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Professor de História do CAEL é destaque no YouTube

 

Arão Alves, graduado e pós-graduado na FEUC, faz vídeos para a internet e ajuda estudantes de todo o Brasil a passar no vestibular

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

O fluxo de conhecimento compartilhado por um professor, geralmente, é paralisado por uma questão física: as aulas têm horário de início e fim, assim como o expediente da escola. Mas há quem consiga subverter isso de alguma maneira e ultrapassar esses limites físicos e temporais. Estamos falando do professor Arão Alves, que desde 2000 leciona História no CAEL.

Com bastante experiência em sala de aula, Arão está no CAEL desde 2000. (Foto: Gian Cornachini)

Com bastante experiência em sala de aula, Arão está no CAEL desde 2000. (Foto: Gian Cornachini)

Formado em Ciências Sociais e História pela FEUC, e também pós-graduado por nossa instituição, Arão faz parte de um grupo social que muitos não conseguiriam entrar: os desinibidos. Isso mesmo. Os “sem vergonha” — no bom sentido da expressão. Pronto para experimentar novos caminhos além dos tradicionais, o professor decidiu botar a cara na web e expandir suas aulas para a internet, podendo, assim, ajudar estudantes não só do CAEL, mas de todo o Brasil, a compreender melhor temas importantes de sua área do conhecimento.

O Blog do Professor Arão Alves já existia há 6 anos quando o docente ousou dar um passo além e criar conteúdo em vídeo para o YouTube. Primeiramente, em seu canal pessoal e, recentemente, em um espaço mais profissional chamado “História em Gotas: Sua dose de conhecimento”.

Canal do professor Arão no YouTube. (Imagem: Reprodução)

Canal do professor Arão no YouTube. (Imagem: Reprodução)

“Eu comecei a fazer um blog com o objetivo de passar material para os alunos. Aí eu tive a ideia de fazer vídeos mais curtos e mandava o link para os alunos, para complementar a aula”, conta Arão, que abraçou de vez a ideia de se tornar um professor “youtuber”: “O retorno dos alunos foi sendo muito legal, então eu comecei a aprender sobre edição de vídeo, para fazer melhor”.

O bom trabalho do professor tem rendido muitos depoimentos de pessoas elogiando a qualidade do material, que é capaz de ajudar até mesmo quem sonha em passar no vestibular para uma boa universidade.

Estudante relata experiência com o canal. (Imagem: Reprodução/YouTube)

Estudante relata experiência com o canal. (Imagem: Reprodução/YouTube)

“Você vê a felicidade de uma pessoa, e que foi você quem colaborou com isso. É muito emocionante. Quem é professor, sabe o valor de ajudar a realizar sonhos de pessoas, e que sequer você irá conhecê-las”, diz Arão.

Mas nem todo conhecimento compartilhado na internet é tão bom assim. O professor alerta que vivemos em uma sociedade que se preocupa mais com a estética do que com a qualidade do conteúdo. E isso pode ser bastante perigoso.

“As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras. A internet está cheia de informação. Mas até que ponto essa informação é realmente conhecimento, tem base, ou é apenas uma opinião?”, alerta o professor.

Arão: "As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras". (Foto: Gian Cornachini)

Arão: “As pessoas têm dificuldade em perceber onde tem qualidade e, às vezes, cai dentro de coisas que não são bem seguras”. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo ele, o ideal na hora de procurar material online para complementar os estudos é verificar se quem compartilhou a informação é um especialista na área, principalmente porque, para Arão, vivemos um momento complicado de nossa História:

“A História no Brasil está sendo colocada para o canto, desvalorizada por interesses políticos. Aos poucos, é apresentada a nós uma História que agrada e que não tem base científica. E aí você constrói uma memória histórica extremamente problemática”, criticou ele.

Quem quiser ficar por dentro de diversos temas de História, e com a chancela de qualidade de um especialista na área, basta seguir o canal História em Gotas no YouTube (clique aqui para acessá-lo), com vídeos novos todos os sábados, às 18h. E a melhor parte: é de graça e está pronto para ser visto e revisto a qualquer momento e de qualquer lugar.

Letras: Semana Acadêmica do curso completa 25 anos com dezenas de atividades

 

Durante quatro dias de evento o público pôde enriquecer seus conhecimentos com palestras, mesas-redondas, oficinas e diversas outras programações

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Há quem diga que parece ter sido ontem que o curso de Letras das FIC promoveu, pela primeira vez, sua Semana Acadêmica. Mas o fato é que o evento já está na 25ª edição, garantindo o sucesso de sempre, seja por meio de suas ricas palestras ou por relatos e experiências de estudantes e professores com um único objetivo: fortalecer o saber teórico, técnico e humano do universo das Letras. E, neste ano, para comemorar seu Jubileu de Prata, a temática central foi “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo” — fio condutor de quase meia centena de atividades, entre comunicações científicas, palestras, mesas-redondas, oficinas, exposições e muito mais. Um resumo da Semana Acadêmica — que aconteceu de 31 de maio a 3 de junho, nos períodos da manhã e da noite — você confere a seguir.

Reencontro com a FEUC: ex-alunos relembram trajetória acadêmica

Para introduzir os graduandos no clima dos 25 anos da Semana, uma mesa-redonda foi organizada com a presença de ex-alunos de destaque. Ao público, eles contaram um pouco sobre como foi seu percurso acadêmico e as experiências pós FEUC.

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

O ex-agente da Polícia Militar Rodrigo Torres está apaixonado por dar aula e valoriza a mudança de carreira: “Graças a Deus eu saí da PM. Hoje eu faço o que gosto, e isso não tem preço. Não desistam e não parem de estudar. Tem que chegar em casa, sentar e pesquisar, preparar a sua aula, porque o aluno não vai engolir tudo o que você disse”.

Ramayana Del Secchi Linhares se formou recentemente e já atua como professora no Município, tendo dicas a oferecer: “Na maioria das vezes o aluno não acredita que é capaz porque os pais também não acreditam. Cabe a vocês, que tiveram uma boa formação, mostrar que esse aluno é capaz, porque se a educação não for para fazer diferença, então ela não valerá a pena”, ressaltou. Armando de Carvalho, que trabalha com educação para presidiários, concorda com Ramayana e procura, assim como a professora, transformar a vida dos detentos por meio da educação: “É muito importante atuar como incentivador, estimulador daquela criatura à sua frente que está ansiosa para ouvir o que você tem a dizer. O segredo todo é inspirar”, afirmou.

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Embora não pretenda ser professora, a atriz Gui Soarrê, também formada recentemente em Letras nas FIC, valoriza a profissão dos colegas: “Lecionar não é a minha grande paixão, mas eu acho uma profissão heroica. Vou usar a poesia e o teatro para também tocar as pessoas, usar o poder humanizador da arte para tocar essa essência humana”, disse Gui.

A coordenadora do curso, Arlene da Fonseca Figueira, fez uma análise das falas, destacando o respeito de todos pela figura do educador: “Nem todos são professores, mas todos são ex-alunos bem sucedidos, cada um com suas escolhas. E a voz que me encantou aqui é o respeito ao professor. Nossa sociedade e os políticos não têm esse mesmo respeito, mas só conseguiremos ir à frente quando respeitarem o professor e valorizarem a educação”.

CD “No caminho das Letras” é lançado no evento

Os professores Erivelto da Silva Reis e Arlene da Fonseca Figueira, à frente do subprojeto “Produção de Acervo de Áudio” (Letras/Português) do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) nas FIC, aproveitaram a Semana Acadêmica para apresentar aos estudantes o CD “No Caminho das Letras”. A produção, destinada a deficientes visuais, reúne diversas gravações de clássicos da literatura em domínio público, além da obra do poeta Primitivo Paes, lidas por estudantes do Ensino Fundamental II da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guaratiba. Erivelto revelou a satisfação de ter concluído o trabalho: “Esse CD é um motivo de orgulho para nós. Despertamos a leitura e compreensão do que os alunos liam e discutiam. Eles se tornaram sujeitos de sua própria leitura e entendiam que a pessoa cega que ouvirá os áudios dependerá da emoção, boa leitura e interpretação do texto”.

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Joyce da Silva dos Santos, uma das alunas bolsistas do subprojeto e que apresentou um resumo do trabalho aos licenciandos, contou o que aprendeu com a atividade do Pibid: “Eu não posso simplesmente chegar na escola e apresentar Machado de Assis sem contextualizar e mostrar o que posso tirar dali. A gente tem que puxar um ganchinho com as nossas experiências para perceber os efeitos da literatura em nossa vida e ver o que ela tem em comum com a gente”, destacou ela.

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Homenagem póstuma à ex-coordenadora do curso

A 25ª Semana de Letras também dedicou uma atividade a relembrar uma figura bastante importante para o curso das FIC: a professora Miriam da Silva Pires, falecida em fevereiro de 2013, quando era professora do curso de Letras da UFRRJ. Antes de passar no concurso para aquela instituição (em 2010), Miriam foi, durante anos, coordenadora de Letras das FIC. Ela esteve na organização de diversas edições da Semana Acadêmica, colaborando com a consolidação de um dos eventos mais importantes da FEUC.

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Os professores Erivelto Reis — que teve a oportunidade de ser aluno de Miriam — e Flávio Pimentel — que teve a honra de compartilhar mesas-redondas com a professora — contaram os momentos mais marcantes que tiveram com ela e destacaram sua importância para o curso de Letras das FIC: “Você ficava impressionado de onde vinha tanto conhecimento e as relações que ela estabelecia entre as diferentes áreas do saber. Celebrar a memória dela é celebrar o legado de uma pessoa que lutou a vida toda para que a educação transformasse a vida das pessoas”, ressaltou Erivelto. “Em nossas conversas entre filosofia e literatura havia uma proximidade muito grande [dos saberes], até o ponto de que eu nunca mais deixei de apresentar alguma coisa na Semana de Letras”, lembrou Flávio.

Antes de partir para os EUA, uma colaboração com a Semana

André Nascimento se formou em Letras (Português/Inglês) nas FIC em 2014, emendou na pós-graduação em Língua Inglesa, também na FEUC e, agora, ruma aos Estados Unidos para cursar, com bolsa integral, o mestrado em Português e Literaturas pela The University of New México (leia a reportagem “Da FEUC para o mundo” sobre a conquista do mestrando). Durante os próximos anos, André vai pesquisar a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas, mas, antes de partir para terra dos ianques, ele deu uma “palinha” dos seus estudos como convidado a palestrar na Semana de Letras. “O Carandiru e o medo: a masculinidade e a violência social em voga (des)cortinados pela narrativa fílmica” foi o tema de sua apresentação, que buscou esclarecer a relações machistas e de masculinidade no filme brasileiro Carandiru (2003).

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo André, a lógica de estupro dentro do presídio passa por um conceito de “herói” de uma “mitologia invertida”, além da constante necessidade de se autoafirmar como forte e macho: “Para que um detento tenha status de homem, ele precisa diminuir o outro. No banho, eles nunca ficam de bunda para o outro, ou seja, uma questão de autoafirmação”, ponderou André. “Um prisioneiro precisava fazer uma cirurgia, mas o médico disse que seria muito arriscado. E, ainda assim, o homem afirmou ter duas balas no corpo e que, portanto, aguentaria. Mesmo em meio à dor, afirmar-se como homem era altamente relevante”.

Para o estudante, esses fenômenos acontecem porque o homem latino-americano segue um padrão do que é ser homem, por diversas vezes carregado de valores sexuais: “É preciso ter uma habilidade sexual como maratonista para se aprovar e nunca pode dizer não ao sexo com uma mulher, porque aí a sua masculinidade seria confrontada”, explicou.

O Ciclo do Café e a produção literária

Em um intercâmbio entre História e Literatura, os professores Erivelto Reis, de Letras, e Márcia Vasconcellos, do curso de História, articularam contexto histórico e a produção artística e literária durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba.

Márcia falou das condições específicas que tornaram essa região privilegiada para a produção de café, na época, e forjaram os grandes barões do período. Além de mostrar o desejo deles em integrar a nobreza:

“Ao contrário de outras áreas, onde os cafeicultores investem em grandes inventários e casas opulentas para demonstrar riqueza e poder, em Vassouras não vai ficar só nisso, e como consequência surge uma vida urbana e cultural”, explicou. O professor Erivelto complementou: “Para eles, apenas ser rico não era suficiente, eles queriam fazer parte da elite. Conhecer a história desse período ajuda a gente a entender a ideia de elite no Brasil”, revelou.

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Também foi colocado por ambos os professores o papel da escravidão nessa sociedade. Márcia destacou as estratégias de sobrevivência e leitura dos escravos como sujeitos históricos. Erivelto, que faz pesquisa na região, contou que o tema é ausente nas visitas guiadas e museus do local, e fez um apelo aos estudantes: “Fica o convite para a galera de Literatura para, quando estudar romantismo, discutir essas relações, sobretudo aquela geração condoreira, Castro Alves, Gonçalves Dias. É preciso perceber o que esses homens estão vendo para escrever literatura. E eles estão vendo isso aí, sofrimento, escravidão, poderio econômico, opulência, esses homens achavam que não iam empobrecer nunca”.

A literatura dentro dos livros e no palco

Além de palestras, mesas-redondas e comunicações coordenadas, a Semana de Letras também apostou no lúdico como forma de conhecimento. Em sintonia com o tema do evento, “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo”, o espetáculo teatral “De dentro dos livros” arrancou risadas e também levou à reflexão. A peça fez uma oposição entre leitura e tecnologia, na qual personagens dos livros se materializaram em busca de novos leitores, já que estão desaparecendo devido ao interesse das crianças pela tecnologia.

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

A ideia de apresentar a obra partiu da estudante do 3º período de Letras Amanda Barboza, que também foi monitora da Semana. Ela, que é atriz e integra o Grupo Pipa, disse ter se surpreendido com o resultado, já que o espetáculo é mais voltado para o público infantil. “Eu até chamei uns alunos do CAEL para assistirem, mas as pessoas mais velhas também gostaram muito e riram bastante, porque mesmo as peças infantis têm apelo para outros públicos. O teatro foi a minha primeira profissão, conseguir a arte com a minha segunda profissão, que é ser professora, eu achei ótimo”, disse.

“As minhas raízes são aqui”

Pelos corredores da FEUC, no último dia da Semana de Letras, o professor Gustavo Adolfo da Silva  poderia passar despercebido pelo pátio não fosse o cumprimento dos mestres do curso de Letras acolhendo-o, agradecendo sua presença e parabenizando-o. Convidado a palestrar, ele não pôde participar por conta de outros compromissos, mas fez questão de prestigiar o evento. Gustavo, que é professor aposentado pela UERJ, cursou mestrado e doutorado na UFRJ e tem 13 livros publicados — sendo três de poesia — garante que a FEUC é a sua casa: “A minha graduação foi aqui, minha primeira especialização foi na FEUC, sou morador de Campo Grande. Eu dei aulas aqui durante dez anos, as minhas raízes são aqui”, disse.

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre 1974 e 1984 Gustavo lecionou disciplinas de Filologia, Sintaxe e Estilística. Sua atuação como professor, no entanto, foi passada adiante por meio de seus livros e das histórias de colegas. O professor Erivelto foi um dos que o encontraram e não perdeu a oportunidade de agradecê-lo: “Querido mestre, que satisfação reencontrá-lo. Seja bem-vindo a esta casa mais uma vez, é uma inspiração para nós. A sua presença nos honra muito e nos incentiva a continuar, porque os seus ensinamentos são importantes e a sua trajetória profissional é de inspiração para todos nós”, saudou.

Ligeiramente tímido, ele agradeceu o reconhecimento e o dedicou ao magistério: “Quando a gente está nessa idade, eu tenho 70 anos, sempre dedicado ao magistério, o magistério foi minha vida, é muito bom ouvir isso. É muito gratificante, para mim, ter o reconhecimento de ex-alunos, daqueles que leram os meus trabalhos. São coisas que a gente pode dizer que valeu a pena. A atividade docente vale a pena pelo reconhecimento de todos aqueles que eu convivi ao longo da minha vida”, acentuou.

Enquanto esperava sua neta que estuda no CAEL, ele aproveitou para mostrar, aos estudantes, seus livros que estavam à venda na banca do evento. Desconhecido da maioria, mas fundamental para a história do curso de Letras das FIC.

Mais fatos e fotos:

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda "Letramento literário como ferramenta de inclusão", na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda “Letramento literário como ferramenta de inclusão”, na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda "Pibid na formação continuada do docente" e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda “Pibid na formação continuada do docente” e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso "Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca", que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso “Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca”, que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Semana de Pedagogia: 27ª edição aborda os desafios de educar

 

Com o objetivo de fortalecer a formação dos professores, evento trouxe para o debate as possibilidades de desenvolver uma prática de ensino de forma reflexiva e crítica

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini

Há 27 anos acontece a semana acadêmica de um dos cursos mais tradicionais da FEUC: Pedagogia. E as demandas atuais da educação merecem discussões específicas, com o objetivo de fortalecer o ensino. É por isso que a XXVII Semana de Pedagogia abordou, entre os dias 16 e 18 de maio, a temática “Desafios, possibilidades, experiências e dilemas da Pedagogia contemporânea”, por meio de diversas palestras, oficinas, mesas-redondas e relatos de experiências. Na abertura do evento, o estudante Helton Tinoco já adiantou a importância da Semana para a formação dos alunos: “A gente, mesmo em espera, sem ter tantas possibilidades, deve buscar os desafios da nossa autonomia. A gente pode construir e deve construir um fazer pedagógico que estimule a reflexão e o pensamento de cada um dos alunos”. As 25 atividades da Semana, além das apresentações de trabalhos e lançamentos de livros, reuniram diversas experiências sobre esse fazer pedagógico apontado por Helton, e separamos, a seguir, um pouquinho do que aconteceu no evento.

Helton: "A gente pode construir e deve construir um fazer pedagógico que estimule a reflexão e o pensamento de cada um dos alunos". (Foto: Gian Cornachini)

Helton: “A gente pode construir e deve construir um fazer pedagógico que estimule a reflexão e o pensamento de cada um dos alunos”. (Foto: Gian Cornachini)

Mesa-redonda: Currículo, diversidade étnico-racial e formação de professores

O debate sobre “Currículo, diversidade étnico-racial e formação de professores” contou com a participação das professoras Janice Souza e Jane Souza, das FIC, e da professora da Secretaria Municipal de Educação do Rio, formada em Pedagogia também nas FIC, Luciana das Neves Rosa Costa.

Jane e Janice apresentaram a proposta do subprojeto Interdisciplinar do Pibid FEUC, que desenvolve ações didático-pedagógicas a partir da utilização de livros de literaturas africanas e afro-brasileira, e contaram suas experiências no Instituto de Educação Sarah Kubitschek (IESK). O colégio foi escolhido por abrigar o curso de formação de professor e, dessa forma, elas acreditam que o trabalho desenvolvido lá seja multiplicado quando os estudantes forem atuar profissionalmente.

Professora Jane apresentou o projeto Pibid Interdisciplinar e convidou duas alunos do IESK para relatarem suas experiências participando do programa. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Jane apresentou o projeto Pibid Interdisciplinar e convidou duas alunos do IESK para relatarem suas experiências participando do programa. (Foto: Pollyana Lopes)

A professora convidou duas alunas do IESK a assistirem à palestra, e elas aproveitaram para relatar ao público presente como o projeto modificou o olhar que elas tinham sobre o continente africano: “Participar do projeto mudou muito o meu pensamento, porque… acho que como todo mundo que vê a África através da mídia, eu pensava em um país pobre, um país que só tem coisas ruins, doenças. Mas quando a gente olha por um outro ponto de vista, que o projeto mostrou a nós, a gente vê que a África tem coisas boas, sim, tem riquezas, tem belezas e é um continente inteiro”, apontou Deise da Silva Francisco de Lima, estudante do 2º ano do Ensino Médio no IESK.

Deise da Silva Francisco de Lima é estudante do Instituto de Educação Sara Kubitschek e participa do projeto Pibid Interdisciplinar. (Foto: Pollyana Lopes)

Deise da Silva Francisco de Lima é estudante do Instituto de Educação Sara Kubitschek e participa do projeto Pibid Interdisciplinar. (Foto: Pollyana Lopes)

Já Mirian Piedade dos Santos, também aluna do 2º ano no IESK, destacou a importância de sentir orgulho de seus antepassados: “A gente viu que é um lugar com muita história. Em todos os países aparecem histórias de guerreiros, de lutadores, e a gente não dá o valor devido aos africanos. Tem gente que até alisa o cabelo com vergonha, com vergonha da cor da minha pele. Mas a gente tem que ver que não é vergonha, é orgulho, orgulho do povo que sempre lutou pela sua liberdade e, de um ponto de vista, para mudar a sociedade”.

A sala de aula é o que Luciana Costa escolheu para fazer sua parte na construção de uma sociedade diferente. A professora de Educação Infantil mostrou como inclui a diversidade étnico-racial nas aulas cotidianas. Ela também destacou sua formação na FEUC e a disciplina de História da Cultura Africana no Brasil: “A nossa faculdade é uma das pouquíssimas que tem isso no currículo, ainda mais enquanto obrigatório. É um privilégio que quem estuda na FEUC tem. Eu percebi isso quando comecei a ir para os espaços para discutir as relações étnico-raciais”, destacou.

Desafios da Educação Brasileira

Na palestra sobre “Desafios da Educação Brasileira”, as professoras Lúcia Baroni e Cristina Maia elencaram aspectos pedagógicos e administrativos que desafiam os profissionais na melhora efetiva da educação no Brasil. No quesito pedagogia, Lúcia Baroni destacou a falta de apoio da família e a necessidade de uma prática mais inclusiva:

“Qual é a diferença entre integração e inclusão? Integrar é colocar a criança dentro do ambiente escolar, incluir é preparar o ambiente escolar para receber a criança. Não existe professor inclusivo, existe escola inclusiva. A inclusão se dá desde o porteiro, o inspetor, porque todo mundo tem que se adaptar, o ambiente tem que estar pronto para a inclusão, senão, não é inclusão”, explicou.

Lúcia Baroni, Cristina Maia e a coordenadora do curso de Pedagogia, Maria Lícia, na palestra sobre os "Desafios para a Educação Brasileira". (Foto: Pollyana Lopes)

Lúcia Baroni, Cristina Maia e a coordenadora do curso de Pedagogia, Maria Lícia, na palestra sobre os “Desafios para a Educação Brasileira”. (Foto: Pollyana Lopes)

Já sobre os aspectos administrativos, Cristina Maia elencou a falta de apoio da família e formação docente fragilizada como pontos que precisam de mais atenção e esforço: “A gente precisa rever essa ideia de que a nossa formação está terminada. Não, nós estamos em um processo permanente. E precisamos sair dessa zona de conforto e não ficar aguardando que as coisas aconteçam. Nós precisamos fazer, apesar das condições adversas”.

Atendimento educacional especializado em pauta

Estudantes de Pedagogia foram protagonistas de algumas atividades da Semana. Os que já têm práticas educacionais puderam compartilhar suas experiências com os alunos. Foi o caso da formanda Edvane Cabral de Lima, que trabalha na direção geral do Centro Municipal de Atendimento Educacional Especializado (CEMAEE) de Itaguaí e que coordenou uma mesa-redonda com a participação de outras funcionárias do Centro. À plateia, ela mostrou fotos dos estudantes em atividades e contou como funciona o trabalho do CEMAEE, quais seus objetivos e a rotina de atendimento a alunos especiais: “A gente trabalha com a perspectiva de dar um suporte ao aluno especial regular, de acordo com as suas necessidades. Temos pedagogas, fonoaudiólogas e psicólogas apoiando não com um trabalho clínico, mas educacional, com o objetivo de que o aluno consiga se socializar na escola regular e não ficar segregado em uma escola especial, como uma ‘escola dos diferentes’”, esclareceu Edvane.

A aluna Edvane trabalha em instituição de apoio à estudantes especiais. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Edvane trabalha em instituição de apoio à estudantes especiais. (Foto: Gian Cornachini)

Educação emancipadora

Uma outra mesa-redonda também trouxe experiências para compartilhar com os graduandos das FIC, mas desta vez sobre uma escola municipal de Duque de Caxias que experimenta as possibilidades de um modelo educacional diferente do proposto pela Secretaria de Educação daquela cidade. O professor de ensino básico Eduardo Oliveira apresentou o dia a dia da escola Barro Branco, localizada no bairro de mesmo nome, onde trabalha desde 2007 com uma perspectiva de “educação emancipadora”.

Segundo o professor, a escola pretende formar alunos críticos e, para isso, precisa seguir um Projeto Político-Pedagógico diferente do praticado em outras escolas sob tutela da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias: “A gente quer que o aluno consiga ler o editorial recente de O Globo sobre a CPFM e fazer um link com um outro editorial do mesmo jornal, que anteriormente ‘metia o malho’ na CPFM. Queremos que eles sejam minimamente críticos da realidade para além da ideologia, e críticos e sujeitos do que eles irão produzir”.

Professor Eduardo compartilhou experiências de uma educação crítica e democrática na escola municipal Barro Branco, em Duque de Caxias. (Foto: GIan Cornachini)

Professor Eduardo compartilhou experiências de uma educação crítica e democrática na escola municipal Barro Branco, em Duque de Caxias. (Foto: GIan Cornachini)

Para isso se tornar possível, os estudantes são politicamente ativos na escola, que possui gestão democrática. Lá, não existe a figura do diretor. Tudo é decidido em conjunto, em contraponto a outras escolas que são subordinadas a diretores indicados por vereadores da cidade. Há eleição para representantes de turma, que participam ativamente do Conselho de Classe com os professores. A parte financeira da instituição que, a princípio, a gente imagina ser de responsabilidade dos adultos, passa pelo crivo das crianças, que ajudam a decidir o destino das verbas. Os professores também visitam as casas das famílias dos alunos com o intuito de entender a realidade imediata de cada estudante e como funciona a comunidade local. Com isso, eles conseguem se mobilizar pelas próprias causas, realizar passeatas e protestar por direitos.

“A gente está aqui para mostrar um outro tipo de educação, que é oposição ao que tentam impor a nós. Vai demandar mais força, mais trabalho, mas vai ser possível. O paraíso não é lá, mas o nosso Projeto Político-Pedagógico não é utopia. A gente tem o prazer de fazer algo ser de todo mundo, junto”, destacou Eduardo.

Contação de histórias

Tia Aninha (Ana Oliveira) já é uma figura conhecida na FEUC. Formada em Pedagogia nas FIC, ela sempre participa de eventos do curso, seja dando palestra ou oferecendo um curso sobre o que ela mais gosta de fazer: trabalhar com crianças e contar histórias. Nesta edição do evento, a pedagoga foi convidada a ministrar uma oficina para compartilhar seus conhecimentos sobre contação de histórias, e não faltou conteúdo para ajudar os futuros professores a aperfeiçoar suas habilidades na prática.

Tia Aninha deu dicas para alcançar objetivos educacionais por meio de contação de histórias. (Foto: Gian Cornachini)

Tia Aninha deu dicas para alcançar objetivos educacionais por meio de contação de histórias. (Foto: Gian Cornachini)

Para a profissional, o trabalho de contação de histórias requer que o professor seja sempre simpático, alegre, empático, e que receba seus alunos com sorriso e amor nos olhos, pois isso gera troca de confiança. Em relação à prática, Tia Aninha recomenda utilizar a voz em tons diferentes para marcar a mudança entre as figuras do conto. É necessário ter clareza e objetividade, além de usar palavras de fácil entendimento. É possível dar mais vivacidade à história munindo-se de artifícios corporais, como andar, correr e abusar de expressões faciais, pois, segundo a pedagoga, o corpo tem muito a falar, e isso ajuda a prender a atenção dos alunos: “Ao atrair a atenção, você terá bons resultados em seus objetivos, pois nenhuma contação de história é feita por fazer. A gente faz porque quer alcançar objetivos pedagógicos”, ressaltou Tia Aninha.

Orientação educacional atrelada às perspectivas profissionais nas escolas

Outra oficineira no evento foi a professora Selma Rosa de Oliveira, que ministrou a atividade “A orientação educacional da escola: uma possibilidade concreta de despertar perspectivas de vida profissional. O objetivo, com o trabalho, foi atentar para a importância do profissional de orientação educacional nas escolas e como ele pode auxiliar os alunos levando até eles um pouco do universo laboral, colaborando com suas futuras escolhas profissionais.

Selma: "O ideal é falar sobre o mundo do trabalho desde que os alunos são crianças". (Foto: Gian Cornachini)

Selma: “O ideal é falar sobre o mundo do trabalho desde que os alunos são crianças”. (Foto: Gian Cornachini)

A professora listou diversas práticas que podem ser adotadas na orientação educacional, e lembrou que trabalhar é praticamente uma regra de sobrevivência no modelo de sociedade em que vivemos, portanto é preciso que cada um seja feliz realizando suas tarefas: “O trabalho é nossa fonte de sustento, mas não nascemos para ser infelizes nele. É nessa perspectiva que o orientador educacional precisa trabalhar desde cedo na escola, e não deixar para fazer isso apenas no último ano do Ensino Médio. O ideal é falar sobre o mundo do trabalho desde que os alunos são crianças, não para ajuda-los desde cedo a fazer uma escolha, mas para que eles compreendam a sociedade em que estão inseridos e despertem sonhos”, propôs Selma.

Bonecas de barbante

O lúdico também se fez presente no universo adulto dos graduandos, enquanto despertava lembranças infantis em uma atividade oferecida por Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais das FIC. Na Brinquedoteca, em meio a rolos de barbantes, retalhos de tecidos, lãs e outros materiais, a professora convidou as alunas a retomar suas histórias passadas enquanto confeccionavam bonecas com os fios e tecidos. A proposta era a de ligar o fazer pedagógico com as histórias pessoais das alunas: “Construindo bonecas de barbante, podemos retomar nossas histórias e pensar as diferentes identidades de cada uma presente na atividade. Isso é importante para lembrar como vamos tecendo nossas identidades e, no momento em que a gente for lidar com as crianças, também ajudá-las a trabalhar com isso”, destacou Célia.

Professora Célia Neves, do curso de Ciências Sociais, ensinou estudantes a confeccionarem bonecas de barbante enquanto relembram histórias infantis. (Foto: Gian Cornachini)

Professora Célia Neves, do curso de Ciências Sociais, ensinou estudantes a confeccionarem bonecas de barbante enquanto relembram histórias infantis. (Foto: Gian Cornachini)

Manifestações culturais regionais na Educação Infantil

Uma das oficinas mais animadas foi a “Manifestações culturais regionais na Educação Infantil”, ministrada pela professora Roberta Asa Branca e pelo estudante de Pedagogia  Helton Tinoco. Depois de uma apresentação teórica sobre as possibilidades da utilização de cirandas, cantigas e brincadeiras regionais, os estudantes foram à brincadeira e, ao som do atabaque e do pandeiro da professora, dançaram e cantaram sobre jacaré, mulheres rendeiras, caranguejos, entre outros temas.

“As brincadeiras e as manifestações regionais estabelecem canais de comunicação, de interação social, promovem o acolhimento de diferentes culturas, religiosidades e valores. Não é só colocar a musiquinha, tem uma construção, tem um porquê, faz parte de um contexto”, explicou Helton.

Na oficina de "Manifestações culturais regionais na Educação Infantil", os estudantes aprenderam a importância das cirandas, cantigas e brincaram. (Foto: Pollyana Lopes)

Na oficina de “Manifestações culturais regionais na Educação Infantil”, os estudantes aprenderam a importância das cirandas, cantigas e brincaram. (Foto: Pollyana Lopes)

Experiências em exposição no pátio

O pátio da FEUC também esteve movimentado durante a XXVII Semana, com apresentações de trabalhos e exposições de experiências realizadas por professores e alunos nos domínios da pedagogia. A professora e poeta Rita Gemino, por exemplo, este ano optou por trocar as palestras e discussões por uma atividade mais lúdica: levou para o pátio, em momentos diferentes, três dos muitos projetos que já desenvolveu de tecedura de painéis literários – “Fuxicos e poesias: tecendo a leitura de versos”, “A Dona Contrariada (a tecedura de versos)” e “A tecedura do poema infantil de Mário Quintana”. Essa é a proposta de Rita para se trabalhar a poesia em sala de aula – segundo ela, uma dificuldade sempre relatada pelos professores. “Nós preparamos os tecidos com trechos das poesias e espalhamos pelo chão. Enquanto a poesia é falada, os alunos vão encontrando os versos e montando o painel, pois os pedaços de tecido se unem com velcro. É uma forma lúdica de penetrar no universo da poesia”, explica.

Professores da casa relançam livros na FEUC

Jairo Campos e Luiza Alves apresentaram suas publicações na semana de Pedagogia. (Foto: Gian Cornachini)

Jairo Campos e Luiza Alves apresentaram suas publicações na semana de Pedagogia. (Foto: Gian Cornachini)

A vice-coordenadora de Pedagogia, Luiza Alves, e o professor Jairo Campos lançaram, no início deste ano, seus livros de estudo — frutos de teses de doutoramento. Durante a Semana do curso, eles aproveitaram para relançar as publicações na FEUC, de modo a compartilhar com os estudantes suas análises sobre o universo docente.

“Sobre Fios de Identidades Docentes na Escrita Profissional dos Professores” é a publicação de Luiza. O livro discorre sobre a escrita do professor em seus registros de classe e cadernos pessoais de plano, a partir da implementação de políticas públicas da Secretaria de Educação do Município do Rio que visaram a padronizar o modelo de ensino. “O professor não precisa mais planejar a aula, pois tudo já vem pronto. Cadê a sua autonomia, o protagonismo desse professor?”, criticou Luiza. O livro está disponível na livraria Saraiva ao valor de R$ 39,90 (cliqueaqui para conferi-lo).

Já a publicação do professor Jairo Campos se aprofunda nas políticas públicas voltadas para a educação do Rio de Janeiro. Sob o título “A Gestão Gerencial da Educação Pública da Cidade do Rio de Janeiro”, a pesquisa demonstra as controversas faces dessas políticas, que surgiram com objetivo de acabar com o analfabetismo funcional dos alunos gastando menos recursos financeiros. Porém, na prática, isso não tem acontecido. O livro está disponível na Paco Editorial ao valor de R$ 53,91 (cliqueaqui para conferi-lo).

Fórum de Educação 2015 foi festival de eventos acadêmicos

Com o tema “Não há docência sem discência: Dialogicidade como princípio para construção docente”, evento reuniu graduação e pós-graduação em torno de pesquisas e debates

A Orquestra da FEUC e o Coral Ecos Sonoros abriram a noite do primeiro dia do evento. (Foto: Pollyana Lopes)

A Orquestra da FEUC e o Coral Ecos Sonoros abriram a noite do primeiro dia do evento. (Foto: Pollyana Lopes)

Por Gian Cornachini, Pollyana Lopes e Tania Neves
emfoco@feuc.br

Dois dias de intensa atividade acadêmica, entre palestras, comunicações de trabalhos científicos, oficinas e sessões culturais. Assim foi o XVIII Fórum de Educação, Ciência e Cultura, que este ano incorporou não apenas o II Seminário Institucional de Iniciação à Docência (PIBID-FIC), como ano passado, mas também o VII Encontro de Pós-Graduação e o III Encontro de Iniciação à Pesquisa. Reunir os quatro eventos na mesma ocasião, segundo a professora Célia Neves, uma das coordenadoras da programação, teve o objetivo de estreitar o diálogo entre os vários cursos e as produções científicas dos diversos programas, como PIBID e PIC. “Há uma efervescência muito grande de projetos e discussões que estão sendo feitas em cada área, cada curso, sobretudo os grupos do PIBID, que fazem um trabalho espetacular nas escolas de ensino fundamental. E mais os trabalhos da pós, as pesquisas para monografias. Enfim, consideramos que costurar um diálogo entre todos esses atores, inspirados em Paulo Freire e a dialogicidade como princípio educativo, traria grandes resultados”, diz Célia.

De fato, a mistura foi boa. Porém, como toda experiência inovadora, teve alguns problemas, como remanejamentos de última hora que provocaram mudança de salas e alguns contratempos para aqueles que procuravam as atividades em que se inscreveram. Nada que a atuante equipe de monitores não resolvesse com presteza.

Monitores: fundamentais para o sucesso do evento

Uma nota à parte – dez, nota dez! – tem que ser dada a esse grupo que cuidou da parte operacional do evento. Desde a preparação das pastas até a orientação dos inscritos para acharem as salas onde estavam acontecendo as atividades, os monitores estiveram sempre atentos aos detalhes. “É natural haver mudanças de última hora num evento tão amplo. A gente está aqui com a listagem atualizada orientando todo mundo. A maioria compreende, apesar da chateação”, disse a aluna Ana Paula de Souza Matos, do 3º período de Matemática, que atuava com os colegas na entrada do auditório – todos com sorriso no rosto.

Uma parte do grupo de monitores posa para foto, minutos antes de se espalharem para seus postos

Parte do grupo de monitores posa para foto, minutos antes de se espalhar para seus postos (Foto: Tania Neves)

Ana Cristina Cavalcante, do 3º período de Pedagogia, estava entusiasmada com sua segunda experiência na monitoria. O único ponto negativo, segundo ela, foi não poder acompanhar todas as atividades que queria, mas a vivência adquirida compensou. “Tive contato com professores de todas as áreas de ensino da instituição e absorvi tudo que pude no tempo que tive”, afirmou a aluna, completando: “Ressalto a importância desses fóruns na vida acadêmica dos alunos. Além de desenvolver competências necessárias no meio escolar, nos torna ativos e responsáveis dentro dos eventos propostos pela academia”.

Rosana Benatti em palestra sobre letramento: encantando alunos (Foto: Tania Neves)

Rosana Benatti em palestra sobre letramento: encantando alunos e alunas com sua fala (Foto: Tania Neves)

Maria Francicleide, do 4º período de Pedagogia, fez monitoria de manhã e participou dos eventos da noite. Como aluna e tiete! “Eu amo meus professores! Eles abrem leques de possibilidades para a gente pensar”, disse ela, durante a palestra sobre Práticas de Letramento, da professora Rosana Benatti: “Ela não é sensacional?”, derreteu-se a aluna. Lá na frente, Rosana encantava a plateia com seus exemplos sobre o papel do professor no processo de ensino e aprendizagem. “Eu preciso gostar de ler, se quero que meus alunos leiam. A mesma coisa vale para a família: se a criança vê o pai e a mãe lendo, ela será uma leitora”, pontuava a professora, compartilhando com os alunos a experiência acumulada em seus muitos anos de prática: “Não cabe ao professor ditar o que a criança deve fazer e puni-la se fizer errado. Você primeiro permite que ela produza, para então intervir. Se ela escreve cachorro com x, está no processo de aprender. Você reconhece isso e então explica que na nossa língua se escreve de outro modo, por tal e tal motivo, e assim vai monitorando o aprendizado dela”.

Bolsistas do PIBID revelam seu diálogo com as escolas de ensino fundamental

Com a finalidade de mostrar um pouco dos projetos que os bolsistas têm desenvolvido em escolas públicas da região, o II Seminário Institucional de Iniciação à Docência foi além: revelou o quão importante é o programa para o desenvolvimento do aluno, como conta a coordenadora do PIBID/FIC, professora Maria Licia Torres: “O Governo está cortando verba e bolsas do PIBID, e a gente está mostrando que aqui na FEUC o trabalho está sendo feito, está dando certo. Os alunos amadureceram e estão colocando a mão na massa, aplicando jogos, praticando a teoria. É de um enriquecimento maravilhoso”, destacou a professora.

Allan lembrou que o PIBID coloca bolsistas em contado com professores há tempo longe da academia (Foto: Gian Cornachini)

Allan lembrou que o PIBID coloca bolsistas em contado com professores há tempo longe da academia (Foto: Gian Cornachini)

Durante os dois dias do evento, estudantes de diversos subprojetos apresentaram suas ideias, metodologias e resultados dos trabalhos desenvolvidos ao longo do ano. O bolsista Allan Felipe Santana Fernandes, do 6º período de História, apontou uma constatação com a experiência no colégio Raja Gabaglia: “O PIBID tanto beneficia os bolsistas quanto os professores, que muitas vezes não têm oportunidade de dar uma aula diferenciada por estarem há tanto tempo no colégio e longe do ambiente acadêmico”, relatou Allan.

Grupo trabalha com literaturas africanas e afrodescendentes (Foto: Gian Cornachini)

Grupo trabalha com literaturas africanas e afrodescendentes (Foto: Gian Cornachini)

Thiago da Silva Rodrigues, do 5º período de Letras-Inglês e bolsista do subprojeto Interdisciplinar, expôs com seu grupo a criatividade com que tem disseminado as literaturas africanas e afrodescendentes. Eles apresentaram uma fotonovela sobre o conto “Meu toque”, do escritor angolano Boaventura Cardoso, e um teatro com fantoches e cenários montados na própria roupa dos narradores sobre o livro “As tranças de Bintou”, da autora Sylviane Anna Diouf, oferecendo ao público a oportunidade de intervir no desfecho da história. “O mesmo processo que a gente sofreu com a colonização, a África também sofreu. Nós tratamos isso através da Literatura, com os contos sobre as histórias e tradições africanas, até para desmistificar o ideal que temos da África, aquele de pobreza, ebola, criança com fome e morte”, explicou Thiago.

Já o bolsista Willyan Peterson Borges Bispo, do 4º período de Matemática e recém-integrante do subprojeto de seu curso, testou com os estudantes um jogo de dominó matemático que será aplicado em breve nas séries iniciais do Ensino Fundamental, no colégio Baltazar Lisboa. “Eu quero mostrar que é possível adaptar qualquer tipo de jogo para ensinar as operações matemáticas de um modo mais divertido, para estimular a atenção da criança e fazer com que ela aprenda ao mesmo tempo em que se diverte”.

VII Encontro de Pós-Graduação foca na didática do ensino superior

Além de contribuir com um peso a mais no currículo do pós-graduando, o VII Encontro de Pós-Graduação foi aberto também aos graduandos e permitiu que os alunos das faculdades conhecessem os temas e metodologias dos cursos da Pós — que, inclusive, têm uma disciplina comum: “Didática do Ensino Superior”. Foi com o intuito de esclarecer a importância desta cadeira que o evento foi planejado, levantando a importância da didática no ensino superior em áreas específicas, como a formação continuada de gestores, pedagogos, pscicopedagogos e professores da educação básica.

"Falta aos professores o entendimento de uma didática do ensino superior”, explica a professora Gabriela Barbosa. (Foto: Pollyana Lopes)

“Falta aos professores o entendimento de uma didática do ensino superior”, explica a professora Gabriela Barbosa. (Foto: Pollyana Lopes)

A coordenadora de Extensão, Pós-Graduação e Pesquisa das FIC, professora Gabriela Barbosa, explica a relevância do tema para os futuros pós-graduados: “Muitas vezes o indivíduo entra para dar aula porque ele é especialista naquele assunto, mas não tem noção de didática, e ele, muitas vezes, acaba afastando o aluno de graduação do curso”, aponta ela, que tem uma preocupação particular com o assunto: “Sou oriunda de um curso que tem especificamente essas características, no caso, a Matemática. Os cursos de Matemática começam com turmas enormes e chegam ao fim com pouquíssimos alunos concluindo, mas por quê? Porque falta aos professores o entendimento de uma didática do ensino superior”, avalia.

A aplicabilidade da didática não se restringe à sala de aula, como explica a professora Célia Maria Pacheco Cruz, que ministrou palestra voltada para os profissionais ligados à gestão de pessoas, de negócios, sistema de informação e gestão educacional: “Eu tento mostrar às pessoas que, se tem alguém ensinando e tem alguém aprendendo, há didática! Isso acontece em qualquer nível, em qualquer segmento, em qualquer profissão desse mundo. Então, por que não perceber e usar a didática na gestão? Na parte administrativa de uma empresa? Por que acreditar que didática é algo acadêmico e não está em outros segmentos?”, questiona.

Já a professora Sônia Ferreira Folena, que falou sobre o papel da didática no ensino superior na formação de professores da educação básica, destacou a necessidade de não se perder seu uso quando se ensina a jovens ou adultos: “A minha discussão, hoje, é no sentido de reforçar a preocupação que a gente precisa ter, em todas as esferas da educação, com o processo de ensino e aprendizagem. Porque se o processo de ensino não desembocar num processo de aprendizagem, ele se torna vazio”.

III Encontro de Iniciação à Pesquisa mostrou trabalhos realizados na Zona Oeste

Também integrado ao Fórum de Educação, Ciência e Cultura, o III Encontro de Iniciação Científica proporcionou aos bolsistas a oportunidade de apresentarem suas pesquisas. Atualmente há três projetos em andamento, sendo dois deles com um bolsista cada, e o terceiro com quatro bolsistas. Um deles é o “Rural-Urbano no entorno do Parque Estadual do Mendanha”, que tem orientação da professora Rosilaine Silva e o objetivo de buscar compreender o modo como se dá a ocupação do parque por moradores e agricultores, e a relação que eles mantêm com o território e com os aparatos estatais, além da história de ocupação da área, a agricultura familiar em vigor e a questão agrária envolvida.

Luiz Alexandre, Raquel e Cesar apresentaram o trabalho que estão desenvolvendo no projeto "Rural-Urbano no entorno do Parque Estadual do Mendanha". (Foto: Pollyana Lopes)

Luiz Alexandre, Raquel e Cesar apresentaram o trabalho que estão desenvolvendo no projeto “Rural-Urbano no entorno do Parque Estadual do Mendanha”. (Foto: Pollyana Lopes)

A pesquisa foi apresentada por três dos quatro bolsistas do projeto, e o aluno Luiz Alexandre Monteiro Alves, do 4º período de Geografia, resumiu o trabalho: “Lemos artigos e livros sobre agricultura familiar, questões agrárias e a urbanização na Zona Oeste. Depois entramos na parte da história oral, das entrevistas, e entrevistamos o gestor do parque para saber o lado do ambientalista; e também os moradores, para conhecer melhor o lado deles”, conta Luiz. “Eles estão tendo problemas na área porque, antigamente, quando as famílias deles foram pra lá, o parque ainda não havia sido implantado e eles podiam plantar qualquer cultivo, podiam ter suas criações, o que se tornou um problema com a institucionalização do Parque Estadual do Mendanha, em 2013”, relata.

A apresentação das pesquisas demonstrou a importância do PIC-FIC para a comunidade acadêmica. “Existem alunos que, por questões de trabalho, ou por outras questões pessoais, não podem ser contemplados com bolsas do governo. Então, aquela bolsa de 20% da FEUC, que parece tão pouco se comparada ao PIBID, para algumas pessoas tem uma função. Além do mais, os projetos que a gente tem hoje são mais de pesquisa específica em determinada área do conhecimento, e já fogem um pouco da discussão da docência”, explica a professora Gabriela Barbosa, que coordena o PIC-FIC.

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Educar é fazer pensar!

 

Jayme Ribeiro
Jayme Ribeiro
Doutor em História pela UFF e professor das FIC

Durante boa parte do século XX, os livros didáticos assumiram lugar de destaque na relação ensino-aprendizagem. Em muitos momentos, em diversas realidades educacionais do país, ainda é o único instrumento de pesquisa e ensino para alunos e professores.

Objeto padronizado e condicionado por formatos e linguagens, o livro didático não é neutro. Segundo Gimeno Sacristán, por trás do “texto”, há toda uma seleção cultural que apresenta o conhecimento oficial, colaborando de forma decisiva na criação do saber que se considera legítimo e verdadeiro, consolidando os cânones do que é verdade e do que é moralmente aceitável. Desse modo, os livros didáticos tornam-se veículos portadores de um sistema de valores, de ideologias e de uma cultura, visando servir de mediador entre a proposta oficial do poder, por intermédio dos programas curriculares, e o conhecimento escolar ensinado pelo professor.

Por outro lado, é possível pensar no livro didático como lugar de memória, na medida em que contribui para perpetuar uma determinada memória sobre agentes ou fatos históricos. Pode-se verificar também, através de sua análise, uma memória historiográfica, na qual a produção e o discurso historiográfico de uma época podem ser encontrados.

Os estudos acadêmicos produzidos atualmente têm contribuído bastante para relativizar o seu papel de “vilão da História”. Desde o século XIX, ele tem sido utilizado de diversas formas e sob diferentes realidades. Contudo, possui uma função básica que atravessa os tempos: a transposição didática, isto é, a passagem do saber acadêmico ao saber ensinado. No entanto, não se pode pensar o livro didático apenas como mero reprodutor do saber produzido nas universidades. Ele atua na ressignificação do saber acadêmico criando um novo saber: o saber escolar. Além disso, pode auxiliar o domínio da leitura e da escrita em todos os níveis de escolarização, serve para ampliar informações, possui uma linguagem mais acessível, articula outras linguagens que não a da escrita, fornecendo ao estudante maior autonomia frente ao conhecimento e auxilia a aquisição de conceitos básicos do saber acumulado historicamente.

Assim, é possível perceber que o livro didático, mesmo possuindo uma série de limitações técnicas, econômicas e ideológicas, quando utilizado de maneira crítica pelo professor, torna-se um instrumento importante na relação ensino-aprendizagem. Não se pode esquecer jamais que o foco da educação é o educando. Nesse sentido, educar é fazer pensar, pois o professor deve ter uma postura crítica frente aos materiais escolares e estimular a reflexão e o questionamento em suas aulas. Desse modo, não tornará o livro didático o único guia e mestre de suas práticas, principalmente por saber que quem atua no processo transformador da educação, incentivando, auxiliando e mediando os conhecimentos é o professor, e não o livro didático.

Histórias de uma educação que forma e transforma

 

Pessoas que passaram por aqui ou ainda estão na FEUC revelam as razões afetivas e educacionais que as fazem se sentir ligadas à instituição

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Elizabeth folheia o livrão “História da minha educação”, no qual registrou sua trajetória escolar, e a partir daí percebeu a mudança que a educação estava fazendo em sua vida. (Foto: Gian Cornachini)

Elizabeth folheia o livrão “História da minha educação”, no qual registrou sua trajetória escolar, e a partir daí percebeu a mudança que a educação estava fazendo em sua vida. (Foto: Gian Cornachini)

Hora de preparar a campanha anual de divulgação dos cursos das FIC e do CAEL, e começamos a nos perguntar: o que a FEUC tem de mais importante a dizer àqueles que são potenciais candidatos a se tornarem seus alunos em 2015? Ora, aquilo que esta revista vem ouvindo ao longo dos últimos anos de um sem-número de entrevistados, entre estudantes, pais, ex-alunos, professores, funcionários… – que a qualidade da educação aqui recebida e a convivência afetuosa têm sido fundamentais para transformar e melhorar suas vidas e de suas famílias.

E veio o slogan “Educação para fazer seu mundo melhor”.

Mas quem melhor conta essas histórias são os que viveram e vivem pessoalmente a experiência. Como Elizabeth Ramos da Silva, do 5º período de Pedagogia, que veio em busca de um curso superior apenas para obter status compatível com a função que já exercia, de professora de teologia em sua igreja, mas que aqui se descobriu uma verdadeira educadora: “A transformação começou lá no início do curso, ouvindo as professoras Gilda, Dimarina… Mas a ficha só caiu quando escrevi a ‘História da minha educação’, na disciplina da professora Célia, e me dei conta da minha trajetória. Aí vi crescendo em mim um amor enorme pela profissão, e agora sei que quero lecionar e fazer a diferença”.

Hoje com 57 anos, casada há 35, 4 filhos e 4 netos, Elizabeth conta que não teve boa relação com os estudos no passado. Estudava por obrigação, achava a escola chata, parou no ginásio para trabalhar, depois se casou, engravidou… Uma história comum, mas que ganha ares de superação quando a protagonista completa 50 anos e decide se matricular no Ensino Médio, na mesma turma da filha mais nova, em um Ciep de Vila Kennedy. “Fiz surpresa para todos, até para o marido. Me arrumei de manhã, botei meu uniforme, e minha filha se espantou: ‘onde vai assim?’. Para a escola, e com você! Ela primeiro reclamou que eu ia fazê-la ‘pagar mico’, mas depois se habituou”, lembra Elizabeth.

Trabalhando a autoestima dos colegas

A turma era a 1001, tida como a pior da escola: cadeiras voavam durante brigas, alunos matavam aula, professores lavavam as mãos… “Só o de Matemática conseguia dar aula e ser respeitado, daí percebi que ele sabia o nome de cada um, falava carinhosamente com todos e cobrava aquilo que dava. Ele me inspirou”, conta Elizabeth, que passou a trabalhar a autoestima dos jovens colegas de turma, ressaltando suas qualidades, e ao longo de três anos conseguiu fazer com que acreditassem no próprio potencial: “Eu os convenci a estudarmos juntos para o Enem. Hoje estão cursando Direito, Design, Engenharia… e antes achavam que no máximo iam ter a mesma vida dos pais”, relembra.

Entre leituras de Paulo Freire, Luckesi e outros pensadores, a estudante de pedagogia agora compreende que exerceu ali um papel de educadora, embora sendo apenas colega de classe daqueles jovens. E, sabiamente, conclui que mais aprendeu com eles do que ensinou. “Eles não tinham o que eu também não tive quando criança na escola: estímulo, professores que se importassem. Quando eu me importei com eles, tudo mudou. Agora, na faculdade, meus professores me ajudam a ver isso. Encontrei aqui profissionais tão cheios de vigor e amor pelo magistério que me achei definitivamente nesta profissão.

Reflexões sobre questões sociais levaram Rosilaine encarar docência com outros olhos. (Foto: Gian Cornachini)

Reflexões sobre questões sociais levaram Rosilaine encarar docência com outros olhos. (Foto: Gian Cornachini)

Também foi um professor (de Geografia, formado aqui) que inspirou Rosilaine Souza de Araújo da Silva a vir cursar sua graduação nas FIC. Naquele momento (2000), o que a movia era o firme propósito de romper a realidade em que vivia e mudar o rumo a partir da conquista de um diploma, mas não exatamente ser professora. A única da família a concluir o Ensino Médio, Rosi trabalhava como vendedora de butique para pagar o curso superior, ganhava salário praticamente igual ao valor da mensalidade e usava a carinha de menina para economizar o dinheiro do transporte: ao sair do trabalho, vestia o antigo uniforme da escola pública que lhe franqueava a viagem de ônibus. “Se não fosse assim, eu não teria conseguido fazer a faculdade”, lembra a hoje coordenadora do curso de Geografia.

Após um ano inteiro conciliando butique e faculdade, Rosi conseguiu trocar o comércio pelo trabalho em uma ONG da área de educação. E ali começava a surgir a futura professora: “Foi a FEUC que me proporcionou essa experiência. Associada a todo o envolvimento que eu já tinha com as questões sociais, contribuiu para que eu pudesse ter outro olhar sobre a docência”. Em outras palavras, quando escolheu cursar Geografia, Rosi queria apenas unir o útil ao agradável: avançar profissionalmente com o diploma de curso superior (virar gerente da butique?!) e adquirir conhecimentos para entender melhor o mundo. Mas, no caminho, foi “escolhida” para mudar também a vida de outros: “Além da formação em si, de cursar as disciplinas, a possibilidade de desenvolver projetos, como o Pré-Vestibular Comunitário que criamos aqui, permitiu que eu fizesse muitas reflexões e finalmente enxergasse onde estava aquela mudança de vida que eu almejava”, analisa. Estava no magistério.

O atual coordenador Acadêmico das FIC, Valdemar Ferreira da Silva, foi outro que procurou a faculdade com o estrito propósito de crescer no emprego que já tinha: o de coordenador de Treinamento e Desenvolvimento do Bob’s, posto a que chegou poucos anos depois de começar a vida profissional ainda adolescente, fritando hambúrguer como contratado temporário. Determinado, Valdemar conquistou uma vaga de atendente após o período como extra e foi rumando para o topo: virou assistente de gerente, ganhou prêmio de melhor assistente do ano, foi transferido para a loja mais importante e, finalmente, convidado a coordenar o treinamento de atendentes.

Valdemar: histórias de vida de seus professores mostraram que era possível mudar. (Foto: Gian Cornachini)

Valdemar: histórias de vida de seus professores mostraram que era possível mudar. (Foto: Gian Cornachini)

No novo setor, Valdemar convivia com psicólogos, administradores, pedagogos… mas faltavam-lhe ferramentas que os outros tinham. “Aí pensei: vou fazer faculdade de Pedagogia, preciso ter uma formação superior para continuar crescendo”. Assim ele chegou à FEUC – e você concluirá, no fim da história, que esta instituição é a culpada de o Bob’s hoje ter menos um grande executivo em sua equipe. “Quando comecei a estudar sociologia, filosofia… foi se consolidando o entendimento de que eu não acreditava naquele trabalho que realizava, de treinamento. Aquilo só servia para reforçar a alienação do sujeito, e tudo o que eu estava estudando apontava para a educação libertadora”.

Em conflito, Valdemar foi se aconselhar com a professora Aparecida Tiradentes. Ela foi simples e direta: “Faça o que seu coração pedir”. Ele fez: pediu para sair, e seu chefe na empresa gentilmente o demitiu. Com a indenização, pagou todas as mensalidades até o fim do curso e mergulhou nos estudos e em um estágio. Ao se formar, conquistou ao mesmo tempo uma vaga de mestrado na Fiocruz, sob a orientação de Aparecida, e um convite para lecionar nas FIC. “Devo aos meus professores daqui essa guinada, por eles terem me mostrado que era possível, com suas próprias histórias. Para um menino que cresceu sem estímulo e sem sequer ouvir a palavra faculdade, tenho certeza que a vida só mudou por causa do lugar onde fiz a graduação. Por isso digo sempre aos alunos: aproveitem isso”, completa.

 

‘Bom para mim, melhor ainda para meu filho’

 

No Magali e no CAEL, pais que foram alunos dos colégios em décadas passadas agora levam seus filhos para estudar e repetir o que eles consideram que foi uma experiência positiva em sua infância e adolescência

Lucas e André: pai quis para o filho o mesmo ambiente escolar em que se sentia bem. (Foto: Gian Cornachini)

Lucas e André: pai quis para o filho o mesmo ambiente escolar em que se sentia bem. (Foto: Gian Cornachini)

Quando se trata dos colégios, tanto no CAEL quanto no Magali não é raro encontrar pais que trazem seus filhos para cá animados com a experiência positiva vivida por eles próprios em épocas anteriores. André Luiz Cabral, de 29 anos, foi aluno do Magali em 1995 e 1996, e diz que as lembranças se renovam a cada vez que ele reencontra velhos colegas de escola que são seus amigos até hoje.

Foi pensando nessa riqueza pessoal que há 3 anos ele matriculou o filho Lucas dos Santos Tavares, hoje com 7 anos. “Eu era um aluno bagunceiro, ativo, mas nunca fui incompreendido. Quis para o Lucas esse mesmo ambiente, em que os valores são aqueles mais importantes, mas não se fica parado no tempo. É assim que eu vejo o Magali”, diz André, apontando ainda outra característica que lhe agrada: o fato de as diretoras, os professores e os funcionários conhecerem cada aluno pelo nome. “Essa proximidade é muito boa. Eu gostava disso no meu tempo. Se foi bom para mim, vai ser melhor ainda para o meu filho”.

Do Km 32 a Campo Grande, por amor à escola

Alana e Gisele: longe de casa, mas perto da felicidade. (Foto: Gian Cornachini)

Alana e Gisele: longe de casa, mas perto da felicidade. (Foto: Gian Cornachini)

Gisele de Menezes Bento Silva, de 30 anos, entrou para o Magali aos 3 anos e cursou lá todo o Ensino Fundamental. Considera que teve ótima formação e sempre se sentiu querida e cuidada no ambiente escolar, detalhes fundamentais para o bom desenvolvimento de uma criança. Por isso ela levou a filha, Alana de Menezes Bento Silva, para estudar lá. “Para ela também foi paixão à primeira vista, num instante estava adaptada e se entendendo com todo mundo”. Mas a felicidade durou pouco, e um ano depois Gisele precisou trocar Alana de escola, pois se mudou para o Km 32 da Antiga Rio-São Paulo, em Nova Iguaçu, e o Magali ficou distante. “Ela não gostou, ficou amuada. No começo achei que era só saudade e que ia passar, mas depois vi que minha filha estava regredindo na socialização, se retraindo, não queria mais ir para a escola. Cheguei a pensar que ela pudesse ter dificuldade de aprendizado, pois não ia bem nas atividades. Aí resolvi fazer um sacrifício e voltar para o Magali”, relata Gisele.

A rotina da família se transformou, pois Gisele passou a levar a filha de carro todos os dias, contando com a sogra ou o marido para buscá-la nos dias em que trabalha à tarde. Mas o esforço conjunto logo foi recompensado: “De volta ao Magali, ela recuperou todo o prazer de estudar e o estímulo também. Agora quer ir à escola até no fim de semana! Valeu muito a pena. É tranquilizador quando você pode confiar numa escola e ver que seu filho fica bem”, diz Gisele.

Maria Antônia e Bruna: caso de amor familiar com CAEL. (Foto: Gian Cornachini)

Maria Antônia e Bruna: caso de amor familiar com CAEL. (Foto: Gian Cornachini)

Todos os dias quando entra na FEUC para buscar a pequena Maria Antônia, de 5 anos, Bruna Azevedo Pereira Machado Fonseca revive o que ela mesma classifica de a melhor época de sua vida: 11 anos inteirinhos como aluna do CAEL, de 1990 a 2000. A julgar pelo que acontece no percurso, da portaria até o prédio da Educação Infantil, parece que foi ontem: Bruna vai cumprimentando professores, inspetores, serventes… “O mais legal é isso, ver que um monte de gente da minha época continua aqui. E todos eles se lembram de mim”, diz a ex-aluna de Enfermagem.

E foi a formação no curso técnico que conduziu Bruna ao posto que ocupa hoje no Hospital Rocha Faria, embora tenha feito também faculdades de Enfermagem e Educação Física – esta graduação, aliás, a trouxe de volta ao CAEL em 2006, como estagiária de seu antigo professor, Miguel Louro. A ex-aluna conta que, quando sua filha nasceu, ela nem cogitou outro colégio: “Com três meses ela já estava aqui, na creche. E com certeza vai continuar até se formar, como eu. Só não fiz faculdade na FEUC porque não tinha o que eu queria”, afirma Bruna, torcendo para que a atual expansão de cursos da instituição desemboque num grande leque de opções para Maria Antônia no futuro.

Outra que passou recentemente pelo CAEL e já alça voos mais altos é Larrysa de Morais Alves da Cruz, de 18 anos, formada no técnico em Química e estudante de Farmácia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).  A jovem valoriza a qualidade do ensino do Colégio, que lhe permitiu ingressar em uma universidade pública: “O CAEL me deu toda a base para realizar o sonho de estar hoje na Rural. Muita coisa que aprendi nas matérias do Ensino Técnico e Regular eu estou usando na faculdade”, afirma Larrysa. “Há colégios que focam só no Técnico e esquecem as matérias básicas, então os alunos chegam muito deficientes em algumas disciplinas da universidade. Mas pela base que tive, eu me sinto um pouco em destaque, porque na faculdade consigo entender tudo plenamente”, observa.

Larrysa: destaque na turma da faculdade por conta da boa formação no Ensino Médio. (Foto: Gian Cornachini)

Larrysa: destaque na turma da faculdade por conta da boa formação no Ensino Médio. (Foto: Gian Cornachini)

Durante sua trajetória no CAEL, Larrysa brilhou em 2013 com um projeto da Expo X escolhido para representar o Colégio na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que acontece anualmente na Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista. A jovem criou um bioplástico com a proposta de identificar a deterioração dos alimentos, alertando as pessoas quando o produto está impróprio para consumo. “Infelizmente, não ganhei nenhum prêmio na Febrace, porque o projeto ainda não está concluído. Mas foi uma experiência muito boa, e eu quero continuar trabalhando na faculdade com descobertas que ajudem as pessoas. Isso sempre foi o meu objetivo: criar algo para ajudar”, revela Larrysa, lembrando da importância da Expo X para fortalecer o aprendizado: “É uma grande oportunidade no Colégio, pois incentiva o aluno a descobrir, a aguçar a criatividade e a curiosidade. A Expo prepara a gente para a vida na universidade, que tem isso de descobrir as coisas e de saber o porquê delas”, ressalta.

 

A vida que muda a vida da gente

 

Conhecedores das dificuldades de conciliar trabalho, estudo e jornadas domésticas, porque também passaram por isso, professores são mais generosos com alunos, sem abrir mão da qualidade da formação

A história do professor de Português Erivelto Reis com a FEUC começou muitos anos antes de ele se tornar aluno da graduação em Letras. Desde garoto apaixonado por literatura e poesia, o jovem sempre frequentou os eventos culturais da instituição, onde tinha a chance de conhecer poetas, escritores e outros artistas. Isso nas horas em que não estava trabalhando como garçom, profissão que exerceu por 18 anos. Quando a esposa, Regina, o incentivou a apertar o orçamento e fazer uma faculdade, os poetas Primitivo Paes, Américo Mano e Rita Gemino lhe asseguraram que o lugar certo era a FEUC, apesar de ele ter a possibilidade de uma bolsa integral em outra instituição.

Erivelto veio, abriu seu coração sobre o desejo imenso de cursar a graduação, lembrou que era assíduo nos saraus da instituição e acabou obtendo um bom desconto. Assim sua vida começou a mudar: “Eu não tinha mais tempo a perder, então a questão que me movia era ter um bom aproveitamento no curso. Todos os professores que tive aqui foram muito generosos comigo, porque me disseram a verdade: o que não estava bom era corrigido, e eu tinha que fazer de novo. E é assim que procuro agir com meus alunos, entendendo as dificuldades que têm como trabalhadores, mas sendo firme ao exigir qualidade, pois essa marca da FEUC já existia antes de mim e continuará depois”.

O professor ressalta também o carinho dos funcionários: “No meu primeiro dia de aula, a Andreia me levou até a sala, porque eu não estava entendendo aquele negócio de bloco. Isso é muito legal: aqui todo mundo ajuda, a gente é preparado para competir fora daqui, mas dentro há cooperação, uma humanidade muito grande”.

Professor Erivelto: paixão por poesia e livros o fez trocar as bandejas pelo quadro e giz. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Erivelto: paixão por poesia e livros o fez trocar as bandejas pelo quadro e giz. (Foto: Gian Cornachini)

Erivelto criou para si uma espécie de personagem: o professor de suspensórios. E conta que se tornar docente foi um processo elaborado em sua formação: “Eu assistia aulas pensando em como daria aulas, porque me prometi que só seria garçom até as vésperas da minha formatura. Fui pegando, de cada professor que eu admirava, alguma coisa, e testando à minha maneira quando tinha que apresentar trabalhos lá na frente. Recomendo isso como treinamento”, diz.

A promessa foi cumprida. Com colação de grau marcada para o dia 28 de dezembro de 2009, Erivelto se despediu das bandejas no dia 23 de dezembro. E em 2010 se tornou professor da própria FEUC: “Continuo pensando do mesmo jeito e tendo os mesmos sonhos de quando era garçom, só que agora esta casa me deu ferramenta para realizá-los. Fiz um curso superior para fazer escolhas superiores e não para ser superior a ninguém”.

Alexandra e Maria José: amigas e vizinhas se encontram como aluna e professora na pós

Alexandra e Maria José: amigas e vizinhas se encontram como aluna e professora na pós

E mesmo quem só conheceu a FEUC na hora de fazer a pós-graduação sente um clima diferente. Ainda mais quando é trazida por uma declarada admiradora da instituição. Que o diga a professora de artes Alexandra Fernandes da Silva, que na pós em Libras é aluna de sua vizinha e incentivadora Maria José Brum. Formada no Ensino Normal e em Artes Plásticas, ela passou a se interessar por Libras devido ao convívio com Maria José e sua irmã Lili, que é surda. Alexandra fazia uma pós em Libras a distância, mas não estava muito satisfeita. Quando soube que a FEUC abriu uma, presencial, correu para cá: “Só de saber que a Maria José seria professora, não tive a menor dúvida. Depois conheci o professor Victor Ramos, aí o círculo se fechou. Os dois são maravilhosos, instigam a turma a querer aprender mais”, diz Alexandra.

Formada em Pedagogia pelas FIC, Maria José se especializou em Libras fora daqui e dá aulas da disciplina na graduação e na pós. Ela acabou de concluir mais uma pós sobre o tema na UFRJ (Interpretação e Tradução de Libras) e está se candidatando ao mestrado na UFRJ. E quer fazer do curso de especialização da FEUC uma referência no tema: “O curso aborda mais teoria, mas quero unir com a prática, levar para a proficiência do aluno. Seria um sonho realizar algo grande assim nesta instituição, que eu amo de paixão!”.

Na propaganda, a alma da FEUC

O estudante Renato Paulo Gomes de Souza traçou um paralelo tão interessante entre suas conquistas profissionais e a formação recebida aqui, que uma das frases de sua entrevista foi parar nos outdoors de publicidade da faculdade: “Cada vez que retorno à FEUC, mais portas se abrem para mim, na vida profissional e nas relações humanas”.  Ele se referia à rápida inserção no mercado de trabalho após se formar em Química no CAEL, em 2001, e a recente conquista de um estágio em docência e a participação no PIBID, agora que cursa Ciências Sociais nas FIC.

Após quase 15 anos atuando como técnico em várias indústrias no Rio, numa carreira vitoriosa que o levou ao atual posto de chefe substituto em Bio-Manguinhos, na Fiocruz, Renato decidiu que era hora de voltar aos bancos escolares para dar uma guinada na vida profissional: “A formação de técnico me deu um bom emprego, minha própria casa, uma vida confortável. Mas chega uma hora que você quer outros desafios, e me lembrei de como eu gostava da área de Ciências Humanas, daí decidi fazer faculdade. Para mim, não poderia ser em outro local senão na FEUC”, diz.

Renato: Química no CAEL e Ciências Sociais nas FIC. (Foto: Gian Cornachini)

Renato: Química no CAEL e Ciências Sociais nas FIC. (Foto: Gian Cornachini)

Por ter um bom emprego na Fiocruz, Renato conta que já ouviu críticas sobre sua escolha, gente que lhe diz que jamais ganhará o mesmo como professor. Ele rebate: “Meu projeto é de longo prazo, conciliar as duas coisas por um tempo, até poder viver só do magistério. Vou chegar lá. O que eu não vou é mercantilizar tudo e deixar de fazer o que sei que me realizará”, afirma o estudante, que se vê no futuro trabalhando com educação de jovens e adultos.

Em pauta, as ousadias necessárias à educação

 

Encontro acadêmico interdisciplinar do dia 1º de novembro foi rico em reflexões e trabalhos apresentados por alunos, professores e convidados

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

O tema “Educação e ousadia: teoria e prática em projetos emancipatórios”, do XVII Fórum de Educação, Ciência e Cultura, teve o mérito não apenas de proporcionar palestras e apresentações de altíssimo nível, mas também o de reunir um público atento e interessado em discutir as delicadas questões que cercam o fazer pedagógico – e que são, naturalmente, instigantes e envolventes.

Na palestra de abertura, a doutora em Educação Daniela Patti – que foi coordenadora de Pedagogia das FIC entre 2005 e 2008 e hoje é vice-diretora da Faculdade de Educação da UFRJ – elencou uma série de ousadias indispensáveis nesse campo, entre elas a de defender uma educação democrática, pública, laica, inclusiva e ética. Alunos e alunas participaram ativamente do bate-papo, levando dúvidas e exemplos de seu dia a dia como professores ou estagiários, de modo geral sintonizados com a mensagem positiva da palestrante: “Quem escolhe ser professor vai ser afetado pela realidade do aluno e vai também afetar. O cenário é difícil, mas é importante deixar claro ao aluno que ‘eu me importo’, embora essa relação afetiva não implique em deixar de ter critério e um certo distanciamento crítico”, ensina.

Dividindo a mesa com ela, Leandro Tartaglia, mestre em Geografia pela UFF, abordou um exemplo concreto de ousadia em educação: as oficinas de grafite que desenvolve com alunos do Colégio Pedro II, onde leciona. É a partir desse mapeamento da arte urbana presente nas paredes e muros da cidade que o professor captura a atenção de seus alunos para discussões mais profundas sobre território, uso cultural e político do espaço urbano e outros temas da disciplina: “A escola tem esse papel, de estimular a discussão sobre cidadania”.

A tarde foi reservada para apresentações de vivências e trocas de experiências. Na Sala de Vídeo da Biblioteca, alunos e alunas falaram de suas pesquisas de Iniciação Científica em andamento e os projetos que começam a desenvolver no PIBIB. E no Auditório aconteceram as “Práticas pedagógicas para uma nova formação docente”, com relatos de resultados de projetos realizados tanto por estudantes e professores da casa quanto por convidados (cobertura completa no link http://migre.me/nb7Ip).

 

Revista Khora - FEUCESPAÇO RESERVADO PARA A PRODUÇÃO CIENTÍFICA

Texto Box:  Após breve reformulação em seu projeto inicial, a Khóra: Revista Transdisciplinar já está novamente no ar, e foi apresentada ao público pelo professor Flávio Pimentel. A publicação científica eletrônica dos cursos de Ciências Sociais, Geografia, História e Pedagogia tem periodicidade semestral e pode ser acessada em http://www.site.feuc.br/khora/index.php/vol. Está aberta a submissões de artigos inéditos; sinopses e resenhas; capítulos de teses, dissertações e monografias; entrevistas, relatos e projetos, entre outros textos científicos. O número de estreia contém dois dossiês temáticos: “Perspectivas da educação pública do RJ: construindo caminhos para além da educação como mercadoria” e “Transformações sócio-territoriais em Campo Grande”.

 

Mergulhado em estudos sobre território e manifestações culturais no campo da música, o ex-aluno de Geografia Demetrius Silva Gomes apresentou no Fórum o seu trabalho “O pagode da década de 90, um estudo sobre a imagem do negro na mídia”, feito este ano para a Semana da Cultura do Cefet, onde ele cursa o mestrado em Relações Étnico-Raciais. O tema da dissertação de Demetrius, porém, é outro: “Diálogos entre Milton Santos e Os Racionais”, em que traça um paralelo entre a produção artística do grupo musical e os ensinamentos do geógrafo sobre o diálogo entre o local e o global, mostrando que o lugar sempre reproduz o que acontece no mundo: “Apresentei os dois temas para a Semana Cultural, o da minha pesquisa de mestrado e o outro sobre o pagode, mas preferiram que eu desenvolvesse o do pagode”, conta Demetrius.

Formado em Geografia pelas FIC, Demetrius leciona em dois colégios do Estado e cursa o mestrado no Cefet-RJ. (Foto: Gian Cornachini)

Formado em Geografia pelas FIC, Demetrius leciona em dois colégios do Estado e cursa o mestrado no Cefet-RJ. (Foto: Gian Cornachini)

O interesse, ele percebeu, teve a ver com o ineditismo da proposta: ao iniciar a pesquisa, constatou não haver trabalhos acadêmicos relacionando a presença do negro na mídia com os ritmos musicais que entram e saem de moda, como foi o pagode nos anos 90. “Houve uma avalanche midiática explorando a imagem dos negros: por exemplo, quatro periódicos se dedicavam exclusivamente ao pagode e todo programa de TV com atrações artísticas sempre tinha um grupo de pagode e muitos convidados negros. Foi o pagode perder protagonismo e os negros sumiram da TV de uma hora para a outra”, diz Demetrius, que pensa em adotar o tema num futuro doutorado.

Já a pesquisa de mestrado, relacionando Milton Santos e Os Racionais, Demetrius conta que surgiu de sua monografia de fim de curso nas FIC, orientada pela professora Regina Celi Pereira. “Saí daqui com um projeto redondinho e passei em primeiro lugar para o mestrado no Cefet”, lembra o ex-aluno, não economizando elogios à orientadora e aos demais professores de seu curso: “A Regina foi fantástica, e toda a formação que recebi aqui em nada fica a dever às grandes universidades. Sei disso porque convivo com os egressos delas no mestrado e em outros ambientes”.

FEUC inspirou o tema do pós-doc

Daniela Patti conta que matutava um tema para desenvolver em seu pós-doutorado, em 2010, quando “caiu a ficha” de algo que esteve o tempo todo na sua frente, no período em que atuou na FEUC: a criação do Programa Universidade para Todos (ProUni). “Como esta política pública teria impactado na vida dos primeiros bolsistas após o término de seus cursos?” – ela se perguntou. E saiu em busca de respostas.

Foi assim que a professora definiu sua pesquisa de pós-doc na Fundação Getúlio Vargas, na linha de Políticas para o Ensino Superior – “O ProUni e o acesso ao Ensino Superior: estudo introdutório sobre os usuários do programa na Zona Oeste do município Rio de Janeiro” – com  o objetivo de avaliar os impactos daquela política pública voltada para a inclusão no ensino superior privado de alunos que, sem ela, não teriam a chance de cursar a faculdade.

Daniela na Faculdade de Educação: ProUni melhorou a vida dos destinatários da política. (Foto: Tania Neves)

Daniela na Faculdade de Educação: ProUni melhorou a vida dos destinatários da política. (Foto: Tania Neves)

Daniela escolheu duas IES de Campo Grande para seu estudo, uma delas a FEUC, e buscou ouvir bolsistas que ingressaram em 2005 e 2006 (os dois primeiros anos do ProUni) e se formaram entre 2008 e 2009. A maioria absoluta dos entrevistados relatou mudanças positivas: “Entre outras coisas, passaram a ter um trabalho melhor e mais bem remunerado, serviram de estímulo para parentes e amigos também fazerem faculdade e ampliaram seus horizontes sociais”, afirma a professora, reforçando sua convicção de que o ProUni é uma política vitoriosa. E ela contesta os que tacham o programa de neoliberal, por destinar dinheiro público para a educação privada: “Esse dinheiro não é retirado da universidade pública. E, mesmo que fosse usado para reforçá-la, provavelmente não atenderia a esse aluno que o ProUni atende, o aluno trabalhador, da periferia, que quase sempre só consegue estudar à noite e perto de casa”.

O resultado da pesquisa de Daniela será lançado ano que vem no livro “Democratização e acesso à educação superior: o ProUni em curso”, que reúne diversos trabalhos realizados sobre esta política pública de educação em várias partes do Brasil.

Dois lançamentos editoriais

Explorar o estudo da Geografia a partir das manifestações culturais enraizadas nos territórios é a proposta das pesquisas desenvolvidas por esses dois jovens mestres que vieram à FEUC debater seus trabalhos com nossos licenciandos. Leonardo de Castro Ferreira e Leandro Tartaglia são o mais perfeito exemplo do “professor que se importa”, delineado por Daniela Patti em sua palestra: aquele que ouve o aluno, penetra em seu universo e extrai daquela realidade subsídios para problematizar as questões de sua disciplina, fazendo da prática de ensino uma oportunidade de produzir conhecimento em conjunto com os alunos. Ambos transformaram suas dissertações de mestrado em livros – que vale a pena conhecer.

ORGANIZAÇÃO DOS TERRITÓRIOS PELA MÚSICA

Livro Territorios do Funk CariocaTERRITÓRIOS DO FUNK CARIOCA: DO CIRCUITO MARGINALIZADO AO ESPETACULARIZADO, de Leonardo de Castro Ferreira. Editora Multifoco/Mil Palavras. R$ 45. A publicação pode ser adquirida em www.editoramultifoco.com.br.

Conduzindo-se pela ordem espacial, o autor levanta uma discussão sobre a dinâmica de produção/apropriação dos territórios do funk carioca. Trata-se de uma obra de referência para a renovação do pensamento a respeito da geografia, que parte do marco teórico da chamada geografia marginal e outras geografias, com o propósito de trabalhar a música como expressão sociocultural e que também interfere na organização dos territórios.

O USO POLÍTICO-CULTURAL DOS ESPAÇOS

capa - geograffitis - 011014GEOGRAFFITIS: UMA LEITURA GEOGRÁFICA DOS GRAFFITIS CARIOCAS, de Leandro Tartaglia. Editora Multifoco/Luminária Academia. R$ 40. A publicação pode ser adquirida em www.editoramultifoco.com.br.

Partindo de sua trajetória de grafiteiro e o desejo de aliar a geografia com as manifestações artísticas, o autor desenvolve uma envolvente reflexão sobre a origem do grafite e o modo como ele se inscreve no dia a dia da cidade e das pessoas. Leandro apresenta o grafite como uma das mais relevantes manifestações culturais urbanas dos últimos 20 ou 30 anos, destacando a espontaneidade de sua linguagem e sua função no uso político-cultural dos espaços.

Debate intenso marcou sábado da XII Jornada Pedagógica

 

Tema da comunicação como direito humano e sua interface com a educação instigou alunos das FIC e visitantes que participaram de mesa-redonda, sessão de cinema e oficina de blog

Por Gian Cornachini e Tania Neves
emfoco@feuc.br

Célia: poema de peruana Victoria Santa Cruz para abrir evento. (Foto: Gian Cornachini)

Célia: poema de peruana Victoria Santa Cruz para abrir evento. (Foto: Gian Cornachini)

Com o tema “Comunicação como Direito Humano: desafio à construção de uma Escola Democrática”, a XII Jornada Pedagógica da FEUC reuniu no último sábado (dia 26 de abril) um empolgado grupo de alunos para um dia inteiro de discussões e práticas em torno de questões da comunicação e sua interface com a educação. Na parte da manhã, o evento contou com a mesa de debates “Comunicação privatizada e comunicação pública: o que isto tem a ver com Educação?”, com as jornalistas Mônica Mourão, do Coletivo Intervozes, e Tânia Neves, editora da revista FEUC em Foco, além da doutora em Educação Aparecida Tiradentes, docente das FIC. A tarde foi preenchida com uma oficina de criação de blogs e a sessão do Cinema na FEUC, em torno do mesmo tema do direito à comunicação. A professora Célia Neves, coordenadora de Ciências Sociais e organizadora do encontro, abriu os trabalhos apresentando um vídeo em que a poeta, compositora e coreógrafa peruana Victoria Santa Cruz declama e interpreta seu poema “Me gritaron negra”, no qual relata o estranhamento que sentiu na primeira vez em que a chamaram de negra, e todo o seu processo de digerir o preconceito e transformar aquela vivência em afirmação de identidade. “Trouxe esse poema porque vejo aí uma questão de comunicação muito profunda. Parte de uma ‘notícia’ que chega a Victoria sobre o que ela é, negra, mas num tom de insulto, pelo viés do preconceito. Então a poeta digere aquilo e faz sua releitura, afirmando sua identidade de negra de forma positiva. É essa liberdade que precisamos ter na comunicação”, compara Célia.

Comunicação e educação em debate

A jornalista Mônica Mourão, doutoranda em Comunicação na UFF e integrante do Intervozes Coletivo de Comunicação, dedicou sua fala na mesa-redonda a pontuar para o público o panorama atual da luta pelo direito à comunicação e liberdade de expressão. De acordo com a jornalista, direito à comunicação não significa apenas ter o acesso à informação, mas poder também expressar ideias e valores: “Nisso, entra um debate político e econômico. Para que essa liberdade seja garantida, precisamos de regras, e compreender que rádio e TV são serviços públicos”, apontou ela.

Mônica Mourão: "Precisamos de regras e compreender que rádio e TV são serviços públicos". (Foto: Gian Cornachini)

Mônica: “Precisamos de regras e compreender que rádio e TV são serviços públicos”. (Foto: Gian Cornachini)

As rádios e TVs no Brasil são serviços públicos que utilizam uma faixa limitada do espectro eletromagnético (intervalo das frequências de radiação) para transmitir seus conteúdos. Devido a esse limite, não há espaço para todos se comunicarem com suas informações convertidas em ondas pelo ar. Por isso, o Governo distribui concessões, e somente quem as tem pode se comunicar por meio dessa tecnologia. Consequentemente, é considerado crime utilizar o espectro eletromagnético sem possuir uma concessão. “A constituição diz que não pode existir monopólio, oligopólio da comunicação, mas não fala como deve ser. Então vemos, por exemplo, a Globo com muitas emissoras espalhadas pelo país, além de rádios, jornais e revistas”, observou Mônica. “E justamente políticos, que são quem deveria regulamentar a comunicação no Brasil, têm diversas concessões de rádios e TVs em suas mãos. Como vamos distribuir melhor essas concessões e avançar para uma comunicação mais democrática se são eles mesmos que votam contra, além de a própria mídia atual alegar que a regulamentação do setor é uma censura?”, questionou a jornalista.

Lei de Mídia Democrática

Mônica ainda apresentou ao público a campanha “Para expressar a liberdade”, uma iniciativa popular que busca assinaturas para criar a Lei da Mídia Democrática (mais informações no site http://www.paraexpressaraliberdade.org.br/). Para colocar o Projeto de Lei em debate no Congresso Nacional, são necessárias 1,3 milhão de assinaturas. Se a meta for atingida, políticos terão que reavaliar a concentração do poder da grande mídia que, de acordo com o material de divulgação da campanha, “impede a circulação de ideias e de pontos de vista diferentes”. Mônica deixou algumas folhas do abaixo assinado na FEUC para os alunos que quiserem apoiar a ideia: é só procurar a professora Célia Neves na Coordenação Acadêmica e assinar. E quem quiser militar pela causa pode imprimir material no site da campanha e recolher assinaturas em seus círculos de amizade.

Se os maiores veículos de comunicação no Brasil não oferecem uma pluralidade de conteúdo, é preciso buscar alternativas para tentar preencher essa lacuna. A jornalista Tania Neves, editora da revista FEUC em Foco, sugeriu caminhos de leitura contra-hegemônicos: “A internet, hoje, traz possibilidade de todos nós produzirmos conteúdos e compartilhar. Não é tão fácil para todo mundo, mas é cada vez mais fácil. Se houve um momento em que era impossível, só de ser possível hoje já é uma mudança incrível”, afirmou Tania. A jornalista distribuiu ao público um texto sobre o assunto (que pode ser acessado aqui), no qual indica alguns sites e caminhos para se começar a buscar informações mais plurais e análises críticas do conteúdo jornalístico monolítico oferecido pelos grandes jornais e emissoras de TV.

Aparecida Tiradentes destacou a importância de o professor utilizar as redes sociais como ferramenta de qualificação crítica e social de seus amigos na internet. (Foto: Gian Cornachini)

Aparecida Tiradentes destacou a importância de o professor utilizar as redes sociais como ferramenta de qualificação crítica e social de seus amigos na internet. (Foto: Gian Cornachini)

Para pensar o papel do professor nessa discussão, a doutora em educação e professora das FIC Aparecida Tiradentes comentou sobre a importância de o educador se manter informado a partir de diferentes veículos de comunicação: “Nós precisamos nos permitir ter uma leitura crítica do mundo, e para isso o professor precisa se informar, pois não podemos ensinar aquilo que não somos”, ressaltou Aparecida, que ainda lembrou do uso das redes sociais nesse contexto: “As redes sociais não são apenas entretenimento. A gente pode utilizá-las para postar fotos de gatinhos, mas a partir do momento que entramos para uma universidade temos a obrigação de sair do senso comum e utilizar essas ferramentas para compartilhar conteúdos contra-hegemônicos e ajudar a qualificar outras pessoas que estão em nossas redes”, destacou.

Blogs para uso em sala de aula

O estudante Gian Cornachini, do 9° período de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e estagiário da revista FEUC em Foco, ministrou à tarde a oficina “Blog escolar: aprendendo a noticiar em sala de aula”, que contou com oito alunos inscritos, dos cursos de História, Ciências Sociais, Pedagogia e Letras. Ele começou fazendo um breve histórico sobre o uso de blogs para a comunicação e compartilhamento de conteúdo por internautas: lá no começo, era mais usado como um diário pessoal, e hoje serve aos mais variados propósitos, como palco para discussão política, repositório de material didático, difusão de notícias etc.

O estudante de Jornalismo Gian Cornachini ensinou os futuros professores na oficina de blog a criarem uma página na internet para compartilhar informações. (Foto: Tania Neves)

O estudante de Jornalismo Gian Cornachini ensinou os futuros professores na oficina de blog a criarem uma página na internet para compartilhar informações. (Foto: Tania Neves)

Gian ressaltou aos alunos o quanto o modo de construir um blog vem sendo cada vez mais facilitado, com a disponibilização de modelos prontos por provedores como WordPress e Google, restando ao autor apenas adaptar pequenos detalhes e logo dedicar-se à produção dos conteúdos. Ele orientou a pequena turma sobre como abrir uma conta, fazer postagens, incluir fotos e vídeos, convidar pessoas a também postarem e fazer o acompanhamento dos comentários e das postagens. Tudo com o objetivo de que esses futuros educadores possam usar tal ferramenta para interagir com seus alunos e tornar o processo educacional mais dinâmico e dialógico. Para um exercício prático, Gian sugeriu que os alunos escrevessem algo sobre o evento matutino da Jornada e fizessem uma postagem. “Quando eles viram o resultado final da postagem que fizeram, ficaram encantados. Foi muito legal. Espero que continuem testando e usem isso em suas práticas educativas”, disse Gian.

Se depender dos alunos participantes da oficina, isso vai acontecer sim. “Adorei a oficina. Tenho certeza que isso vai ser muito útil para lidar com meus alunos depois”, disse Vanessa Luiz de Oliveira, do 6º período de Pedagogia. João Rodrigues da Silva Filho, do 1º período de Ciências Sociais, promete começar já com seu blog, abordando temas com os quais tem afinidade. Márcio José Paiva de Souza, do 1º período de História, também pretende criar logo o seu: “O primeiro assunto que vou tratar vai ser esse mesmo da Jornada, foi muito bom passar o dia discutindo as questões do direito à comunicação e o que isso importa para a educação”, disse.

Cinema na FEUC teve debate animado

O filme em cartaz foi “Ao sul da fronteira”, documentário lançado em 2009 pelo diretor americano Oliver Stone. Com o intuito de entender o fenômeno que levou à eleição de líderes de esquerda em um número considerável de países ao sul dos Estados Unidos e problematizar o tipo de cobertura dada a esses governos pela mídia americana, o diretor visitou Venezuela, Argentina, Brasil, Peru, Paraguai, Bolívia e Cuba, entrevistando os presidentes e mostrando um pouco do perfil de cada um.

A professora de Sociologia da rede pública do Rio Tarsila Formiga conduziu o debate. Foto de Tania Neves

A professora de Sociologia da rede pública do Rio Tarsila Formiga conduziu o debate. (Foto: Tania Neves)

Ao fim da sessão, o debate com a plateia foi conduzido pela convidada Tarsila Formiga, doutoranda em Ciências Sociais e professora de sociologia da rede pública de ensino do Rio. Ela fez uma breve análise do documentário, lembrando que a motivação de Stone para realizar o filme foi a desinformação sobre a América Latina que ele dizia observar nos Estados Unidos, onde a mídia só se ocupava desses governos ao sul dos Estados Unidos para acusar a existência de ditaduras e falta de liberdades políticas. Tarsila chamou a atenção para o modo como o diretor americano construiu o discurso sobre seus personagens, humanizando-os e ressaltando suas qualidades e a disposição política de se opor aos Estados Unidos. “Notem que esse é um filme bem particular, quase didático, em que o diretor quer contrapor as versões que aparecem na mídia americana sobre esses presidentes da América Latina. O foco principal dele é o Chávez, então presidente da Venezuela, talvez porque o Chávez era o que mais enfrentava os Estados Unidos e por isso era o mais retratado na mídia de lá como ditador, apesar de ter sido eleito e reeleito pelo povo, num país em que sequer o voto é obrigatório”, analisou.

Filme rico para estabelecer debate sobre comunicação

As intervenções de alunos no debate foram muitas, mostrando que o tema da liberdade de expressão e da manipulação das notícias na mídia é sempre instigante e também controverso. Janaína, do 4º período de Geografia, lembrou das campanhas eleitorais em que o ex-presidente Lula foi insistentemente retratado como um perigo para a economia do país e da América Latina caso eleito, o que acabou lhe tirando chances nas primeiras eleições das quais participou. Sidney, do 6º período de História, rememorou a época em que o governo de Hugo Chávez não renovou a concessão de uma emissora de TV venezuelana – porque esta descumprira as regras contidas na Constituição do país sobre as responsabilidades das concessionárias – e a TV Globo retratou o presidente como um “ditador endiabrado”. “Eu via aquilo e acreditava. Só depois que comecei a ler o Leonardo Boff e outras fontes é que mudei minha opinião” disse.

Tarsila: o filme é rico, bom para para o debate sobre a necessidade de haver pluralidade na comunicação. Foto de Tania Neves

Tarsila: o filme é rico, bom para para o debate sobre a necessidade de haver pluralidade na comunicação. Foto de Tania Neves

Antônio Carlos, do 2º período de Matemática, opinou sobre a importância de distinguir o que é manipulado na TV e o que não necessariamente é falso. E exemplificou dizendo ter estado na Venezuela em 2009 e constatado que havia um excesso de Hugo Chávez nos canais estatais de TV e muita pobreza na Venezuela: “Para mim, nem tudo o que está colocado na mídia sobre a Venezuela é manipulação, há coisas lá que te deixam assustado”, disse.

A professora Tarsila aproveitou a variedade de opiniões emitidas pela plateia sobre o documentário para problematizar mais uma vez o tema da XII Jornada: “A gente pode concordar ou não concordar com o filme, não é isso que importa. O que importa é que ele é um filme rico, bom exatamente para estabelecer um debate sobre a necessidade de haver pluralidade na comunicação. O diretor fez esse filme porque no país dele era difundido um pensamento único sobre o Chávez e outros líderes latinos. Ele quis fazer um contraponto”, afirmou a debatedora, insistindo que o mais importante não é discutir onde está a verdade, mas sim perceber que não existe uma verdade única e sim várias versões, e que só vamos conseguir nos aproximar daquilo que nos satisfaça como verdade na medida em que tivermos acesso a versões variadas, múltiplas, plurais. Essa é a razão da luta por uma comunicação mais democrática.

XII Jornada Pedagógica abordará Comunicação como Direito

 

Evento terá mesa-redonda sobre comunicação como direito humano, oficina de construção de blog para uso em sala de aula e o Cinema na FEUC com o filme ‘Ao sul da fronteira’

Da redação
emfoco@feuc.br

Na sequência de temas abordados nos últimos anos como Legislação do Ensino, Juventude, Criança, Adolescentes e Educação Inclusiva, a XII Jornada Pedagógica da FEUC – que acontece amanhã – tratará em 2014 da “Comunicação como Direito Humano: desafio à construção de uma Escola Democrática”.

De acordo com a professora Célia Neves, organizadora do evento, a escolha se deu principalmente pela importância do debate que se trava atualmente sobre o valor das redes sociais nas lutas por mais democracia e respeito aos direitos humanos, que se intensificou na esteira das manifestações de rua iniciadas em junho do ano passado.

“Há um longo caminho a percorrer a fim de compreender e incorporar as práticas construídas a partir de então. Entendemos que esse é papel da Universidade, que se constrói em dialogicidade com a vida social, sobretudo com a Comunidade na qual se insere. Assim, refletir sobre a Comunicação como Direito Humano cumpre o papel de trazer para o debate a necessidade de problematizá-la na perspectiva de apontar possibilidades concretas de mudança do atual sistema de informação, privatizado e excludente, que atende à perpetuação de um determinado modelo de sociedade, também privatista e excludente”, disse ela.

A mesa-redonda “Comunicação privatizada e comunicação pública: o que isto tem a ver com Educação?”, começa às 9h e contará com as jornalistas Mônica Mourão, do Coletivo Intervozes, e Tania Neves, editora da revista FEUC em Foco, assim como a doutora em Educação Aparecida Tiradentes, docente das FIC.

Jornalista Mônica Mourão, do Coletivo Intervozes, estará presente no evento. (Foto: Elistênio Alves/ONG Ponto Iphanaq)

Jornalista Mônica Mourão, do Coletivo Intervozes, estará presente no evento.
(Foto: Elistênio Alves/ONG Ponto Iphanaq)

Direito humano à comunicação em debate

Integrante do Coletivo Intervozes, cuja principal bandeira de luta é o direito humano à comunicação, Mônica Mourão traçará um panorama sobre a situação deste direito hoje no Brasil: as garantias para sua efetivação e também o modo como ele é constantemente violado, muitas vezes em situações cotidianas em que muitas pessoas mal percebem tal violação: “Por exemplo, em coberturas midiáticas como a da morte do dançarino DG, em que, pelo menos no início, havia claramente um discurso tendencioso no sentido de criminalizá-lo”, explica Mônica.

Tania Neves falará sobre como o modelo de comunicação unidirecional e autoritário emperra os avanços sociais, e apresentará reflexões de autores que apontam a comunicação dialógica como única saída para a construção de uma Educação mais libertária e capaz de formar cidadãos críticos e criativos, que poderão estes sim transformar a sociedade.

Aparecida Tiradentes vai fazer uma ponte entre a democratização da comunicação e a Educação. Em sua fala, a professora pretende discutir o papel da escola nesse processo: “Hoje você tem fontes de informação alternativas que a escola não explora. E isso porque o professor, muitas vezes, desconhece outras mídias além das hegemônicas”, afirma Aparecida, que também chama a atenção para o poder das redes sociais: “Eu costumo aceitar meus alunos nas redes sociais para mostrar que esses espaços não são apenas de entretenimento e de narração do cotidiano privado, mas locais onde é possível compartilhar informações que a TV não mostra. E a escola precisa se apropriar dessas ferramentas e se engajar na luta por uma comunicação mais humanizada”, completa.

Cinema na FEUC e Oficina

Na parte da tarde, destacam-se o Cinema na FEUC, com o filme “Ao sul da fronteira”, e a oficina “Blog escolar: aprendendo a noticiar em sala de aula”.

Sul“Ao sul da fronteira” é um documentário político do diretor americano Oliver Stone, que em 2009 visitou seis países da América do Sul (Brasil,Venezuela, Argentina, Bolívia, Paraguai e Equador) e Cuba, entrevistando seus presidentes e analisando o modo como a mídia acompanhava cada um desses governos, então alinhados mais à esquerda, e a forma como lidavam com os Estados Unidos e órgãos mundiais como o FMI.

O estudante Gian Cornachini, do 9° período de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e estagiário da revista FEUC em Foco, dará uma oficina voltada aos futuros professores a partir das 14h. Com o tema “Blog escolar: aprendendo a noticiar em sala de aula”, Gian ensinará o público inscrito na atividade a criar um blog e utilizá-lo a favor do acesso à informação na escola.

Educação que abre novos caminhos e também os olhos

 

Conheça histórias de mulheres que transformaram suas vidas ao concretizar o desejo de ingressar na faculdade                                          

 Verônica ‘chutou o balde’ da opressão, deixou para trás um relacionamento em que não era valorizada e ingressou na faculdade para cursar Pedagogia e transformar sua vida. (Foto e arte: Gian Cornachini)

Verônica ‘chutou o balde’ da opressão, deixou para trás um relacionamento em que não era valorizada e ingressou na faculdade para cursar Pedagogia e transformar sua vida. (Foto e arte: Gian Cornachini)

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

“Esquece! Você acha que tem capacidade para ler seis livros em um semestre?”; “Estudar para quê, se já sabe o suficiente para pilotar um fogão?”. Frases desse tipo, ditas por companheiros ou outros familiares, fizeram mulheres como Verônica e Diva engolirem o choro e até duvidarem se tinham ou não o direito de sonhar com uma faculdade. Mas incentivos como “Pode se matricular, eu trabalho mais para você poder estudar” e “Vá em frente, você consegue!” impulsionaram guerreiras como Crisvânia e Maria de Fátima. E a elas se juntam Marina, Mônica, Ramayana, Luci e muitas outras alunas que passaram pelas salas de aula da FEUC ou estão neste momento cursando suas graduações e pós-graduações, a despeito de todas as dificuldades que a vida impõe. Mulheres para quem a entrada na faculdade representou ou está representando muito mais do que obter um diploma e uma (nova) profissão: uma oportunidade ver o mundo com outros olhos. Neste Mês da Mulher, a FEUC em Foco traz algumas dessas histórias marcantes.

Verônica Faustina Nogueira tem 41 anos e está no 5º período de Pedagogia. Lá atrás, quando começou seu 2º Grau, queria ter trilhado o caminho do Magistério, mas não pôde. Logo precisou encarar o trabalho (atuou como secretária e auxiliar administrativa), teve filhos, focou em seu sustento, e o sonho da Pedagogia foi ficando para trás. Tempos depois a mãe insistiu para que ela voltasse a estudar, ofereceu ajuda, mas seu companheiro na época – que tinha curso superior – só desestimulava. “Ele valorizava as pessoas com faculdade, mas dizia que isso não era para mim, só me jogava para baixo. Quando minha mãe morreu, me deu uma coisa e eu decidi correr atrás dos meus sonhos”, conta Verônica, que saiu de casa e entrou na briga: fez vestibular, usou as economias para começar a faculdade e em pouco tempo já estava trabalhando como professora em escola particular. Agora ela planeja a pós-graduação: “Tenho vaga reservada em Psicopedagogia!”.

“Chutar o balde” da situação de opressão que vivia, segundo Verônica, foi fundamental. Ela diz que o primeiro passo foi aprender a transformar um famoso ditado popular. “Ruim com ele, pior sem ele? Nada disso! Melhor sem ele”, afirma, completando com uma autocrítica: “Eu que deixei. Ninguém faz isso com a gente se a gente não deixa”.

Formada em Ciências Sociais pelas FIC em 2006, Marina Ribeiro também se deixou oprimir por muito tempo, antes de virar a mesa. Casou cedo, teve filhos, trabalhava como costureira e reproduzia modelos familiares de que, como mulher, tinha obrigação de cuidar dos filhos enquanto o companheiro podia se divertir com os amigos e fazer o que quisesse. “Deixar a fábrica onde eu costurava foi uma decisão difícil, pois era o sustento dos meus filhos, mas a opressão era grande, com horas extras obrigatórias e proibição de estudar”, conta Marina. Ela fez a faculdade graças a uma bolsa de estudos integral, e logo que iniciou o curso começou a trabalhar com jovens e mulheres, estagiando no Núcleo de Estudos Urbanos (NEURB).

Marina: com salário de pesquisadora do Ibase, alugou sua primeira casa, aos 40 anos. (Foto: Gian Cornachini)

Marina: com salário de pesquisadora do Ibase, alugou sua primeira casa, aos 40 anos. (Foto: Gian Cornachini)

Com a formação na FEUC, Marina se candidatou a um estágio no Ibase e se destacou na disputa com uma centena de candidatos. Hoje é pesquisadora do instituto, cursa mestrado na UniRio e acaba de se mudar da casa da mãe: “Minha primeira casa, aos 40 anos!”, comemora.

Mônica Teixeira na biblioteca: leitura tomou o lugar da televisão na vida da aluna. (Foto: Gian Cornachini)

Mônica Teixeira na biblioteca: leitura tomou o lugar da televisão na vida da aluna. (Foto: Gian Cornachini)

Mônica Teixeira Pinheiro de Oliveira, de 47 anos, interrompeu os estudos por volta dos 16, logo depois de se transferir para o turno da noite com o objetivo de trabalhar no comércio. O casamento, os filhos e a ascensão na empresa puseram a escola em segundo plano. Anos depois, com os meninos criados – hoje eles têm 26, 18 e 16 anos – ela retomou os estudos disposta a contribuir com o desenvolvimento do mais novo, que tinha problemas de aprendizagem. Escolheu Pedagogia, e se formou no fim do ano passado. O interessante é que a opção pela retomada dos estudos se deu no momento em que o marido, militar, propôs que ela parasse de trabalhar para ter mais tempo para si. “Eu pensei… ficar em casa? Quero tempo é para fazer algo realmente importante. Decidi estudar e ele me apoiou”.

Elogiadíssima por professores e admirada por colegas – “nunca faltei, chegava cedo e era tida como ‘caxias’” – Mônica fez Iniciação Científica nas FIC, contribuiu em pesquisas e já emendou numa pós-graduação em Psicopedagogia. “Depois dessa pós vou fazer outra, em Supervisão, e me candidatar para trabalhar com Orientação Educacional quando abrir concurso. A faculdade mudou minha vida, o modo de ver o mundo, o assunto das conversas. Eu já nem vejo quase TV, prefiro ocupar o tempo com boas leituras”.

Crisvânia trocou a máquina de costurapelos livros e hoje é professora, quase mestre. (Foto: Gian Cornachini)

Crisvânia trocou a máquina de costura pelos livros e hoje é professora, quase mestre. (Foto: Gian Cornachini)

Ler, ler e ler mais um pouco se tornou a rotina de Crisvânia dos Santos, de 39 anos, que no fim de 2011 se formou em Português-Espanhol nas FIC e nas próximas semanas estará defendendo a dissertação “Aquele abraço – Estudo dos demonstrativos em contextos de uso”, no mestrado em Estudos da Linguagem na PUC. Um caminho pavimentado com muito sacrifício, determinação e dedicação. Nascida numa família de nordestinos em que as mulheres se tornavam costureiras ou manicures, e os homens trabalhavam de pedreiro ou mecânico, ela cedo teve que abandonar a escola para ajudar a mãe nas costuras. Mas quando viu que a vida estava passando sem ter realizações, ousou tentar mudanças. “Meu marido disse: ‘volta a estudar que eu trabalho mais para segurar as pontas’. Fiz isso, consegui o Prouni, estudei muito, me formei, passei em concurso para dar aula no município e para o mestrado na PUC”, conta Crisvânia, entusiasmada porque seus ganhos agora permitem retribuir o apoio de Anderson: o marido reduzirá o trabalho na mecânica para cursar Matemática ou Engenharia a partir do segundo semestre.

Diva chega na FEUC para a aula, após longa jornada de trabalho e viagem de trem. (Foto: Gian Cornachini)

Diva chega na FEUC para a aula, após
longa jornada de trabalho e viagem de trem. (Foto: Gian Cornachini)

Em oposição total a apoio, o que Diva da Silva Carvalho teve por muito tempo foi o terror da frase sobre saber o suficiente para pilotar um fogão ecoando em sua mente. Mesmo depois de separada do marido e com os filhos criados – com seu salário de empregada doméstica – ela continuava sufocando o desejo de estudar e tinha pânico de escola, por ter introjetado que aquilo não era para ela. Tentava se realizar por meio dos filhos, dando-lhes as condições que não teve. Sua filha mais velha, Patrícia, que cursou o Normal e depois fez faculdade de Nutrição, foi quem um dia decidiu que ia “empurrá-la” para a frente. “Ela fez que nem mãe: me levou pela mão e me matriculou no supletivo. Cada etapa que eu terminava, ficava quietinha para ver se ela esquecia de mim, mas lá vinha ela: ‘agora é o segundo grau’; depois: ‘agora é a faculdade’”, conta Diva, que aos 53 anos cursa o 5º período de Geografia nas FIC e já se imagina lecionando daqui a algum tempo.

Diva trabalha há 20 anos como doméstica para uma família em Copacabana. Mora em Santa Margarida, acorda às 3h da madrugada para ir trabalhar, lê os textos acadêmicos no trem (quando consegue se sentar e não cair no sono), chega quase em cima da hora para as aulas noturnas na FEUC e não falta nunca. Admite que os 30 anos afastada da escola lhe trazem dificuldade nessa retomada, mas tem nos professores e em muitos colegas um apoio precioso. “Adoro meus professores, principalmente a Rose, a Alice, mas gosto de todos, eles me ajudam muito”, diz a aluna, cuja luta inspira os colegas: “Mais de uma vez já me disseram: ‘quando penso em desistir, lembro que a senhora acorda às 3h para trabalhar e nunca falta’. Vê lá se eu imaginava que um dia ia ser exemplo para alguém!”.

Já Maria de Fátima Alves Faustino Fróes, de 57 anos, que está no 3º período de Ciências Sociais, veio para a faculdade justamente com a intenção de se tornar um exemplo para sua família: duas filhas, quatro netos e uma bisneta, por enquanto. “Parei de estudar há 35 anos, matando aquele sonho de me formar, porque a vida não oferecia mesmo condições. Agora voltei porque estou vendo que é importante dar aos filhos e aos netos essa demonstração de que é preciso querer crescer e conquistar objetivos”, afirma Fátima, que sempre trabalhou como cabeleireira. Casada há 5 anos com Delci Gonçalves Fróes, de 73 anos, ela tem no marido o maior incentivador: “É uma tremenda esposa, mãe e avó maravilhosa. Eu digo a ela: ‘Mete a cara que você consegue’. E ela vai fundo, às vezes dá 3 horas da manhã e está lá estudando”, conta Delci, que passou a frequentar a Universidade Aberta à Terceira Idade (Unatic) para dividir o mesmo ambiente educacional com a mulher.

Maria de Fátima, entre Delci e Renata: tornando-se exemplo para os filhos e os netos. (Foto: Gian Cornachini)

Maria de Fátima, entre Delci e Renata: tornando-se exemplo para os filhos e os netos. (Foto: Gian Cornachini)

Roberta, a neta de 14 anos, é outra que apoia a nova vida de Fátima. Aluna do 9º ano do Fundamental e fazendo preparatório para o ensino técnico, ela outro dia perguntou se a avó conhecia “um tal de Marx”, sobre quem precisava ler. “Deu uma alegria enorme poder compartilhar com ela tudo o que já estudei sobre o filósofo, acho que meu entusiasmo a contagiou. É disso que falo quando digo que quero ser um exemplo”.

Luci Sá Freire terminou sua primeira graduação na FEUC (Português-Inglês) em 1997, fez pós em 2000, voltou em 2006 para cursar Espanhol e hoje, aos 48 anos, é mestre em Gestão e Educação e dá aula nas redes municipais de Itaguaí e Seropédica. Uma trajetória que só foi possível pelo empenho que demonstrou – e a ajuda que recebeu – nos primeiros anos na faculdade. Desempregada na época, vivendo de trabalhos manuais, Luci inovou para garantir que conseguiria pagar a mensalidade. “A cada dia ela trazia um pouquinho do dinheiro que ganhava e nos entregava”, contra Mônica de Araújo Torres, superintendente da FEUC: “A gente tinha uma caixa onde ia juntando, e no fim do mês contava e dava algum desconto nas vezes em que ela não alcançava o valor”.

Segundo Mônica, o empenho e a fibra de Luci se tornaram um exemplo na época, e até hoje ela é lembrada. A superintendente diz que a instituição se esforça para atender casos assim e ajudar como pode os alunos e alunas que verdadeiramente têm dificuldades de se manter no curso. “Todo final de ano a FEUC oferece algumas bolsas para os que têm renda realmente baixa. O setor de assistência social analisa os casos e damos a ajuda possível. Fora isso, facilitamos o acesso a quem se inscreve no FIES, permitindo que se matriculem sem pagar, até sair a resposta, além de parcelar mensalidades em atraso”, diz.

Outro tipo de ajuda é o oferecimento da infraestrutura da Brinquedoteca para as alunas e alunos que têm filhos pequenos e não poderiam estudar à noite por não ter com quem deixá-los. Ramayana Del Secchi Linhares, de 37 anos, que cursa Português-Literatura, é uma que aproveita esse conforto, levando às vezes dois ou três dos quatro filhos para passar algumas horas com a recreadora Isabella Rodrigues. “Meu marido se formou aqui, e eu lamentava não poder estudar também porque não tinha com quem deixar as crianças. Cada vez que ele chegava falando das aulas da Arlene eu pensava: ‘tenho que ir para essa faculdade!’. Com a Brinquedoteca, pude realizar isso. Sou extremamente grata à instituição e às meninas daqui, a Isabella e a que trabalhava antes. A FEUC se tornou nossa segunda casa”.

Ramayana com os filhos André (à esquerda), Amanda e Rafael, acompanhados da recreadora Isabella (à direita): deixar as crianças na Brinquedoteca durante a noite lhe permite realizar o sonho de cursar Letras e ter aula com a professora Arlene! (Foto: Gian Cornachini)

Ramayana com os filhos André (à esquerda), Amanda e Rafael, acompanhados da recreadora Isabella (à direita): deixar as crianças na Brinquedoteca durante a noite lhe permite realizar o sonho de cursar Letras e ter aula com a professora Arlene! (Foto: Gian Cornachini)

Para a professora Célia Neves, coordenadora de Ciências Sociais, há algo em comum nessas trajetórias femininas: a busca por alguma coisa que ficou faltando lá no começo da juventude, quando tiveram que se dedicar ao trabalho. “Apesar de todas as dificuldades, a convicção do que desejam faz com que elas avancem. E até se tornam lideranças nas turmas, criando um ambiente muito fraterno”. Rosilaine Silva, coordenadora de Geografia, vê na construção de novas sociabilidades algo importantíssimo: “Percebo que, para as mulheres trabalhadoras, estar no espaço acadêmico é muito mais difícil, porque elas continuam tendo as duplas e triplas jornadas lá fora. E ainda assim encaram com o maior encantamento”.

Se a possibilidade de exercer uma profissão mais qualificada é a consequência imediata da conquista de um diploma de nível superior, outros ganhos que vêm com a entrada na faculdade são igualmente importantes. “Minha visão de mundo mudou completamente. E isso transformou outras coisas a meu redor. Antes eu mandava meus filhos estudarem porque se diz que é preciso estudar e pronto; hoje eu sei explicar a eles por que é importante estudar”, revela Crisvânia, que atribui parte dessa transformação ao bom ambiente que encontrou na FEUC.