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CAEL promove grande feira contra preconceitos

 

Estudantes apresentaram trabalhos de conscientização acerca do respeito às diferenças e participaram de ações sociais fora do Colégio

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

O Projeto Cultural do CAEL, realizado no dia 28 de junho, movimentou estudantes em prol de uma sociedade mais igualitária e que respeita as diferenças. Com o tema “Construindo pontes, não muros — Valores e Virtudes: preconceito e cidadania”, a atividade teve o objetivo de criar no Colégio uma feira com apresentações de trabalhos dos alunos e peças teatrais que expusesse diferentes preconceitos presenciados ainda nos dias de hoje e a importância de combatê-los. De maneira muito criativa, os estudantes abordaram temas como racismo e a herança africana, violência contra a mulher e feminismo, homofobia e igualdade de gênero.

Feira levou diversas apresentações para a quadra esportiva do CAEL. (Foto: Gian Cornachini)

Feira levou diversas apresentações para a quadra esportiva do CAEL. (Foto: Gian Cornachini)

O grupo de Maria Eduarda Lira Villela, do 1º ano do técnico em Enfermagem, trouxe para o CAEL o debate sobre preconceito religioso. Caracterizada como freira, a jovem chamou a atenção para o ódio entre diferentes religiões: “Falamos sobre católicos, muçulmanos, espíritas, para mostrar que existem pessoas diferentes, que se vestem de maneira diferente, e que mesmo que você não gosta, o importante é aceitar”, defendeu ela.

Grupo de Maria Eduarda (segunda, da esquerda para a direita), abordou o preconceito religioso. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo de Maria Eduarda (segunda, da esquerda para a direita), abordou o preconceito religioso. (Foto: Gian Cornachini)

O estudante Yan Victor Vidal Bandeira, do 2º ano do técnico em Química, apresentou com seus colegas um trabalho sobre homofobia. Utilizando chifres de unicórnio — apetrecho apropriado pela comunidade LGBT, durante o Carnaval deste ano, com o intuito de representar um ser assexuado, sem definição de gênero —, o estudante foi direto ao opinar sobre a violência contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros: “Aqui, no Brasil, é ruim ser homossexual. O índice de violência contra homossexuais é muito maior. Queremos mostrar que essas pessoas também são gente, têm direitos, tudo o que nós, heterossexuais, temos. Ser gay não é uma doença!”, ressaltou ele.

Yan Victor: "Aqui, no Brasil, é ruim ser homossexual. O índice de violência contra homossexuais é muito maior". (Foto: Gian Cornachini)

Yan Victor: “Aqui, no Brasil, é ruim ser homossexual. O índice de violência contra homossexuais é muito maior”. (Foto: Gian Cornachini)

Atenta ao fato de que as propagandas contribuem positivamente e negativamente para a opinião pública em relação a diversos temas e aspectos sociais, a aluna Anna Paula dos Santos de Souza, do 2º ano do técnico em Publicidade, pesquisou com seus colegas diferentes campanhas publicitárias que evidenciassem preconceitos e estereótipos. Mulheres seminuas em propagandas de cerveja voltadas para homens, publicidade de produtos de limpeza com imagens de mulheres, a pouca utilização de pessoas negras. Tudo isso foi destacado no trabalho.

Anna Paula sobre influência das propagandas: "Às vezes você está vendendo uma ideia que vai machucar outras pessoas". (Foto: Gian Cornachini)

Anna Paula sobre influência das propagandas: “Às vezes você está vendendo uma ideia que vai machucar outras pessoas”. (Foto: Gian Cornachini)

“Dependendo do país ou da cabeça do profissional que está fazendo a propaganda, ele vai colocar as próprias experiências em seu trabalho, e muitas vezes isso pode ser ruim, pois a publicidade faz bastante a cabeça das pessoas, tanto para comprar um produto quanto para vender uma ideia. E às vezes você está vendendo uma ideia que vai machucar outras pessoas”, apontou Anna Paula.

Realidade fora do Colégio

Além de expor os trabalhos na feira cultural, estudantes também participaram de diversas ações sociais fora do Colégio. O grupo do aluno Jhonathan William do Prado, do 3º ano do técnico em Química, responsável por abordar a temática sobre moradores de rua, visitou pessoas que se encontram nessa situação e entregou-lhes sopa em uma noite fria.

Jonnathan e sua colega do  CAEL entregaram sopa para moradores de rua. (Foto: Arquivo pessoal)

Jonnathan e sua colega do CAEL entregaram sopa para moradores de rua. (Foto: Arquivo pessoal)

“Eu vi uma pessoa que já tinha se alimentado negar a sopa dizendo que poderíamos entregar para outro que ainda não tinha comido. Isso mexeu muito comigo, porque vi que, mesmo precisando no mínimo, eles ainda se preocupam com os outros”, contou Jhonathan, defendendo o respeito aos moradores de rua: “Eles não são qualquer coisa. São gente, iguais a nós, e muitos estão na rua por necessidade, por não ter família ou onde morar. Com eles, aprendemos mais sobre amar o próximo, que é algo que falta muito hoje em dia”.

Estudantes de Enfermagem visitaram orfanato e levarem doações. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes de Enfermagem visitaram orfanato e levarem doações. (Foto: Gian Cornachini)

Alunos do curso técnico em Enfermagem também promoveram ação social, levando alimentos e objetos arrecadados para o abrigo A Minha Casa, de Campo Grande. Localizado na Estrada do Moinho, nº 135, o orfanato acolhe, atualmente, cerca de 40 crianças que aguardam por adoção. “Ficamos indignadas com a situação atual, triste por [órfão] ser algo que a maioria das pessoas finge que não existe”, apontou Giovanna Souto, do 3º ano do curso, porém contente pela colaboração que seu grupo teve durante a arrecadação: “De um em um, conseguimos formar uma multidão de pessoas que não vão fechar os olhos. Isso já muda o dia de alguém. Imagina se todos nós fizéssemos”, apontou ela.

Lúcia Piorotti, organizadora do Projeto, sobre os estudantes: "Eles estão saindo daqui mais conscientes". (Foto: Gian Cornachini)

Professora Lúcia Piorotti, organizadora do projeto, sobre os estudantes: “Eles estão saindo daqui mais conscientes”. (Foto: Gian Cornachini)

De acordo com a professora de Língua Portuguesa Lúcia Piorotti, organizadora do Projeto Cultural, o objetivo da feira foi alcançado e os estudantes puderam aprender diversos valores e se tornar cidadãos mais críticos: “Os alunos abraçaram o projeto e a gente viu o quanto ficaram entusiasmados, a alegria durante as apresentações. Isso é o que nos incentiva a continuar esse trabalho, pois eles estão saindo daqui mais conscientes”, destacou a professora.

Alunos do Fundamental apresentaram teatro sobre as heranças do negro africano na cultura brasileira. (Foto: Diógenes Rocha)

Alunos do Fundamental apresentaram teatro sobre as heranças do negro africano na cultura brasileira. (Foto: Diógenes Rocha)

O álbum de fotos completo do Projeto Cultural CAEL 2017 está disponível na página da FEUC, no Facebook. Clique aqui para acessá-lo.

Letras: Semana Acadêmica do curso completa 25 anos com dezenas de atividades

 

Durante quatro dias de evento o público pôde enriquecer seus conhecimentos com palestras, mesas-redondas, oficinas e diversas outras programações

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Há quem diga que parece ter sido ontem que o curso de Letras das FIC promoveu, pela primeira vez, sua Semana Acadêmica. Mas o fato é que o evento já está na 25ª edição, garantindo o sucesso de sempre, seja por meio de suas ricas palestras ou por relatos e experiências de estudantes e professores com um único objetivo: fortalecer o saber teórico, técnico e humano do universo das Letras. E, neste ano, para comemorar seu Jubileu de Prata, a temática central foi “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo” — fio condutor de quase meia centena de atividades, entre comunicações científicas, palestras, mesas-redondas, oficinas, exposições e muito mais. Um resumo da Semana Acadêmica — que aconteceu de 31 de maio a 3 de junho, nos períodos da manhã e da noite — você confere a seguir.

Reencontro com a FEUC: ex-alunos relembram trajetória acadêmica

Para introduzir os graduandos no clima dos 25 anos da Semana, uma mesa-redonda foi organizada com a presença de ex-alunos de destaque. Ao público, eles contaram um pouco sobre como foi seu percurso acadêmico e as experiências pós FEUC.

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

O ex-agente da Polícia Militar Rodrigo Torres está apaixonado por dar aula e valoriza a mudança de carreira: “Graças a Deus eu saí da PM. Hoje eu faço o que gosto, e isso não tem preço. Não desistam e não parem de estudar. Tem que chegar em casa, sentar e pesquisar, preparar a sua aula, porque o aluno não vai engolir tudo o que você disse”.

Ramayana Del Secchi Linhares se formou recentemente e já atua como professora no Município, tendo dicas a oferecer: “Na maioria das vezes o aluno não acredita que é capaz porque os pais também não acreditam. Cabe a vocês, que tiveram uma boa formação, mostrar que esse aluno é capaz, porque se a educação não for para fazer diferença, então ela não valerá a pena”, ressaltou. Armando de Carvalho, que trabalha com educação para presidiários, concorda com Ramayana e procura, assim como a professora, transformar a vida dos detentos por meio da educação: “É muito importante atuar como incentivador, estimulador daquela criatura à sua frente que está ansiosa para ouvir o que você tem a dizer. O segredo todo é inspirar”, afirmou.

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Embora não pretenda ser professora, a atriz Gui Soarrê, também formada recentemente em Letras nas FIC, valoriza a profissão dos colegas: “Lecionar não é a minha grande paixão, mas eu acho uma profissão heroica. Vou usar a poesia e o teatro para também tocar as pessoas, usar o poder humanizador da arte para tocar essa essência humana”, disse Gui.

A coordenadora do curso, Arlene da Fonseca Figueira, fez uma análise das falas, destacando o respeito de todos pela figura do educador: “Nem todos são professores, mas todos são ex-alunos bem sucedidos, cada um com suas escolhas. E a voz que me encantou aqui é o respeito ao professor. Nossa sociedade e os políticos não têm esse mesmo respeito, mas só conseguiremos ir à frente quando respeitarem o professor e valorizarem a educação”.

CD “No caminho das Letras” é lançado no evento

Os professores Erivelto da Silva Reis e Arlene da Fonseca Figueira, à frente do subprojeto “Produção de Acervo de Áudio” (Letras/Português) do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) nas FIC, aproveitaram a Semana Acadêmica para apresentar aos estudantes o CD “No Caminho das Letras”. A produção, destinada a deficientes visuais, reúne diversas gravações de clássicos da literatura em domínio público, além da obra do poeta Primitivo Paes, lidas por estudantes do Ensino Fundamental II da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guaratiba. Erivelto revelou a satisfação de ter concluído o trabalho: “Esse CD é um motivo de orgulho para nós. Despertamos a leitura e compreensão do que os alunos liam e discutiam. Eles se tornaram sujeitos de sua própria leitura e entendiam que a pessoa cega que ouvirá os áudios dependerá da emoção, boa leitura e interpretação do texto”.

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Joyce da Silva dos Santos, uma das alunas bolsistas do subprojeto e que apresentou um resumo do trabalho aos licenciandos, contou o que aprendeu com a atividade do Pibid: “Eu não posso simplesmente chegar na escola e apresentar Machado de Assis sem contextualizar e mostrar o que posso tirar dali. A gente tem que puxar um ganchinho com as nossas experiências para perceber os efeitos da literatura em nossa vida e ver o que ela tem em comum com a gente”, destacou ela.

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Homenagem póstuma à ex-coordenadora do curso

A 25ª Semana de Letras também dedicou uma atividade a relembrar uma figura bastante importante para o curso das FIC: a professora Miriam da Silva Pires, falecida em fevereiro de 2013, quando era professora do curso de Letras da UFRRJ. Antes de passar no concurso para aquela instituição (em 2010), Miriam foi, durante anos, coordenadora de Letras das FIC. Ela esteve na organização de diversas edições da Semana Acadêmica, colaborando com a consolidação de um dos eventos mais importantes da FEUC.

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Os professores Erivelto Reis — que teve a oportunidade de ser aluno de Miriam — e Flávio Pimentel — que teve a honra de compartilhar mesas-redondas com a professora — contaram os momentos mais marcantes que tiveram com ela e destacaram sua importância para o curso de Letras das FIC: “Você ficava impressionado de onde vinha tanto conhecimento e as relações que ela estabelecia entre as diferentes áreas do saber. Celebrar a memória dela é celebrar o legado de uma pessoa que lutou a vida toda para que a educação transformasse a vida das pessoas”, ressaltou Erivelto. “Em nossas conversas entre filosofia e literatura havia uma proximidade muito grande [dos saberes], até o ponto de que eu nunca mais deixei de apresentar alguma coisa na Semana de Letras”, lembrou Flávio.

Antes de partir para os EUA, uma colaboração com a Semana

André Nascimento se formou em Letras (Português/Inglês) nas FIC em 2014, emendou na pós-graduação em Língua Inglesa, também na FEUC e, agora, ruma aos Estados Unidos para cursar, com bolsa integral, o mestrado em Português e Literaturas pela The University of New México (leia a reportagem “Da FEUC para o mundo” sobre a conquista do mestrando). Durante os próximos anos, André vai pesquisar a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas, mas, antes de partir para terra dos ianques, ele deu uma “palinha” dos seus estudos como convidado a palestrar na Semana de Letras. “O Carandiru e o medo: a masculinidade e a violência social em voga (des)cortinados pela narrativa fílmica” foi o tema de sua apresentação, que buscou esclarecer a relações machistas e de masculinidade no filme brasileiro Carandiru (2003).

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo André, a lógica de estupro dentro do presídio passa por um conceito de “herói” de uma “mitologia invertida”, além da constante necessidade de se autoafirmar como forte e macho: “Para que um detento tenha status de homem, ele precisa diminuir o outro. No banho, eles nunca ficam de bunda para o outro, ou seja, uma questão de autoafirmação”, ponderou André. “Um prisioneiro precisava fazer uma cirurgia, mas o médico disse que seria muito arriscado. E, ainda assim, o homem afirmou ter duas balas no corpo e que, portanto, aguentaria. Mesmo em meio à dor, afirmar-se como homem era altamente relevante”.

Para o estudante, esses fenômenos acontecem porque o homem latino-americano segue um padrão do que é ser homem, por diversas vezes carregado de valores sexuais: “É preciso ter uma habilidade sexual como maratonista para se aprovar e nunca pode dizer não ao sexo com uma mulher, porque aí a sua masculinidade seria confrontada”, explicou.

O Ciclo do Café e a produção literária

Em um intercâmbio entre História e Literatura, os professores Erivelto Reis, de Letras, e Márcia Vasconcellos, do curso de História, articularam contexto histórico e a produção artística e literária durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba.

Márcia falou das condições específicas que tornaram essa região privilegiada para a produção de café, na época, e forjaram os grandes barões do período. Além de mostrar o desejo deles em integrar a nobreza:

“Ao contrário de outras áreas, onde os cafeicultores investem em grandes inventários e casas opulentas para demonstrar riqueza e poder, em Vassouras não vai ficar só nisso, e como consequência surge uma vida urbana e cultural”, explicou. O professor Erivelto complementou: “Para eles, apenas ser rico não era suficiente, eles queriam fazer parte da elite. Conhecer a história desse período ajuda a gente a entender a ideia de elite no Brasil”, revelou.

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Também foi colocado por ambos os professores o papel da escravidão nessa sociedade. Márcia destacou as estratégias de sobrevivência e leitura dos escravos como sujeitos históricos. Erivelto, que faz pesquisa na região, contou que o tema é ausente nas visitas guiadas e museus do local, e fez um apelo aos estudantes: “Fica o convite para a galera de Literatura para, quando estudar romantismo, discutir essas relações, sobretudo aquela geração condoreira, Castro Alves, Gonçalves Dias. É preciso perceber o que esses homens estão vendo para escrever literatura. E eles estão vendo isso aí, sofrimento, escravidão, poderio econômico, opulência, esses homens achavam que não iam empobrecer nunca”.

A literatura dentro dos livros e no palco

Além de palestras, mesas-redondas e comunicações coordenadas, a Semana de Letras também apostou no lúdico como forma de conhecimento. Em sintonia com o tema do evento, “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo”, o espetáculo teatral “De dentro dos livros” arrancou risadas e também levou à reflexão. A peça fez uma oposição entre leitura e tecnologia, na qual personagens dos livros se materializaram em busca de novos leitores, já que estão desaparecendo devido ao interesse das crianças pela tecnologia.

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

A ideia de apresentar a obra partiu da estudante do 3º período de Letras Amanda Barboza, que também foi monitora da Semana. Ela, que é atriz e integra o Grupo Pipa, disse ter se surpreendido com o resultado, já que o espetáculo é mais voltado para o público infantil. “Eu até chamei uns alunos do CAEL para assistirem, mas as pessoas mais velhas também gostaram muito e riram bastante, porque mesmo as peças infantis têm apelo para outros públicos. O teatro foi a minha primeira profissão, conseguir a arte com a minha segunda profissão, que é ser professora, eu achei ótimo”, disse.

“As minhas raízes são aqui”

Pelos corredores da FEUC, no último dia da Semana de Letras, o professor Gustavo Adolfo da Silva  poderia passar despercebido pelo pátio não fosse o cumprimento dos mestres do curso de Letras acolhendo-o, agradecendo sua presença e parabenizando-o. Convidado a palestrar, ele não pôde participar por conta de outros compromissos, mas fez questão de prestigiar o evento. Gustavo, que é professor aposentado pela UERJ, cursou mestrado e doutorado na UFRJ e tem 13 livros publicados — sendo três de poesia — garante que a FEUC é a sua casa: “A minha graduação foi aqui, minha primeira especialização foi na FEUC, sou morador de Campo Grande. Eu dei aulas aqui durante dez anos, as minhas raízes são aqui”, disse.

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre 1974 e 1984 Gustavo lecionou disciplinas de Filologia, Sintaxe e Estilística. Sua atuação como professor, no entanto, foi passada adiante por meio de seus livros e das histórias de colegas. O professor Erivelto foi um dos que o encontraram e não perdeu a oportunidade de agradecê-lo: “Querido mestre, que satisfação reencontrá-lo. Seja bem-vindo a esta casa mais uma vez, é uma inspiração para nós. A sua presença nos honra muito e nos incentiva a continuar, porque os seus ensinamentos são importantes e a sua trajetória profissional é de inspiração para todos nós”, saudou.

Ligeiramente tímido, ele agradeceu o reconhecimento e o dedicou ao magistério: “Quando a gente está nessa idade, eu tenho 70 anos, sempre dedicado ao magistério, o magistério foi minha vida, é muito bom ouvir isso. É muito gratificante, para mim, ter o reconhecimento de ex-alunos, daqueles que leram os meus trabalhos. São coisas que a gente pode dizer que valeu a pena. A atividade docente vale a pena pelo reconhecimento de todos aqueles que eu convivi ao longo da minha vida”, acentuou.

Enquanto esperava sua neta que estuda no CAEL, ele aproveitou para mostrar, aos estudantes, seus livros que estavam à venda na banca do evento. Desconhecido da maioria, mas fundamental para a história do curso de Letras das FIC.

Mais fatos e fotos:

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda "Letramento literário como ferramenta de inclusão", na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda “Letramento literário como ferramenta de inclusão”, na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda "Pibid na formação continuada do docente" e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda “Pibid na formação continuada do docente” e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso "Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca", que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso “Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca”, que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

25 de maio: dia de debater sobre África

Evento em homenagem ao dia do continente africano lota auditório da FEUC

Por Pollyana Lopes

Mais uma vez, a FEUC foi palco para um debate sobre a formação da África e suas relações sociais, políticas e econômicas com o resto do mundo, além de celebrar a cultura do continente. No último dia 25 de maio, o IV Encontro Sociocultural, Econômico e Político para a comemoração do Dia da África lotou o Auditório FEUC, trouxe informação e instigou a reflexão.

Há mais de 10 anos a FEUC recebe, em diferentes cursos, alunos guineenses e, a partir da criação da Associação dos Estudantes Guineenses do Estado do Rio de Janeiro (AEG-RJ), tem acolhido atividades promovidas pelo grupo. Uma delas, o Dia da África.

Auditório esteve lotado durante o evento. Público também participou ao final, com perguntas, intervenções e agradecimentos. (Foto: Pollyana Lopes)

Auditório esteve lotado durante o evento. Público também participou ao final, com perguntas, intervenções e agradecimentos. (Foto: Pollyana Lopes)

A professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais, representou a FEUC na mesa do evento, ao lado do presidente da AEG-RJ, Ndoy Luís Ie da Silva, e do palestrante convidado, o doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) Timóteo Saba M’Bunde.

Em sua fala, Célia destacou a importância do evento para a instituição que, desde os anos 1960, forma educadores: “Eu queria, em nome da FEUC, agradecer a oportunidade que a História nos deu de construir com vocês”. Ela também destacou como as culturas negra e indígena são caras à instituição, principalmente na formação dos professores: “Há mais de dez anos, quando outras instituições, inclusive públicas, nem sonhavam em colocar essa temática em sua grade, o que hoje é lei, a gente já colocava, e colocava como disciplina, não apenas como conteúdo”.

Ndoy explicou brevemente como o 25 de maio foi instituído e destacou a importância da data para os países do continente. “O 25 de maio tem profundo significado para nós, povos africanos, porque simboliza sua independência e emancipação política. A criação do Dia da África, em 1963, configurou-se no maior compromisso para acelerar o fim da colonização europeia”, contou ele, que explicitou mais um dos objetivos do encontro: “Eu quero que vocês virem os olhos para África e vejam como é um continente acolhedor, um continente que foi o berço da humanidade”.

Mesa do Encontro Sociocultural, Econômico e Político contou com a participação do doutorando em Ciência Política Timóteo Saba M'Bunde; do presidente da AEG-RJ, Ndoy Iê da Silva; e da coordenadora do curso de Ciências Sociais, Célia Neves. (Foto: Pollyana Lopes)

Mesa do Encontro Sociocultural, Econômico e Político contou com a participação do doutorando em Ciência Política Timóteo Saba M’Bunde; do presidente da AEG-RJ, Ndoy Iê da Silva; e da coordenadora do curso de Ciências Sociais, Célia Neves. (Foto: Pollyana Lopes)

O convidado especial da noite, Timóteo Saba M’Bunde, palestrou sobre “A inserção internacional de África – desafios e oportunidades”. Muito cuidadoso com as expressões que utilizava, explicando o que chamou de termos problemáticos como “independência”, “descobrimento” e “África branca”, ele elencou os principais desafios e oportunidades dos países africanos diante do atual cenário político e econômico mundial.

Na leitura de Timóteo, é possível falar da inserção internacional de África em dois momentos históricos distintos, separados pelos processos de autonomia política dos países que antes eram colônia de grandes potências. De acordo com ele, mesmo antes dos anos 60, período em que aconteceu a maioria dos processos de autonomia política, é preciso compreender África enquanto sujeito desse processo histórico. “África teve um papel muito importante da construção desse modelo capitalista que paradoxalmente tem sido o carrasco do continente africano. Mesmo antes da década de 60 o continente já fazia parte desse sistema capitalista”.

Assim como em sua palestra no Dia da África, ano passado, Timóteo apresentou as relações de cooperação entre países subdesenvolvidos, ou em desenvolvimento, as chamadas relações de cooperação Sul-Sul como uma via possível para uma inserção mais autônoma dos países africanos na economia e na política global. No entanto, ele advertiu que mesmo essas relações têm falhas, e que as mudanças na política externa do Brasil nos últimos tempos interferem de forma crucial, já que o país é o maior colaborador dos países africanos. “Eu penso que as lideranças africanas têm muito o que fazer para mudar esse cenário e tentar buscar outros mecanismos, outras alternativas possíveis para que aconteça uma mudança com relação aos indicadores que temos tido até aqui, pouco satisfatórios”.

O auditório permaneceu cheio durante todo o evento, inclusive com a presença de vários professores e professoras. Uma delas foi a coordenadora do curso de Geografia, Rosilaine Silva, que foi à FEUC exclusivamente para o encontro. Ela ressaltou que o continente africano foi invisibilizado ao longo da história e destacou que, nos últimos anos, algumas políticas tentam afirmar não apenas o continente africano, mas também a ligação desse continente com o Brasil e com a formação cultural do nosso país. “Poder estar em um encontro onde a gente aprende sobre, não só a inserção do continente hoje, mas como esse continente vem dialogando com o Brasil, eu acho que é fundamental para entender a nossa matriz cultural e olhar um pouco para o passado, de como ela nos foi roubada e como ela precisa ser entendida e afirmada para a gente poder construir projetos para o futuro”, declarou.

Negros africanos e negros campo-grandenses

DCE FEUC apresentou o Coletivo Negro Waldir Onofre e convidou os estudantes a participarem. (Foto: Pollyana Lopes)

DCE FEUC apresentou o Coletivo Negro Waldir Onofre e convidou os estudantes a participarem. (Foto: Pollyana Lopes)

Antes do início da palestra, os estudantes do DCE FEUC apresentaram o recém criado Coletivo Negro Waldir Onofre, e convidaram todos e todas a participarem das reuniões do grupo. Os estudantes explicaram brevemente quem foi Waldir Onofre: ator, roteirista, cineasta negro que, durante boa parte da vida, morou em Campo Grande. Eles também ressaltaram a importância de ações que debatam a questão racial na FEUC, que é formadora de professores, e na Zona Oeste, região carente de políticas públicas mais inclusivas. Ingrid Nascimento, diretora de cultura do DCE, lembrou ainda a representação do negro nos livros didáticos:

“O negro, principalmente nos livros didáticos, só aparece nos séculos XVI, XVII e XVIII, e sempre como escravo. Sempre que a gente abre o livro didático está lá a foto do negro sendo açoitado, geralmente na famosa imagem do Debret. E a gente sabe que o negro é um sujeito histórico, ele fez mais para a História. Ninguém abre o livro didático e vê o Waldir Onofre, por exemplo, ninguém abre o livro didático e vê Carolina Maria de Jesus. As nossas crianças precisam disso, principalmente a Zona Oeste”, reforçou.

No corredor do Auditório FEUC, foi possível prestigiar uma exposição de tecidos e roupas típicas de países africanos. (Foto: Pollyana Lopes)

No corredor do Auditório FEUC, foi possível prestigiar uma exposição de tecidos e roupas típicas de países africanos. (Foto: Pollyana Lopes)

Cultura de mãos dadas com o esporte e a alegria

 

Olimpíadas do CAEL trazem conhecimento sobre o Rio de Janeiro e muita diversão

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

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“Eu vou citar quatro palavras: respeito, gentileza, tolerância e solidariedade. Se nós carregarmos conosco o significado dessas quatro palavras, tudo vai ser dez, vai ser mil. Porque o CAEL tem tolerância zero com violência, e esta semana vai ser especial porque você vai respeitar, vai ser gentil, tolerante e solidário”. Regina Sélia Iápeter, diretora do Colégio, resumiu um pouquinho o papel das Olimpíadas do CAEL durante a abertura do evento, em junho passado. Mas quatro palavras não bastam. Esporte. Estudo. Dança. Pesquisa. Cultura. Arte. Integração. A lista do que as Olimpíadas do CAEL promovem todos os anos é imensa, grande como a energia dos alunos em cada edição, comprometidos a dar o melhor de si nos jogos e abusar da criatividade na mostra de trabalhos. Durante uma semana inteira, a escola virou de ponta-cabeça: não se viam estudantes com caderno na mão preocupados com as provas, mas alunos se divertindo, jogando futebol, vôlei, queimada, torcendo. “A importância do evento é a gente trabalhar valores, o autocontrole, aprender a lidar com as diferenças, incentivar a solidariedade. Buscar sempre o seu melhor e se divertir também”, explicou o professor Luis Claudio Bastos, um dos coordenadores das Olimpíadas.

DSC_0411Mas o evento não se encerrou com as vitórias em cada modalidade esportiva. Em vez de acordar tarde no sábado sem aula, a escola toda voltou para a FEUC, com o objetivo de fazer jus à semana inteira especial que Regina Sélia havia previsto. Às 10h do dia 20 de junho, com os grupos de alunos devidamente divididos e prontos para exibir seus belíssimos estandes, a diretora adjunta Jane Innocencio da Silva Teixeira deu a largada do projeto cultural “CAEL passeando pela história dos 450 anos do Rio de Janeiro”, valorizando o empenho das equipes: “Parabéns aos alunos do CAEL, que sabem apresentar os melhores trabalhos do mundo, especialmente em um sábado de manhã, quando poderiam estar dormindo”, encorajou Jane. Os elogios não eram para menos. Isso porque, além de brilharem na parte esportiva das Olimpíadas, agora os estudantes também estão tendo que trabalhar toda a criatividade com a missão de aprender e compartilhar conhecimento e cultura com a escola e visitantes.

O aniversário do Rio de Janeiro foi inspiração para os alunos cumprirem a missão de trazer para a quadra e pátio da FEUC características, destaques e particularidades de 32 bairros da cidade. “Escolhemos falar dos bairros porque foi um ano típico de falar do Rio de Janeiro. A gente fez um sorteio entre as diversas localidades, incluindo não só os bairros turísticos, mas os da Zona Oeste também, e aproveitamos para falar de Campo Grande, da história da FEUC e do CAEL”, conta Jaqueline Cossatis, supervisora do Ensino Médio e idealizadora do projeto. De acordo com Jaqueline, além da troca de conhecimento, um dos principais objetivos do projeto é fortalecer a formação do aluno: “O projeto envolve todas as disciplinas. Pega a parte histórica, a geografia, e faz ele pensar o espaço urbano. O aluno faz pesquisas, conhece a origem da sua cidade e do próprio lugar onde vive”, destaca Jaqueline.

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A estudante Giulia Vianna, do 3° ano do técnico em Meio Ambiente, foi sorteada com seu grupo para abordar o bairro de Jacarepaguá. Além de toda a parte histórica, Giulia montou com as amigas uma pequena banca de doação de livros, onde qualquer pessoa poderia levar um exemplar. “Em Jacarepaguá tem o Maciço da Pedra Branca, a Cidade de Deus, mas também tem a Bienal do Livro. Então a gente decidiu doar livros, porque hoje em dia as pessoas parecem ler menos. A gente trouxe ficção e até livro religioso para quem se interessar. É para estimular a leitura mesmo”, contou Giulia.

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Quem gostou da ideia foi a professora aposentada Cecília Rocha, avó da estudante Ana Gabriele, do 1º ano de Meio Ambiente. Cecília foi à exposição para conferir a mostra de trabalhos dos alunos, acabou levando um livro para a casa e ainda deu algumas dicas para as meninas: “Achei ótima essa ideia. E posso dar uma sugestão? Esse cartaz poderia estar mais no alto, porque está muito escondidinho, então as pessoas podem não saber que vocês estão distribuindo livros”, recomendou ela. Essa troca de ideias faz valer a proposta de mudar para o sábado o projeto cultural, que é dar oportunidade para estudantes, professores, visitantes e familiares também participarem da constante construção do conhecimento.

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Fantasiados ou preparando um prato típico, o fato é que a criatividade rolou solta. No improvisado calçadão de Copacabana, os vendedores de DVDs. Diretamente da Urca, as antigas noites cariocas, com “visita” especial de Carmem Miranda (veja foto ao lado). No estande de Guaratiba, o cheiro de peixe grelhado. De Padre Miguel, o samba. E samba ao vivo com a participação de integrantes da escola mirim Estrelinha da Mocidade! Aliás, os convidados surpresa foram ponto alto do evento, levando muita animação à escola, assim como fez o funkeiro Mc Bob Rum, representando o bairro de Santa Cruz. Já estamos ansiosos pelo próximo ano!

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Mulheres de Pedra

 

Coletivo feminino de artistas e artesãs de Pedra de Guaratiba produz encantamento e beleza com o que o mundo joga fora

PorTania Neves
emfoco@feuc.br

A velha casa da Rua Saião Lobato respira arte e cultura. Há mais de 30 anos é ponto de encontro de artistas locais da Pedra de Guaratiba e de “forasteiros” – gente que, cada vez mais, vem de longe para participar do Sarau Poético, uma das várias atividades que marcam a atuação do coletivo Mulheres de Pedra. Formado há cerca de 15 anos, na esteira da efervescência cultural do endereço onde inicialmente morava a pedagoga Leila de Souza Netto e o artista plástico Sérgio Vidal da Rocha, hoje o coletivo conta com 12 a 15 integrantes mais assíduas e pelo menos duas dezenas de mulheres que vão e voltam. A família acabou se mudando para outro lugar, e o coletivo fincou bandeira na simpática casinha de pescador, onde nos dias de reunião e trabalho as artistas e artesãs se espalham em mesas e cadeiras pelos diversos cômodos e até mesmo no terreiro, sob a sombra do arvoredo.

Junto ao painel “Água”, Leila posa com a filha Lívia e Juliana, a mais nova do grupo. (Foto: Tania Neves)

Junto ao painel “Água”, Leila posa com a filha Lívia e Juliana, a mais nova do grupo. (Foto: Tania Neves)

Leila de Souza Netto conta que o trabalho colaborativo começou com uma visita ao ateliê de Dora Romana, onde a artista plástica convidou as mulheres a expressarem sua arte em quadrados de pano, que depois seriam unidos e transformados numa grande colcha. Assim surgiram as colchas de retalhos – ou painéis temáticos, pois se pautam sempre por um assunto – que são a marca registrada das Mulheres de Pedra. “Foi uma descoberta para além do fazer arte, o que muitas de nós já fazia. Foi sobre o que fazer com a arte, porque não é só o trabalho artístico, tem principalmente o sentido da colaboração, de saber trabalhar com os outros, de se despir dos egos”, define.

Formada em Pedagogia pela FEUC em 1997, Leila trabalhou por mais de uma década administrando um curso particular para jovens e adultos em Campo Grande. Hoje, aos 60 anos, define-se como educadora popular. Além de artista e ativista social, claro. E tempera todas essas atividades – educação, arte, ativismo – com solidariedade e sustentabilidade: “A gente defende a economia solidária, o comércio justo. E faz esse trabalho não só porque precisa vender, ter renda, mas para mostrar que é possível reaproveitar coisas, reciclar, deixar menos pegadas no meio ambiente”.

Quando pedi para ver alguma coisa produzida por ela, Leila apareceu com aventais feitos de tecido reaproveitado de sombrinhas, aquelas que entortam em dias de chuva de vento e os donos jogam fora nas ruas. De tão lindos, não resisti e comprei um, rosinha florido, que ainda não tive coragem de sujar na cozinha… “Tirar do ambiente algo que estava lá poluindo e dar um uso, esse é o compromisso”, diz a artista. No coletivo há diversas mulheres que trabalham com peças recicladas e também com material novo, como é o caso de Andréa, conhecida pelas roupas e bijuterias de temática afro, em que mistura o velho e o novo. Juliana, a mais nova integrante, está se iniciando no artesanato com a produção de delicados ímãs de geladeira: bonequinhos feitos com lacre de latinhas de alumínio e massa de biscuit.

As colchas, ou painéis temáticos, reúnem a criação de várias mulheres sobre um tema. (Foto: Facebook/Mulheres de Pedra)

As colchas, ou painéis temáticos, reúnem a criação de várias mulheres sobre um tema. (Foto: Facebook/Mulheres de Pedra)

Fazer intercâmbios com outros coletivos do Brasil e do mundo tem sido importante para as Mulheres de Pedra, que com isso ganharam visibilidade nacional e internacional. Por exemplo, já mostraram seu trabalho no Fórum Social Mundial (em Belém, 2009) e por quatro vezes participaram da Semana da Solidariedade Internacional (em Paris), entre outras parcerias. Quem dá detalhes é Lívia, uma das filhas de Leila: “Já fizemos intercâmbios com coletivos do Rio Grande do Sul, Bahia e outros estados. E agora estamos conversando com o Mijiba, de mulheres negras da periferia de São Paulo, para trazê-lo aqui”.

E como fazer experimentações em novas áreas é com elas mesmas, as Mulheres de Pedra se inscreveram este ano no Festival 72 Horas Rio, em que os concorrentes recebem uma frase em torno da qual devem produzir um filme de 6 minutos em apenas 72 horas – contando desde a concepção, filmagem, edição, sonorização… tudo! Pois elas juntaram suas forças e talentos, atraíram outras parceiras mulheres e deram conta do recado tão bem que faturaram os prêmios de melhor filme, melhor som e melhor ficção com o belíssimo “Elekô”, que pode ser assistido no YouTube. A frase condutora do enredo? “Tudo faz sentido agora”.

O que não faz mais sentido é apenas continuar contando tantas coisas sobre essas guerreiras: está na hora de você ir lá conhecer pessoalmente. O Sarau Poético acontece no segundo sábado de cada mês, de 18h às 23h, sempre com apresentação de algum convidado especial, embora participações improvisadas de visitantes sejam bem recebidas. No último final de semana de setembro terá a Festa da Primavera, com a Rua Saião Lobato fechada para a montagem de mais de 40 barracas onde não somente as mulheres do coletivo, mas também outros artistas da região, vão expor e vender suas peças. Paralelamente será realizada a 1ª Mostra de Arte de Rua, com apresentação de artistas da Zona Oeste. E diversos outros eventos costumam ser marcados ao longo do ano, como o Vidas (Vivências, Interações e Visibilidades de Afro-Brasileiras), exposições, rodas de jongo e outros mais, sempre anunciados na página www.facebook.com/MulheresDePedra. Esse é pra curtir!

Capoeira como ferramenta pedagógica e transformadora

 

Ao som do berimbau e regada com histórias da cultura afro-brasileira, mestre Anisio aposta na capoeira para exercitar e integrar seus alunos

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Mestre Anisio: “Eles sabem o básico e ninguém se machuca”. (Foto: Gian Cornachini)

Mestre Anisio: “Eles sabem o básico e ninguém se machuca”. (Foto: Gian Cornachini)

Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2014, a roda de capoeira também integra as atividades semanais do maior patrimônio da Educação Infantil do CAEL: as crianças que, num gingado aqui e num movimento ali, respondem disciplinarmente às instruções do mestre Anisio do Nascimento Neto — chamado carinhosamente entre os pequeninos de “Tio Capoeira”.

“A capoeira, no tempo da escravidão, era considerada uma luta. Mas, para ela se manter viva durante todos esses anos, ela foi se tornando uma dança, que já não é lutada, mas jogada”, explica o mestre Anisio, que já dedicou 40 de seus 54 anos de idade à capoeira. Formado em Pedagogia e, atualmente, pós-graduando em Educação Especial nas FIC, mestre Anisio vem cada vez mais se apropriando de seu hobby e tornando-o um trabalho cultural, pedagógico e transformador para as crianças: “A gente desenvolve aqui no CAEL uma capoeira pedagógica, uma ferramenta para socializar e integrar os alunos, e para contar uma história que não foi contada”, diz ele. “Nosso objetivo aqui é fazer exercícios, despertar a lateralidade, a coordenação motora, a flexibilidade. E, também, que as crianças vejam o berimbau e associem à cultura afro-brasileira, floresçam o conhecimento da nossa música e conheçam a história de nossos antepassados”, completa o mestre, revelando a finalidade educadora das rodas de capoeira no Colégio: “Queremos que eles sejam adultos diferentes, sem preconceito, mais solidários e conhecedores de sua própria cultura”.

Quem ainda não viu uma aula de capoeira no CAEL ficará encantado ao notar a disciplina dos pequenos alunos e o respeito que eles têm aos comandos do mestre Anisio. Parados cada um em um ponto pré-determinado do pátio, basta o professor ditar os golpes que todos os colocam em prática simultaneamente. “Eles sabem o básico da capoeira: a ginga, cocorinha, negativa, queda de quatro e roleta. E ninguém se machuca, porque a finalidade não é acertar o adversário, mas de se alongar e ter disciplina”, lembra o mestre, que em seguida forma duplas para jogarem a capoeira ao som de um berimbau tocado ao vivo por Anisio, enquanto cada um espera ansiosamente a sua vez.

Em pauta, as ousadias necessárias à educação

 

Encontro acadêmico interdisciplinar do dia 1º de novembro foi rico em reflexões e trabalhos apresentados por alunos, professores e convidados

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

O tema “Educação e ousadia: teoria e prática em projetos emancipatórios”, do XVII Fórum de Educação, Ciência e Cultura, teve o mérito não apenas de proporcionar palestras e apresentações de altíssimo nível, mas também o de reunir um público atento e interessado em discutir as delicadas questões que cercam o fazer pedagógico – e que são, naturalmente, instigantes e envolventes.

Na palestra de abertura, a doutora em Educação Daniela Patti – que foi coordenadora de Pedagogia das FIC entre 2005 e 2008 e hoje é vice-diretora da Faculdade de Educação da UFRJ – elencou uma série de ousadias indispensáveis nesse campo, entre elas a de defender uma educação democrática, pública, laica, inclusiva e ética. Alunos e alunas participaram ativamente do bate-papo, levando dúvidas e exemplos de seu dia a dia como professores ou estagiários, de modo geral sintonizados com a mensagem positiva da palestrante: “Quem escolhe ser professor vai ser afetado pela realidade do aluno e vai também afetar. O cenário é difícil, mas é importante deixar claro ao aluno que ‘eu me importo’, embora essa relação afetiva não implique em deixar de ter critério e um certo distanciamento crítico”, ensina.

Dividindo a mesa com ela, Leandro Tartaglia, mestre em Geografia pela UFF, abordou um exemplo concreto de ousadia em educação: as oficinas de grafite que desenvolve com alunos do Colégio Pedro II, onde leciona. É a partir desse mapeamento da arte urbana presente nas paredes e muros da cidade que o professor captura a atenção de seus alunos para discussões mais profundas sobre território, uso cultural e político do espaço urbano e outros temas da disciplina: “A escola tem esse papel, de estimular a discussão sobre cidadania”.

A tarde foi reservada para apresentações de vivências e trocas de experiências. Na Sala de Vídeo da Biblioteca, alunos e alunas falaram de suas pesquisas de Iniciação Científica em andamento e os projetos que começam a desenvolver no PIBIB. E no Auditório aconteceram as “Práticas pedagógicas para uma nova formação docente”, com relatos de resultados de projetos realizados tanto por estudantes e professores da casa quanto por convidados (cobertura completa no link http://migre.me/nb7Ip).

 

Revista Khora - FEUCESPAÇO RESERVADO PARA A PRODUÇÃO CIENTÍFICA

Texto Box:  Após breve reformulação em seu projeto inicial, a Khóra: Revista Transdisciplinar já está novamente no ar, e foi apresentada ao público pelo professor Flávio Pimentel. A publicação científica eletrônica dos cursos de Ciências Sociais, Geografia, História e Pedagogia tem periodicidade semestral e pode ser acessada em http://www.site.feuc.br/khora/index.php/vol. Está aberta a submissões de artigos inéditos; sinopses e resenhas; capítulos de teses, dissertações e monografias; entrevistas, relatos e projetos, entre outros textos científicos. O número de estreia contém dois dossiês temáticos: “Perspectivas da educação pública do RJ: construindo caminhos para além da educação como mercadoria” e “Transformações sócio-territoriais em Campo Grande”.

 

Mergulhado em estudos sobre território e manifestações culturais no campo da música, o ex-aluno de Geografia Demetrius Silva Gomes apresentou no Fórum o seu trabalho “O pagode da década de 90, um estudo sobre a imagem do negro na mídia”, feito este ano para a Semana da Cultura do Cefet, onde ele cursa o mestrado em Relações Étnico-Raciais. O tema da dissertação de Demetrius, porém, é outro: “Diálogos entre Milton Santos e Os Racionais”, em que traça um paralelo entre a produção artística do grupo musical e os ensinamentos do geógrafo sobre o diálogo entre o local e o global, mostrando que o lugar sempre reproduz o que acontece no mundo: “Apresentei os dois temas para a Semana Cultural, o da minha pesquisa de mestrado e o outro sobre o pagode, mas preferiram que eu desenvolvesse o do pagode”, conta Demetrius.

Formado em Geografia pelas FIC, Demetrius leciona em dois colégios do Estado e cursa o mestrado no Cefet-RJ. (Foto: Gian Cornachini)

Formado em Geografia pelas FIC, Demetrius leciona em dois colégios do Estado e cursa o mestrado no Cefet-RJ. (Foto: Gian Cornachini)

O interesse, ele percebeu, teve a ver com o ineditismo da proposta: ao iniciar a pesquisa, constatou não haver trabalhos acadêmicos relacionando a presença do negro na mídia com os ritmos musicais que entram e saem de moda, como foi o pagode nos anos 90. “Houve uma avalanche midiática explorando a imagem dos negros: por exemplo, quatro periódicos se dedicavam exclusivamente ao pagode e todo programa de TV com atrações artísticas sempre tinha um grupo de pagode e muitos convidados negros. Foi o pagode perder protagonismo e os negros sumiram da TV de uma hora para a outra”, diz Demetrius, que pensa em adotar o tema num futuro doutorado.

Já a pesquisa de mestrado, relacionando Milton Santos e Os Racionais, Demetrius conta que surgiu de sua monografia de fim de curso nas FIC, orientada pela professora Regina Celi Pereira. “Saí daqui com um projeto redondinho e passei em primeiro lugar para o mestrado no Cefet”, lembra o ex-aluno, não economizando elogios à orientadora e aos demais professores de seu curso: “A Regina foi fantástica, e toda a formação que recebi aqui em nada fica a dever às grandes universidades. Sei disso porque convivo com os egressos delas no mestrado e em outros ambientes”.

FEUC inspirou o tema do pós-doc

Daniela Patti conta que matutava um tema para desenvolver em seu pós-doutorado, em 2010, quando “caiu a ficha” de algo que esteve o tempo todo na sua frente, no período em que atuou na FEUC: a criação do Programa Universidade para Todos (ProUni). “Como esta política pública teria impactado na vida dos primeiros bolsistas após o término de seus cursos?” – ela se perguntou. E saiu em busca de respostas.

Foi assim que a professora definiu sua pesquisa de pós-doc na Fundação Getúlio Vargas, na linha de Políticas para o Ensino Superior – “O ProUni e o acesso ao Ensino Superior: estudo introdutório sobre os usuários do programa na Zona Oeste do município Rio de Janeiro” – com  o objetivo de avaliar os impactos daquela política pública voltada para a inclusão no ensino superior privado de alunos que, sem ela, não teriam a chance de cursar a faculdade.

Daniela na Faculdade de Educação: ProUni melhorou a vida dos destinatários da política. (Foto: Tania Neves)

Daniela na Faculdade de Educação: ProUni melhorou a vida dos destinatários da política. (Foto: Tania Neves)

Daniela escolheu duas IES de Campo Grande para seu estudo, uma delas a FEUC, e buscou ouvir bolsistas que ingressaram em 2005 e 2006 (os dois primeiros anos do ProUni) e se formaram entre 2008 e 2009. A maioria absoluta dos entrevistados relatou mudanças positivas: “Entre outras coisas, passaram a ter um trabalho melhor e mais bem remunerado, serviram de estímulo para parentes e amigos também fazerem faculdade e ampliaram seus horizontes sociais”, afirma a professora, reforçando sua convicção de que o ProUni é uma política vitoriosa. E ela contesta os que tacham o programa de neoliberal, por destinar dinheiro público para a educação privada: “Esse dinheiro não é retirado da universidade pública. E, mesmo que fosse usado para reforçá-la, provavelmente não atenderia a esse aluno que o ProUni atende, o aluno trabalhador, da periferia, que quase sempre só consegue estudar à noite e perto de casa”.

O resultado da pesquisa de Daniela será lançado ano que vem no livro “Democratização e acesso à educação superior: o ProUni em curso”, que reúne diversos trabalhos realizados sobre esta política pública de educação em várias partes do Brasil.

Dois lançamentos editoriais

Explorar o estudo da Geografia a partir das manifestações culturais enraizadas nos territórios é a proposta das pesquisas desenvolvidas por esses dois jovens mestres que vieram à FEUC debater seus trabalhos com nossos licenciandos. Leonardo de Castro Ferreira e Leandro Tartaglia são o mais perfeito exemplo do “professor que se importa”, delineado por Daniela Patti em sua palestra: aquele que ouve o aluno, penetra em seu universo e extrai daquela realidade subsídios para problematizar as questões de sua disciplina, fazendo da prática de ensino uma oportunidade de produzir conhecimento em conjunto com os alunos. Ambos transformaram suas dissertações de mestrado em livros – que vale a pena conhecer.

ORGANIZAÇÃO DOS TERRITÓRIOS PELA MÚSICA

Livro Territorios do Funk CariocaTERRITÓRIOS DO FUNK CARIOCA: DO CIRCUITO MARGINALIZADO AO ESPETACULARIZADO, de Leonardo de Castro Ferreira. Editora Multifoco/Mil Palavras. R$ 45. A publicação pode ser adquirida em www.editoramultifoco.com.br.

Conduzindo-se pela ordem espacial, o autor levanta uma discussão sobre a dinâmica de produção/apropriação dos territórios do funk carioca. Trata-se de uma obra de referência para a renovação do pensamento a respeito da geografia, que parte do marco teórico da chamada geografia marginal e outras geografias, com o propósito de trabalhar a música como expressão sociocultural e que também interfere na organização dos territórios.

O USO POLÍTICO-CULTURAL DOS ESPAÇOS

capa - geograffitis - 011014GEOGRAFFITIS: UMA LEITURA GEOGRÁFICA DOS GRAFFITIS CARIOCAS, de Leandro Tartaglia. Editora Multifoco/Luminária Academia. R$ 40. A publicação pode ser adquirida em www.editoramultifoco.com.br.

Partindo de sua trajetória de grafiteiro e o desejo de aliar a geografia com as manifestações artísticas, o autor desenvolve uma envolvente reflexão sobre a origem do grafite e o modo como ele se inscreve no dia a dia da cidade e das pessoas. Leandro apresenta o grafite como uma das mais relevantes manifestações culturais urbanas dos últimos 20 ou 30 anos, destacando a espontaneidade de sua linguagem e sua função no uso político-cultural dos espaços.

Explosão de talentos em uma semana

 

Não há mais desculpas para esconder os dons em casa: Explosarte é o seu palco anual para soltar a voz, o corpo e a criatividade artística

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Para comemorar o Dia Nacional das Artes — que acontece anualmente em 12 de agosto — a coordenadoria de teatro da FEUC promoveu não apenas um dia, mas uma semana inteira repleta de atividades voltadas para quem ama música, dança, teatro e diversas manifestações artísticas. O evento, que aconteceu entre 11 e 16 de agosto, ganhou um nome bem significativo: Explosarte — Explosão de Artes — e já está incorporado ao calendário anual de atividades fixas da FEUC.

Na primeira edição do Explosarte, Isadora da Rocha, Roberto Silva e Vanessa de Oliveira levam o 1º, 2º e 3º lugar no Concurso de Música. (Foto: Gian Cornachini)

Na primeira edição do Explosarte, Isadora da Rocha, Roberto Silva e Vanessa de Oliveira levam o 1º, 2º e 3º lugar no Concurso de Música. (Foto: Gian Cornachini)

“O objetivo do Explosarte é revelar talentos no canto, na dança, em desenhos e nas artes livres de nossa comunidade”, conta Adriano Marcelo, estudante do curso de Letras das FIC e o responsável pela coordenadoria de teatro.

Talento, obviamente, não faltou durante a semana inteira de apresentações. A principal modalidade foi o Concurso de Música, que teve as primeiras audições ainda em maio e junho. Das 17 pessoas que chegaram à reta final do concurso, apenas três ganharam os troféus de 1º, 2º e 3º lugar. Foram eles, respectivamente, Isadora da Rocha (6º período de Letras), que se destacou na final com a música “At Last”, gravada por Beyoncé; Roberto Silva (2º ano do técnico em Administração), com a canção “Espírito Santo”, do Ministério Sarando a Terra Ferida; e Vanessa de Oliveira (3º ano do técnico em Química), que interpretou a música “Listen”, da Beyoncé. “Foi uma vitória para mim, porque eu nunca participei de nenhum concurso, por medo. Entrei apenas para perder esse medo de ser avaliada e saí ganhando”, comemora Isadora. O 1º e o 2º lugares ganharam, além dos troféus, uma premiação em dinheiro de R$ 100 e R$ 50.

Já no Concurso de Dança, quem saiu vitorioso foi um grupo da Escola de Dança Compasso, de Campo Grande, com a coreografia “As Panteras”. Isaque D’Erick, de 23 anos, foi o dançarino do grupo que mais chamou a atenção por executar passos complexos em cima do salto alto: “Foi muito divertido participar do concurso e uma surpresa ganhar o primeiro lugar. Estaremos aqui de novo no ano que vem”, afirma ele.

Escola de Dança Compasso vence competição de coreografias. (Foto: Gian Cornachini)

Escola de Dança Compasso vence competição de coreografias. (Foto: Gian Cornachini)

Para assistir a vídeos das apresentações da primeira edição do Explosarte, entre no novo canal da revista FEUC em Foco no YouTube: www.youtube.com/user/revistafeuc.

 

Explosarte 2014 promove concurso de música, dança e coreografia [VÍDEO]

 

Explosarte 2014 abre espaço para apresentações diversas [VÍDEO]

 

Finalistas do Concurso de Música do Explosarte 2014 se apresentam [VÍDEO]

 Grupo ‘Sabendo ou não, fazemos arte’, composto por estudantes do CAEL, fica em segundo lugar com a coreografia ‘Talk’. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo ‘Sabendo ou não, fazemos arte’, composto por estudantes do CAEL, fica em segundo lugar com a coreografia ‘Talk’. (Foto: Gian Cornachini)

Mariana Teixeira (2° ano Edificações) apresenta monólogo. (Foto: Gian Cornachini)

O mundo no Colégio

 

Projeto Cultural das Olimpíadas CAEL 2014 agita a escola com apresentações de estudantes sobre diversos países

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

As tradicionais Olimpíadas CAEL, que aconteceram entre os dias 9 e 16 de junho, foram realizadas de uma forma diferente este ano. Em vez de a semana de atividades esportivas do Colégio segmentar toda a escola por cores, uma nova classificação foi aplicada. Em ritmo de Copa do Mundo, os estudantes se dividiram para formar times representando parte dos países participantes do mundial de futebol no Brasil. A ideia é fruto do “Projeto Cultural Atravessando Gerações — CAEL na Copa do Mundo 2014”, proposto por Jaqueline Cossatis, supervisora do Ensino Médio.

Fotos: Gian Cornachini

Foto: Gian Cornachini

“Como é um ano da Copa no Brasil, a gente pensou em envolver todos os alunos e professores para descobrir a história, esporte e cultura de cada país”, explica Jaqueline. “E esse projeto integrou muito bem o esporte com a pesquisa e o conhecimento”, avaliou a supervisora.

Tabela vencedores Olimpiadas CAEL 2014Além da programação esportiva — que contou com 12 modalidades, entre elas futsal, handebol, basquete, vôlei e xadrez — as Olimpíadas tiveram um dia dedicado para a culminância da parte cultural do projeto. O pátio e a quadra da FEUC ficaram tomados por tendas, formando uma grande exposição sobre 16 países sorteados entre os 32 participantes da Copa do Mundo de 2014. Cada tenda tinha algo especial para mostrar: o chocolate suíço, a família real inglesa, os origamis japoneses, as pizzas italianas, as danças nigerianas, o banquete grego.

Os estudantes do técnico em Publicidade, por exemplo, ficaram responsáveis por representar a Nigéria. Eles se dividiram em três eixos para apresentar o país: esporte, cultura e política. “A Nigéria é um país que, por mais que esteja em guerra e tenha pobreza, também é unido. E a gente uniu todos os alunos de publicidade, de todos os anos, para mostrar a riqueza desse país”, contou o estudante do 3º ano Luis Henrique Martins Ribeiro, de 17 anos. A equipe, com mais de 100 alunos, deu um show, literalmente, com três músicas típicas tocadas e cantadas por alunos do curso, e ainda fez uma apresentação de dança africana.

Um dos pontos altos do evento foi a série de performances realizadas pelos estudantes de Química, que representaram a Grécia. A equipe — que levou a melhor na competição esportiva, garantindo seis medalhas de ouro entre os 12 jogos programados — encantou o Colégio com uma divertida encenação de um típico casamento grego, que teve direito a alianças, bênção do deus do tempo, Cronos, e a tradicional quebra de pratos, antigo costume para afastar “energias negativas”. Claudia Ninck, mãe da aluna Aymée Ninck, de 17 anos, do 3º ano de Química, adorou ver a filha “se casar” com o namorado Matheus Calixto, de 18 anos, também do 3º ano, ao som de “beija, beija!”: “É o último ano da minha filha no Colégio e foi muito divertido. É uma brincadeira saudável e vai ficar como lembrança desses três anos aqui, até porque eu filmei tudo!”, disse a mãe. Aymée, com as bochechas vermelhas após Matheus beijá-la na frente de todos do Colégio, contou como foi se casar tão nova com o deus grego Zeus: “Eu fiquei com muita vergonha, porque sou tímida. Mas valeu a pena”, revelou a jovem, sorrindo.

Regina Sélia Iápeter, diretora do CAEL, avaliou a nova proposta para as Olimpíadas do Colégio e avisou que, diante do sucesso, esse projeto irá continuar: “Eu percebi que os alunos se envolveram mais com a escola, se socializaram mais, aprenderam muito. E ainda teve espaço para rolar até um flertezinho, que é um momento tão legal, né?”, observou a diretora. “Esse projeto foi uma novidade para nós, e vamos melhorar mais para o próximo ano. Estou orgulhosíssima de ver tanto talento na dança, na música e no teatro. E ainda mais pelo envolvimento da família dos alunos na escola”, ressaltou Regina.

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O álbum de fotos completo das Olimpíadas CAEL 2014 está disponível na página da FEUC no Facebook. Clique aqui para acessá-lo.

O passado emoldurado nas paredes

 

Reproduções de fotos e postais antigos decoram bar temático em Vila Santa Rita

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Ernesto se orgulha das imagens que preservam a história do bairro. (Foto: Gian Cornachini)

Ernesto se orgulha das imagens que preservam a história do bairro. (Foto: Gian Cornachini)

Conhecido por seus deliciosos petiscos, um honesto chopp artesanal, vinhos da Serra Gaúcha e a simpatia e bom papo do proprietário, o Chopp da Villa – para os íntimos, Bar do Ernesto – exibe em suas paredes ícones da história de Campo Grande. Negócio de família que remonta à década de 1960, no começo da urbanização da Vila Santa Rita, o bar e armazém se tornou um boteco temático há 11 anos, quando Ernesto Domingos Pires tomou conta do balcão, substituindo a irmã, que por sua vez assumira o lugar do pai quando este se aposentou. “Ela não suportou o ritmo de bar. Eu também não aguentaria aquele troço de um bebum o dia todo adornando o cotovelo no balcão, então decidi fazer um bar temático, para canalizar uma clientela diferente”, conta Ernesto. O chopp artesanal e as fotos antigas do bairro foram os principais elementos dessa mudança.

“Comecei com 8 fotos históricas de Campo Grande, doadas por um amigo. Isso bastou para que outros fossem trazendo mais fotos e a fama do bar se espalhasse. Até da Ilha Grande veio gente me trazer contribuições”, lembra.

A estação de trens de Campo Grande, no começo do século XX.(Foto: Arquivo/Chopp da Villa)

A estação de trens de Campo Grande, no começo do século XX.
(Foto: Arquivo/Chopp da Villa)

Têm seu lugar cativo na parede imagens da última viagem de bonde da linha Campo Grande-Monteiro (1967), com moradores à frente da composição; da inauguração do Viaduto Alim Pedro (1957), movimentada pela presença da então Rainha da Lavoura, Maria das Dores; do bonde parado diante da Padaria Adelaide (onde hoje é o Luzes Shopping), ponto de encontro dos comerciantes abastados nos anos 60. “Essa padaria era a nossa Confeitaria Colombo”, destaca Ernesto, que se orgulha ainda de exibir fotos dos bondes descendo a Rua Coronel Agostinho (hoje o calçadão), toda arborizada de oitis: “Eram os oitis ali e os pés de jenipapo na Augusto de Vasconcelos. E eu me lembro de ter visto tudo isso quando garoto”, diz o comerciante, hoje com 60 anos.

O mais famoso dos andarilhos, Melhoral pedia moedas de baixo valor. (Foto: Arquivo/Chopp da Villa)

O mais famoso dos andarilhos, Melhoral pedia moedas de baixo valor. (Foto: Arquivo/Chopp da Villa)

Personagens famosos da história de Campo Grande também estão lá: o vereador e depois deputado Miécimo da Silva (anos 60), o prefeito Marcos Tamoyo e o vereador Moacyr Bastos (anos 70) apresentando a maquete da futura rodoviária do bairro, a família Del Cima diante do Clube dos Aliados após um baile de carnaval em 1951, e Melhoral – o mais famoso dos andarilhos que o bairro conheceu. “Ele era um pedinte, não um morador de rua”, esclarece Ernesto: “Tinha sua casinha em Jardim Maravilha e passava os dias vagando e pedindo moedas. Se lhe davam uma cédula mais alta, não aceitava: só queria moedas de pequeno valor. E era galante com as moças bonitas, sempre tascando um ‘quer casar comigo?’, habitualmente respondido com um sorriso, pois ele era querido”.

Por tudo isso, o Chopp da Villa atrai exatamente a clientela e os visitantes que fazem Ernesto sorrir: estudantes em busca de elementos sobre a história do bairro (“Já teve mais, com a internet eles hoje procuram menos”); estudiosos como o jornalista André Luis Mansur, autor do livro “O Velho Oeste Carioca”, uma pesquisa documental e de histórias orais de moradores da região de Deodoro a Sepetiba; e gente que aprecia o bom papo de Ernesto, os quitutes de dona Maria (casada com ele) e Marlene (a cunhada), e o atendimento do garçom Roberto Ricardo. “Deu certo porque me faz feliz também”, conclui Ernesto.

 

> Chopp da Villa: Estrada do Pré 91, Vila Santa Rita.
De 3ª a Sab, das 18h às 24h; domingos, de 11h às 16h.