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XVIII Ciclo de História debate questões de Gênero

 

Evento da graduação acontece nos próximos dias 8 e 10 de maio

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

Começa na próxima segunda-feira, dia 8 de maio, o XVIII Ciclo de Debates do Curso de História que, nesta edição, discutirá o tema “Gêneros : Novas Perspectivas e Debates”. Nas manhãs e noites dos dias 8 e 10, os estudantes terão oportunidade de participar de mesas-redondas com palestrantes de outras instituições do Rio de Janeiro, como UFRJ e Colégio Pedro II, que virão compartilhar seus conhecimentos e experiências envolvendo o assunto em questão.

De acordo com a professora Marcia Vasconcellos, vice-coordenadora do curso de História das FIC, abordar a temática de gênero é extremamente relevante, dado o contexto de intolerância em que vivemos: “Consideramos esse tema importante porque o preconceito tem ganhado uma dimensão muito grande. Fala-se sobre a questão da reforma do ensino médio e sobre ideologia de gênero nas escolas, mas este já é um conceito equivocado, pois não é uma ideologia, é uma questão real, concreta”, afirma Marcia sobre a existência inquestionável de múltiplas identidades de gênero.

“A gente só vai conseguir ultrapassar o nível da intolerância se debatermos o tema da violência contra a mulher, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, e ver como trabalhar isso nas escolas, nos colégios, pois a FEUC é a casa do professor e nossos alunos serão futuros professores”, ressalta.

As inscrições para o curso devem ser feita pela internet, na Área Restrita do aluno, ao custo de R$ 5,00. A presença no evento renderá 20 horas de atividades complementares aos participantes.

PROGRAMAÇÃO DO XXVIII CICLO DE DEBATES DO CURSO DE HISTÓRIA

DIA 8 DE MAIO

Manhã – 8h
Abelardo e Heloisa: considerações sobre o corpo, o pecado e a mulher na Idade Media
Palestrante: Manoela Bernardino da Silva (Graduada em História pela Uerj, especialista em Ensino de História/PPGH – Pedro II e professora das redes Municipal e Estadual do Rio de Janeiro)

Noite – 19h
O escola sem partido e a perseguição às discussões de gênero na escola
Palestrante: Fernanda Pereira de Moura (Especialista em gênero e sexualidade pela Uerj e mestra em Ensino de História pela UFRJ)

DIA 10 DE MAIO

Manhã – 8h
Mulheres e a escravidão: passado e presente
Palestrante: Marcia Vasconcellos (Doutora em História Econômica e professora da FEUC  e Uniabeu) – a confirmar

Noite – 19h
Quem tem medo da ideologia de gênero?
Palestrante: Luciana Lins Rocha (Doutora em Linguística Aplicada pela UFRJ e docente do Departamento de Línguas Anglo-Germânicas do Colégio Pedro II)

Professor de História do CAEL é destaque no YouTube

 

Arão Alves, graduado e pós-graduado na FEUC, faz vídeos para a internet e ajuda estudantes de todo o Brasil a passar no vestibular

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

O fluxo de conhecimento compartilhado por um professor, geralmente, é paralisado por uma questão física: as aulas têm horário de início e fim, assim como o expediente da escola. Mas há quem consiga subverter isso de alguma maneira e ultrapassar esses limites físicos e temporais. Estamos falando do professor Arão Alves, que desde 2000 leciona História no CAEL.

Com bastante experiência em sala de aula, Arão está no CAEL desde 2000. (Foto: Gian Cornachini)

Com bastante experiência em sala de aula, Arão está no CAEL desde 2000. (Foto: Gian Cornachini)

Formado em Ciências Sociais e História pela FEUC, e também pós-graduado por nossa instituição, Arão faz parte de um grupo social que muitos não conseguiriam entrar: os desinibidos. Isso mesmo. Os “sem vergonha” — no bom sentido da expressão. Pronto para experimentar novos caminhos além dos tradicionais, o professor decidiu botar a cara na web e expandir suas aulas para a internet, podendo, assim, ajudar estudantes não só do CAEL, mas de todo o Brasil, a compreender melhor temas importantes de sua área do conhecimento.

O Blog do Professor Arão Alves já existia há 6 anos quando o docente ousou dar um passo além e criar conteúdo em vídeo para o YouTube. Primeiramente, em seu canal pessoal e, recentemente, em um espaço mais profissional chamado “História em Gotas: Sua dose de conhecimento”.

Canal do professor Arão no YouTube. (Imagem: Reprodução)

Canal do professor Arão no YouTube. (Imagem: Reprodução)

“Eu comecei a fazer um blog com o objetivo de passar material para os alunos. Aí eu tive a ideia de fazer vídeos mais curtos e mandava o link para os alunos, para complementar a aula”, conta Arão, que abraçou de vez a ideia de se tornar um professor “youtuber”: “O retorno dos alunos foi sendo muito legal, então eu comecei a aprender sobre edição de vídeo, para fazer melhor”.

O bom trabalho do professor tem rendido muitos depoimentos de pessoas elogiando a qualidade do material, que é capaz de ajudar até mesmo quem sonha em passar no vestibular para uma boa universidade.

Estudante relata experiência com o canal. (Imagem: Reprodução/YouTube)

Estudante relata experiência com o canal. (Imagem: Reprodução/YouTube)

“Você vê a felicidade de uma pessoa, e que foi você quem colaborou com isso. É muito emocionante. Quem é professor, sabe o valor de ajudar a realizar sonhos de pessoas, e que sequer você irá conhecê-las”, diz Arão.

Mas nem todo conhecimento compartilhado na internet é tão bom assim. O professor alerta que vivemos em uma sociedade que se preocupa mais com a estética do que com a qualidade do conteúdo. E isso pode ser bastante perigoso.

“As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras. A internet está cheia de informação. Mas até que ponto essa informação é realmente conhecimento, tem base, ou é apenas uma opinião?”, alerta o professor.

Arão: "As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras". (Foto: Gian Cornachini)

Arão: “As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras”. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo ele, o ideal na hora de procurar material online para complementar os estudos é verificar se quem compartilhou a informação é um especialista na área, principalmente porque, para Arão, vivemos um momento complicado de nossa História:

“A História no Brasil está sendo colocada para o canto, desvalorizada por interesses políticos. Aos poucos, é apresentada a nós uma História que agrada e que não tem base científica. E aí você constrói uma memória histórica extremamente problemática”, criticou ele.

Quem quiser ficar por dentro de diversos temas de História, e com a chancela de qualidade de um especialista na área, basta seguir o canal História em Gotas no YouTube (clique aqui para acessá-lo), com vídeos novos todos os sábados, às 18h. E a melhor parte: é de graça e está pronto para ser visto e revisto a qualquer momento e de qualquer lugar.

25 de maio: dia de debater sobre África

Evento em homenagem ao dia do continente africano lota auditório da FEUC

Por Pollyana Lopes

Mais uma vez, a FEUC foi palco para um debate sobre a formação da África e suas relações sociais, políticas e econômicas com o resto do mundo, além de celebrar a cultura do continente. No último dia 25 de maio, o IV Encontro Sociocultural, Econômico e Político para a comemoração do Dia da África lotou o Auditório FEUC, trouxe informação e instigou a reflexão.

Há mais de 10 anos a FEUC recebe, em diferentes cursos, alunos guineenses e, a partir da criação da Associação dos Estudantes Guineenses do Estado do Rio de Janeiro (AEG-RJ), tem acolhido atividades promovidas pelo grupo. Uma delas, o Dia da África.

Auditório esteve lotado durante o evento. Público também participou ao final, com perguntas, intervenções e agradecimentos. (Foto: Pollyana Lopes)

Auditório esteve lotado durante o evento. Público também participou ao final, com perguntas, intervenções e agradecimentos. (Foto: Pollyana Lopes)

A professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais, representou a FEUC na mesa do evento, ao lado do presidente da AEG-RJ, Ndoy Luís Ie da Silva, e do palestrante convidado, o doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) Timóteo Saba M’Bunde.

Em sua fala, Célia destacou a importância do evento para a instituição que, desde os anos 1960, forma educadores: “Eu queria, em nome da FEUC, agradecer a oportunidade que a História nos deu de construir com vocês”. Ela também destacou como as culturas negra e indígena são caras à instituição, principalmente na formação dos professores: “Há mais de dez anos, quando outras instituições, inclusive públicas, nem sonhavam em colocar essa temática em sua grade, o que hoje é lei, a gente já colocava, e colocava como disciplina, não apenas como conteúdo”.

Ndoy explicou brevemente como o 25 de maio foi instituído e destacou a importância da data para os países do continente. “O 25 de maio tem profundo significado para nós, povos africanos, porque simboliza sua independência e emancipação política. A criação do Dia da África, em 1963, configurou-se no maior compromisso para acelerar o fim da colonização europeia”, contou ele, que explicitou mais um dos objetivos do encontro: “Eu quero que vocês virem os olhos para África e vejam como é um continente acolhedor, um continente que foi o berço da humanidade”.

Mesa do Encontro Sociocultural, Econômico e Político contou com a participação do doutorando em Ciência Política Timóteo Saba M'Bunde; do presidente da AEG-RJ, Ndoy Iê da Silva; e da coordenadora do curso de Ciências Sociais, Célia Neves. (Foto: Pollyana Lopes)

Mesa do Encontro Sociocultural, Econômico e Político contou com a participação do doutorando em Ciência Política Timóteo Saba M’Bunde; do presidente da AEG-RJ, Ndoy Iê da Silva; e da coordenadora do curso de Ciências Sociais, Célia Neves. (Foto: Pollyana Lopes)

O convidado especial da noite, Timóteo Saba M’Bunde, palestrou sobre “A inserção internacional de África – desafios e oportunidades”. Muito cuidadoso com as expressões que utilizava, explicando o que chamou de termos problemáticos como “independência”, “descobrimento” e “África branca”, ele elencou os principais desafios e oportunidades dos países africanos diante do atual cenário político e econômico mundial.

Na leitura de Timóteo, é possível falar da inserção internacional de África em dois momentos históricos distintos, separados pelos processos de autonomia política dos países que antes eram colônia de grandes potências. De acordo com ele, mesmo antes dos anos 60, período em que aconteceu a maioria dos processos de autonomia política, é preciso compreender África enquanto sujeito desse processo histórico. “África teve um papel muito importante da construção desse modelo capitalista que paradoxalmente tem sido o carrasco do continente africano. Mesmo antes da década de 60 o continente já fazia parte desse sistema capitalista”.

Assim como em sua palestra no Dia da África, ano passado, Timóteo apresentou as relações de cooperação entre países subdesenvolvidos, ou em desenvolvimento, as chamadas relações de cooperação Sul-Sul como uma via possível para uma inserção mais autônoma dos países africanos na economia e na política global. No entanto, ele advertiu que mesmo essas relações têm falhas, e que as mudanças na política externa do Brasil nos últimos tempos interferem de forma crucial, já que o país é o maior colaborador dos países africanos. “Eu penso que as lideranças africanas têm muito o que fazer para mudar esse cenário e tentar buscar outros mecanismos, outras alternativas possíveis para que aconteça uma mudança com relação aos indicadores que temos tido até aqui, pouco satisfatórios”.

O auditório permaneceu cheio durante todo o evento, inclusive com a presença de vários professores e professoras. Uma delas foi a coordenadora do curso de Geografia, Rosilaine Silva, que foi à FEUC exclusivamente para o encontro. Ela ressaltou que o continente africano foi invisibilizado ao longo da história e destacou que, nos últimos anos, algumas políticas tentam afirmar não apenas o continente africano, mas também a ligação desse continente com o Brasil e com a formação cultural do nosso país. “Poder estar em um encontro onde a gente aprende sobre, não só a inserção do continente hoje, mas como esse continente vem dialogando com o Brasil, eu acho que é fundamental para entender a nossa matriz cultural e olhar um pouco para o passado, de como ela nos foi roubada e como ela precisa ser entendida e afirmada para a gente poder construir projetos para o futuro”, declarou.

Negros africanos e negros campo-grandenses

DCE FEUC apresentou o Coletivo Negro Waldir Onofre e convidou os estudantes a participarem. (Foto: Pollyana Lopes)

DCE FEUC apresentou o Coletivo Negro Waldir Onofre e convidou os estudantes a participarem. (Foto: Pollyana Lopes)

Antes do início da palestra, os estudantes do DCE FEUC apresentaram o recém criado Coletivo Negro Waldir Onofre, e convidaram todos e todas a participarem das reuniões do grupo. Os estudantes explicaram brevemente quem foi Waldir Onofre: ator, roteirista, cineasta negro que, durante boa parte da vida, morou em Campo Grande. Eles também ressaltaram a importância de ações que debatam a questão racial na FEUC, que é formadora de professores, e na Zona Oeste, região carente de políticas públicas mais inclusivas. Ingrid Nascimento, diretora de cultura do DCE, lembrou ainda a representação do negro nos livros didáticos:

“O negro, principalmente nos livros didáticos, só aparece nos séculos XVI, XVII e XVIII, e sempre como escravo. Sempre que a gente abre o livro didático está lá a foto do negro sendo açoitado, geralmente na famosa imagem do Debret. E a gente sabe que o negro é um sujeito histórico, ele fez mais para a História. Ninguém abre o livro didático e vê o Waldir Onofre, por exemplo, ninguém abre o livro didático e vê Carolina Maria de Jesus. As nossas crianças precisam disso, principalmente a Zona Oeste”, reforçou.

No corredor do Auditório FEUC, foi possível prestigiar uma exposição de tecidos e roupas típicas de países africanos. (Foto: Pollyana Lopes)

No corredor do Auditório FEUC, foi possível prestigiar uma exposição de tecidos e roupas típicas de países africanos. (Foto: Pollyana Lopes)

História debate política, reforma agrária e islamismo na contemporaneidade

 

XVII Ciclo de Debates de História trouxe estudiosos de diversas áreas para discutir temas pertinentes da atualidade

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini

A décima sétima edição do Ciclo de História das FIC discutiu, a partir de temas atuais, os desafios e possibilidades teóricos e metodológicos no trabalho do historiador, em evento realizado nos dias 10 e 11 de maio, na FEUC. A professora Nathália Rodrigues Faria reforçou a importância desse tipo de reflexão para o futuro professor: “Coletar dados dá para fazer na internet. Se não tiver reflexão, não é História. E o que nós propomos aqui é justamente isso, fazer com que professores de História discutam a História de forma atual, lúcida. Que a gente consiga trazer o passado para o presente por meio de instrumentos que façam refletir, até para a gente poder discutir com os colegas, com a família, com os amigos”.

Combate à corrupção ou às políticas sociais?

Na primeira palestra do Ciclo, “A Elite Política Brasileira e as Políticas Públicas Atuais”, o doutorando em História pela Uerj e coordenador do curso de História da UNIABEU, Vinícius Gentil, apresentou as principais políticas públicas implementadas desde 2002 no Brasil e como as classes mais abastadas se colocam contrárias a esses programas. Para iniciar sua fala, o professor contextualizou o cenário político que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República e o lugar das elites nesse processo:

Professor Vinícius analisou o cenário da política atual. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Vinícius analisou o cenário da política atual. (Foto: Pollyana Lopes)

“Que Brasil era esse, em 2002, que permitiu que o Partido dos Trabalhadores chegasse ao poder? As políticas econômicas do governo FHC eram essenciais para acalmar a classe que a gente está falando aqui — que são as elites e, vamos chamar assim, a classe média tradicional, que tinha acesso a várias políticas como, por exemplo, do trabalho doméstico. Mas também tínhamos um país complicado, numa crise cíclica, e um esgotamento do projeto do Plano Real”.

A partir desta premissa, Gentil apontou as principais medidas do governo em relação a quatro áreas-chave (saúde, educação, distribuição de renda e infraestrutura) e como elas impactaram as elites, principalmente aproximando economicamente e compartilhando certos padrões de consumo com as camadas sociais mais pobres.

“Qual é a grande disputa no cenário político atual? Tirando essa questão do impeachment, qual foi a grande demanda, qual era o grito de guerra de quem foi à rua de verde e amarelo? Eles dizem que são contra a corrupção, mas contra a corrupção todo mundo é. Quando eu discuto em outro campo, o que eu vejo não é uma luta pelo fim da corrupção, é uma luta contra as políticas atuais. Porque quando eu pergunto a essas mesmas pessoas que são contra a corrupção, normalmente elas também são contra o acesso à educação por cotas, são contra o acesso mais voltado a pessoas com menos renda, são contra uma série de políticas públicas que foram implementadas justamente nesses últimos governos”, explicou.

A História nem sempre anda para a frente

Convidado a fazer uma análise da conjuntura e ciclo na História Contemporânea, Oswaldo Munteal Filho, doutor em História e pós-doutor em Administração Pública, falou na noite do primeiro dia do evento sobre política e questionou a ideia de que avançar é evoluir. Ele, que é professor da Uerj, da PUC-RJ e das Faculdades Integradas Hélio Alonso, ressaltou que “dar aula de História é falar sobre o tempo presente”, pois “toda história é história do presente”.

Oswaldo Munteal Filho e a professora Viviam Zampa, coordenadora de História das FIC. (Foto: Gian Cornachini)

Oswaldo Munteal Filho e a professora Viviam Zampa, coordenadora de História das FIC. (Foto: Gian Cornachini)

Para ilustrar a afirmação, o estudioso mencionou o apoio que o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, pediu ao Partido dos Trabalhadores em relação ao processo que tramita no Conselho de Ética contra ele, por quebra de decoro parlamentar — ou seja, uma conduta não compatível com o que se espera de um representante eleito pela sociedade. O PT negou apoio a Eduardo Cunha, e o deputado decidiu abrir, imediatamente, o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff — capítulo recente e polêmico da história política do Brasil.

“O tempo presente exige um cálculo do que está acontecendo agora. Quando Cunha fez a proposta dele, era pegar ou largar. Dilma optou por ser ética. Mas sua honradez não interessa”, destacou Oswaldo.

Para o professor, ser contemporâneo não é estar ligado, necessariamente, ao ambiente tecnológico. Segundo Oswaldo, é possível ser absolutamente tecnológico, porém avesso às mudanças de costume; ter o aplicativo WhatsApp, mas ser conservador. Por isso, ele questionou: “Será que o tempo que se vive hoje é melhor que antes, ou o passado é melhor do que o tempo que vivemos agora? Será que o progresso é sempre melhor? Não sei. São perguntas contemporâneas, e a História não anda necessariamente para a frente”, disse.

Reforma Agrária e Educação do Campo

No segundo dia, pela manhã, a palestra “Os conflitos fundiários no Brasil e a Educação do Campo” cumpriu dupla função: além de integrar a programação do Ciclo de História, o encontro também fez parte da III Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária. O evento contou com a participação de Luana Carvalho, do setor de educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e do coordenador do curso de Licenciatura em Educação do Campo na UFRRJ, professor Ramofly dos Santos.

Luana deixou claro que a educação é uma das principais bandeiras do MST. (Foto: Pollyana Lopes)

Luana deixou claro que a educação é uma das principais bandeiras do MST. (Foto: Pollyana Lopes)

Em sua fala, Luana apresentou o MST e mostrou como, desde a fundação do movimento, em 1984, a educação é parte essencial das lutas, tanto na democratização do acesso para os filhos de militantes e assentados quanto no sentido de repensar um modelo de ensino que seja libertador, que valorize os sujeitos, sua cultura e sua história. Luana explicou que as principais fontes teóricas que norteiam o trabalho do MST são a pedagogia socialista e a educação popular freiriana e que, a partir disso, o trabalho do movimento tem cinco matrizes: o trabalho como princípio educativo, a luta social, a História, a cultura e a organização coletiva.

“É necessário modificar forma e conteúdo, a escola de hoje não dá conta de fazer uma educação que seja libertadora a partir desses princípios. Precisamos formar sujeitos críticos e capazes de contribuir no processo de construção de seus assentamentos e da sociedade de modo geral. No Rio de Janeiro a gente ainda está na luta de construir escolas, já que cerca de 300 escolas do campo foram fechadas nos últimos anos. E para reverter esse quadro a gente precisa continuar apontando e lutando para que não aconteça mais o fechamento de escolas”, disse.

Já o professor Ramofly falou mais sobre a questão agrária e da institucionalização da Educação do Campo enquanto modalidade da Educação Básica e inclusão no Ensino Superior. Ele explicou que o conceito de Educação do Campo surgiu em 1997, no I Encontro Nacional das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária (Enera), em oposição à ideia de Educação Rural, até então colocada no ensino formal.

“Quando o movimento cria o conceito de educação do campo, em 97, é exatamente para romper com o conceito de educação rural, que carrega uma ideia de rural negativa. E é muito importante o contexto no qual ele foi colocado: no I Encontro Nacional das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária (Enera). E quem estava lá, em sua grande maioria, eram educadores e educadoras dos movimentos sociais! Pessoas que atuavam e ainda atuam com jovens e adultos nas áreas de reforma agrária. Ou seja, o conceito não surge nas universidades federais, nos gabinetes dos ‘ph-deuses’ nas universidades, o conceito surge com o MST, com Luana, com os movimentos, com quem lida todos os dias com a educação dessas pessoas do campo”, analisou Ramofly.

Muçulmanos não são terroristas

Quando se pensa em islamismo, logo vem à memória as lembranças de homens-bomba e terrorismo. Mas pensar dessa maneira é reforçar o preconceito aprendido por meio das TVs e pela cultura ocidental. Quem chama a atenção para o problema são Claudio Santos, diretor-presidente do Centro Islâmico e de Diálogo Inter-Religioso e Inter-Cultural (CIDI); e Erick Coelho, graduando em História nas FIC e muçulmano desde 2012, ambos convidados a palestrar sobre a visão contemporânea do Oriente Islâmico no fim do Ciclo de Debates.

Claudio reforçou que a religião não prega o caos, mas o respeito à vida e à diversidade cultural e religiosa. (Foto: Gian Cornachini)Claudio reforçou que a religião não prega o caos, mas o respeito à vida e à diversidade cultural e religiosa, e que os versículos do Alcorão surgiram para organizar, banir alguns costumes e promover direitos. Ele lembrou, ainda, que a religião tem a mesma base do cristianismo e do judaísmo: “Pelo fato de o Islã ser uma religião monoteísta e abraâmica, temos mais coisas em comum com a Torá e com a Bíblia do que podemos acreditar”, ressaltou Claudio.

No islamismo, muçulmanos acreditam que Jesus foi um profeta de Deus, mas não seu filho, e que foi concebido milagrosamente pela virgem Maria. No entanto, o personagem mais importante e do qual seguem seus ensinamentos é Muhammad (Maomé), líder religioso árabe que viveu entre 570 d.C. e 632 d.C. e considerado, na fé islâmica, o último profeta do Deus de Abraão, ou seja, a mesma figura criadora do universo e cultuada no cristianismo e no judaísmo.

A palestra também abordou o conceito de Jihad, que significa “luta” e “esforço” (em árabe). “A Jihad é o esforço de quando começo a olhar para dentro de mim e me esforçar para ser uma pessoa melhor”, pontuou Claudio. A Jihad também é entendida como um dos esforços em divulgar a fé islâmica, e o termo passou a ser erroneamente empregado aos extremistas religiosos, chamados de “jihadistas”, e que impõem a fé por meio de lutas e guerras.

Erick revelou enfrentar estigmas relacionado à sua fé islâmica. (Foto: Gian Cornachini)

Erick revelou enfrentar estigmas relacionado à sua fé islâmica. (Foto: Gian Cornachini)

O estudante Erick Coelho afirmou que sofre com o estigma da religião: “A primeira coisa que me perguntam quando sabem que sou muçulmano é se explodi alguém”, lamentou o rapaz. “Aqui na faculdade as pessoas se posicionam contra o senso comum, mas quando é sobre o Islã, repetimos o discurso da mídia. Eu quero convidar a todos a pensar essa questão”, propôs ele, que logo reforçou não considerar verdadeiros muçulmanos os membros do grupo terrorista Estado Islâmico: “O Estado Islâmico não é estado e nem islâmico, porque contrária tudo o que vimos sobre o islamismo. Eles estão em uma busca de uma radicalização, da pureza da religião, mas estão indo contra a raiz”.

É por conta de grupos terroristas, com a clássica figura de homens coberto de vestes longas e dotados de muitas armas de fogo, que a imagem do Islã está distorcida no Ocidente. Mas Erick criticou essa única visão, lembrando fatos históricos protagonizados por outros grupos em que ações igualmente desumanas não carregaram a mesma simbologia do terror: “Os EUA destruíram Hiroshima e Nagazaki e não são acusados de terroristas. Israel bombardeou a Palestina entre 2008 e 2009, e 1.417 pessoas morreram. E o país não é acusado de terrorismo”.

Sempre em frente!

 

Com a habitual dedicação de seus professores e o compromisso dos alunos, as FIC seguem com desempenho em alta no Enade 2014: dois cursos receberam nota 4 e os demais ficaram com 3

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

O Ministério da Educação (MEC) divulgou finalmente o resultado do Enade 2014, e as FIC confirmaram sua melhora no Índice Geral de Cursos (IGC) – a nota média de todas as suas graduações – passando de 2,278 em 2011 para 2,702 em 2014. Portanto, um Conceito Enade 3 já muito próximo de um 4! Individualmente, nossos cursos também alcançaram excelentes resultados, com Ciências Sociais confirmando o 4 que já tinha e História também passando para este patamar. Todos os demais cursos ficaram com nota 3, também elevando o fluxo contínuo do Conceito Preliminar de Curso (CPC) na direção da nota 4 (a exceção foi Licenciatura em Computação, que caiu de 4 para 3, mas mantendo o CPC Contínuo bem perto de 4).

Para o coordenador Acadêmico da instituição, professor Valdemar Ferreira da Silva, os resultados coroam os esforços de toda a comunidade acadêmica: “Nos últimos tempos nós refizemos nosso Projeto Pedagógico, cumprimos e fomos além de todas as exigências feitas nas últimas visitas do MEC e passamos a trabalhar o Enade como componente curricular com os alunos, como determina o MEC. E nossos graduandos corresponderam a esses esforços e foram muito bem nas provas”, elogia o coordenador.

Grupo de ex-alunos de História entre as professoras Vivian Zampa e Nathália Faria. (Foto: Gian Cornachini

Grupo de ex-alunos de História entre as professoras Vivian Zampa e Nathália Faria. (Foto: Gian Cornachini

Cursos cada vez melhores, pelo MEC

O curso de Ciências Sociais, que já havia alcançado a nota 4 no Enade de 2011, manteve o mesmo conceito, mas subiu um pouquinho mais na nota contínua do CPC, passando de 3,318 para 3,470. “Estamos a caminho do conceito 5, e é para isso que trabalhamos. Embora seja muito difícil para uma instituição particular alcançar a nota máxima, devido aos critérios oficiais de cálculo adotados, o que temos feito aqui – instituição, professores e alunos – é digno do conceito máximo, sim”, avalia a professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais.

A dificuldade a que a professora se refere tem a ver com o peso dado pela avaliação do MEC ao percentual de mestres e doutores e de professores com dedicação exclusiva na composição da nota (30% do componente da nota final têm a ver com isso). As universidades públicas conseguem ter alto percentual de doutores e de professores com dedicação exclusiva, mas para acompanhar isso as particulares teriam que elevar as mensalidades a valores incompatíveis com o poder aquisitivo da maior parte de seu público. As FIC, dentro da realidade de suas receitas, estão entre as particulares com maior percentual de mestres e doutores em seu quadro de professores, e buscam alocar esses especialistas de forma a atender todos os seus cursos, focando na elevação da qualidade dos mesmos.

Patrick e a professora Célia: o aluno de Ciências Sociais exalta o forte conteúdo do curso. (Foto: Gian Cornachini)

Patrick e a professora Célia: o aluno de Ciências Sociais exalta o forte conteúdo do curso. (Foto: Gian Cornachini)

História é a outra de nossas graduações com nota 4: passou de 2,944 em 2011 para 2,975 em 2014. A coordenadora do curso, professora Vivian Zampa, também destaca a dedicação dos professores e o compromisso assumido pelas turmas que se submeteram ao Enade 2014: “Foi um trabalho realmente de equipe, por isso esse sucesso é de todos nós”, disse.

Integrantes do grupo que fez as provas de História no Enade em 2014, Marcus Vinícius Bezerra de Almeida, João Carlos Diniz, Leonardo Dias e Artur José da Silva se reencontraram na pós-graduação em História Social e Cultural do Brasil, aqui na FEUC. Eles confirmam que levaram muito a sério a participação no Enade, mas esperavam uma prova mais calcada em historiografia e menos em didática, como acabou sendo. Luana Alencar, que também fez a prova, teve a mesma impressão, e acrescenta que a didática cobrada na prova foi muito mais voltada para legislação e menos para a prática de sala de aula. “A História na FEUC é muito boa, o curso não perde em nada para os melhores que existem por aí”, completou Leonardo.

Já Patrick Silva dos Santos, que fez a prova de Ciências Sociais, afirma que esperava algo bem mais difícil. O estudante, que atualmente cursa o mestrado em Sociologia na UFF, conta que na seleção para a pós-graduação pôde confirmar o quanto o conteúdo de seu curso foi especial: “Fui o primeiro egresso de faculdade particular a conquistar uma vaga no mestrado em Sociologia da UFF. Nas aulas, vejo que os colegas de outras faculdades públicas sequer chegaram a ter o conteúdo que eu tive”.

Entendendo o Enade, CPC, IGC…

O professor Valdemar explica que o Conceito Enade é um indicador de qualidade da educação superior que avalia o desempenho dos estudantes a partir dos resultados obtidos no Enade. Já o Índice Geral de Cursos (IGC) é uma média ponderada envolvendo as notas contínuas dos Conceitos Preliminares de Cursos (CPCs). Todas essas notas e conceitos são comparativos entre todos os cursos e instituições avaliados. Portanto, ainda que uma instituição e seus cursos melhorem seus próprios resultados com relação a anos anteriores, elas também precisam superar os resultados de outras instituições para efetivamente subirem nas avaliações. O que significa que as FIC melhoram internamente e no cenário geral.

tabelas Enade 2014

Desde o começo do ano de 2014, coordenadores e professores iniciaram um trabalho intensivo para preparar os alunos para a avaliação. A maioria dos cursos abriu disciplinas específicas para tratar do Enade como componente curricular obrigatório, com aulões de revisão de conteúdos e aplicação de provas simuladas. O curso de Matemática chegou a lançar, no YouTube, o canal FEUCMAT, onde eram postados vídeos com a resolução comentada de questões de provas anteriores.

Os professores também orientaram os alunos sobre as dúvidas mais frequentes no preenchimento do questionário, o que em anos anteriores havia se mostrado um ponto problemático, já que muitas vezes o enunciado das perguntas deixa os alunos em dúvida quanto à resposta que deve ser dada. “Se o aluno não tem o hábito de usar os laboratórios de informática ou de seus cursos específicos, por exemplo, pode erradamente responder no questionário que a instituição não disponibiliza esses ambientes”, exemplificou a professora Arlene Figueira, coordenadora de Letras e diretora de Ensino da FEUC. O professor Alzir Fourny Marinhos, coordenador do curso de Matemática, é um dos que não dispensa as aulas mais interativas no laboratório, o que dá mais “realidade” aos estudos de Matemática.

Professor Alzir e os alunos Ana Carla Pimentel e Rubens Caio no laboratório de Matemática. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Alzir e os alunos Ana Carla Pimentel e Rubens Caio no laboratório de Matemática. (Foto: Gian Cornachini)

E a atenção da instituição com a avaliação do MEC se refletiu ainda na logística montada para facilitar a ida dos alunos aos locais de prova: a FEUC providenciou 18 ônibus para levá-los aos endereços na Ilha do Governador, Centro, Copacabana e Tijuca. E um grupo de professores e funcionários os acompanhou, dando total apoio. O resultado foi que a quase totalidade dos inscritos fez a prova, o que torna a avaliação das FIC verdadeiramente ampla.

Uma vez que a prova do Enade é considerada um componente curricular obrigatório dos cursos no ano em que é realizada, estão obrigadas a fazê-la os formandos do semestre em que a prova é aplicada e também os do semestre seguinte. Caso não o faça, o aluno não poderá colar grau ao fim do curso. E terá que se inscrever novamente no ano seguinte, como aluno irregular, solicitando dispensa e apresentando algum documento oficial (atestado médico, boletim de ocorrência policial etc.) que justifique por que faltou à prova. Somente após obter a dispensa é que ele poderá colar grau e obter o diploma.

Na reunião em que apresentou aos coordenadores o resultado do Enade 2014, o professor Valdemar frisou que a elevação dos CPCs dos cursos evidenciam a ampliação do nível de conhecimento dos alunos e reflete o trabalho realizado pela instituição e os professores. “Vocês conseguiram sensibilizar os alunos para a importância de fazer um bom Enade, de se empenhar em mostrar no preenchimento do questionário e nas provas o que de fato a instituição tem e oferece”, disse Valdemar. E chamou a atenção para a necessidade de se começar logo a preparação da comunidade acadêmica para a próxima avaliação: “É importante lembrar que os dados referentes ao nosso próximo ano letivo, de 2016, é que serão utilizados para alimentar os insumos do Enade 2017”, salientou.

Pelas regras do MEC, terão que se submeter ao Enade 2017 os alunos que se formam no fim daquele ano e no primeiro semestre de 2018 – portanto, os alunos de licenciaturas que em 2016.1 estarão no 3º e 4º períodos e os de bacharelado que estarão no 4º e 5º períodos.

Luitgarde: 74 anos de muita História para contar

Antropóloga relembrou o ex-presidente e um dos fundadores da FEUC, professor Wilson Choeri, e não lhe poupou elogios

 Por Pollyana Lopes

Auditório cheio e ouvidos atentos para ouvir uma intelectual respeitável. Aposentada por duas universidades públicas, com dois pós-doutorados e mais de 15 livros publicados, entre autorias e organização, a alagoana Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros veio à FEUC para falar de uma de suas especialidades: a obra de Nelson Werneck Sodré, historiador marxista que se notabilizou também como escritor e professor, além de ter sido militar, e que morreu em 1999.

Luitgarde conviveu com importantes nomes da história do Brasil e compartilhou algumas de suas experiências. (Foto: Pollyana Lopes)

Luitgarde conviveu com importantes nomes da história do Brasil e compartilhou algumas de suas experiências. (Foto: Pollyana Lopes)

O arquivo de Sodré foi doado, pelo próprio, à Biblioteca Nacional. No entanto, os documentos relacionados à sua trajetória militar foram guardados. Até que sua filha, Olga Sodré, entregou-os à pesquisadora, que produziu profícua pesquisa com o material. A obra mais importante foi o catálogo “Arquivo Nelson Werneck Sodré: Catálogo da obra jornalística”, publicado em 2011 pela Editora do Senado Federal, na ocasião do centenário do militar, que passou à reserva do Exército em 1961, como general de brigada, e então dedicou-se aos trabalhos no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb) .

Luitgarde citou professor Wilson Choeri como uma das pessoas que mais trabalharam para a educação do país. (Foto: Gian Cornachini)

Luitgarde citou professor Wilson Choeri como uma das pessoas que mais trabalharam para a educação do país. (Foto: Gian Cornachini)

Mas Luitgarde, que faz parte da geração que se formou na universidade em plena ditadura militar, tem muito a dizer para além de Nelson Werneck Sodré e de suas pesquisas. Extremamente crítica, não economizou censuras à postura política e às ações de diversas entidades. Não foram poupados, por exemplo, os partidos políticos de esquerda e de direita; a ONU; a Revolução Francesa; as ideias do pensador Marx nem a democracia grega. Entretanto, na mesma medida, elogios e exaltações foram feitas às figuras  consideradas por ela como sérias, honradas, com retidão de caráter e íntegras. Algumas citadas foram Nise da Silveira, Apolônio de Carvalho, Joaquim Campelo e Audálio Dantas. Também marcou presença na lista de elogios rasgados o Professor Wilson Choeri, ex-presidente e um dos fundadores da FEUC.

“Conheci ele na UERJ. Eu fui a primeira concursada de lá e ele já não tinha mais poder nenhum. Eu gostei do modo sui generis e da grandeza daquele homem. Eu não conheço ninguém que fez pelo ensino desse país o que ele fez”, contou Luitgarde.

 

Palestra  tem ligação com ações desenvolvidas no PIBID

A iniciativa do evento surgiu a partir das atividades dos bolsistas do PIBID da FEUC no Colégio Estadual Professor Fernando Antônio Raja Gabaglia. O professor de sociologia do Raja e supervisor na escola do subprojeto de História, José Geraldo do Santos, foi orientando de Luitgarde na década de 90 e sugeriu a palestra: “Nelson Werneck Sodré é um grande historiador brasileiro, muito injustiçado. E ela escreveu dois livros sobre ele. Eu achei interessante trazê-la para falar sobre ele porque é importante desconstruir um pouco dessa visão da historiografia atual que procura desqualificar a obra do Nelson Werneck Sodré”.

Público permaneceu atento até o fim da palestra, quase às 22h da noite. (Foto: Pollyana Lopes)

Público permaneceu atento até o fim da palestra, quase às 22h da noite. (Foto: Pollyana Lopes)

E Luitgarde destacou que o general foi sempre combativo politicamente, além de um importante historiador e intelectual. “Nelson Werneck Sodré morreu combatendo FHC diariamente, combatendo a globalização e mostrando que a globalização significa unicamente um novo sistema escravista onde o trabalhador será destruído para a riqueza dos banqueiros, das multinacionais e dos donos das fábricas de armas. Não existe felicidade maior para um homem digno do que morrer sem ninguém calar. Ele não calou por burrice, não calou por conveniência, não calou para ficar rico, não calou com medo da prisão, e ele não calaria com medo de morrer. Ele é um exemplo de dignidade humana”.

Entre histórias, críticas e elogios, ela explicou o que considera ser dignidade humana: “A vida intelectual não faz o ser humano, a vida prática do trabalho não faz o ser humano. O que faz o ser humano é a reflexão sobre o seu trabalho, sobre a sua vida e as escolhas que ele faz”.

Quem teve a oportunidade e escolheu ouvi-la, numa noite de quarta-feira, pôde refletir um pouco sobre tantas questões pertinentes e, quem sabe, se tornar ainda mais humano.

Palestra, música e arte para contar a história dos excluídos

 

XVII Encontro de História trouxe para o debate personagens e momentos que tradicionalmente não são foco de discussão nas escolas

Por Pollyana Lopes Tania Neves e Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Mais uma semana de debates, oficinas e apresentação de trabalhos agitou as FIC. O 17º Encontro de História teve como tema “Os excluídos da História: À margem da Sociedade e da História” e contou com palestras sobre intolerância religiosa, a questão indígena, movimentos sociais do campo, mulheres e as UPPs nas favelas cariocas. O evento contou ainda com apresentações musical e teatral desenvolvidas pelos próprios estudantes, ambas com a finalidade de também contar uma história oculta.

Estudantes participaram fazendo perguntas e trazendo questões para debate. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes participaram fazendo perguntas e trazendo questões para debate. (Foto: Pollyana Lopes)

A coordenadora do curso e uma das organizadoras do evento, Vivian Zampa, destaca a relevância do assunto que liga os debates: “A gente sabe que o sujeito da história deve ser o mais plural e diversificado possível, e isso é fazer uma história comprometida com a sociedade. Para esse encontro nós resolvemos trazes essas figuras que muitas vezes nem estão nos livros didáticos ou, se estão, têm suas questões simplificadas”.

Professor nos municípios de Rio das Ostras e Búzios, o doutorando pela PUC-RJ, Janderson Bax Carneiro falou sobre intolerância religiosa. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor nos municípios de Rio das Ostras e Búzios, o doutorando pela PUC-RJ, Janderson Bax Carneiro falou sobre intolerância religiosa. (Foto: Pollyana Lopes)

Intolerância religiosa

Logo na palestra de abertura, na parte da manhã, o professor Janderson Bax Carneiro trouxe à tona a intolerância religiosa sofrida por adeptos de religiões de matrizes africanas. Em sua fala intitulada “As faces da intolerância religiosa no Brasil Contemporâneo: considerações em torno da perseguição às religiões de matrizes africanas”, o professor explicou que “A história pensa sobre os problemas do presente à luz do passado, e como o Ocidente é marcado pela perseguição ao pensamento diferente, a inquisição é um exemplo, nós vamos falar de um tipo de perseguição que não tem um aparato institucional, mas que sobrevive em uma sociedade que se pretende democrática”.

Escravidão indígena

Outro tema que suscitou a participação dos estudantes com muitas perguntas foi a palestra “De Tibiriçá à Martim Afonso de Sousa. A nobreza indígena nos Campos de Piratininga”, proferida pela professora da UNIABEU e doutoranda pela UFRJ, Silvana Godoi. Ela explicou que a escravidão indígena não era permitida,  de acordo com as leis da metrópole, Portugal, mas que, mesmo assim, os testamentos dos colonos continham uma série de indicações sobre os índios que podiam ser posse, ou o reconhecimento de filhos bastardos: “Em uma sociedade na qual o além é mais importante que a vida, é preciso salvar a alma dos pecados terrenos. O testamento era o momento de fazer um acerto de contas com Deus, no qual você revela aquilo do passado que ficou mal resolvido”, contou a professora, acrescentando: “A gente percebe que, apesar da ideia de superioridade dos colonos sobre os indígenas marcar os lugares sociais dos membros da sociedade paulista colonial, assim como a exploração da mão de obra, isso não impediu a ocorrência de relacionamentos econômicos, afetivos e sexuais entre colonos e indígenas”.

Acompanhada pelos professores das FIC, Márcia, Alexandre e Vivian na mesa, a doutoranda Silvana Godoi apresentou sua pesquisa que utilizou testamentos como fonte história para falar sobre a relação entre indígenas e colonos em São Paulo no século XVI. (Foto: Pollyana Lopes)

Acompanhada pelos professores das FIC, Márcia, Alexandre e Vivian na mesa, a doutoranda Silvana Godoi apresentou sua pesquisa que utilizou testamentos como fonte história para falar sobre a relação entre indígenas e colonos em São Paulo no século XVI. (Foto: Pollyana Lopes)

Oficinas

Entre as oficinas realizadas, havia opções diversas abordando temas como o conteúdo e a narrativa do diário de guerra de Anne Frank (com o professor Erivelto Reis), os sentidos sobre a colonização que transbordam das cartas do Padre Manuel da Nóbrega (com o egresso José Delfim) e os mortos vivos da história a partir de uma análise do seriado “The Walking Dead” (com a professora Fabiana Júlio), entre outros. À frente de uma das oficinas mais concorridas, sobre o Diário de Anne Frank, Erivelto chamava a atenção sobre como, ao verter um olhar histórico sobre os acontecimentos passados, vemos coisas que, no momento mesmo em que tudo transcorria, não era possível observar.  Ele sugeriu aos estudantes que, se eles começassem a escrever todos os dias alguma coisa sobre sua vida acadêmica, ao ler isso no futuro se surpreenderiam ao ver que a idealizavam de um modo diferente do qual ela terá se concretizado, de fato.

“Por exemplo, vocês escreveriam lá: ‘de novo aula do Erivelto. Mais uma vez ele fala da importância de o aluno ter uma postura acadêmica. Que chato, não aguento mais’. Mas no final terminariam com: ‘Agora que estou às portas de me formar percebo a importância daquilo que o Erivelto sempre disse’”, completou o professor, divertindo a plateia.

Monografias: Lima Barreto, João Goulart e as Assembleias de Deus

O evento também contou com uma breve apresentação de pesquisas monográficas. Na noite do último encontro, os ex-alunos Luana Alencar, João Carlos Diniz e Leonardo Dias, formados no segundo semestre de 2014, deram uma palinha ao público das descobertas em seus trabalhos.

Luana estudou o modo como o escritor Lima Barreto (1881-1922) retratava as mulheres em sua obra. De acordo com licenciada em História, as diversas personagens femininas eram dotadas de poder de decisão, apesar do contexto histórico em que viviam: “Lima Barreto entende a mulher como atuante de sua história, podendo mudar seu próprio contexto social”, explicou ela.

João Carlos Diniz, Leonardo Dias e Luana Alencar apresentaram suas pesquisas monográficas. (Foto: Gian Cornachini)

João Carlos Diniz, Leonardo Dias e Luana Alencar apresentaram suas pesquisas monográficas. (Foto: Gian Cornachini)

O governo de João Goulart, que antecedeu a Ditadura Militar, foi objeto de estudos de João Carlos, que tentou abordar de maneira diferente o conceito de populismo frequentemente atribuído ao ex-presidente: “A gente vê muito falar que Goulart era considerado ignóbil, um idiota, sem senso político. Ao seu governo é usado o termo ‘populismo’, que dá a entender que é algo pejorativo à massa, como se não soubessem escolher. Mas existe um pacto. A gente está lidando com pessoas”, contextualizou João Carlos. “Eu uso o termo ‘trabalhismo’, porque a política de Goulart e de Vargas está muito ligada ao trabalhador, aos sindicatos”.

Para fechar a apresentação de monografias, Leonardo trouxe uma pesquisa sobre a relação entre as Assembleias de Deus a vitória do ex-presidente Fernando Collor contra o então candidato Lula em 1989. De acordo com Leonardo, Collor conseguiu forte adesão de evangélicos devido a boatos sobre uma suposta implantação do comunismo se Lula vencesse as eleições: “As pessoas de esquerda eram consideradas ateus e comunistas. Uma calúnia foi levantada, e a Assembleia de Deus divulgou no periódico ‘Mensageiro da Paz’ que Lula tiraria o direito de fazer culto, as igrejas seriam fechadas e transformadas em repartições públicas. Sem o voto das igrejas pentecostais, comprovadamente Collor não conseguiria se eleger”, afirmou Leonardo.

Música e arte para fechar o Encontro

Ainda na noite de encerramento, estudantes do 4º período entoaram uma canção composta pelo aluno Mateus dos Santos Costa exclusivamente para o evento. “Vozes aos excluídos” é uma belíssima letra sobre a tentativa de apagar a história de vítimas do racismo, da intolerância religiosa e cultural, e você pode ouvir logo abaixo, bastando clicar no “play”:

Uma belíssima apresentação teatral foi encenada para fechar o Encontro com chave de ouro. De autoria e direção de Ciro Gallo, pós-graduando em História Social e Cultural do Brasil nas FIC, a peça “Doces Lembranças”, com participação do Grupo Teatral MOA, reuniu musical, humor e muita emoção para narrar o período cultural da década de 1940 e a inserção da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial. Um dos personagens principais representados no enredo foi o próprio pai de Ciro, ex-combatente na Guerra, homenageado na peça.

Peça teatral retratou o cenário cultural e de guerra dos anos 1940. (Foto: Gian Cornachini)

Peça teatral retratou o cenário cultural e de guerra dos anos 1940. (Foto: Gian Cornachini)

 

PIBID em Movimento reúne estudantes de colégios estaduais e graduandos das FIC em debate sobre maioridade penal

Evento inaugura série de encontros com o objetivo de estimular os jovens estudantes a buscar informações, debater ideias e formar pensamento crítico sobre temas da atualidade

Aconteceu ontem na FEUC a primeira edição do PIBID em Movimento, que reuniu alunos das escolas estaduais Irineu José Ferreira e Fernando Antônio Raja Gabaglia para discutir o tema “Criminalização, Redução da Maioridade Penal e Genocídio de Juventudes: O que temos a ver com isso?”, em conjunto com os bolsistas dos subprojetos de Ciências Sociais e História e os professores coordenadores (das FIC e dos colégios). O evento contou com palestras do advogado Renato Teixeira de Sousa, membro da Comissão de Segurança Pública da OAB, e Tobias Faria, educador popular do IFHEP e assessor das Pastorais Sociais da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Em seguida os alunos discutiram em grupos os principais pontos abordados e fizeram uma apresentação final sobre o que consideraram relevante.

Professora Célia e os palestrantes Tobias Faria e Renato Teixeira. (Foto: Gian Cornachini)

Professora Célia Neves apresenta ao público os palestrantes Tobias Faria e Renato Teixeira. (Foto: Gian Cornachini)

Esses encontros têm o objetivo de ampliar a interlocução dos estudantes da educação básica com os alunos das licenciaturas das FIC para além das atividades desenvolvidas nas escolas participantes do PIBID. De acordo com as professoras Célia Neves (coordenadora de Ciências Sociais) e Vivian Zampa (coordenadora de História), organizadoras do evento, a ideia de levar os alunos das escolas públicas para dentro da FEUC, durante os seminários temáticos, cumpre a função de estimulá-los a discutir questões importantes do cotidiano social a partir da pesquisa e da produção de conhecimento, para que possam formar uma consciência crítica baseada na pluralidade de informações disponíveis na sociedade e não somente no senso comum.

“A ideia é que ouçam o que os palestrantes têm a dizer e depois debatam em grupos o que isso lhes acrescentou ou não. Que pensem: que ideias eu trazia antes sobre esse tema, quais as origens dessa informação que eu tinha, e o que essas novas informações me trazem?”, explicou a professora Célia ao grupo antes do início das exposições.

Pontos de vista do Direito e dos Ativistas Sociais sobre a redução da maioridade penal

Em sua fala, o advogado Renato Teixeira de Souza questionou uma série de argumentos favoráveis à redução da maioridade penal, como a tese de que hoje os jovens amadurecem mais cedo e que se registra crescimento estatístico dos crimes graves cometidos por jovens. Defendendo que os jovens têm direito ao erro, pois o amadurecimento em cada um ocorre em tempos diferentes, ele argumentou, por meio de dados, que as medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para os jovens que praticam crimes são mais eficazes do que as penitenciárias na ressocialização dos menores. Renato também trouxe exemplos de outros países e explicou termos jurídicos com relação ao assunto:

“Será que norma penal é que vai conseguir resolver o problema da sociedade? Não! A norma penal tem uma característica muito interessante que a gente chama em latim de ultima ratio: é a última razão de ser. Quando nenhum ramo do direito conseguir tratar aquele acontecimento social, aí você aplica a norma penal”, esclareceu.

Já Tobias Faria utilizou toda a sua experiência de educador popular para manter a atenção do público em sua palestra. Didático, ele fez uma série de questionamentos para levar os ouvintes à reflexão. Em diálogo com a plateia, ele teve a concordância de que todos os presentes eram contra a violência e contra a impunidade, e partir disso apresentou as consequências da possível redução da maioridade penal como atos de vingança que geram mais violência ao invés de resolverem ou minimizarem o problema. Tobias apresentou estatísticas sobre quem pratica crimes no Brasil e trouxe um dado que espantou aqueles que pensavam que cadeia é a melhor solução: de cada 100 jovens infratores condenados a cumprir medidas socioeducativas, 30% retornam ao crime; de cada 100 adultos condenados a cumprir penas em presídios, cerca de 80% retornam ao crime depois de soltos. Portanto, enviar jovens para as penitenciárias significa piorar o problema. Tobias foi enfático:

“Não é verdade que a nossa juventude é criminosa! Ao contrário, a nossa juventude tem sido assassinada. Assassinada! No Brasil morrem por dia, assassinados, algo em torno de 150 pessoas. A cada dia morrem no Brasil em torno de 60 a 70 jovens, a maior parte deles negros da periferia, muitos são mortos pela ação da polícia”, disse.

Alunos debatem sobre o que já sabiam e os novos argumentos apresentados nas palestras

Na segunda parte do encontro, nas dinâmicas com os grupos, os professores e bolsistas do PIBID procuraram estimular que os estudantes relembrassem o que sabiam ou pensavam a respeito do tema da redução da maioridade penal e de que maneira as informações ouvidas nas palestras interferiram com isso. Mais do que fazê-los mudar de opinião, a atividade tinha o propósito de ajudá-los a refletir sobre como era fundada a opinião que já tinham – se baseada em conhecimentos sólidos ou em senso comum – e reformularem essa opinião a partir de argumentos baseados em dados. Mesmo que fosse para manter a mesma opinião. Em alguns grupos foi difícil que os alunos começassem a falar, talvez por timidez, mas em seguida engrenaram no debate e se soltaram.

Nathalia (à esquerda) e seu grupo: apresentação de reflexões após debate. (Foto: Gian Cornachini)

Nathalia (à esquerda) e seu grupo: apresentação de reflexões após debate. (Foto: Gian Cornachini)

No final, durante as apresentações de suas conclusões, muitos alunos revelaram ter mudado a opinião que tinham antes, a favor da redução da maioridade penal, e outros afirmaram continuar pensando do mesmo jeito. Os que mudaram alegaram, principalmente, que antes estavam mal informados sobre os motivos apresentados por quem defende a criminalização dos jovens a partir de 16 anos – por exemplo, a falsa informação de que nessa faixa etária o percentual de crimes é alarmante, quando na verdade as estatísticas disponíveis mostram que não passa de 1% de todos os crimes e 0,5% dos crimes de homicídio. “A gente é bombardeado o tempo todo por muitas informações e não sabe separar o que tem um princípio verdadeiro do que não tem. Nossos pais não sabem nos passar como usar a tecnologia a nosso favor, como uma ferramenta para pesquisar. Nós só seremos melhores com mais educação”, analisou a estudante Nathália, do colégio Raja Gabaglia.

Um dos bolsistas do PIBID que atuam na José Irineu, o estudante de Ciências Sociais Alex Rosa reforçou aos alunos que o objetivo do debate não é fazer ninguém mudar de opinião simplesmente por mudar, mas sim provocá-los a questionar a qualidade das informações que formam suas opiniões: “A ideia não é mudar a opinião de vocês, mas sim que vocês sejam alimentados com novas informações que não necessariamente estão sendo divulgadas pela mídia, e que são informações importantes sobre esse tema. E que a partir daí vocês fundamentem sua opinião de maneira mais adequada”, disse o graduando.

Educar é fazer pensar!

 

Jayme Ribeiro
Jayme Ribeiro
Doutor em História pela UFF e professor das FIC

Durante boa parte do século XX, os livros didáticos assumiram lugar de destaque na relação ensino-aprendizagem. Em muitos momentos, em diversas realidades educacionais do país, ainda é o único instrumento de pesquisa e ensino para alunos e professores.

Objeto padronizado e condicionado por formatos e linguagens, o livro didático não é neutro. Segundo Gimeno Sacristán, por trás do “texto”, há toda uma seleção cultural que apresenta o conhecimento oficial, colaborando de forma decisiva na criação do saber que se considera legítimo e verdadeiro, consolidando os cânones do que é verdade e do que é moralmente aceitável. Desse modo, os livros didáticos tornam-se veículos portadores de um sistema de valores, de ideologias e de uma cultura, visando servir de mediador entre a proposta oficial do poder, por intermédio dos programas curriculares, e o conhecimento escolar ensinado pelo professor.

Por outro lado, é possível pensar no livro didático como lugar de memória, na medida em que contribui para perpetuar uma determinada memória sobre agentes ou fatos históricos. Pode-se verificar também, através de sua análise, uma memória historiográfica, na qual a produção e o discurso historiográfico de uma época podem ser encontrados.

Os estudos acadêmicos produzidos atualmente têm contribuído bastante para relativizar o seu papel de “vilão da História”. Desde o século XIX, ele tem sido utilizado de diversas formas e sob diferentes realidades. Contudo, possui uma função básica que atravessa os tempos: a transposição didática, isto é, a passagem do saber acadêmico ao saber ensinado. No entanto, não se pode pensar o livro didático apenas como mero reprodutor do saber produzido nas universidades. Ele atua na ressignificação do saber acadêmico criando um novo saber: o saber escolar. Além disso, pode auxiliar o domínio da leitura e da escrita em todos os níveis de escolarização, serve para ampliar informações, possui uma linguagem mais acessível, articula outras linguagens que não a da escrita, fornecendo ao estudante maior autonomia frente ao conhecimento e auxilia a aquisição de conceitos básicos do saber acumulado historicamente.

Assim, é possível perceber que o livro didático, mesmo possuindo uma série de limitações técnicas, econômicas e ideológicas, quando utilizado de maneira crítica pelo professor, torna-se um instrumento importante na relação ensino-aprendizagem. Não se pode esquecer jamais que o foco da educação é o educando. Nesse sentido, educar é fazer pensar, pois o professor deve ter uma postura crítica frente aos materiais escolares e estimular a reflexão e o questionamento em suas aulas. Desse modo, não tornará o livro didático o único guia e mestre de suas práticas, principalmente por saber que quem atua no processo transformador da educação, incentivando, auxiliando e mediando os conhecimentos é o professor, e não o livro didático.

Mês intenso e agitado nas Faculdades

 

Uma sequência de quatro grandes eventos acadêmicos ao longo de maio, adentrando por junho, testemunha o vigor das licenciaturas e o entusiasmo dos graduandos

Da Redação
emfoco@feuc.br

Maria Ione cativou público com histórias da Biblioteca Nacional. (Pollyana Lopes)

Maria Ione cativou público com histórias da Biblioteca Nacional. (Pollyana Lopes)

Ao longo do mês de maio e os primeiros dias de junho a FEUC esteve em ritmo de debates, palestras, oficinas, apresentações de pesquisas, trabalhos de campo… A efervescência acadêmica pôde ser observada no Ciclo de História, Encontro de Ciências Sociais e Semanas de Pedagogia, Letras e Geografia, eventos que ao todo contaram com algo em torno de 70 diferentes atividades, a maior parte delas prestigiada por grandes plateias de alunos da casa e visitantes. E o melhor: com participação ativa dos graduandos, seja apresentando trabalhos, fazendo monitoria ou questionando a fundo os palestrantes que trouxeram temas entre instigantes e polêmicos.

Já na abertura do Ciclo de História dava para pressentir que o mês seria bom: com auditório cheio, a primeira palestrante cativou o público com a devoção empreendida no seu trabalho de bibliotecária da Biblioteca Nacional. A comunicação de Maria Ione Caser iniciou o ciclo falando sobre o básico do trabalho de um historiador, a relação com as fontes.

O evento, que teve como tema “Historiador em Perspectiva: dos Arquivos à Sala de Aula”, seguiu abordando os diversos olhares e formas de atuação do profissional. A formação docente e as práticas escolares — tão caras à instituição que é conhecida como a Casa do Professor — tiveram destaque na mesa que abordou a pesquisa sobre o Ensino de História e, também, no lançamento do livro “Ensino de História: usos do passado, memória e mídia”, organizado pelo professor Jayme Ribeiro.

Semana de Pedagogia buscou despertar criatividade e senso crítico

Maria Licia contou um pouco de sua trajetória na educação. (Pollyana Lopes)

Maria Licia contou um pouco de sua trajetória na educação. (Pollyana Lopes)

A Semana de Pedagogia foi marcada pelas emoções. “O professor e as práticas pedagógicas” foi o tema do evento, que começou com uma homenagem à coordenadora e à vice-coordenadora do curso, professoras Maria Licia Torres e Luiza Alves de Oliveira. O professor Marco Antonio Chaves de Almeida também foi homenageado pelos alunos. Nas diversas palestras e oficinas, as condutas docentes foram problematizadas, sempre no sentido de instigar os futuros professores a estarem atentos aos alunos e à adequação de suas técnicas. As palestras trouxeram pesquisas sobre a realidade das escolas, sem perder de vista a responsabilidade dos professores no processo de aprendizagem dos alunos. Os exemplos dos docentes que atuam nas salas de aula em diversos segmentos da educação levaram os estudantes a reflexões e análises críticas, o que pôde ser observado a partir das numerosas perguntas feitas ao final de cada palestra.

Para fechar o evento, uma apresentação dramática encenada pelo professor de teatro da FEUC, Adriano Marcelo, trouxe como personagem principal o arquétipo de um pedagogo. No desenrolar da peça, o personagem vai amadurecendo sua criatividade e senso crítico. A arte expressou o objetivo do evento como um todo.

Língua e literatura no contexto da mídia e redes sociais

Letras, como sempre, realizou a semana com o maior número de atividades: 33, fora as exposições de pôsteres, carrinho literário, apresentações culturais e feirinha de livros. Enlouquecida em meio aos preparativos para a abertura, a professora Arlene Figueira, coordenadora do curso, brincava: “No ano que vem vamos ter uma única atividade e em um único local. Vou juntar todo mundo na quadra e mandar ver!”. Exageros à parte, até que a programação estava enxuta este ano, uma vez que já houve edições com mais de 70 atividades.

Mais do que quantidade, porém, o que marcou foi a qualidade das palestras e das apresentações, assim como a intensa participação dos estudantes nos debates sobre o tema “Língua e Literatura: comunicação, mídia e redes sociais”. Dos clássicos da literatura ao universo das histórias em quadrinhos, os atos de linguagem no Facebook ou o uso do WhatsApp em grupos de estudo, os temas abordados instigaram o interesse das plateias, levando a um clima de muita interação.

Francisco Barbosa receitou o uso de emoção e sinceridade. (Foto: Gian Cornachini)

Francisco Barbosa receitou o uso de emoção e sinceridade. (Foto: Gian Cornachini)

Especialmente a palestra do radialista Francisco Barbosa, na segunda noite do evento, lotou o auditório. Comunicador da Rádio Tupi, ele defendeu ao microfone a tese de que comunicar é emocionar, e convocou os professores a empregarem isso em sala de aula. “Por falta de técnica melhor, sou muito verdadeiro quando estou no ar, sou sempre eu mesmo e não um ator representando. Nada dá mais liga do que sinceridade”, disse Barbosa, emendando numa mensagem para os licenciandos: “Vocês vão mudar a vida de quem cruzar com vocês, para melhor ou para pior. Serão um exemplo a ser seguido. Ou a ser evitado. Mas sempre uma referência. Então façam o melhor”, recomendou ele aos estudantes.

Ciências Sociais e Geografia discutem impactos socioambientais no RJ

Maio estava acabando, mas sua efervescência ainda foi prolongada até o XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente que, pelo segundo ano consecutivo, aconteceram concomitantemente, nesta edição sob o tema “Intervenções e violações socioambientais no estado do Rio de Janeiro”. O último sábado do mês (dia 30) tirou os estudantes da cama logo cedo para atividades de campo no bairro Duarte da Silveira, em Petrópolis; no Distrito Industrial de Santa Cruz; e na Ilha da Madeira, em Itaguaí. O objetivo era detectar e analisar impactos nesses lugares decorrentes da apropriação do capital, como a implantação da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) e da Gerdau (no Distrito Industrial de Santa Cruz) e da construção do Porto Sudeste e da base de submarinos da Marinha (na Ilha da Madeira). Segundo o professor Paulo Barata, do curso de Geografia e responsável pela atividade na Zona Oeste e em Itaguaí, a região próxima à FEUC tem uma grande potencialidade econômica, e é necessário que os estudantes consigam observar as contradições do capital: “Esse recorte espacial de Campo Grande a Itaguaí é muito importante para a economia e indústria do Estado do Rio de Janeiro. Precisamos quebrar esse paradigma de que a Zona Oeste é uma área apenas de carência e analisar nosso espaço de uma maneira crítica. E isso é essencial para que os estudantes deem atenção às problemáticas locais”, explica Paulo.

Estudantes observam construção do Porto Sudeste e seus impactos na Ilha da Madeira, em Itaguaí. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes observam construção do Porto Sudeste e seus impactos na Ilha da Madeira, em Itaguaí. (Foto: Gian Cornachini)

O percurso no Distrito Industrial incluiu paradas paralelas à margem direita do canal de São Francisco, em frente à Gerdau, à TKCSA e à Usina Termelétrica de Santa Cruz – todas com o objetivo de contar a história das empresas e lembrar das violações socioambientais praticadas com liberação do Estado, como a restrição do acesso ao canal de São Francisco pela TKCSA, que antes era naturalmente aberto aos pescadores locais, agora impedidos de continuar suas atividades tradicionais.

Caso parecido acontece na Ilha da Madeira, em Itaguaí, onde empresas como a MMX, do empresário Eike Batista, instalaram-se para dar início à construção do Porto Sudeste, com a finalidade de melhorar o escoamento da produção mineral brasileira, mas inviabilizando a atividade pesqueira, esbarrando em comunidades tradicionais e impondo a desapropriação de diversas moradias. Sério Hiroshi, da Associação de Pescadores e Lavradores da Ilha da Madeira (Aplim), conversou com os estudantes e revelou suas frustrações: “Tentamos de tudo quanto é jeito resistir, mas o governo fala que esses empreendimentos vão gerar mais de 10 mil empregos. O que eu faço? Ajudo os pequenos pescadores e deixo o resto de Itaguaí sem trabalhar? Eles querem nos colocar como vilões”, lamentou ele.

De volta às FIC, durante os dias 1, 2 e 3 de junho, os alunos relataram suas experiências nas atividades de campo durante cada palestra do evento, sempre fazendo conexão com o tema abordado e as cenas que viram. Emocionada, a estudante Rosangela Godinho, do 7º período de Ciências Sociais, externou sua esperança na educação como fator de transformação da sociedade: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada, mas temos que nos unir. A gente vai estar em sala de aula, e é lá que vão começar os primeiros passos de uma modificação, que é possível sim”.

Rosangela Godinho: “O capital quer nos amedrontar “. (Foto: Gian Cornachini)

Rosangela Godinho: “O capital quer nos amedrontar “. (Foto: Gian Cornachini)

Para coroar este último evento e também fechar com chave de ouro a longa jornada de aprendizado e produção coletiva de conhecimento — como definiu com muita propriedade a professora Célia — foi lançado o segundo número da Khóra, revista transdisciplinar dos cursos de Ciências Sociais, Geografia, História e Pedagogia, que pode ser acessada no endereço www.feuc.br/khora. Está imperdível, com muitos artigos de professores da casa e convidados, e também repleta de contribuições de nossos graduandos.