualizações…

GMN: Ah, sim. Depois que eles confrontem e façam… porque no jornalismo, às vezes, não dá tempo de você fazer, a gente trabalha às vezes em horas, né? Não é meu caso hoje. Eu faço os programas com mais tempo de preparo. Mas frequentemente você está lá, você tem duas horas para fazer uma matéria, não dá tempo de você ficar confrontando tudo, ficar botando as opiniões. Isso é o papel do historiador e do professor. Eu diria que nem é essa a função maior do jornalismo.

FF: Já tem algum novo documentário em vista?

GMN: Depois desse aí, eu fiz sobre o Joel Silveira, um correspondente de guerra. Vai passar no Canal Brasil agora em junho. E estou tentando reunir uma coisa sobre a Copa de 50. Não sou jornalista esportivo, mas, como 99% dos brasileiros, eu me interesso por futebol, amadoristicamente. E eu fiz em 86 uma entrevista com o Barbosa, que foi o goleiro do Brasil em 50, e fiquei impressionado como aquilo ainda mexia com ele. Então, a partir daí, procurei os outros jogadores, eles estavam todos vivos na época. E entrevistei os 11 que jogaram contra o Uruguai na Copa de 50. Fiz um livro na época chamado “Dossiê 50”, e agora estou pensando em reunir esse material e fazer um documentário que deve ser exibido na Globo News no segundo semestre. Por enquanto não tem nada além das entrevistas com os jogadores, não tem nada feito ainda. É um projeto.

 

Memória e História em debate

 

O jornalista Geneton Moraes Neto e o compositor Jards Macalé apresentam ‘As canções do exílio’ para alunos e comunidade na FEUC e conversam sobre o período da ditadura civil-militar

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Exibição do documentário 'As canções do exílio' no auditório da FEUC. Foto de Gian Cornachini

Exibição do documentário ‘As canções do exílio’ no auditório da FEUC. Foto de Gian Cornachini

Um auditório quase lotado assistiu com entusiasmo no último sábado ao documentário “As canções do exílio”, do jornalista Geneton Moraes Neto, e teve a oportunidade de debater com ele e o compositor Jards Macalé – personagem do filme, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Mautner – sobre o período da ditadura civil-militar no Brasil. Completaram a mesa de debates as historiadoras Vivian Zampa, doutoranda em História Política na Uerj e coordenadora do curso de História das FIC, e Regina Mesquita, doutoranda em História Social na USP.

O evento foi organizado por Carlos Eduardo Moreira, aluno do 6º período de História, em parceria com o Núcleo de Estudos Históricos e Pesquisas Sociais (NEHPS) das FIC, e contou como atividade complementar para os cerca de 90 graduandos que marcaram presença. O documentário atraiu ainda para a faculdade alguns convidados dos alunos e pessoas da comunidade.

Macalé e Geneton conversam com o público presente. Foto de Gian Cornachini

Macalé e Geneton conversam com o público presente. Foto de Gian Cornachini

Logo após a exibição, o jornalista Geneton Moraes Neto abriu o debate explicando que fez o documentário porque queria mostrar outras vozes falando sobre esse período da História do Brasil. Segundo ele, já havia muitos relatos e depoimentos de ex-guerrilheiros e de militantes sobre o tema. “Quis mostrar como essa época mais dura afetou a vida de muitos brasileiros, gente que teve a vida e a carreira mudada por causa disso. Gilberto Gil, por exemplo, ia se apresentar pela primeira vez na Europa, e não foi. O Macalé acabou indo para a Europa para fazer o LP ‘Transa’, do Caetano”.

A primeira pergunta da plateia respondida por Jards Macalé foi justamente sobre isso: se não tivesse havido a repressão militar e o AI-5, qual teria sido o futuro de toda a intelectualidade que naquela época foi para o exílio, depois voltou e construiu uma bela carreira? “Estou me perguntando isso até hoje”, respondeu o músico, admitindo ser difícil imaginar como teria sido sua vida em particular e a vida do país caso não tivesse havido aquela interrupção brusca no curso dos acontecimentos.

Carlos Henrique de Lima Rodrigues, aluno do 2º período de Português/Inglês, quis saber de Geneton se ele tem esperança de que, com a instalação da Comissão da Verdade, os responsáveis por crimes cometidos durante a ditadura civil-militar paguem por seus atos. O jornalista lembrou que a comissão não tem o poder de punir, mas sim o de investigar: “A Comissão da Verdade vai produzir memória. Esses documentos que serão levantados por ela vão ter muita importância no futuro, para os historiadores. Vão esclarecer o que aconteceu naquele período”, disse.

Outro tema que surgiu pela pergunta de um aluno à professora Regina Mesquita, e que acabou atraindo o interesse de muitas outras pessoas na plateia, foi o que aconteceu com o compositor Geraldo Vandré, uma das vozes mais contundentes contra a ditadura e que se calou de forma misteriosa após a volta do exílio, em 1973.

Plateia numerosa se animou com debate sobre período da ditadura civil-militar. Foto de Gian Cornachini

Plateia numerosa se animou com debate sobre período da ditadura civil-militar. Foto de Gian Cornachini

Regina, que finaliza sua tese de doutorado justamente sobre a atuação artística e política de Vandré nos anos 60, contou que muitas vezes tentou ouvir o próprio artista sobre o que aconteceu com ele no exílio e depois do retorno ao Brasil, mas ele nunca lhe deu retorno. Regina relembrou que o compositor protagonizou duas voltas do exílio, com o espaço de um mês entre uma e outra, e ela acredita que algo muito sério aconteceu com ele neste hiato de tempo: “Ele volta duas vezes. Na primeira é preso, um mês depois volta num avião e dá uma entrevista para a Globo, cuja gravação sumiu, dizendo que a partir daquele momento só fará músicas de amor e paz. Depois se exila aqui mesmo, some. Na década de 80 fez um show fora do país, depois compôs uma música em homenagem às Forças Armadas”, relatou a historiadora.

Geneton teve a oportunidade de entrevistar Vandré em 2010, no dia em que ele estava completando 75 anos (assista ao vídeo em quatro partes: 1, 2, 3, 4), e inclui o chamado mistério sobre o que aconteceu com o compositor na lista de histórias ainda em aberto. “Entre outras coisas, ele insistiu que nunca foi antimilitarista. Disse que hoje não existe mais lugar para ele e para o que ele faz. Me pareceu meio atordoado. O que aconteceu, não sei, mas é óbvio que algo aconteceu. Mas o que aconteceu está em aberto”, opinou o jornalista.