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Geografia: Aula Inaugural debate o desastre de Mariana (MG)

 

Curso convida professor da Uerj para detalhar o rompimento das barragens da Samarco e os desdobramentos do maior desastre ambiental do Brasil

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

Passados 16 meses após o desastre de Mariana (MG) — quando duas barragens da mineradora Samarco se romperam, causando mortes e destruição ao longo do percurso da lama —, os desdobramentos do caso foram o tema da Aula Inaugural de Geografia, primeiro evento anual realizado pelo curso das FIC, e que aconteceu ontem, dia 22 de março. Convidado a debater o assunto, o professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj e pesquisador no grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), da UFJF, apresentou dados da Samarco e suas controladoras — Vale e BHP Biliton —, além de expor o funcionamento das barragens em Minas Gerais e os danos causados pelos rompimentos.

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj, expõe dados referentes às barragens da Samarco. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj, expõe dados referentes às barragens da Samarco. (Foto: Gian Cornachini)

Impactos socioambientais a curto prazo

De acordo com Luiz, é extensa a lista de danos causados imediatamente após o desastre, entre eles:

- Destruição de áreas populacionais;
- Morte e/ou desaparecendo de 19 pessoas;
- 1,4 mil hectares de terras arrasadas;
- 80 km marítimos atingidos pela lama;
- Mudança do pH da água do Rio Doce;
- Comprometimento do abastecimento hídrico;

Impactos socioambientais a médio e longo prazo

Os efeitos do desastre não se encerraram após o rompimento das barreias e, segundo o professor, eles ainda podem ser observados, hoje, tais como:

- Devastação da paisagem e das matas ciliares;
- Rejeito estéril (material resultante do processo de mineração e sem aproveitamento econômico) liberado no solo;
- Assoreamento de rios;
- Contaminação da água por metais pesados;
- Risco para a saúde humana e de animais.

Estudantes lotam auditório durante primeira evento de Geografia da FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes lotam auditório durante primeira evento de Geografia da FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Sujeitos atingidos

O grupo PoEMAS tem levantado dados e feito estudos nas áreas atingidas para dimensionar o impacto na vida das populações. Luiz apontou que uma característica marcante é o peso do desastre sobre os negros:

“É possível verificar um racismo ambiental. A maior parte das pessoas atingidas é negra. Os engenheiros nos diziam que não escolhem um lugar para instalar uma mineradora de acordo com a cor da pele, mas a gente vê que elas só são instaladas em lugares onde as pessoas não têm força para lutar contra o empreendimento”, explicou o professor.

Outro grupo diretamente impactado, mas, segundo Luiz, pouco comentado na mídia, são os indígenas Krenak, que encaram o Rio Doce não apenas como um recurso hídrico, mas como um ente da família:

“Não adianta dar dinheiro para eles, para indenizá-los. A partir do momento que o rio morre, qual o impacto disso sobre a cultura deles? Eles querem o rio de volta para poder batizar seus filhos, pois isso é um valor intangível e diferente de nossa lógica de pensar a relação da sociedade com a natureza”, ressaltou Luiz.

Alunos fizeram rodadas de perguntas. (Foto: Gian Cornachini)

Alunos fizeram rodadas de perguntas. (Foto: Gian Cornachini)

Durante o debate, em que os estudantes apresentaram dúvidas sobre o futuro das operações da Samarco e da fiscalização de barragens, o professor foi claro em seu posicionamento, transferindo exclusivamente a responsabilidade dos danos para a Samarco, Vale e BHP:

“Os estudos não tinham a real proporção do que poderia ser um rompimento de uma barragem. Deveria ser considerada uma escala mais regional, e essa escala sequer mencionava o Rio Doce, pois ele estava longe demais. Os problemas são infindáveis e a gente tem que evitar que os custos sejam públicos. A culpa é das empresas e são elas que devem pagar a conta”.

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley responsabiliza as empresas pelo desastre de Mariana. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley responsabiliza as empresas pelo desastre de Mariana. (Foto: Gian Cornachini)

Ciências Sociais e Geografia debatem descolonização do saber

Evento promovido pelos dois cursos de licenciatura das FIC discute a dominação do conhecimento por países historicamente imperialistas e consequências político-sociais desse processo

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Um novo encontro de dois cursos das FIC, que já andam de mãos dadas há muito tempo, aconteceu esta semana, entre os dias 7 e 9, no Auditório FEUC. Geografia, com a XVII Semana Acadêmica, e Ciências Sociais, com seu XVIII Encontro, promoveram, juntos, três noites de debates sobre a “Descolonização do Saber: relações Sul-Sul”. O objetivo do evento foi discutir as relações de espaço, poder e saber, de modo a repensar as possibilidades além da organização proposta pelo “norte”, ou seja, os países ditos desenvolvidos e que exerceram práticas imperialistas e colonialistas nos países do “sul”, denominados subdesenvolvidos. Além de palestras, o encontro abriu ainda espaço para apresentações de trabalhos acadêmicos dos estudantes, destinando a noite de encerramento do evento para o protagonismo do saber discente.

Entendendo o que é descolonização do saber

A especialista em Geografia e professora do Colégio Pedro II Lucia Naegeli abriu as atividades explicando, primeiramente, o que é a temática central do evento: a descolonização do saber. Mas, para entender isso, é necessário compreender o que é colonização do saber. E Lucia tratou logo de esclarecer: “Colonização do saber, do conhecimento, é o saber imposto”, iniciou a professora. Segundo ela, os europeus eram os povos que acreditavam ter o conhecimento científico, e os povos colonizados dependiam desses países — que estabeleceram relações econômicas e de subordinação social e cultural, caracterizando-se um processo chamado, segundo Lucia, de “colonialidade”.

Lucia Naegeli, professora do Colégio Pedro II, sobre a descolonização do saber: "É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade". (Foto: Gian Cornachini)

Lucia Naegeli, professora do Colégio Pedro II, sobre a descolonização do saber: “É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade”. (Foto: Gian Cornachini)

Portanto, “descolonização do saber” significa, para a professora, resistir a esse movimento eurocêntrico que ainda se perpetua no campo do conhecimento: “É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade. É respeitar o modo de vida do diferente, reconhecer saberes de povos além da Europa e dos EUA como parte de sua história e identidade, e não encará-los como excêntricos”, afirmou Lucia.

Também professor do Colégio Pedro II e doutor em História, Wolney Malafaia prosseguiu a fala de Lucia abordando o cenário global pós Segunda Guerra Mundial e suas implicações no surgimento do Movimento dos Países Não Alinhados — uma organização que chegou a reunir mais de 100 países com a finalidade de fortalecer suas relações internacionais e se distanciar de confrontos entre as nações consideradas grandes potências, como os EUA, países da Europa, Rússia, Japão, Austrália, Nova Zelândia, entre outros. O resultado foi a formação de um eixo Sul-Sul, ou seja, de fortalecimento de relações exclusivas entre a maior parte dos países do hemisfério Sul: “Isso pode ser entendido como um processo de descolonização, uma reação ao domínio do Norte gerada no período pós-guerra”, disse Wolney.

O professor Wolney Malafaia, do Colégio Pedro II, explicou a formação do Movimento dos Países Não Alinhados como uma reação ao domínio dos países do Norte. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Wolney Malafaia, do Colégio Pedro II, explicou a formação do Movimento dos Países Não Alinhados como uma reação ao domínio dos países do Norte. (Foto: Gian Cornachini)

Para o professor da Uerj Jorge Braga, que é doutor em Geografia e especialista em Relações Internacionais — e que iniciou o debate no segundo dia do evento —, é urgente a necessidade da reflexão acerca de como os povos do Sul foram, ao longo da história, massacrados por uma ideologia que vem do Norte: “A colonialidade é um resíduo irredutível de nossa formação social e está arraigada nas mais variadas instituições políticas e acadêmicas. Ela não apenas submete outros povos à violência militar, mas também transforma radicalmente suas formas de conhecer o mundo e a si mesmos, levando o colonizado a adotar o universo cognitivo imposto pelo colonizador”, destacou. “Esse modelo eurocêntrico de mundo continua permanecendo. É importante descolonizarmos o saber e o poder a partir da sala de aula, questionar o que já vem especificado, promovendo um exercício de descolonização perpétuo na sociedade”, propôs ele.

Segundo o professor, outra maneira de ir contra a colonização do saber é adotar práticas em sala de aula que valorizem a história e formação dos povos do Sul, como, por exemplo, compreender estudos que abordem a América Latina: “A partir do momento que a gente desloca o locus da enunciação, saindo do eurocêntrico e trazendo para onde estamos, novas vozes emergem. A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela, a sua diversidade, importância, experiências e contribuições para esse processo”, relatou.

Jorge Braga, professor da Uerj: "A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela". (Foto: Gian Cornachini)

Jorge Braga, professor da Uerj: “A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela”. (Foto: Gian Cornachini)

Seguindo a mesma lógica, Amauri Mendes Pereira, doutor em Ciências Sociais e professor da UFRRJ — e que dividiu a mesa de debate com Jorge —, destacou a necessidade de também valorizar a cultura africana, uma vez que nosso continente pode ser chamado, segundo ele, de América Afro-Latina devido a sua composição demográfica formada, em grande parte, por afrodescendentes.

“A constituição brasileira criou a obrigatoriedade do ensino de história cultural afro-brasileira, africana e indígena. Isso já é um passo, mas surgiu de reivindicações. E currículo escolar não se faz pela lei. Tem que emanar de movimentos sociais, do saber descolonial que emerge do povo a partir de lutas significativas de novos agentes sociais e políticos engajados nessas transformações”, ressaltou Amauri.

Professor Amauri Mendes Pereira, da UFRRJ, aposta no ensino sobre a cultura e história africana e afro-latina-americana como um dos eixos da descolonização do saber. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Amauri Mendes Pereira, da UFRRJ, aposta no ensino sobre a cultura e história africana e afro-latina-americana como um dos eixos da descolonização do saber. (Foto: Gian Cornachini)

Descolonização do saber e “Escola sem Partido”

Ao tocar no assunto currículo escolar, é impossível deixar de fora a discussão a respeito do projeto “Escola sem Partido”, que prevê notificação extrajudicial para professores que falem sobre política, comentem notícias do dia a dia e discutam questões de gênero e identidade sexual em sala de aula. Os defensores desse movimento se dizem “preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras”, e afirmam que os educadores são “um exército organizado de militantes travestidos de professores” que se utilizam da “liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo” (saiba sobre o projeto em: http://www.escolasempartido.org/quem-somos).

Lucia Naegeli e Wolney Malafaia compartilham da mesma opinião sobre o "Escola sem Partido": "É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira". (Foto: Gian Cornachini)

Lucia Naegeli e Wolney Malafaia compartilham da mesma opinião sobre o “Escola sem Partido”: “É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira”. (Foto: Gian Cornachini)

Palestrantes e alunos presentes no evento se sentiram incomodados em pensar na possibilidade de serem considerados criminosos ao exercer, por exemplo, práticas da descolonização do saber. O professor Jorge lembrou que nosso sistema de educação é muito inspirado nos países do Norte, e isso desqualifica saberes e ideais que vão contra aqueles que nos são impostos: “Nossas gerações foram ensinadas a acreditar que havia um modelo de felicidade e sucesso que estava pautado na Europa e nos EUA, e isso acabou contaminando nosso currículo escolar, livros didáticos e a mídia com noções de progresso, fazendo a gente achar que desenvolvimento são construções de represas como Belo Monte e rodovias que atravessam o continente e cortam parques ambientais. Acredito que nós, professores, temos que construir nosso material e subverter os currículos instituídos”, declarou Jorge.

Estudantes fizeram perguntas e comentários sobre como colocar em prática a descolonização do saber diante de políticas retrógradas. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes fizeram perguntas e comentários sobre como colocar em prática a descolonização do saber diante de políticas retrógradas. (Foto: Gian Cornachini)

A professora Lucia comentou sobre o “Escola sem Partido” no primeiro dia do evento, considerando-o um retrocesso no processo de aprendizado e libertação da sociedade: “A gente custou tanto para perceber e reagir aos processos imperialistas e de exploração e, agora, isso tudo está sendo desconstruído de forma política, contrário à nossa libertação, soberania e resistência. A escola é o lugar que a gente tem que criar esses espaços para pensar”, opinou. Wolney também compartilhou da mesma ideologia e acredita que o projeto não conseguirá abafar as demandas sociais: “É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira. E não adianta botar o ‘Escola sem Partido’. A realidade vai invadir as escolas, as fábricas e as universidades. Esses caras estão simplesmente colocando uma noite entre um dia e outro. Eles serão derrotados”.

Um dia de protagonismo estudantil

No terceiro dia da XVII Semana Acadêmica de Geografia e do XVIII Encontro de Ciências Sociais, foi a vez de os alunos darem continuidade ao evento. Divididos em dois espaços, dezenove grupos de estudantes, de todos os períodos, discutiram seus pôsteres e fizeram apresentações orais sobre temas variados. Entre as mostras, alguns temas foram as diferenças socioespaciais  nas sub-regiões do Nordeste brasileiro, as diferenças e similaridades da reforma agrária no Brasil e na África do Sul, a desterritorialização dos habitantes do morro do Bumba após a tragédia acontecida na região, o conflito entre os pescadores e grandes indústrias na Ilha da Madeira, entre outros. Já as apresentações orais trouxeram assuntos como “Registros do trabalho de campo de Barra de Guaratiba: Praias dos Corais e do Perigoso e a Pedra da Tartaruga”; “As relações Sul-Sul e a descolonização do saber”; “Agora sou Black: conversa com meninas”; “Os meninos: impressões e olhares sobre o Black”, etc.

Um dos temas que mais suscitaram o debate entre os alunos foi o que tratou sobre “O impacto dos megaeventos no Brasil: o caso da Copa do Mundo em Manaus”. A apresentação de Marcelle de Souza, André Germano e Júnior Oliveira foi fruto de um trabalho para a disciplina de Geografia Regional e trouxe os pontos positivos e negativos que a Copa do Mundo gerou para a população manauara. Os estudantes apresentaram dados que demonstram que a cultura cotidiana dos moradores da cidade não tem o futebol como referência e que a construção de um estádio no local se apresenta como uma prática colonizadora dos saberes, culturas e conhecimentos locais, introduzindo lógicas externas e gerando impactos negativos. De acordo com os estudantes, o único aspecto que poderia ser considerado positivo foi a inclusão da cidade do sistema de energia brasileiro, enquanto promessas como obras de mobilidade sequer foram iniciadas e a especulação imobiliária tem promovido, como legado, um processo de higienização social na cidade.

Marcelle de Souza e André Germano, na apresentação sobre os impactos da Copa do Mundo em Manaus. (Foto: Pollyana Lopes)

Marcelle de Souza e André Germano, na apresentação sobre os impactos da Copa do Mundo em Manaus. (Foto: Pollyana Lopes)

“Das duas obras que realmente ficaram, que foi o estádio e o aeroporto, nada beneficiou a população. A população não tinha um apego cultural com a cultura futebolística e ficou um estádio que é um elefante branco e um aeroporto novo, que não é algo que muda a vida de muita gente”, explicou Marcelle.

O professor do curso de Geografia Alexandre José Almeida Teixeira coordenou um dos espaços e destacou o conhecimento adquirido com o contato com outras visões e abordagens trazidas por palestrantes de outras instituições. Ele também falou sobre a importância, na formação dos estudantes, das apresentações discentes, no enriquecimento do currículo acadêmico, na preparação para processos seletivos e no contato com o público, já que serão todos professores:

“Particularmente, em um dia como esse da semana, os alunos têm a oportunidade de fazer uma produção científica, de sair da sala de aula e de serem agentes, de serem atores que constroem o conhecimento, que fazem o diálogo com os colegas do seu curso e do outro curso, no nosso caso, particularmente”, comentou.

Professor coordenou um dos espaços e destacou o dia dedicado a apresentações dos estudantes. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor coordenou um dos espaços e destacou o dia dedicado a apresentações dos estudantes. (Foto: Pollyana Lopes)

Posição parecida mantém a professora de Ciências Sociais Carmem Castro. Antes de comentar alguns trabalhos, ela lembrou do aprendizado que adquiriu, enquanto cursou sua graduação, em encontros acadêmicos: “Às vezes era até maior do que a própria sala de aula”, enfatizou. Carmem também não deixou de cumprimentar os estudantes que se expuseram nas apresentações públicas: “Primeiro eu quero parabenizar os que vieram aqui na frente e apresentaram os trabalhos, isso torna o processo de uma semana mais dinâmico”.

Professora Carmen Castro parabenizou os estudantes fizeram apresentações. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Carmen Castro parabenizou os estudantes fizeram apresentações. (Foto: Pollyana Lopes)

Curso de Geografia reforça o debate sobre o Rio de Janeiro

Durante a aula inaugural do curso, pesquisador falou sobre a abrangência do conceito de território e sobre as possibilidades de atuação política na metrópole fluminense

Por Pollyana Lopes

Aconteceu no Auditório FEUC, na última quarta-feira 16, a aula inaugural do curso de Geografia. Na ocasião, o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Floriano Godinho de Oliveira,  que atua na Faculdade de Formação de Professores, em São Gonçalo, e nos Programas de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH/UERJ) e em Geografia (PPGEO/FFP/UERJ), conversou com os calouros e demais estudantes do curso sobre “Território, desenvolvimento e ação política na metrópole fluminense”.

A professora e coordenadora do curso de Geografia, Rosilaine Silva, explica que o objetivo do evento é recepcionar os calouros, mas não apenas: “O primeiro objetivo é receber os alunos que estão chegando, para eles sentirem qual o objetivo do curso, que é discutir o Rio de Janeiro e as diferentes possibilidades de entendimento de alguns conceitos da geografia. E, segundo, para possibilitar um movimento, chamar a atenção para a agenda de eventos do curso, e mostrar que será um ano de trabalho, e o trabalho começa desde o início”, contou.

Professora Rosilaine lembrou que o evento serve para começar o ano de atividades instigando os alunos à refletirem e a participarem das atividades do curso. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Rosilaine lembrou que o evento serve para começar o ano de atividades instigando os alunos a refletirem e a participarem das atividades do curso. (Foto: Pollyana Lopes)

Esta foi a segunda edição, o que coloca a aula inaugural de Geografia na programação fixa de eventos da Instituição, e seguiu debatendo um tema caro à formação dos geógrafos: o território. Em 2015, o pesquisador Rogério Haesbaert falou sobre “Des-territorialização em tempos de in-segurança e contenção territorial”.

Entre outros temas abordados, Floriano diferenciou desenvolvimento social de crescimento econômico. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre outros temas abordados, Floriano diferenciou desenvolvimento social de crescimento econômico. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre outros temas, as pesquisas do professor Floriano focam as questões administrativas e as possibilidades de ação política nas metrópoles. O conceito de território integra suas análises, pois, de acordo com o pesquisador, se anteriormente o termo estava mais ligado a delimitação do espaço, a propriedade, a pertencimento, a um recorte público, atualmente ele é analisado como um espaço de disputa pelos atores sociais.

“Hoje, quando nós pensamos o território, nós pensamos nos sujeitos que atuam no espaço. E quem são os principais sujeitos? O Estado, os grandes capitais, o capital imobiliário, o capital fundiário, mas, sobretudo, a classe trabalhadora, os sujeitos sociais que atuam na produção desse espaço”, explicou.

Para falar sobre as possibilidades de ação política na metrópole, o professor aproximou a ideia da organização do território com a gestão administrativa das cidades. Já no debate com os alunos, questionado a respeito, o professor citou o exemplo de cidades que, por meio de diferentes mecanismos, fortaleceram a ação política e o exercício da cidadania. O Orçamento Participativo aplicado em Porto Alegre e a elaboração do Plano Estratégico em Piraí foram alguns dos exemplos.

O debate com os alunos tornou evidente que a discussão sobre o Rio de Janeiro é, de fato, presente no curso de Geografia das FIC. Baseadas na experiência de aulas de campo e pesquisas desenvolvidas na região, as questões trazidas abordaram, principalmente, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) em Itaboraí e as mudanças espaciais e violações de direitos na Ilha da Madeira, em Itaguaí, para a construção do Porto Sudeste.

Quem mediou o debate foi Artur Lopes, professor do curso de geografia das FIC há 12 anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Quem mediou o debate foi Artur Lopes, professor do curso de geografia das FIC há 12 anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Sobre a Ilha da Madeira, Floriano foi categórico: “A questão de Itaguaí é o reflexo da dominação por parte de um Estado autoritário aos interesses do capital, uma administração pública completamente comprometida e a serviço dos interesses de uma acumulação capitalista”. Já sobre o Comperj, o professor fez questão de explicar que o principal motivo da paralisação das obras do complexo foi a crise internacional do petróleo, causada, entre outros motivos, pela exploração poluidora e irresponsável de “shale oil” (óleo não convencional, também chamado de xisto) feita pelos EUA, e não apenas pela dificuldade financeira da Petrobras ou a Operação Lava Jato.

Jaqueline Moutinho, estudante do 1º período, não fez perguntas, mas esteve atenta durante toda a palestra. Ela, que se interessa pela geografia desde o Ensino Médio, acredita que a palestra foi esclarecedora de questões econômicas que vivemos e fez seu interesse pela geografia aumentar. Sobre as expectativas com relação ao curso ela também é taxativa: “as melhores possíveis”.

Público se manteve atento durante todo o tempo e trouxe questões sobre Itaguaí e Itaboraí, principalmente. (Foto: Pollyana Lopes)

Público se manteve atento durante todo o tempo e trouxe questões sobre Itaguaí e Itaboraí, principalmente. (Foto: Pollyana Lopes)

Projeto de monografia de aluno das FIC ganha edital de financiamento

 

A proposta de trabalho de pesquisa sobre o Rio Mazomba, concebida por aluno e professor do curso de Geografia, receberá verba para ser executado

Por Pollyana Lopes
emfoco@feuc.br

Fernando da Silva Peres terminou o quarto período do curso de Geografia nas FIC e recebeu uma ótima notícia para começar 2016 com o pé direito e muito trabalho: seu projeto de monografia foi contemplado pelo edital do Comitê Guandu e receberá um financiamento para ser executado no decorrer do próximo ano. Assim que soube da oportunidade de se inscrever no edital, o estudante procurou a orientação do professor Alexandre José Almeida Teixeira, que prontamente atendeu a demanda. Eles prepararam, juntos, o projeto “Análise Espaço-temporal da Bacia Hidrográfica do Rio Mazomba através do geoprocessamento”.

“Nós elaboramos um projeto cujo objetivo é fazer o mapeamento de uma sub-bacia hidrográfica do Rio Guandu, que é o Rio Mazomba. A ideia do projeto é, através do uso de imagem de satélites antigas e recentes, fazer um estudo temporal, ao longo de vários anos, de como essa paisagem foi se transformando ao longo desse tempo”, explica o professor.

O professor Alexandre e seu aluno Fernando: projeto premiado. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Alexandre e seu aluno Fernando: projeto premiado. (Foto: Gian Cornachini)

A FEUC foi a única universidade particular contemplada pelo edital, e ficará a cargo do orientador a gestão do dinheiro do projeto, que poderá ser utilizado para locação de equipamentos, compra de dados, mapas, contratação de serviços para atividades de campo, combustível, inscrição e viagens a congressos etc. “São custos às vezes elevados que podem impedir o aluno de fazer a monografia”, exemplifica Alexandre.

Para concorrer no processo era necessário que as propostas estivessem relacionadas à gestão dos recursos hídricos e do meio ambiente das Bacias Hidrográficas dos Rios Guandu, Guarda e Guandu Mirim. Dentre as várias possibilidades, Fernando explica por que eles decidiram pesquisar o Rio Mazomba, um afluente do Guandu:

“A escolha do Rio Mazomba é porque ele está próximo, ele é um rio que faz parte do lazer de muitas pessoas daqui, principalmente nessa época de verão. É uma área de lazer muito explorada na Zona Oeste, é de fácil acesso até um bom trecho. E também porque é um rio que tem uma grande importância, ele é responsável pelo abastecimento de água potável de boa parte da cidade de Itaguaí”, disse.

Enquanto o professor, que aguarda a convocação para a primeira reunião em janeiro, espera que o trabalho de Fernando seja um incentivo aos outros estudantes, o aluno reforça a necessidade de iniciativa e ressalta a qualificação dos mestres: “Os professores estão aí para ajudar, para montar o projeto, para orientar. A gente tem que mostrar para a galera que é possível, porque a coisa acaba acontecendo, já que a gente tem qualidade”.

Território: espaço de luta e solidariedade

 

Em 6 de abril, as FIC foram brindadas com uma belíssima conferência do pesquisador e professor da UFF Rogério Haesbaert, que valeu como aula inaugural do curso de Geografia. Um dos principais intelectuais na área de Geografia no Brasil, além de leitura obrigatória na academia, Haesbaert discutiu, na palestra “Des-territorialização em tempos de in-segurança e contenção territorial”, os conceitos de território e controle da sociedade ao longo da História. E a empolgação do público foi tanta que a FEUC em Foco convidou o professor Isaac Gayer e as professoras Gisele Miranda e Rosilaine Silva a formularem perguntas para uma entrevista exclusiva com o pesquisador. Aqui você pode ler o texto na íntegra:

Rogério Haesbaert durante aula inaugural do curso de Geografia. (Foto: Gian Cornachini)

Rogério Haesbaert durante aula inaugural do curso de Geografia. (Foto: Gian Cornachini)

1) Ao longo da sua carreira de pesquisa o professor já explorou várias dimensões da discussão sobre o território. Qual a importância da reelaboração dessa categoria para a geografia? E para um professor de geografia na educação básica?

Na verdade iniciei priorizando o conceito de região, que trabalhei durante os anos 1980 pela força da problemática da identidade regional (gaúcha) que eu vivenciava, e que foi objeto de minha dissertação de mestrado. A partir do final dos anos 1980, especialmente após a publicação de um pequeno artigo intitulado “Territórios Alternativos”, no Jornal do Brasil, passei a enfatizar a análise geográfica numa perspectiva crítica a partir do conceito de território. Sua enorme relevância no âmbito brasileiro (e também latino-americano) tem a ver com a grande questão da relação entre espaço e poder – questão agrária, urbana, ambiental, dos povos tradicionais… todas envolvendo a luta não só por terra mas por território, que é uma concepção mais ampla, pelo menos no meu entendimento, pois defendo uma concepção ampla de poder que envolve tanto os poderes hegemônicos (que incluem, hoje, a força do poder simbólico) quanto os poderes subalternos ou de resistência. A educação básica está cada vez mais comprometida com essas problemáticas, não há como o professor não tocar em temas territoriais com os alunos, pois nessa concepção política ampla de território ele está presente desde nossas relações cotidianas mais imediatas – como o próprio espaço da sala de aula ou do quarto em uma casa até as fronteiras de um Estado-nação. Mesmo se tomarmos o conceito mais simples – e operacional – de Robert Sack, do território como espaço cujo acesso é controlado, são inúmeros os exemplos vividos pelos próprios alunos em relação às diferentes formas de poder exercido através do controle do acesso e da mobilidade – tema cada vez mais evidente na nossa vida metropolitana frente à grande desigualdade entre as diferentes formas de circulação na teia da cidade.

2) O professor apresenta um forte diálogo com os autores franceses Guattari, Deleuze e Foucault ao longo de sua obra. Quais são as maiores influências desses pensadores para a sua reflexão?

Embora simplificando, pois seria impossível sintetizar aqui essas influências, primeiro começaria por Michel Foucault, provavelmente a maior referência filosófica quando se trata de enfatizar a relação entre espaço e poder. Preocupado menos com uma teoria e mais com as práticas e o exercício do poder, ele sempre mostrou como o espaço interfere nas, ou melhor, compõe as relações de poder. E como para Foucault toda relação social é também uma relação de poder, podemos ver o território sendo produzido nas mais diferentes escalas. Ele também oferece uma perspectiva política muito rica, ao afirmar que sempre que há poder há resistência, a resistência não é o contrário, o “outro” do poder, é seu constituinte. Assim, por menos visível que seja, sempre há alguma possibilidade de resistir. Ele também se preocupou em dar voz aos grupos subalternos, invisibilizados pelos discursos hegemônicos, e revolucionou a história ao trazer à tona sujeitos (e espaços) até então menosprezados, como o louco, o enfermo, o desviante, o presidiário e, num sentido mais amplo, todos aqueles ligados às instituições disciplinares, onde se inclui o estudante, o operário, o militar e mesmo o religioso. Deleuze e Guattari, que dialogaram muito com Foucault, ajudaram-me a entender os processos de des-re-territorialização, especialmente em suas obras “O Anti-Édipo” e “Mil Platôs”, livros que não são de leitura fácil, mas onde se descobrem, aqui e ali, momentos em que somos profundamente instigados a repensar nossas noções de espaço e tempo. Eles falam, por exemplo, não apenas do poder como “árvore”, que tem um centro hierárquico e uma rede-raiz (como o Estado), mas de “rizomas”, esse poder mais difuso que hoje, em parte, a própria internet nos proporciona, e que tem o potencial de provocar eventos pela intensificação de conexões inesperadas, como as que geraram as manifestações de junho de 2013 no Brasil. Deleuze e Guattari falam que o território é muito mais um ato, um movimento, do que um objeto ou “coisa”. A repetição de um movimento também nos territorializa pois é outra forma de exercermos controle sobre o espaço. Quantos de nós não gastam horas e horas no trânsito todos os dias? Isso também compõe nossos territórios-rede cotidianos. Esses autores afirmam também que todo território é ao mesmo tempo funcional e expressivo, ou seja, nós também “nos expressamos” através de nossos territórios, ou seja, construímos nossas identidades, que podem também ser múltiplas e acionadas conforme as relações de poder que estiverem em jogo a cada momento. Daí proveio a ideia de que vivenciamos hoje mais uma multiterritorialidade – acessamos e vivenciamos múltiplos territórios, não somente pela maior mobilidade física mas também pela mobilidade virtual – uma tela de computador pode trazer para dentro de nossa casa interferências externas e podemos, por exemplo, realizar uma teleconferência ou mesmo uma cirurgia à distância, ou seja, ingressamos e, de alguma forma, agimos sobre o território do outro mesmo estando fisicamente muito longe dele.

Haesbaert: “Na condição de educadores, tem-se a enorme  responsabilidade de  esclarecer, de refletir e,  quem sabe, também, de propor novos caminhos aos jovens”. (Foto: Gian Cornachini)

Haesbaert: “Na condição de educadores, tem-se a enorme responsabilidade de esclarecer, de refletir e, quem sabe, também, de propor novos caminhos aos jovens”. (Foto: Gian Cornachini)

3) Vemos nos últimos anos um desmonte do projeto de Estado de Bem-Estar Social. Em substituição a isso existe a produção de uma espécie de Estado de Segurança, a partir de formação de mecanismos que foram debatidos pelo senhor na palestra aqui na FEUC. Como é sua análise dessa questão na atual sociedade brasileira? A discussão da possível redução da maioridade penal (aumento do encarceramento e repressão) e da maior difusão da terceirização (enfraquecimento do Estado enquanto agente regulador) tem relação com essa reflexão? São dois lados da mesma moeda?

Trata-se de temas polêmicos, mas não há dúvida de que a questão de segurança se transformou em uma questão de Estado como nunca nas últimas décadas, e parte disso se deve a esse desmonte do Estado do Bem-Estar Social a que aludiste – se é que na América Latina tivemos a concretização de algo parecido a um Estado desse tipo, tamanha a força do patrimonialismo e das políticas autoritárias ao longo de nossa história “moderno-colonial”. Alguns afirmam até que o Estado (e mesmo muitas empresas) se alimenta hoje desse discurso do medo e da insegurança para melhor controlar a população. Mas não há dúvida de que, especialmente no caso da América Latina, aumentaram muito os indicadores de violência. Ocorre que poucos foram os governos que se preocuparam com a questão básica: a melhoria das condições sociais e a diminuição da desigualdade, fundamentais para alterar esse quadro. O que mais se vê, inclusive como demanda da própria população, são políticas que atacam apenas uma ponta do processo, e aí cresce constantemente o encarceramento, sem que, obrigatoriamente, se reduzam os índices de criminalidade. Hoje há verdadeiros “estados policiais”, que só se preocupam com a repressão, esquecendo a outra ponta, as condições sociais que alimentam esse mundo do crime, a começar pelo tráfico de drogas, que é alimentado por um enorme mercado consumidor localizado também “na outra ponta” de uma dinâmica onde só se fala dos produtores e, sobretudo, dos vendedores. Nesse sentido, é óbvio que medidas como reduzir a maioridade penal não resolvem, apenas servem de propaganda política (atendendo aos anseios de uma classe média pouco esclarecida) e podem mesmo aumentar a demanda ainda maior pela construção de prisões, quando na verdade o que falta é escola e educação de qualidade. Curioso é que quase todos parecem de acordo que os cárceres não passam de “escolas do crime” e mesmo assim continuam pedindo apenas mais polícia e mais prisões. Aguardo o dia em que todos, principalmente na periferia, saiam às ruas para pedir mais escolas, maior respeito aos professores e melhor qualidade para a educação de todas as suas crianças e jovens. A precarização do trabalho, sem dúvida, é uma outra face desse mesmo processo. O trabalhador – e seus direitos – é sempre o elo mais frágil desse circuito, e qualquer crise repercute primeiro em suas condições de trabalho, como agora com esse projeto de terceirização indiscriminada na economia brasileira. Ninguém fala em políticas que envolvam o lucro gigantesco dos bancos, grandes responsáveis pela crise de 2008 e que continuam acumulando como nunca. Como pode tamanho contrassenso? Mas contra isso parece que nos sentimos tão impotentes que sequer falamos a respeito. Alguns, porém, estão acordando, e vários movimentos “por uma outra globalização”, mundo afora (como o “Occupy”), têm demonstrado isso e nos dado alguma esperança.

4) O enclausuramento a partir do medo tem se tornado uma realidade espacial em toda a cidade, como a residência em condomínios fechados e a substituição do espaço público pelos shopping centers. Como esse fenômeno influencia a experiência urbana?

Embora eu não trabalhe diretamente com esses espaços, que são voltados sobretudo para as classes média e alta (vide os “rolezinhos” como uma forma dos grupos subalternos, jovens da periferia, tentarem se apropriar de espaços mais seletivos, ambíguos entre o público e o privado, como muitos shopping centers), sem dúvida nossas “sociedades de in-segurança” têm estimulado a segregação socioespacial e construído uma cidade desintegrada, parcelada, não propriamente “dividida”, porque algumas relações socioeconômicas continuam ocorrendo (via emprego doméstico, por exemplo), mas profundamente marcada pela seletividade espacial da mobilidade. Quando escutamos as falas de adolescentes como no recente documentário póstumo de Eduardo Coutinho, “Últimas Conversas”, percebemos a distância que separa nossos espaços-mundos. Mas, ao mesmo tempo, percebemos também a proximidade – pois a “humanidade” nos reúne, nos congrega. Para os que prezam pelo sentimento não só de “tolerância” ou “respeito” pelo outro, mas de efetiva identificação com seus anseios, com sua dimensão afetiva (no mais amplo sentido da palavra), para esses ainda resta claramente a possibilidade de reunir os “cacos” dessa cidade fragmentada. Talvez se mais estudantes de condomínios fechados fizessem “estágios” nas periferias e, ao contrário, mais estudantes das periferias frequentassem espaços comuns das classes mais altas (como museus e centros de arte), talvez esse fosse um caminho. A escola, mais uma vez, poderia ter um papel fundamental.

5) A atenção deferida pelos jornais é desigual no espaço da cidade, tornando algumas áreas mais visíveis que outras. Qual é o papel da mídia na percepção da violência e a sensação de medo na cidade do Rio de Janeiro?

No debate promovido na FEUC apresentei um dos resultados de nossa pesquisa que foram dois mapas representando os conflitos violentos na cidade veiculados pelos dois principais diários da cidade pertencentes a grupos empresariais e dirigidos a públicos também distintos: O Globo e O Dia. Enquanto o primeiro mostra uma “cidade violenta” ligada muito mais às zonas de classe média e alta da cidade, o segundo retrata a violência nas periferias (a zona Oeste da cidade aparece representada muito mais no segundo). Depreende-se daí que há espaços cujas questões são praticamente invisibilizadas pela grande mídia – e bem sabemos o poder que determinadas mídias têm sobre o direcionamento das políticas públicas – incluindo aqui, sobretudo, as políticas de segurança. Esse é apenas um exemplo do enorme papel exercido pelo discurso midiático hegemônico, por diferentes mecanismos (imprensa escrita, televisionada, internet…), e que repercute naquilo que denominamos uma “contenção midiático-territorial” do espaço urbano, na medida em que oculta (ou, por outro lado, ressalta) determinadas questões em determinadas áreas da cidade. Tal como a população pobre que, mesmo numérica e espacialmente majoritária, tem muito menor “peso simbólico” na construção da imagem urbana, aqui também o que é considerado notícia – e “insegurança” – tem claramente seus espaços privilegiados na teia da cidade.

6) O professor termina seu último livro “Viver no limite” de uma maneira esperançosa. Qual seria a importância da educação geográfica escolar na produção de possíveis transformações na sociedade?

Como já comentei em alguns momentos, apesar de todo o quadro negativo que se apresenta, especialmente no que se refere às formas de encarar a questão da segurança no espaço urbano e a crescente fragmentação socioeconômica de nossas cidades, não podemos de modo algum perder a nossa esperança de que mudanças para melhor podem ser concretizadas. Mas elas nunca poderão ocorrer sem efetivo engajamento e participação popular. A internet pode ser uma grande aliada para essas mobilizações. Junho de 2013, totalmente imprevisto, demonstrou o potencial que temos de nos organizar e ocupar as ruas, “redesenhar a geografia” da participação política, cada vez mais restrita ao ambiente asséptico e enclausurado dos palácios governamentais. Retrocedemos, é verdade, e as próprias mobilizações parecem cada vez mais conservadoras. O próprio Estado, cujas iniciativas de redistribuição de renda ao longo da década de 2000 chegaram a nos incutir esperança, está sofrendo profundo retrocesso. Creio que, na condição de educadores, especialmente de nível básico, mesmo desvalorizados – especialmente em termos salariais – tem-se a enorme responsabilidade de esclarecer, de refletir e, quem sabe, também, de propor novos caminhos aos jovens. Incutir-lhes esperança, pelo menos, mostrando não só a dureza dessa nossa realidade geográfica, mas também as iniciativas que, mesmo pontuais, representam iniciativas de efetiva transformação socioespacial, de territórios de resistência – como, de alguma forma, vários movimentos sociais em nossas favelas têm representado. Falar desses espaços-rede de luta e solidariedade, estimulando a própria criatividade de nossos alunos pode, sem dúvida, “abrir nossos espaços” para que novas trajetórias geográficas, muitos mais justas e humanas, sejam redesenhadas no futuro.

Mês intenso e agitado nas Faculdades

 

Uma sequência de quatro grandes eventos acadêmicos ao longo de maio, adentrando por junho, testemunha o vigor das licenciaturas e o entusiasmo dos graduandos

Da Redação
emfoco@feuc.br

Maria Ione cativou público com histórias da Biblioteca Nacional. (Pollyana Lopes)

Maria Ione cativou público com histórias da Biblioteca Nacional. (Pollyana Lopes)

Ao longo do mês de maio e os primeiros dias de junho a FEUC esteve em ritmo de debates, palestras, oficinas, apresentações de pesquisas, trabalhos de campo… A efervescência acadêmica pôde ser observada no Ciclo de História, Encontro de Ciências Sociais e Semanas de Pedagogia, Letras e Geografia, eventos que ao todo contaram com algo em torno de 70 diferentes atividades, a maior parte delas prestigiada por grandes plateias de alunos da casa e visitantes. E o melhor: com participação ativa dos graduandos, seja apresentando trabalhos, fazendo monitoria ou questionando a fundo os palestrantes que trouxeram temas entre instigantes e polêmicos.

Já na abertura do Ciclo de História dava para pressentir que o mês seria bom: com auditório cheio, a primeira palestrante cativou o público com a devoção empreendida no seu trabalho de bibliotecária da Biblioteca Nacional. A comunicação de Maria Ione Caser iniciou o ciclo falando sobre o básico do trabalho de um historiador, a relação com as fontes.

O evento, que teve como tema “Historiador em Perspectiva: dos Arquivos à Sala de Aula”, seguiu abordando os diversos olhares e formas de atuação do profissional. A formação docente e as práticas escolares — tão caras à instituição que é conhecida como a Casa do Professor — tiveram destaque na mesa que abordou a pesquisa sobre o Ensino de História e, também, no lançamento do livro “Ensino de História: usos do passado, memória e mídia”, organizado pelo professor Jayme Ribeiro.

Semana de Pedagogia buscou despertar criatividade e senso crítico

Maria Licia contou um pouco de sua trajetória na educação. (Pollyana Lopes)

Maria Licia contou um pouco de sua trajetória na educação. (Pollyana Lopes)

A Semana de Pedagogia foi marcada pelas emoções. “O professor e as práticas pedagógicas” foi o tema do evento, que começou com uma homenagem à coordenadora e à vice-coordenadora do curso, professoras Maria Licia Torres e Luiza Alves de Oliveira. O professor Marco Antonio Chaves de Almeida também foi homenageado pelos alunos. Nas diversas palestras e oficinas, as condutas docentes foram problematizadas, sempre no sentido de instigar os futuros professores a estarem atentos aos alunos e à adequação de suas técnicas. As palestras trouxeram pesquisas sobre a realidade das escolas, sem perder de vista a responsabilidade dos professores no processo de aprendizagem dos alunos. Os exemplos dos docentes que atuam nas salas de aula em diversos segmentos da educação levaram os estudantes a reflexões e análises críticas, o que pôde ser observado a partir das numerosas perguntas feitas ao final de cada palestra.

Para fechar o evento, uma apresentação dramática encenada pelo professor de teatro da FEUC, Adriano Marcelo, trouxe como personagem principal o arquétipo de um pedagogo. No desenrolar da peça, o personagem vai amadurecendo sua criatividade e senso crítico. A arte expressou o objetivo do evento como um todo.

Língua e literatura no contexto da mídia e redes sociais

Letras, como sempre, realizou a semana com o maior número de atividades: 33, fora as exposições de pôsteres, carrinho literário, apresentações culturais e feirinha de livros. Enlouquecida em meio aos preparativos para a abertura, a professora Arlene Figueira, coordenadora do curso, brincava: “No ano que vem vamos ter uma única atividade e em um único local. Vou juntar todo mundo na quadra e mandar ver!”. Exageros à parte, até que a programação estava enxuta este ano, uma vez que já houve edições com mais de 70 atividades.

Mais do que quantidade, porém, o que marcou foi a qualidade das palestras e das apresentações, assim como a intensa participação dos estudantes nos debates sobre o tema “Língua e Literatura: comunicação, mídia e redes sociais”. Dos clássicos da literatura ao universo das histórias em quadrinhos, os atos de linguagem no Facebook ou o uso do WhatsApp em grupos de estudo, os temas abordados instigaram o interesse das plateias, levando a um clima de muita interação.

Francisco Barbosa receitou o uso de emoção e sinceridade. (Foto: Gian Cornachini)

Francisco Barbosa receitou o uso de emoção e sinceridade. (Foto: Gian Cornachini)

Especialmente a palestra do radialista Francisco Barbosa, na segunda noite do evento, lotou o auditório. Comunicador da Rádio Tupi, ele defendeu ao microfone a tese de que comunicar é emocionar, e convocou os professores a empregarem isso em sala de aula. “Por falta de técnica melhor, sou muito verdadeiro quando estou no ar, sou sempre eu mesmo e não um ator representando. Nada dá mais liga do que sinceridade”, disse Barbosa, emendando numa mensagem para os licenciandos: “Vocês vão mudar a vida de quem cruzar com vocês, para melhor ou para pior. Serão um exemplo a ser seguido. Ou a ser evitado. Mas sempre uma referência. Então façam o melhor”, recomendou ele aos estudantes.

Ciências Sociais e Geografia discutem impactos socioambientais no RJ

Maio estava acabando, mas sua efervescência ainda foi prolongada até o XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente que, pelo segundo ano consecutivo, aconteceram concomitantemente, nesta edição sob o tema “Intervenções e violações socioambientais no estado do Rio de Janeiro”. O último sábado do mês (dia 30) tirou os estudantes da cama logo cedo para atividades de campo no bairro Duarte da Silveira, em Petrópolis; no Distrito Industrial de Santa Cruz; e na Ilha da Madeira, em Itaguaí. O objetivo era detectar e analisar impactos nesses lugares decorrentes da apropriação do capital, como a implantação da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) e da Gerdau (no Distrito Industrial de Santa Cruz) e da construção do Porto Sudeste e da base de submarinos da Marinha (na Ilha da Madeira). Segundo o professor Paulo Barata, do curso de Geografia e responsável pela atividade na Zona Oeste e em Itaguaí, a região próxima à FEUC tem uma grande potencialidade econômica, e é necessário que os estudantes consigam observar as contradições do capital: “Esse recorte espacial de Campo Grande a Itaguaí é muito importante para a economia e indústria do Estado do Rio de Janeiro. Precisamos quebrar esse paradigma de que a Zona Oeste é uma área apenas de carência e analisar nosso espaço de uma maneira crítica. E isso é essencial para que os estudantes deem atenção às problemáticas locais”, explica Paulo.

Estudantes observam construção do Porto Sudeste e seus impactos na Ilha da Madeira, em Itaguaí. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes observam construção do Porto Sudeste e seus impactos na Ilha da Madeira, em Itaguaí. (Foto: Gian Cornachini)

O percurso no Distrito Industrial incluiu paradas paralelas à margem direita do canal de São Francisco, em frente à Gerdau, à TKCSA e à Usina Termelétrica de Santa Cruz – todas com o objetivo de contar a história das empresas e lembrar das violações socioambientais praticadas com liberação do Estado, como a restrição do acesso ao canal de São Francisco pela TKCSA, que antes era naturalmente aberto aos pescadores locais, agora impedidos de continuar suas atividades tradicionais.

Caso parecido acontece na Ilha da Madeira, em Itaguaí, onde empresas como a MMX, do empresário Eike Batista, instalaram-se para dar início à construção do Porto Sudeste, com a finalidade de melhorar o escoamento da produção mineral brasileira, mas inviabilizando a atividade pesqueira, esbarrando em comunidades tradicionais e impondo a desapropriação de diversas moradias. Sério Hiroshi, da Associação de Pescadores e Lavradores da Ilha da Madeira (Aplim), conversou com os estudantes e revelou suas frustrações: “Tentamos de tudo quanto é jeito resistir, mas o governo fala que esses empreendimentos vão gerar mais de 10 mil empregos. O que eu faço? Ajudo os pequenos pescadores e deixo o resto de Itaguaí sem trabalhar? Eles querem nos colocar como vilões”, lamentou ele.

De volta às FIC, durante os dias 1, 2 e 3 de junho, os alunos relataram suas experiências nas atividades de campo durante cada palestra do evento, sempre fazendo conexão com o tema abordado e as cenas que viram. Emocionada, a estudante Rosangela Godinho, do 7º período de Ciências Sociais, externou sua esperança na educação como fator de transformação da sociedade: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada, mas temos que nos unir. A gente vai estar em sala de aula, e é lá que vão começar os primeiros passos de uma modificação, que é possível sim”.

Rosangela Godinho: “O capital quer nos amedrontar “. (Foto: Gian Cornachini)

Rosangela Godinho: “O capital quer nos amedrontar “. (Foto: Gian Cornachini)

Para coroar este último evento e também fechar com chave de ouro a longa jornada de aprendizado e produção coletiva de conhecimento — como definiu com muita propriedade a professora Célia — foi lançado o segundo número da Khóra, revista transdisciplinar dos cursos de Ciências Sociais, Geografia, História e Pedagogia, que pode ser acessada no endereço www.feuc.br/khora. Está imperdível, com muitos artigos de professores da casa e convidados, e também repleta de contribuições de nossos graduandos.

Encontro de Ciências Sociais e Geografia traz violações socioambientais no Rio para o centro do debate

 

Evento, que reuniu professores e estudantes da casa e recebeu pesquisadores e militantes, terminou com divulgação de carta em repúdio às intervenções que o Rio vem sofrendo 

Por Gian Cornachini, Pollyana Lopes e Tania Neves
emfoco@feuc.br

Os cursos de Ciências Sociais e de Geografia das FIC mantiveram a parceria na produção de seus eventos em 2015. O XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente anconteceram conjuntamente nos dias 1, 2 e 3 de junho, nesta semana. Com o tema “Intervenções e violações socioambientais no estado do Rio de Janeiro no século XXI”, o evento contou com profissionais de diferentes áreas, que trouxeram distintas abordagens sobre a geografia, a política, as questões sociais e econômicas do estado do Rio de Janeiro.

Geotecnologias e espacialidades fluminenses

A primeira palestra foi mais voltada para as questões da Geografia. Com o tema “Geotecnologias e espacialidades fluminenses”, a mesa-redonda teve a participação do professor da UERJ Vinicius da Silva Seabra, do professor da FAETEC Elton Simões Gonçalves e do geógrafo do Instituto Pereira Passos (IPP) João Grand Júnior. Os dois primeiros apresentaram análises sobre a geografia do leste fluminense: Vinícius mostrou diferentes pesquisas sobre a região feitas sob distintos aspectos (hidrográfico, físico, socioeconômico) que utilizam algum tipo de geotecnologia, principalmente o Sistema de Informações Geográficas (SIG); e Elton mostrou um pouco da sua pesquisa para a dissertação de mestrado sobre a Bacia do Rio São João e explicou como o trabalho só foi possível com o uso de determinas geotecnologias. Já João Grand expôs algumas ferramentas geotecnológicas aplicadas nas pesquisas do instituto.

A relação da geografaia rural com as geotecnologias foi o tema do mestrado de Elton Simões Gonçalves, que ele apresentou no evento. (Foto: Pollyana Lopes)

A relação da geografaia rural com as geotecnologias foi o tema do mestrado de Elton Simões Gonçalves, que ele apresentou no evento. (Foto: Pollyana Lopes)

Tratando assuntos diferenciados, sob olhares heterogêneos, os participantes da mesa foram unânimes em defender o uso das geotecnologias, lembrando que estas são facilitadoras do trabalho dos geógrafos e que elas têm aplicação em várias outras áreas do conhecimento. “Eu costumo dizer que as geotecnologias não trazem nenhum tipo de dado novo para as questões que são geográficas, porque essas questões sempre existiram e sempre foram trabalhadas na geografia. O que acontece é que as geotecnologias otimizam os processos mercadológicos utilizados pelas geografia”, explicou o professor Victor.

Marildo pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. (Foto: Gian Cornachini)

Marildo pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. (Foto: Gian Cornachini)

“Uma cidade em que todos não cabemos não vale a pena”

A noite do primeiro dia do encontro rendeu bastante discussão entre os palestrantes convidados e os estudantes presentes. Pós-doutor em Filosofia e professor da UFRJ, Marildo Menegat iniciou o debate sobre a temática “O papel do Estado e da sociedade civil na atual fase de mercantilização da cidade”. Didaticamente, ele pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. De acordo com o professor, esse modelo econômico se apropria das grandes cidades para realizar imensas obras de infraestrutura, tornando o Estado endividado e dependente de financiamentos do capital: “Na medida em que o capitalismo não se torna mais rentável apenas nas quatro paredes de uma fábrica, ele precisa tornar o espaço urbano rentável”, sugeriu Marildo. “Estados Unidos, Japão e Grécia hoje estão com dívidas acima do seu PIB. Eduardo Paes vai deixar o Rio de Janeiro com uma grande dívida. Uma vez que o capital se torna financeirizado, ele vai forçar o Estado a se endividar. O problema não é o dirigente do Estado, mas esse modo de vida social, e que a gente não pode aceitar de forma natural, porque uma cidade em que todos nós não cabemos não vale a pena”, criticou o professor.

Marildo também lembrou que vivemos uma situação de liberdade se comparado ao mundo escravista, mas que ainda continuamos reféns de um sistema segregador: “A reprodução dessa sociedade já não cabe a todos nós. Uma parte significativa está sendo esmagada, e suas vidas não valem nada. No Brasil, morrem de forma violenta 54 mil pessoas por ano: jovens de 15 a 25 anos, do sexo masculino e negros. E a sociedade não se comove porque incorporou a ideia de que a vida dessas pessoas marginalizadas não vale nada”, destacou o professor. “Diante de um mundo em que não cabemos todos, ele produz vários mecanismos inteligentes que fazem uma seleção por meio de assassinatos, moradias… A realidade não é nada razoável, é péssima. E podemos ser pessimistas, porque isso nos deixa lúcidos para percebermos o mundo”, apontou.

Sandra sugeriu que a luta e resistência são as maiores armas para mudar a história. (Foto: Gian Cornachini)

Sandra sugeriu que a luta e resistência são as maiores armas para mudar a história. (Foto: Gian Cornachini)

Diante deste cenário desenhado por Marildo, a economista Sandra Quintela, do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), sugeriu que a luta e resistência ainda são as maiores armas para tentar mudar os rumos da história: “O grande desafio da gente é a luta nos territórios para fortalecer as resistências que existem e garantir modos de viver diferentes desse imposto pelo capital, que passa por cima de tudo”, lançou ela. O estudante André Germano, do 3º período de Geografia, expôs sua frustração em não conseguir ver em sua região grupos se manifestando: “A gente não consegue reunir essas pessoas para a resistência. Parece que nada vai dar certo. Queria que vocês falassem para a gente o modo como podemos fazer isso, porque para mim é dar um tiro no escuro”, lamentou ele.

Um caminho proposto para driblar o cenário atual foi belamente sugerido pela aluna Rosangela Godinho, do 7º período de Ciências Sociais. Emocionada, ela não quis fazer pergunta aos palestrantes, mas externar a sua esperança na educação como fator de transformação da sociedade: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada, mas temos que nos unir. Tentar ouvir tudo o que foi dito em uma palestra é o começo do começo. Essa oportunidade que a gente tem aqui é de ouro. Somos um curso de licenciatura e a gente vai estar em sala de aula, e é lá que vão começar os primeiros passos de uma modificação, que é possível sim!”, apontou Rosangela. “Se o mundo mais justo se chama ‘loucura’, então celebro essa loucura e digo que sou louca todos os dias”, concluiu a estudante.

Rosangela: "O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada". (Foto: Gian Cornachini)

Rosangela: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada”. (Foto: Gian Cornachini)

Violações socioambientais: lutas e resistências

Outro momento de destaque durante a Semana de Geografia e Ciências Sociais foi a noite do segundo dia do evento, que trouxe para o debate “Resistências rurais e urbanas aos impactos socioambientais no Estado do Rio de Janeiro”. O palestrante Luiz Otávio Ribas, representante do coletivo nacional de Direitos Humanos do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), chamou a atenção dos estudantes para populações que sofrem com obras arbitrárias do Governo com a promessa de solucionar questões hídricas. Ele destacou a barragem no rio Guapiaçu, no município de Cachoeiras de Macacu (RJ), como um projeto repleto de irregularidades que afetam diretamente a vida e propriedades de 3 mil pessoas, além de 15 mil trabalhadores.

Assista ao curta “Guapiaçu: Um Rio (de Janeiro) Ameaçado”

“As barragens são construídas com escolhas que envolvem uma política pública e de desenvolvimento econômico. Privilegiam áreas do estado que são terras onde o povo trabalha e que ficam bastante afastadas das políticas de incentivo à produção agrícola”, observou Luiz. “O MAB entende que é a luta que transforma, mas ainda assim não há segurança de que a mobilização possa garantir os direitos das pessoas atingidas. Só que a Justiça tem usado dos nossos relatórios para fazer as indenizações, e isso já é motivo para festejar”, destacou ele.

E nada melhor que uma vítima direta dos impactos socioambientais para contar seus dilemas diários de resistência. O pescador Alexandre Anderson, da Associação Homens do Mar da Baía da Guanabara (AHOMAR), apresentou o vídeo “Rio: Baía de todos os perigos!” – que resume a luta de sua comunidade – e relatou os impactos que os pescadores vêm sofrendo com a poluição e industrialização da Baía de Guanabara, e a presença da Petrobras com seus terminais, refinarias e dutos.

Assista ao documentário “Rio: Baía de Todos os Perigos”

Alexandre luta pelo direito de continuar pescando na Baía da Guanabara. (Foto: Gian Cornachini)

Alexandre luta pelo direito de continuar pescando na Baía da Guanabara. (Foto: Gian Cornachini)

“No final dos anos 90, a gente ocupava 70% do espelho d’água da Baía de Guanabara. Depois de 2010, a gente passou a ocupar só 12%. Hoje, pesca-se 80% menos que pescava em 2000. A Baía de Guanabara está sendo tomada por uso industrial, e o que queremos é o direito de continuar fazendo o que os nossos avós e tataravós faziam de maneira digna, em nosso ambiente local”, ressaltou Alexandre.

O pescador mostrou fotos de manifestações da AHOMAR e lembrou da perseguição que sofrem na luta pelo direito a um meio ambiente limpo e um mar próspero para o exercício de sua profissão: “’Só’ fui preso 12 vezes, e absolvido as 12. Tive cinco companheiros assassinados, quatro em militância. Mas a gente não para, e por isso que um dos únicos lugares que não deixo de ir para dar palestra é na academia, porque é daqui que sai a nossa voz”, valorizou ele.

Gratificada com a militância de Alexandre, a estudante Gabriela Barboza da Silva, do 3º período de Geografia, solicitou um espaço para agradecê-lo: “O que seria da sociedade sem um Alexandre? O que seria do mundo sem aquele que grita pela natureza? Eu não tenho a garra de sofrer um tiro como ele, mas tenho de chegar na sala para instruir o meu aluno a não poluir. Na minha vida acadêmica vou falar eternamente sobre você. Meus parabéns!”.

A aluna Gabriela agradeceu ao pescador Alexandre pela resistência de sua comunidade. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Gabriela agradeceu ao pescador Alexandre pela resistência de sua comunidade. (Foto: Gian Cornachini)

Nas sessões dedicadas a trabalho de alunos… o dedicado trabalho de alunos!

A manhã e a noite do último dia ficaram reservadas para as apresentações de trabalhos de alunos – que foram muitos e de extrema qualidade, como frisou a professora Gisele Miranda, que coordenou um dos eixos temáticos na terça à noite: “Vocês estão todos de parabéns. Fizeram uma belíssima participação neste encontro acadêmico. É este mesmo o momento de fazerem suas primeiras apresentações, perderem a timidez. Estou orgulhosa”, disse.

Como não se orgulhar vendo o entusiasmo de estudantes que saíram das salas de aula e foram pesquisar a história e os problemas do entorno de onde vivem, já pensando em como sensibilizar seus futuros alunos para a preservação do meio ambiente e a produção de conhecimento sobre sua região e sua condição? Foi o caso do grupo de Daniele Lourenço, Leyduane Paula, Priscila Ribeiro e Tamiris Sena, graduandos de geografia, que apresentaram o trabalho “Dinâmica fluvial e a escola: o ensino da educação ambiental através da Geomorfologia fluvial”, em que mostraram a situação de degradação do rio Cabuçu e contaram sobre o trabalho desenvolvido com alunos da região, levando-os para observar o rio e entenderem que aquele é o resultado do que as pessoas fazem com a natureza – mas que pode ser diferente.

Pedro e Rosangela apresentam trabalho sobre barra de Guaratiba

Pedro e Rosangela apresentam trabalho sobre barra de Guaratiba. (Foto: Tania Neves)

Pedro Pimenta e Rosangela Goldinho, graduandos de Ciências Sociais, abordaram “Guaratiba – Aspectos urbanos numa região rural”, levantando um pouco da história e mostrando como uma espécie de “urbanização forçada” pode ser a raiz da maior parte dos problemas vistos hoje na região. Na pesquisa, os estudantes observaram lá nos anos 1940, quando foi construído o polígono de tiro e a ponte da Marambaia, o mesmo tipo de discurso que hoje justifica as grandes obras em andamento: “Lá era um discurso sobre proteger o litoral, e com isso construíram a ponte e o polígono e mudaram completamente a cara da região. Antes havia pescadores que trocavam produtos com agricultores. Para realizar essas grandes construções, usaram esses pescadores como mão de obra, e as colônias de pescadores praticamente acabaram, descaracterizando completamente a região. Ao fim das obras, foram abandonados”, relatou Pedro.

Lançamento da Khóra e Carta de Repúdio para as redes

A noite de encerramento XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente contou ainda com o lançamento do segundo número da Revista Khóra, que já pode ser acessada no link http://www.site.feuc.br/khora. Os professores Flávio Pimentel (Pedagogia), Mauro Lopes (Ciências Sociais), KhoraRosilaine Silva (Geografia) e Natália Faria (História), citaram os artigos de professores e alunos de seus  cursos incluídos na revista e fizeram um chamamento geral para que todos enviassem propostas de artigos e outras contribuições para o terceiro número, que deve ser lançado durante o Fórum de Educação, Ciência e Cultura, no segundo semestre: “Estamos de braços abertos para receber publicações tanto de professores quanto de alunos”, disse Flávio. “Vamos aproveitar este momento: quem está entregando suas monografias, converse com o orientador sobre a possibilidade de submeter uma parte para publicação na Khóra”, convidou Mauro.

Por fim, a professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais, fez um balanço do evento, considerando que o Encontro de Ciências Sociais e a Semana de Geografia mostraram um grande vigor ao mergulhar na produção de conhecimento feito de forma coletiva , ressaltando que esta é a única boa ferramenta para a luta e a militância por um mundo mais justo. “Saímos daqui esperançosos, do verbo esperançar, como Paulo Freire nos ensinou”, disse a professora, que em seguida leu a “Carta em repúdio às intervenções e violações no Rio de Janeiro” (título provisório), escrita a muitas mãos na tarde de quarta-feira, como fruto das intensas discussões realizadas no encontro e tentando refletir o sentimento de indignação coletiva que envolveu todos os que presenciaram os relatos sobre as violações ambientais que o Rio vem sofrendo. A carta será digitada e divulgada nas redes sociais nos próximos dias.

Curso de Geografia das FIC recebe o pesquisador Rogério Haesbaert em aula inaugural

 

Um dos principais intelectuais na área de Geografia no Brasil, além de leitura obrigatória na academia, Haesbaert discutiu conceitos de território e controle da sociedade ao longo da História

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

O curso de Geografia das FIC foi brindado na última segunda-feira, dia 6, com a presença do pesquisador Rogério Haesbaert — importante nome nos estudos sobre território e região, além de autor de livros de destaque, como “O mito da desterritorialização: do ‘fim dos territórios’ à multiterritorialidade” (2004). Também professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Haesbaert foi convidado a palestrar na FEUC para a aula inaugural do curso — atividade que, segundo a professora Rosilaine Silva, coordenadora de Geografia, deverá acontecer no início de todos os anos letivos.

Aula inaugural, iniciada com Haesbaert, acontecerá todos os anos com outros palestrantes. (Foto: Gian Cornachini)

Aula inaugural, iniciada com Haesbaert, acontecerá todos os anos com outros palestrantes. (Foto: Gian Cornachini)

“A gente está trazendo para o nosso calendário uma atividade nova que vai acontecer, geralmente, em março ou abril. Será uma aula que irá trazer as boas-vindas e brindar nossos trabalhos ao longo do ano”, explicou Rosilaine. “O objetivo é nos encantar, chamar a atenção e trazer um assunto que é debatido por nós em sala de aula, mas que a partir de um convidado vai possibilitar para nós a inquietação, reflexões e produções futuras”, ressaltou ela.

E para dar início a esse primeiro debate com um olhar externo, Haesbaert discutiu a “Des-territorialização em tempos de in-segurança e contenção territorial”, abordando diferentes tecnologias e instrumentos utilizados para exercer poder e controle em nome de uma suposta segurança. O pesquisador iniciou sua fala lembrando que, em diversos períodos da História, sociedades se utilizaram de muros para limitar o acesso de povos vistos como piores, menos civilizados, pobres ou bárbaros.

Haesbaert: "a população aceita medidas radicais, em que o Estado vira terrorista contra os terroristas para conter o caos". (Foto: Gian Cornachini)

Haesbaert: “a população aceita medidas radicais, em que o Estado vira terrorista contra os terroristas para conter o caos”. (Foto: Gian Cornachini)

“O muro não deixa de ser uma tecnologia de conter o poder. As muralhas serviram para isso. Na China, havia o ditado ‘todo perigo vem do norte’. Do norte, vinham os mongóis, que eram os ‘bárbaros’. Já os limes romanos, além de exercer papel militar, controlavam a passagem de mercadoria na Europa”, apontou Haesbaert.

O palestrante lembrou que a implantação de muros se intensificou com a Guerra Fria e os atentados de 2001, nos EUA, e ainda continua.

“O muro de Berlim separava o mundo dito socialista de um lado e o capitalista do outro. Entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte, há cercas para conter populações pobres migrando em massa para o sul. Nos Estados Unidos, o acesso ficou muito mais difícil, e a população aceita medidas radicais, em que o Estado vira terrorista contra os terroristas para conter o caos”, afirmou o professor.

Trazendo a discussão para mais perto de nós, no Rio de Janeiro, segundo Haesbaert, há exemplos de muros contemporâneos de contenção para limitar territórios. É o caso das barreiras na Linha Amarela, que separam e escondem favelas da via expressa, e dos muros entre a favela Santa Marta e a Floresta Nacional da Tijuca.

“O discurso na Linha Amarela é o da biossegurança, para a comunidade não sofrer com a poluição sonora, e na Santa Marta é o do ecolimite, para que a favela não se expanda até a floresta. E a favela Santa Marta foi uma das que menos vinham se expandindo nos últimos anos. Eles já tinham um limite que eles próprios conheciam, e não precisavam do muro”, apontou o pesquisador. “O problema é que quando fizeram o projeto não perguntaram para a comunidade se aquilo seria o correto”, disse.

Palestrante respondeu pergunta de ex-aluno das FIC: 'é possível ver com bons olhos as medidas que o Estado toma?". (Foto: Gian Cornachini)

Palestrante respondeu pergunta de ex-aluno das FIC: ‘é possível ver com bons olhos as medidas que o Estado toma?”. (Foto: Gian Cornachini)

No debate com os alunos, ao fim da palestra, o professor Marcos Vinicius, recém-formado em Geografia pelas FIC, questionou a possibilidade de também ver com bons olhos as medidas que o Estado toma para tentar gerir a insegurança, como a criação do Centro de Operações Rio (C.O.R) — um prédio equipado com tecnologia de ponta para realizar o monitoramento ao vivo de ruas da cidade do Rio de Janeiro por meio de câmeras de vigilância. Apesar de reconhecer a contribuição do C.O.R para a solução de crimes, Haesbaert criticou o fato de a tecnologia ser usada principalmente em áreas mais ricas.

“Vários crimes são mais identificados porque foram filmados. Mas acionar efetivamente alguém para ir até a área e atuar é difícil. E há desigualdade nessas ações, que afetam mais umas áreas a outras”, respondeu Haesbaert, lembrando que a presença de câmeras de monitoramento na Zona Sul e Centro é drasticamente maior se comparada à quantidade de câmeras instaladas na Zona Norte e, principalmente, na Zona Oeste (exceto a região da Barra da Tijuca).

Estudar, praticar, estudar mais…

 

Conciliando sala de aula com pesquisa e formação acadêmica, o professor Isaac prega aproximação entre escola básica e academia

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Ele tem nome comprido, de príncipe – Isaac Gabriel Gayer Fialho da Rosa – mas disposição e força de trabalho de um operário: aos 30 anos, acaba de completar seu doutorado em Geografia na UFRJ, coroando um ciclo de mais de 23 anos ininterruptos de estudo, que na última década correu em paralelo com a atividade de professor e pesquisador. Acumula hoje a docência e pesquisa no Colégio Pedro II de Realengo com aulas também na Faetec de Marechal Hermes e aqui nas FIC, onde ainda coordena, com a professora Rosilaine Silva, o subprojeto de Geografia no PIBID. Há quatro anos no quadro de professores da instituição, Isaac recebeu, na Reunião de Professores que abriu este semestre letivo, a tradicional plaquinha entregue pelo diretor Hélio Rosa aos que completam mestrado ou doutorado. E já faz planos para o pós-doutorado…

“Minha carreira sempre seguiu pari passu com as aulas no ensino básico e a continuidade da formação acadêmica. Acredito que uma coisa alimenta a outra. O professor que está no chão da escola, principalmente se for de educação básica e pública, tem um olhar diferente na pesquisa, e é disso que precisamos para melhorar a educação como um todo”, diz Isaac.

Isaac Rosa acaba de concluir o doutorado em Geografia e já pensa no pós-doutorado. (Foto: Gian Cornachini)

Isaac Rosa acaba de concluir o doutorado em Geografia e já pensa no pós-doutorado. (Foto: Gian Cornachini)

No mestrado em Educação, na Uerj, o professor abordou o tema da gestão escolar. Era docente em Mesquita, e pesquisou lá como se deu a implementação dos mecanismos de gestão democrática na rede pública de educação (eleição direta para diretores, autonomia financeira, discussão do projeto pedagógico etc.). Por ser um município novo, imaginava-se que haveria menos dificuldade de levar para a prática o discurso político tão em voga de democratização do espaço escolar. Nem tanto: “A pesquisa identificou, sim, avanços com relação a alguns pontos, mas outros mantinham o mesmo atraso que se vê na rede em geral. Principalmente a questão do autoritarismo continua muito presente”.

No doutorado, Isaac mudou de instituição e área — Geografia, na UFRJ — mas manteve a educação como fio condutor, estudando a implantação de tecnologia nas escolas municipais do Rio, no projeto Escolas do Amanhã. Se o discurso oficial era o de que um pacote de intervenções de cunho tecnológico — computadores, programas multimídia, banda larga — bastaria para melhorar a realidade das escolas de baixo rendimento, localizadas em áreas de conflito, não foi isso que ele constatou no estudo: “O Ideb dessas escolas não apresentou grandes avanços, e a transformação da realidade escolar também foi muito pequena”.

As razões? Isaac sustenta em sua tese que houve uma fetichização da tecnologia, uma crença de que a simples disponibilização de máquinas e programas de computador para alunos e professores resolveria. “Houve grande investimento em tecnologia, assim como transferência de muito dinheiro público para fundações privadas que dão suporte ao projeto, mas pouco investimento na formação continuada do professor. Este foi tratado como o obstáculo, aquele que rejeita mudanças. Faltou escutar o professor e dar a ele uma formação para que pudesse se apropriar criticamente da tecnologia e assim conseguir tirar vantagem dela em sala de aula”, observa.

Especificamente com relação a sua disciplina, Isaac exemplifica como esse aporte tecnológico poderia ter sido bem empregado: “Se aos professores tivessem sido oferecidos cursos de capacitação e atualização, eles poderiam, por exemplo, usar os computadores e programas para criar pirâmides etárias e mapas feitos pelos próprios alunos, realizar pequenos documentários sobre a realidade geográfica de seu entorno, entre outras coisas”.

Isso que não viu nas Escolas do Amanhã, Isaac se empenha para mostrar que é possível acontecer, com o subprojeto do PIBID que orienta junto com a professora Rosilaine, coordenadora do curso de Geografia. Eles estão levando os bolsistas (alunos de geografia das FIC) a discutir o audiovisual como metodologia para o ensino da disciplina na educação básica e criar condições para a produção de curtas-metragens sobre temas como meio ambiente e mercado de trabalho, com estudantes da escola onde desenvolvem o projeto, o Pedro II de Realengo, a partir do conteúdo estudado em sala de aula e dos elementos recolhidos em trabalhos de campo que farão nas próprias regiões onde os estudantes moram. “A conquista do PIBID para a FEUC é muito importante, porque coloca na formação de seu licenciando um elemento prático de pesquisa, com reflexão e ação sobre a realidade da escola. E como esses futuros profissionais depois vão atuar aqui mesmo na região, assim poderemos construir uma escola básica diferente, enriquecida pela aproximação com a academia”.

Da serra para o nível do mar

 

Curso de Geografia promove dois trabalhos de campo em lugares distintos: Parque Estadual do Mendanha e Área de Proteção Ambiental Guapimirim — um formado por altos morros e outro por manguezais

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Professora Debora explica detalhes físicos e geográficos do Parque Estadual do Mendanha. (Foto: Gian Cornachini)

Professora Debora explica detalhes físicos e geográficos do Parque Estadual do Mendanha. (Foto: Gian Cornachini)

Trabalhos de campo têm sido um instrumento didático amplamente utilizado no curso de Geografia das FIC para associar a teoria à prática. Em 27 de setembro, a professora Debora Rodrigues, que dá aulas de Geomorfologia, Pedologia, Climatologia e Cartografia, levou um grupo de estudantes ao Parque Estadual do Mendanha a fim de exemplificar no local os conceitos de encosta, planície e inundação, além de identificar os tipos de rocha presentes na serra e constatar a importância da preservação da área para a Zona Oeste. “É fundamental que os alunos de Geografia do Rio de Janeiro conheçam as unidades de relevo e compreendam o espaço em que vivem, porque futuramente eles poderão levar seus alunos nessas unidades em um sentido de preservá-las”, explica Debora.

Trilha para cachoeira leva mais de uma hora de caminhada entre mata atlântica densa. (Foto: Gian Cornachini

Trilha para cachoeira leva mais de uma hora de caminhada entre mata atlântica densa. (Foto: Gian Cornachini

O Parque Estadual do Mendanha é uma Área de Proteção Ambiental (APA) localizado no maciço do Gericinó-Mendanha, entre a Zona Oeste do Rio e o município de Nova Iguaçu. No espaço, encontra-se uma grande área de mata atlântica preservada, trilhas, cachoeiras e espécies biológicas raras e ameaçadas de extinção. Carlos Dário, geógrafo e gestor do parque, recebeu a equipe da FEUC e a conduziu mata adentro: “Esse lugar representa uma alternativa de lazer gratuita, de alta qualidade e num ambiente de grau de preservação superior à Floresta da Tijuca, que é possível observar pelo estágio de regeneração das árvores. A floresta aqui é primária, não teve grandes intervenções humanas”, destacou Carlos, que incentiva a presença de visitantes a fim de que o lugar seja mais conhecido e preservado: “Entre um parque na Zona Oeste e outro na Zona Sul, qual terá mais visibilidade? Por isso, eu faço questão de vir pessoalmente com vocês, pois quero que saiam daqui com informações privilegiadas e que tragam mais pessoas pra cá, porque a melhor maneira de preservar o parque é ter mais presença”, ressaltou o gestor.

Da serra para o nível do mar, um novo trabalho de campo foi marcado para 8 de novembro, desta vez na Área de Proteção Ambiental Guapimirim — uma região de manguezal localizada na Baía de Guanabara entre os municípios de Magé, Guapimirim, Itaboraí e São Gonçalo. Coordenada pelo professor Alexandre Teixeira, que dá aulas de Elementos de Geologia e Morfologia Geral, a atividade buscou apresentar aos estudantes um ambiente distinto em termos de formação de rochas e solos: “Na região do mangue predomina um ambiente de deposição de sedimentos cuja origem é marinha, de rios e de encostas da Serra do Mar. Os rios dessa região são sinuosos, ou seja, fazem curvas, e a baixa velocidade favorece o deposito de material”, detalhou Alexandre. “E o mangue ainda representa um ecossistema fundamental para as águas da Baía de Guanabara, permitindo que ela não fique mais degradada, pois funciona como um filtro biológico”, completou o professor.

Às margens da Baía de Guanabara, grupo de alunos observa uma área de mangue

Às margens da Baía de Guanabara, grupo de alunos observa uma área de mangue. (Foto: Gian Cornachini)

Juliana Fukuda, analista ambiental da Área de Proteção Ambiental Guapimirim, conduziu o grupo a uma área de mangue e explicou a importância do local para a preservação do bioma: “Essa é a área que mantém a Baía de Guanabara viva. Por esses manguezais chegam os últimos rios limpos à Baía. O local sofre uma pressão industrial e urbana muito grande, mas é daqui que sairão as espécies de animais e plantas para a recuperação da baía e dos mangues da região”, afirmou a analista ambiental.

Para finalizar o trabalho de campo, o grupo ainda visitou o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, a fim de verificar a formação rochosa do lugar. Porém, o trânsito na subida da serra e a chuva no parque atrapalharam a atividade, que poderá ser remarcada para um outro momento, de modo que o aprendizado seja completo.

A partir de maquete da Serra dos Órgãos, estudantes visualizam formação rochosa

A partir de maquete da Serra dos Órgãos, estudantes visualizam formação rochosa; (Foto: Gian Cornachini)