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Ciências Sociais e Geografia debatem descolonização do saber

Evento promovido pelos dois cursos de licenciatura das FIC discute a dominação do conhecimento por países historicamente imperialistas e consequências político-sociais desse processo

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Um novo encontro de dois cursos das FIC, que já andam de mãos dadas há muito tempo, aconteceu esta semana, entre os dias 7 e 9, no Auditório FEUC. Geografia, com a XVII Semana Acadêmica, e Ciências Sociais, com seu XVIII Encontro, promoveram, juntos, três noites de debates sobre a “Descolonização do Saber: relações Sul-Sul”. O objetivo do evento foi discutir as relações de espaço, poder e saber, de modo a repensar as possibilidades além da organização proposta pelo “norte”, ou seja, os países ditos desenvolvidos e que exerceram práticas imperialistas e colonialistas nos países do “sul”, denominados subdesenvolvidos. Além de palestras, o encontro abriu ainda espaço para apresentações de trabalhos acadêmicos dos estudantes, destinando a noite de encerramento do evento para o protagonismo do saber discente.

Entendendo o que é descolonização do saber

A especialista em Geografia e professora do Colégio Pedro II Lucia Naegeli abriu as atividades explicando, primeiramente, o que é a temática central do evento: a descolonização do saber. Mas, para entender isso, é necessário compreender o que é colonização do saber. E Lucia tratou logo de esclarecer: “Colonização do saber, do conhecimento, é o saber imposto”, iniciou a professora. Segundo ela, os europeus eram os povos que acreditavam ter o conhecimento científico, e os povos colonizados dependiam desses países — que estabeleceram relações econômicas e de subordinação social e cultural, caracterizando-se um processo chamado, segundo Lucia, de “colonialidade”.

Lucia Naegeli, professora do Colégio Pedro II, sobre a descolonização do saber: "É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade". (Foto: Gian Cornachini)

Lucia Naegeli, professora do Colégio Pedro II, sobre a descolonização do saber: “É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade”. (Foto: Gian Cornachini)

Portanto, “descolonização do saber” significa, para a professora, resistir a esse movimento eurocêntrico que ainda se perpetua no campo do conhecimento: “É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade. É respeitar o modo de vida do diferente, reconhecer saberes de povos além da Europa e dos EUA como parte de sua história e identidade, e não encará-los como excêntricos”, afirmou Lucia.

Também professor do Colégio Pedro II e doutor em História, Wolney Malafaia prosseguiu a fala de Lucia abordando o cenário global pós Segunda Guerra Mundial e suas implicações no surgimento do Movimento dos Países Não Alinhados — uma organização que chegou a reunir mais de 100 países com a finalidade de fortalecer suas relações internacionais e se distanciar de confrontos entre as nações consideradas grandes potências, como os EUA, países da Europa, Rússia, Japão, Austrália, Nova Zelândia, entre outros. O resultado foi a formação de um eixo Sul-Sul, ou seja, de fortalecimento de relações exclusivas entre a maior parte dos países do hemisfério Sul: “Isso pode ser entendido como um processo de descolonização, uma reação ao domínio do Norte gerada no período pós-guerra”, disse Wolney.

O professor Wolney Malafaia, do Colégio Pedro II, explicou a formação do Movimento dos Países Não Alinhados como uma reação ao domínio dos países do Norte. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Wolney Malafaia, do Colégio Pedro II, explicou a formação do Movimento dos Países Não Alinhados como uma reação ao domínio dos países do Norte. (Foto: Gian Cornachini)

Para o professor da Uerj Jorge Braga, que é doutor em Geografia e especialista em Relações Internacionais — e que iniciou o debate no segundo dia do evento —, é urgente a necessidade da reflexão acerca de como os povos do Sul foram, ao longo da história, massacrados por uma ideologia que vem do Norte: “A colonialidade é um resíduo irredutível de nossa formação social e está arraigada nas mais variadas instituições políticas e acadêmicas. Ela não apenas submete outros povos à violência militar, mas também transforma radicalmente suas formas de conhecer o mundo e a si mesmos, levando o colonizado a adotar o universo cognitivo imposto pelo colonizador”, destacou. “Esse modelo eurocêntrico de mundo continua permanecendo. É importante descolonizarmos o saber e o poder a partir da sala de aula, questionar o que já vem especificado, promovendo um exercício de descolonização perpétuo na sociedade”, propôs ele.

Segundo o professor, outra maneira de ir contra a colonização do saber é adotar práticas em sala de aula que valorizem a história e formação dos povos do Sul, como, por exemplo, compreender estudos que abordem a América Latina: “A partir do momento que a gente desloca o locus da enunciação, saindo do eurocêntrico e trazendo para onde estamos, novas vozes emergem. A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela, a sua diversidade, importância, experiências e contribuições para esse processo”, relatou.

Jorge Braga, professor da Uerj: "A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela". (Foto: Gian Cornachini)

Jorge Braga, professor da Uerj: “A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela”. (Foto: Gian Cornachini)

Seguindo a mesma lógica, Amauri Mendes Pereira, doutor em Ciências Sociais e professor da UFRRJ — e que dividiu a mesa de debate com Jorge —, destacou a necessidade de também valorizar a cultura africana, uma vez que nosso continente pode ser chamado, segundo ele, de América Afro-Latina devido a sua composição demográfica formada, em grande parte, por afrodescendentes.

“A constituição brasileira criou a obrigatoriedade do ensino de história cultural afro-brasileira, africana e indígena. Isso já é um passo, mas surgiu de reivindicações. E currículo escolar não se faz pela lei. Tem que emanar de movimentos sociais, do saber descolonial que emerge do povo a partir de lutas significativas de novos agentes sociais e políticos engajados nessas transformações”, ressaltou Amauri.

Professor Amauri Mendes Pereira, da UFRRJ, aposta no ensino sobre a cultura e história africana e afro-latina-americana como um dos eixos da descolonização do saber. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Amauri Mendes Pereira, da UFRRJ, aposta no ensino sobre a cultura e história africana e afro-latina-americana como um dos eixos da descolonização do saber. (Foto: Gian Cornachini)

Descolonização do saber e “Escola sem Partido”

Ao tocar no assunto currículo escolar, é impossível deixar de fora a discussão a respeito do projeto “Escola sem Partido”, que prevê notificação extrajudicial para professores que falem sobre política, comentem notícias do dia a dia e discutam questões de gênero e identidade sexual em sala de aula. Os defensores desse movimento se dizem “preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras”, e afirmam que os educadores são “um exército organizado de militantes travestidos de professores” que se utilizam da “liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo” (saiba sobre o projeto em: http://www.escolasempartido.org/quem-somos).

Lucia Naegeli e Wolney Malafaia compartilham da mesma opinião sobre o "Escola sem Partido": "É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira". (Foto: Gian Cornachini)

Lucia Naegeli e Wolney Malafaia compartilham da mesma opinião sobre o “Escola sem Partido”: “É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira”. (Foto: Gian Cornachini)

Palestrantes e alunos presentes no evento se sentiram incomodados em pensar na possibilidade de serem considerados criminosos ao exercer, por exemplo, práticas da descolonização do saber. O professor Jorge lembrou que nosso sistema de educação é muito inspirado nos países do Norte, e isso desqualifica saberes e ideais que vão contra aqueles que nos são impostos: “Nossas gerações foram ensinadas a acreditar que havia um modelo de felicidade e sucesso que estava pautado na Europa e nos EUA, e isso acabou contaminando nosso currículo escolar, livros didáticos e a mídia com noções de progresso, fazendo a gente achar que desenvolvimento são construções de represas como Belo Monte e rodovias que atravessam o continente e cortam parques ambientais. Acredito que nós, professores, temos que construir nosso material e subverter os currículos instituídos”, declarou Jorge.

Estudantes fizeram perguntas e comentários sobre como colocar em prática a descolonização do saber diante de políticas retrógradas. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes fizeram perguntas e comentários sobre como colocar em prática a descolonização do saber diante de políticas retrógradas. (Foto: Gian Cornachini)

A professora Lucia comentou sobre o “Escola sem Partido” no primeiro dia do evento, considerando-o um retrocesso no processo de aprendizado e libertação da sociedade: “A gente custou tanto para perceber e reagir aos processos imperialistas e de exploração e, agora, isso tudo está sendo desconstruído de forma política, contrário à nossa libertação, soberania e resistência. A escola é o lugar que a gente tem que criar esses espaços para pensar”, opinou. Wolney também compartilhou da mesma ideologia e acredita que o projeto não conseguirá abafar as demandas sociais: “É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira. E não adianta botar o ‘Escola sem Partido’. A realidade vai invadir as escolas, as fábricas e as universidades. Esses caras estão simplesmente colocando uma noite entre um dia e outro. Eles serão derrotados”.

Um dia de protagonismo estudantil

No terceiro dia da XVII Semana Acadêmica de Geografia e do XVIII Encontro de Ciências Sociais, foi a vez de os alunos darem continuidade ao evento. Divididos em dois espaços, dezenove grupos de estudantes, de todos os períodos, discutiram seus pôsteres e fizeram apresentações orais sobre temas variados. Entre as mostras, alguns temas foram as diferenças socioespaciais  nas sub-regiões do Nordeste brasileiro, as diferenças e similaridades da reforma agrária no Brasil e na África do Sul, a desterritorialização dos habitantes do morro do Bumba após a tragédia acontecida na região, o conflito entre os pescadores e grandes indústrias na Ilha da Madeira, entre outros. Já as apresentações orais trouxeram assuntos como “Registros do trabalho de campo de Barra de Guaratiba: Praias dos Corais e do Perigoso e a Pedra da Tartaruga”; “As relações Sul-Sul e a descolonização do saber”; “Agora sou Black: conversa com meninas”; “Os meninos: impressões e olhares sobre o Black”, etc.

Um dos temas que mais suscitaram o debate entre os alunos foi o que tratou sobre “O impacto dos megaeventos no Brasil: o caso da Copa do Mundo em Manaus”. A apresentação de Marcelle de Souza, André Germano e Júnior Oliveira foi fruto de um trabalho para a disciplina de Geografia Regional e trouxe os pontos positivos e negativos que a Copa do Mundo gerou para a população manauara. Os estudantes apresentaram dados que demonstram que a cultura cotidiana dos moradores da cidade não tem o futebol como referência e que a construção de um estádio no local se apresenta como uma prática colonizadora dos saberes, culturas e conhecimentos locais, introduzindo lógicas externas e gerando impactos negativos. De acordo com os estudantes, o único aspecto que poderia ser considerado positivo foi a inclusão da cidade do sistema de energia brasileiro, enquanto promessas como obras de mobilidade sequer foram iniciadas e a especulação imobiliária tem promovido, como legado, um processo de higienização social na cidade.

Marcelle de Souza e André Germano, na apresentação sobre os impactos da Copa do Mundo em Manaus. (Foto: Pollyana Lopes)

Marcelle de Souza e André Germano, na apresentação sobre os impactos da Copa do Mundo em Manaus. (Foto: Pollyana Lopes)

“Das duas obras que realmente ficaram, que foi o estádio e o aeroporto, nada beneficiou a população. A população não tinha um apego cultural com a cultura futebolística e ficou um estádio que é um elefante branco e um aeroporto novo, que não é algo que muda a vida de muita gente”, explicou Marcelle.

O professor do curso de Geografia Alexandre José Almeida Teixeira coordenou um dos espaços e destacou o conhecimento adquirido com o contato com outras visões e abordagens trazidas por palestrantes de outras instituições. Ele também falou sobre a importância, na formação dos estudantes, das apresentações discentes, no enriquecimento do currículo acadêmico, na preparação para processos seletivos e no contato com o público, já que serão todos professores:

“Particularmente, em um dia como esse da semana, os alunos têm a oportunidade de fazer uma produção científica, de sair da sala de aula e de serem agentes, de serem atores que constroem o conhecimento, que fazem o diálogo com os colegas do seu curso e do outro curso, no nosso caso, particularmente”, comentou.

Professor coordenou um dos espaços e destacou o dia dedicado a apresentações dos estudantes. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor coordenou um dos espaços e destacou o dia dedicado a apresentações dos estudantes. (Foto: Pollyana Lopes)

Posição parecida mantém a professora de Ciências Sociais Carmem Castro. Antes de comentar alguns trabalhos, ela lembrou do aprendizado que adquiriu, enquanto cursou sua graduação, em encontros acadêmicos: “Às vezes era até maior do que a própria sala de aula”, enfatizou. Carmem também não deixou de cumprimentar os estudantes que se expuseram nas apresentações públicas: “Primeiro eu quero parabenizar os que vieram aqui na frente e apresentaram os trabalhos, isso torna o processo de uma semana mais dinâmico”.

Professora Carmen Castro parabenizou os estudantes fizeram apresentações. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Carmen Castro parabenizou os estudantes fizeram apresentações. (Foto: Pollyana Lopes)

25 de maio: dia de debater sobre África

Evento em homenagem ao dia do continente africano lota auditório da FEUC

Por Pollyana Lopes

Mais uma vez, a FEUC foi palco para um debate sobre a formação da África e suas relações sociais, políticas e econômicas com o resto do mundo, além de celebrar a cultura do continente. No último dia 25 de maio, o IV Encontro Sociocultural, Econômico e Político para a comemoração do Dia da África lotou o Auditório FEUC, trouxe informação e instigou a reflexão.

Há mais de 10 anos a FEUC recebe, em diferentes cursos, alunos guineenses e, a partir da criação da Associação dos Estudantes Guineenses do Estado do Rio de Janeiro (AEG-RJ), tem acolhido atividades promovidas pelo grupo. Uma delas, o Dia da África.

Auditório esteve lotado durante o evento. Público também participou ao final, com perguntas, intervenções e agradecimentos. (Foto: Pollyana Lopes)

Auditório esteve lotado durante o evento. Público também participou ao final, com perguntas, intervenções e agradecimentos. (Foto: Pollyana Lopes)

A professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais, representou a FEUC na mesa do evento, ao lado do presidente da AEG-RJ, Ndoy Luís Ie da Silva, e do palestrante convidado, o doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) Timóteo Saba M’Bunde.

Em sua fala, Célia destacou a importância do evento para a instituição que, desde os anos 1960, forma educadores: “Eu queria, em nome da FEUC, agradecer a oportunidade que a História nos deu de construir com vocês”. Ela também destacou como as culturas negra e indígena são caras à instituição, principalmente na formação dos professores: “Há mais de dez anos, quando outras instituições, inclusive públicas, nem sonhavam em colocar essa temática em sua grade, o que hoje é lei, a gente já colocava, e colocava como disciplina, não apenas como conteúdo”.

Ndoy explicou brevemente como o 25 de maio foi instituído e destacou a importância da data para os países do continente. “O 25 de maio tem profundo significado para nós, povos africanos, porque simboliza sua independência e emancipação política. A criação do Dia da África, em 1963, configurou-se no maior compromisso para acelerar o fim da colonização europeia”, contou ele, que explicitou mais um dos objetivos do encontro: “Eu quero que vocês virem os olhos para África e vejam como é um continente acolhedor, um continente que foi o berço da humanidade”.

Mesa do Encontro Sociocultural, Econômico e Político contou com a participação do doutorando em Ciência Política Timóteo Saba M'Bunde; do presidente da AEG-RJ, Ndoy Iê da Silva; e da coordenadora do curso de Ciências Sociais, Célia Neves. (Foto: Pollyana Lopes)

Mesa do Encontro Sociocultural, Econômico e Político contou com a participação do doutorando em Ciência Política Timóteo Saba M’Bunde; do presidente da AEG-RJ, Ndoy Iê da Silva; e da coordenadora do curso de Ciências Sociais, Célia Neves. (Foto: Pollyana Lopes)

O convidado especial da noite, Timóteo Saba M’Bunde, palestrou sobre “A inserção internacional de África – desafios e oportunidades”. Muito cuidadoso com as expressões que utilizava, explicando o que chamou de termos problemáticos como “independência”, “descobrimento” e “África branca”, ele elencou os principais desafios e oportunidades dos países africanos diante do atual cenário político e econômico mundial.

Na leitura de Timóteo, é possível falar da inserção internacional de África em dois momentos históricos distintos, separados pelos processos de autonomia política dos países que antes eram colônia de grandes potências. De acordo com ele, mesmo antes dos anos 60, período em que aconteceu a maioria dos processos de autonomia política, é preciso compreender África enquanto sujeito desse processo histórico. “África teve um papel muito importante da construção desse modelo capitalista que paradoxalmente tem sido o carrasco do continente africano. Mesmo antes da década de 60 o continente já fazia parte desse sistema capitalista”.

Assim como em sua palestra no Dia da África, ano passado, Timóteo apresentou as relações de cooperação entre países subdesenvolvidos, ou em desenvolvimento, as chamadas relações de cooperação Sul-Sul como uma via possível para uma inserção mais autônoma dos países africanos na economia e na política global. No entanto, ele advertiu que mesmo essas relações têm falhas, e que as mudanças na política externa do Brasil nos últimos tempos interferem de forma crucial, já que o país é o maior colaborador dos países africanos. “Eu penso que as lideranças africanas têm muito o que fazer para mudar esse cenário e tentar buscar outros mecanismos, outras alternativas possíveis para que aconteça uma mudança com relação aos indicadores que temos tido até aqui, pouco satisfatórios”.

O auditório permaneceu cheio durante todo o evento, inclusive com a presença de vários professores e professoras. Uma delas foi a coordenadora do curso de Geografia, Rosilaine Silva, que foi à FEUC exclusivamente para o encontro. Ela ressaltou que o continente africano foi invisibilizado ao longo da história e destacou que, nos últimos anos, algumas políticas tentam afirmar não apenas o continente africano, mas também a ligação desse continente com o Brasil e com a formação cultural do nosso país. “Poder estar em um encontro onde a gente aprende sobre, não só a inserção do continente hoje, mas como esse continente vem dialogando com o Brasil, eu acho que é fundamental para entender a nossa matriz cultural e olhar um pouco para o passado, de como ela nos foi roubada e como ela precisa ser entendida e afirmada para a gente poder construir projetos para o futuro”, declarou.

Negros africanos e negros campo-grandenses

DCE FEUC apresentou o Coletivo Negro Waldir Onofre e convidou os estudantes a participarem. (Foto: Pollyana Lopes)

DCE FEUC apresentou o Coletivo Negro Waldir Onofre e convidou os estudantes a participarem. (Foto: Pollyana Lopes)

Antes do início da palestra, os estudantes do DCE FEUC apresentaram o recém criado Coletivo Negro Waldir Onofre, e convidaram todos e todas a participarem das reuniões do grupo. Os estudantes explicaram brevemente quem foi Waldir Onofre: ator, roteirista, cineasta negro que, durante boa parte da vida, morou em Campo Grande. Eles também ressaltaram a importância de ações que debatam a questão racial na FEUC, que é formadora de professores, e na Zona Oeste, região carente de políticas públicas mais inclusivas. Ingrid Nascimento, diretora de cultura do DCE, lembrou ainda a representação do negro nos livros didáticos:

“O negro, principalmente nos livros didáticos, só aparece nos séculos XVI, XVII e XVIII, e sempre como escravo. Sempre que a gente abre o livro didático está lá a foto do negro sendo açoitado, geralmente na famosa imagem do Debret. E a gente sabe que o negro é um sujeito histórico, ele fez mais para a História. Ninguém abre o livro didático e vê o Waldir Onofre, por exemplo, ninguém abre o livro didático e vê Carolina Maria de Jesus. As nossas crianças precisam disso, principalmente a Zona Oeste”, reforçou.

No corredor do Auditório FEUC, foi possível prestigiar uma exposição de tecidos e roupas típicas de países africanos. (Foto: Pollyana Lopes)

No corredor do Auditório FEUC, foi possível prestigiar uma exposição de tecidos e roupas típicas de países africanos. (Foto: Pollyana Lopes)

Sempre em frente!

 

Com a habitual dedicação de seus professores e o compromisso dos alunos, as FIC seguem com desempenho em alta no Enade 2014: dois cursos receberam nota 4 e os demais ficaram com 3

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

O Ministério da Educação (MEC) divulgou finalmente o resultado do Enade 2014, e as FIC confirmaram sua melhora no Índice Geral de Cursos (IGC) – a nota média de todas as suas graduações – passando de 2,278 em 2011 para 2,702 em 2014. Portanto, um Conceito Enade 3 já muito próximo de um 4! Individualmente, nossos cursos também alcançaram excelentes resultados, com Ciências Sociais confirmando o 4 que já tinha e História também passando para este patamar. Todos os demais cursos ficaram com nota 3, também elevando o fluxo contínuo do Conceito Preliminar de Curso (CPC) na direção da nota 4 (a exceção foi Licenciatura em Computação, que caiu de 4 para 3, mas mantendo o CPC Contínuo bem perto de 4).

Para o coordenador Acadêmico da instituição, professor Valdemar Ferreira da Silva, os resultados coroam os esforços de toda a comunidade acadêmica: “Nos últimos tempos nós refizemos nosso Projeto Pedagógico, cumprimos e fomos além de todas as exigências feitas nas últimas visitas do MEC e passamos a trabalhar o Enade como componente curricular com os alunos, como determina o MEC. E nossos graduandos corresponderam a esses esforços e foram muito bem nas provas”, elogia o coordenador.

Grupo de ex-alunos de História entre as professoras Vivian Zampa e Nathália Faria. (Foto: Gian Cornachini

Grupo de ex-alunos de História entre as professoras Vivian Zampa e Nathália Faria. (Foto: Gian Cornachini

Cursos cada vez melhores, pelo MEC

O curso de Ciências Sociais, que já havia alcançado a nota 4 no Enade de 2011, manteve o mesmo conceito, mas subiu um pouquinho mais na nota contínua do CPC, passando de 3,318 para 3,470. “Estamos a caminho do conceito 5, e é para isso que trabalhamos. Embora seja muito difícil para uma instituição particular alcançar a nota máxima, devido aos critérios oficiais de cálculo adotados, o que temos feito aqui – instituição, professores e alunos – é digno do conceito máximo, sim”, avalia a professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais.

A dificuldade a que a professora se refere tem a ver com o peso dado pela avaliação do MEC ao percentual de mestres e doutores e de professores com dedicação exclusiva na composição da nota (30% do componente da nota final têm a ver com isso). As universidades públicas conseguem ter alto percentual de doutores e de professores com dedicação exclusiva, mas para acompanhar isso as particulares teriam que elevar as mensalidades a valores incompatíveis com o poder aquisitivo da maior parte de seu público. As FIC, dentro da realidade de suas receitas, estão entre as particulares com maior percentual de mestres e doutores em seu quadro de professores, e buscam alocar esses especialistas de forma a atender todos os seus cursos, focando na elevação da qualidade dos mesmos.

Patrick e a professora Célia: o aluno de Ciências Sociais exalta o forte conteúdo do curso. (Foto: Gian Cornachini)

Patrick e a professora Célia: o aluno de Ciências Sociais exalta o forte conteúdo do curso. (Foto: Gian Cornachini)

História é a outra de nossas graduações com nota 4: passou de 2,944 em 2011 para 2,975 em 2014. A coordenadora do curso, professora Vivian Zampa, também destaca a dedicação dos professores e o compromisso assumido pelas turmas que se submeteram ao Enade 2014: “Foi um trabalho realmente de equipe, por isso esse sucesso é de todos nós”, disse.

Integrantes do grupo que fez as provas de História no Enade em 2014, Marcus Vinícius Bezerra de Almeida, João Carlos Diniz, Leonardo Dias e Artur José da Silva se reencontraram na pós-graduação em História Social e Cultural do Brasil, aqui na FEUC. Eles confirmam que levaram muito a sério a participação no Enade, mas esperavam uma prova mais calcada em historiografia e menos em didática, como acabou sendo. Luana Alencar, que também fez a prova, teve a mesma impressão, e acrescenta que a didática cobrada na prova foi muito mais voltada para legislação e menos para a prática de sala de aula. “A História na FEUC é muito boa, o curso não perde em nada para os melhores que existem por aí”, completou Leonardo.

Já Patrick Silva dos Santos, que fez a prova de Ciências Sociais, afirma que esperava algo bem mais difícil. O estudante, que atualmente cursa o mestrado em Sociologia na UFF, conta que na seleção para a pós-graduação pôde confirmar o quanto o conteúdo de seu curso foi especial: “Fui o primeiro egresso de faculdade particular a conquistar uma vaga no mestrado em Sociologia da UFF. Nas aulas, vejo que os colegas de outras faculdades públicas sequer chegaram a ter o conteúdo que eu tive”.

Entendendo o Enade, CPC, IGC…

O professor Valdemar explica que o Conceito Enade é um indicador de qualidade da educação superior que avalia o desempenho dos estudantes a partir dos resultados obtidos no Enade. Já o Índice Geral de Cursos (IGC) é uma média ponderada envolvendo as notas contínuas dos Conceitos Preliminares de Cursos (CPCs). Todas essas notas e conceitos são comparativos entre todos os cursos e instituições avaliados. Portanto, ainda que uma instituição e seus cursos melhorem seus próprios resultados com relação a anos anteriores, elas também precisam superar os resultados de outras instituições para efetivamente subirem nas avaliações. O que significa que as FIC melhoram internamente e no cenário geral.

tabelas Enade 2014

Desde o começo do ano de 2014, coordenadores e professores iniciaram um trabalho intensivo para preparar os alunos para a avaliação. A maioria dos cursos abriu disciplinas específicas para tratar do Enade como componente curricular obrigatório, com aulões de revisão de conteúdos e aplicação de provas simuladas. O curso de Matemática chegou a lançar, no YouTube, o canal FEUCMAT, onde eram postados vídeos com a resolução comentada de questões de provas anteriores.

Os professores também orientaram os alunos sobre as dúvidas mais frequentes no preenchimento do questionário, o que em anos anteriores havia se mostrado um ponto problemático, já que muitas vezes o enunciado das perguntas deixa os alunos em dúvida quanto à resposta que deve ser dada. “Se o aluno não tem o hábito de usar os laboratórios de informática ou de seus cursos específicos, por exemplo, pode erradamente responder no questionário que a instituição não disponibiliza esses ambientes”, exemplificou a professora Arlene Figueira, coordenadora de Letras e diretora de Ensino da FEUC. O professor Alzir Fourny Marinhos, coordenador do curso de Matemática, é um dos que não dispensa as aulas mais interativas no laboratório, o que dá mais “realidade” aos estudos de Matemática.

Professor Alzir e os alunos Ana Carla Pimentel e Rubens Caio no laboratório de Matemática. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Alzir e os alunos Ana Carla Pimentel e Rubens Caio no laboratório de Matemática. (Foto: Gian Cornachini)

E a atenção da instituição com a avaliação do MEC se refletiu ainda na logística montada para facilitar a ida dos alunos aos locais de prova: a FEUC providenciou 18 ônibus para levá-los aos endereços na Ilha do Governador, Centro, Copacabana e Tijuca. E um grupo de professores e funcionários os acompanhou, dando total apoio. O resultado foi que a quase totalidade dos inscritos fez a prova, o que torna a avaliação das FIC verdadeiramente ampla.

Uma vez que a prova do Enade é considerada um componente curricular obrigatório dos cursos no ano em que é realizada, estão obrigadas a fazê-la os formandos do semestre em que a prova é aplicada e também os do semestre seguinte. Caso não o faça, o aluno não poderá colar grau ao fim do curso. E terá que se inscrever novamente no ano seguinte, como aluno irregular, solicitando dispensa e apresentando algum documento oficial (atestado médico, boletim de ocorrência policial etc.) que justifique por que faltou à prova. Somente após obter a dispensa é que ele poderá colar grau e obter o diploma.

Na reunião em que apresentou aos coordenadores o resultado do Enade 2014, o professor Valdemar frisou que a elevação dos CPCs dos cursos evidenciam a ampliação do nível de conhecimento dos alunos e reflete o trabalho realizado pela instituição e os professores. “Vocês conseguiram sensibilizar os alunos para a importância de fazer um bom Enade, de se empenhar em mostrar no preenchimento do questionário e nas provas o que de fato a instituição tem e oferece”, disse Valdemar. E chamou a atenção para a necessidade de se começar logo a preparação da comunidade acadêmica para a próxima avaliação: “É importante lembrar que os dados referentes ao nosso próximo ano letivo, de 2016, é que serão utilizados para alimentar os insumos do Enade 2017”, salientou.

Pelas regras do MEC, terão que se submeter ao Enade 2017 os alunos que se formam no fim daquele ano e no primeiro semestre de 2018 – portanto, os alunos de licenciaturas que em 2016.1 estarão no 3º e 4º períodos e os de bacharelado que estarão no 4º e 5º períodos.

PIBID em Movimento reúne estudantes de colégios estaduais e graduandos das FIC em debate sobre maioridade penal

Evento inaugura série de encontros com o objetivo de estimular os jovens estudantes a buscar informações, debater ideias e formar pensamento crítico sobre temas da atualidade

Aconteceu ontem na FEUC a primeira edição do PIBID em Movimento, que reuniu alunos das escolas estaduais Irineu José Ferreira e Fernando Antônio Raja Gabaglia para discutir o tema “Criminalização, Redução da Maioridade Penal e Genocídio de Juventudes: O que temos a ver com isso?”, em conjunto com os bolsistas dos subprojetos de Ciências Sociais e História e os professores coordenadores (das FIC e dos colégios). O evento contou com palestras do advogado Renato Teixeira de Sousa, membro da Comissão de Segurança Pública da OAB, e Tobias Faria, educador popular do IFHEP e assessor das Pastorais Sociais da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Em seguida os alunos discutiram em grupos os principais pontos abordados e fizeram uma apresentação final sobre o que consideraram relevante.

Professora Célia e os palestrantes Tobias Faria e Renato Teixeira. (Foto: Gian Cornachini)

Professora Célia Neves apresenta ao público os palestrantes Tobias Faria e Renato Teixeira. (Foto: Gian Cornachini)

Esses encontros têm o objetivo de ampliar a interlocução dos estudantes da educação básica com os alunos das licenciaturas das FIC para além das atividades desenvolvidas nas escolas participantes do PIBID. De acordo com as professoras Célia Neves (coordenadora de Ciências Sociais) e Vivian Zampa (coordenadora de História), organizadoras do evento, a ideia de levar os alunos das escolas públicas para dentro da FEUC, durante os seminários temáticos, cumpre a função de estimulá-los a discutir questões importantes do cotidiano social a partir da pesquisa e da produção de conhecimento, para que possam formar uma consciência crítica baseada na pluralidade de informações disponíveis na sociedade e não somente no senso comum.

“A ideia é que ouçam o que os palestrantes têm a dizer e depois debatam em grupos o que isso lhes acrescentou ou não. Que pensem: que ideias eu trazia antes sobre esse tema, quais as origens dessa informação que eu tinha, e o que essas novas informações me trazem?”, explicou a professora Célia ao grupo antes do início das exposições.

Pontos de vista do Direito e dos Ativistas Sociais sobre a redução da maioridade penal

Em sua fala, o advogado Renato Teixeira de Souza questionou uma série de argumentos favoráveis à redução da maioridade penal, como a tese de que hoje os jovens amadurecem mais cedo e que se registra crescimento estatístico dos crimes graves cometidos por jovens. Defendendo que os jovens têm direito ao erro, pois o amadurecimento em cada um ocorre em tempos diferentes, ele argumentou, por meio de dados, que as medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para os jovens que praticam crimes são mais eficazes do que as penitenciárias na ressocialização dos menores. Renato também trouxe exemplos de outros países e explicou termos jurídicos com relação ao assunto:

“Será que norma penal é que vai conseguir resolver o problema da sociedade? Não! A norma penal tem uma característica muito interessante que a gente chama em latim de ultima ratio: é a última razão de ser. Quando nenhum ramo do direito conseguir tratar aquele acontecimento social, aí você aplica a norma penal”, esclareceu.

Já Tobias Faria utilizou toda a sua experiência de educador popular para manter a atenção do público em sua palestra. Didático, ele fez uma série de questionamentos para levar os ouvintes à reflexão. Em diálogo com a plateia, ele teve a concordância de que todos os presentes eram contra a violência e contra a impunidade, e partir disso apresentou as consequências da possível redução da maioridade penal como atos de vingança que geram mais violência ao invés de resolverem ou minimizarem o problema. Tobias apresentou estatísticas sobre quem pratica crimes no Brasil e trouxe um dado que espantou aqueles que pensavam que cadeia é a melhor solução: de cada 100 jovens infratores condenados a cumprir medidas socioeducativas, 30% retornam ao crime; de cada 100 adultos condenados a cumprir penas em presídios, cerca de 80% retornam ao crime depois de soltos. Portanto, enviar jovens para as penitenciárias significa piorar o problema. Tobias foi enfático:

“Não é verdade que a nossa juventude é criminosa! Ao contrário, a nossa juventude tem sido assassinada. Assassinada! No Brasil morrem por dia, assassinados, algo em torno de 150 pessoas. A cada dia morrem no Brasil em torno de 60 a 70 jovens, a maior parte deles negros da periferia, muitos são mortos pela ação da polícia”, disse.

Alunos debatem sobre o que já sabiam e os novos argumentos apresentados nas palestras

Na segunda parte do encontro, nas dinâmicas com os grupos, os professores e bolsistas do PIBID procuraram estimular que os estudantes relembrassem o que sabiam ou pensavam a respeito do tema da redução da maioridade penal e de que maneira as informações ouvidas nas palestras interferiram com isso. Mais do que fazê-los mudar de opinião, a atividade tinha o propósito de ajudá-los a refletir sobre como era fundada a opinião que já tinham – se baseada em conhecimentos sólidos ou em senso comum – e reformularem essa opinião a partir de argumentos baseados em dados. Mesmo que fosse para manter a mesma opinião. Em alguns grupos foi difícil que os alunos começassem a falar, talvez por timidez, mas em seguida engrenaram no debate e se soltaram.

Nathalia (à esquerda) e seu grupo: apresentação de reflexões após debate. (Foto: Gian Cornachini)

Nathalia (à esquerda) e seu grupo: apresentação de reflexões após debate. (Foto: Gian Cornachini)

No final, durante as apresentações de suas conclusões, muitos alunos revelaram ter mudado a opinião que tinham antes, a favor da redução da maioridade penal, e outros afirmaram continuar pensando do mesmo jeito. Os que mudaram alegaram, principalmente, que antes estavam mal informados sobre os motivos apresentados por quem defende a criminalização dos jovens a partir de 16 anos – por exemplo, a falsa informação de que nessa faixa etária o percentual de crimes é alarmante, quando na verdade as estatísticas disponíveis mostram que não passa de 1% de todos os crimes e 0,5% dos crimes de homicídio. “A gente é bombardeado o tempo todo por muitas informações e não sabe separar o que tem um princípio verdadeiro do que não tem. Nossos pais não sabem nos passar como usar a tecnologia a nosso favor, como uma ferramenta para pesquisar. Nós só seremos melhores com mais educação”, analisou a estudante Nathália, do colégio Raja Gabaglia.

Um dos bolsistas do PIBID que atuam na José Irineu, o estudante de Ciências Sociais Alex Rosa reforçou aos alunos que o objetivo do debate não é fazer ninguém mudar de opinião simplesmente por mudar, mas sim provocá-los a questionar a qualidade das informações que formam suas opiniões: “A ideia não é mudar a opinião de vocês, mas sim que vocês sejam alimentados com novas informações que não necessariamente estão sendo divulgadas pela mídia, e que são informações importantes sobre esse tema. E que a partir daí vocês fundamentem sua opinião de maneira mais adequada”, disse o graduando.

Mês intenso e agitado nas Faculdades

 

Uma sequência de quatro grandes eventos acadêmicos ao longo de maio, adentrando por junho, testemunha o vigor das licenciaturas e o entusiasmo dos graduandos

Da Redação
emfoco@feuc.br

Maria Ione cativou público com histórias da Biblioteca Nacional. (Pollyana Lopes)

Maria Ione cativou público com histórias da Biblioteca Nacional. (Pollyana Lopes)

Ao longo do mês de maio e os primeiros dias de junho a FEUC esteve em ritmo de debates, palestras, oficinas, apresentações de pesquisas, trabalhos de campo… A efervescência acadêmica pôde ser observada no Ciclo de História, Encontro de Ciências Sociais e Semanas de Pedagogia, Letras e Geografia, eventos que ao todo contaram com algo em torno de 70 diferentes atividades, a maior parte delas prestigiada por grandes plateias de alunos da casa e visitantes. E o melhor: com participação ativa dos graduandos, seja apresentando trabalhos, fazendo monitoria ou questionando a fundo os palestrantes que trouxeram temas entre instigantes e polêmicos.

Já na abertura do Ciclo de História dava para pressentir que o mês seria bom: com auditório cheio, a primeira palestrante cativou o público com a devoção empreendida no seu trabalho de bibliotecária da Biblioteca Nacional. A comunicação de Maria Ione Caser iniciou o ciclo falando sobre o básico do trabalho de um historiador, a relação com as fontes.

O evento, que teve como tema “Historiador em Perspectiva: dos Arquivos à Sala de Aula”, seguiu abordando os diversos olhares e formas de atuação do profissional. A formação docente e as práticas escolares — tão caras à instituição que é conhecida como a Casa do Professor — tiveram destaque na mesa que abordou a pesquisa sobre o Ensino de História e, também, no lançamento do livro “Ensino de História: usos do passado, memória e mídia”, organizado pelo professor Jayme Ribeiro.

Semana de Pedagogia buscou despertar criatividade e senso crítico

Maria Licia contou um pouco de sua trajetória na educação. (Pollyana Lopes)

Maria Licia contou um pouco de sua trajetória na educação. (Pollyana Lopes)

A Semana de Pedagogia foi marcada pelas emoções. “O professor e as práticas pedagógicas” foi o tema do evento, que começou com uma homenagem à coordenadora e à vice-coordenadora do curso, professoras Maria Licia Torres e Luiza Alves de Oliveira. O professor Marco Antonio Chaves de Almeida também foi homenageado pelos alunos. Nas diversas palestras e oficinas, as condutas docentes foram problematizadas, sempre no sentido de instigar os futuros professores a estarem atentos aos alunos e à adequação de suas técnicas. As palestras trouxeram pesquisas sobre a realidade das escolas, sem perder de vista a responsabilidade dos professores no processo de aprendizagem dos alunos. Os exemplos dos docentes que atuam nas salas de aula em diversos segmentos da educação levaram os estudantes a reflexões e análises críticas, o que pôde ser observado a partir das numerosas perguntas feitas ao final de cada palestra.

Para fechar o evento, uma apresentação dramática encenada pelo professor de teatro da FEUC, Adriano Marcelo, trouxe como personagem principal o arquétipo de um pedagogo. No desenrolar da peça, o personagem vai amadurecendo sua criatividade e senso crítico. A arte expressou o objetivo do evento como um todo.

Língua e literatura no contexto da mídia e redes sociais

Letras, como sempre, realizou a semana com o maior número de atividades: 33, fora as exposições de pôsteres, carrinho literário, apresentações culturais e feirinha de livros. Enlouquecida em meio aos preparativos para a abertura, a professora Arlene Figueira, coordenadora do curso, brincava: “No ano que vem vamos ter uma única atividade e em um único local. Vou juntar todo mundo na quadra e mandar ver!”. Exageros à parte, até que a programação estava enxuta este ano, uma vez que já houve edições com mais de 70 atividades.

Mais do que quantidade, porém, o que marcou foi a qualidade das palestras e das apresentações, assim como a intensa participação dos estudantes nos debates sobre o tema “Língua e Literatura: comunicação, mídia e redes sociais”. Dos clássicos da literatura ao universo das histórias em quadrinhos, os atos de linguagem no Facebook ou o uso do WhatsApp em grupos de estudo, os temas abordados instigaram o interesse das plateias, levando a um clima de muita interação.

Francisco Barbosa receitou o uso de emoção e sinceridade. (Foto: Gian Cornachini)

Francisco Barbosa receitou o uso de emoção e sinceridade. (Foto: Gian Cornachini)

Especialmente a palestra do radialista Francisco Barbosa, na segunda noite do evento, lotou o auditório. Comunicador da Rádio Tupi, ele defendeu ao microfone a tese de que comunicar é emocionar, e convocou os professores a empregarem isso em sala de aula. “Por falta de técnica melhor, sou muito verdadeiro quando estou no ar, sou sempre eu mesmo e não um ator representando. Nada dá mais liga do que sinceridade”, disse Barbosa, emendando numa mensagem para os licenciandos: “Vocês vão mudar a vida de quem cruzar com vocês, para melhor ou para pior. Serão um exemplo a ser seguido. Ou a ser evitado. Mas sempre uma referência. Então façam o melhor”, recomendou ele aos estudantes.

Ciências Sociais e Geografia discutem impactos socioambientais no RJ

Maio estava acabando, mas sua efervescência ainda foi prolongada até o XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente que, pelo segundo ano consecutivo, aconteceram concomitantemente, nesta edição sob o tema “Intervenções e violações socioambientais no estado do Rio de Janeiro”. O último sábado do mês (dia 30) tirou os estudantes da cama logo cedo para atividades de campo no bairro Duarte da Silveira, em Petrópolis; no Distrito Industrial de Santa Cruz; e na Ilha da Madeira, em Itaguaí. O objetivo era detectar e analisar impactos nesses lugares decorrentes da apropriação do capital, como a implantação da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) e da Gerdau (no Distrito Industrial de Santa Cruz) e da construção do Porto Sudeste e da base de submarinos da Marinha (na Ilha da Madeira). Segundo o professor Paulo Barata, do curso de Geografia e responsável pela atividade na Zona Oeste e em Itaguaí, a região próxima à FEUC tem uma grande potencialidade econômica, e é necessário que os estudantes consigam observar as contradições do capital: “Esse recorte espacial de Campo Grande a Itaguaí é muito importante para a economia e indústria do Estado do Rio de Janeiro. Precisamos quebrar esse paradigma de que a Zona Oeste é uma área apenas de carência e analisar nosso espaço de uma maneira crítica. E isso é essencial para que os estudantes deem atenção às problemáticas locais”, explica Paulo.

Estudantes observam construção do Porto Sudeste e seus impactos na Ilha da Madeira, em Itaguaí. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes observam construção do Porto Sudeste e seus impactos na Ilha da Madeira, em Itaguaí. (Foto: Gian Cornachini)

O percurso no Distrito Industrial incluiu paradas paralelas à margem direita do canal de São Francisco, em frente à Gerdau, à TKCSA e à Usina Termelétrica de Santa Cruz – todas com o objetivo de contar a história das empresas e lembrar das violações socioambientais praticadas com liberação do Estado, como a restrição do acesso ao canal de São Francisco pela TKCSA, que antes era naturalmente aberto aos pescadores locais, agora impedidos de continuar suas atividades tradicionais.

Caso parecido acontece na Ilha da Madeira, em Itaguaí, onde empresas como a MMX, do empresário Eike Batista, instalaram-se para dar início à construção do Porto Sudeste, com a finalidade de melhorar o escoamento da produção mineral brasileira, mas inviabilizando a atividade pesqueira, esbarrando em comunidades tradicionais e impondo a desapropriação de diversas moradias. Sério Hiroshi, da Associação de Pescadores e Lavradores da Ilha da Madeira (Aplim), conversou com os estudantes e revelou suas frustrações: “Tentamos de tudo quanto é jeito resistir, mas o governo fala que esses empreendimentos vão gerar mais de 10 mil empregos. O que eu faço? Ajudo os pequenos pescadores e deixo o resto de Itaguaí sem trabalhar? Eles querem nos colocar como vilões”, lamentou ele.

De volta às FIC, durante os dias 1, 2 e 3 de junho, os alunos relataram suas experiências nas atividades de campo durante cada palestra do evento, sempre fazendo conexão com o tema abordado e as cenas que viram. Emocionada, a estudante Rosangela Godinho, do 7º período de Ciências Sociais, externou sua esperança na educação como fator de transformação da sociedade: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada, mas temos que nos unir. A gente vai estar em sala de aula, e é lá que vão começar os primeiros passos de uma modificação, que é possível sim”.

Rosangela Godinho: “O capital quer nos amedrontar “. (Foto: Gian Cornachini)

Rosangela Godinho: “O capital quer nos amedrontar “. (Foto: Gian Cornachini)

Para coroar este último evento e também fechar com chave de ouro a longa jornada de aprendizado e produção coletiva de conhecimento — como definiu com muita propriedade a professora Célia — foi lançado o segundo número da Khóra, revista transdisciplinar dos cursos de Ciências Sociais, Geografia, História e Pedagogia, que pode ser acessada no endereço www.feuc.br/khora. Está imperdível, com muitos artigos de professores da casa e convidados, e também repleta de contribuições de nossos graduandos.

Encontro de Ciências Sociais e Geografia traz violações socioambientais no Rio para o centro do debate

 

Evento, que reuniu professores e estudantes da casa e recebeu pesquisadores e militantes, terminou com divulgação de carta em repúdio às intervenções que o Rio vem sofrendo 

Por Gian Cornachini, Pollyana Lopes e Tania Neves
emfoco@feuc.br

Os cursos de Ciências Sociais e de Geografia das FIC mantiveram a parceria na produção de seus eventos em 2015. O XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente anconteceram conjuntamente nos dias 1, 2 e 3 de junho, nesta semana. Com o tema “Intervenções e violações socioambientais no estado do Rio de Janeiro no século XXI”, o evento contou com profissionais de diferentes áreas, que trouxeram distintas abordagens sobre a geografia, a política, as questões sociais e econômicas do estado do Rio de Janeiro.

Geotecnologias e espacialidades fluminenses

A primeira palestra foi mais voltada para as questões da Geografia. Com o tema “Geotecnologias e espacialidades fluminenses”, a mesa-redonda teve a participação do professor da UERJ Vinicius da Silva Seabra, do professor da FAETEC Elton Simões Gonçalves e do geógrafo do Instituto Pereira Passos (IPP) João Grand Júnior. Os dois primeiros apresentaram análises sobre a geografia do leste fluminense: Vinícius mostrou diferentes pesquisas sobre a região feitas sob distintos aspectos (hidrográfico, físico, socioeconômico) que utilizam algum tipo de geotecnologia, principalmente o Sistema de Informações Geográficas (SIG); e Elton mostrou um pouco da sua pesquisa para a dissertação de mestrado sobre a Bacia do Rio São João e explicou como o trabalho só foi possível com o uso de determinas geotecnologias. Já João Grand expôs algumas ferramentas geotecnológicas aplicadas nas pesquisas do instituto.

A relação da geografaia rural com as geotecnologias foi o tema do mestrado de Elton Simões Gonçalves, que ele apresentou no evento. (Foto: Pollyana Lopes)

A relação da geografaia rural com as geotecnologias foi o tema do mestrado de Elton Simões Gonçalves, que ele apresentou no evento. (Foto: Pollyana Lopes)

Tratando assuntos diferenciados, sob olhares heterogêneos, os participantes da mesa foram unânimes em defender o uso das geotecnologias, lembrando que estas são facilitadoras do trabalho dos geógrafos e que elas têm aplicação em várias outras áreas do conhecimento. “Eu costumo dizer que as geotecnologias não trazem nenhum tipo de dado novo para as questões que são geográficas, porque essas questões sempre existiram e sempre foram trabalhadas na geografia. O que acontece é que as geotecnologias otimizam os processos mercadológicos utilizados pelas geografia”, explicou o professor Victor.

Marildo pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. (Foto: Gian Cornachini)

Marildo pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. (Foto: Gian Cornachini)

“Uma cidade em que todos não cabemos não vale a pena”

A noite do primeiro dia do encontro rendeu bastante discussão entre os palestrantes convidados e os estudantes presentes. Pós-doutor em Filosofia e professor da UFRJ, Marildo Menegat iniciou o debate sobre a temática “O papel do Estado e da sociedade civil na atual fase de mercantilização da cidade”. Didaticamente, ele pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. De acordo com o professor, esse modelo econômico se apropria das grandes cidades para realizar imensas obras de infraestrutura, tornando o Estado endividado e dependente de financiamentos do capital: “Na medida em que o capitalismo não se torna mais rentável apenas nas quatro paredes de uma fábrica, ele precisa tornar o espaço urbano rentável”, sugeriu Marildo. “Estados Unidos, Japão e Grécia hoje estão com dívidas acima do seu PIB. Eduardo Paes vai deixar o Rio de Janeiro com uma grande dívida. Uma vez que o capital se torna financeirizado, ele vai forçar o Estado a se endividar. O problema não é o dirigente do Estado, mas esse modo de vida social, e que a gente não pode aceitar de forma natural, porque uma cidade em que todos nós não cabemos não vale a pena”, criticou o professor.

Marildo também lembrou que vivemos uma situação de liberdade se comparado ao mundo escravista, mas que ainda continuamos reféns de um sistema segregador: “A reprodução dessa sociedade já não cabe a todos nós. Uma parte significativa está sendo esmagada, e suas vidas não valem nada. No Brasil, morrem de forma violenta 54 mil pessoas por ano: jovens de 15 a 25 anos, do sexo masculino e negros. E a sociedade não se comove porque incorporou a ideia de que a vida dessas pessoas marginalizadas não vale nada”, destacou o professor. “Diante de um mundo em que não cabemos todos, ele produz vários mecanismos inteligentes que fazem uma seleção por meio de assassinatos, moradias… A realidade não é nada razoável, é péssima. E podemos ser pessimistas, porque isso nos deixa lúcidos para percebermos o mundo”, apontou.

Sandra sugeriu que a luta e resistência são as maiores armas para mudar a história. (Foto: Gian Cornachini)

Sandra sugeriu que a luta e resistência são as maiores armas para mudar a história. (Foto: Gian Cornachini)

Diante deste cenário desenhado por Marildo, a economista Sandra Quintela, do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), sugeriu que a luta e resistência ainda são as maiores armas para tentar mudar os rumos da história: “O grande desafio da gente é a luta nos territórios para fortalecer as resistências que existem e garantir modos de viver diferentes desse imposto pelo capital, que passa por cima de tudo”, lançou ela. O estudante André Germano, do 3º período de Geografia, expôs sua frustração em não conseguir ver em sua região grupos se manifestando: “A gente não consegue reunir essas pessoas para a resistência. Parece que nada vai dar certo. Queria que vocês falassem para a gente o modo como podemos fazer isso, porque para mim é dar um tiro no escuro”, lamentou ele.

Um caminho proposto para driblar o cenário atual foi belamente sugerido pela aluna Rosangela Godinho, do 7º período de Ciências Sociais. Emocionada, ela não quis fazer pergunta aos palestrantes, mas externar a sua esperança na educação como fator de transformação da sociedade: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada, mas temos que nos unir. Tentar ouvir tudo o que foi dito em uma palestra é o começo do começo. Essa oportunidade que a gente tem aqui é de ouro. Somos um curso de licenciatura e a gente vai estar em sala de aula, e é lá que vão começar os primeiros passos de uma modificação, que é possível sim!”, apontou Rosangela. “Se o mundo mais justo se chama ‘loucura’, então celebro essa loucura e digo que sou louca todos os dias”, concluiu a estudante.

Rosangela: "O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada". (Foto: Gian Cornachini)

Rosangela: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada”. (Foto: Gian Cornachini)

Violações socioambientais: lutas e resistências

Outro momento de destaque durante a Semana de Geografia e Ciências Sociais foi a noite do segundo dia do evento, que trouxe para o debate “Resistências rurais e urbanas aos impactos socioambientais no Estado do Rio de Janeiro”. O palestrante Luiz Otávio Ribas, representante do coletivo nacional de Direitos Humanos do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), chamou a atenção dos estudantes para populações que sofrem com obras arbitrárias do Governo com a promessa de solucionar questões hídricas. Ele destacou a barragem no rio Guapiaçu, no município de Cachoeiras de Macacu (RJ), como um projeto repleto de irregularidades que afetam diretamente a vida e propriedades de 3 mil pessoas, além de 15 mil trabalhadores.

Assista ao curta “Guapiaçu: Um Rio (de Janeiro) Ameaçado”

“As barragens são construídas com escolhas que envolvem uma política pública e de desenvolvimento econômico. Privilegiam áreas do estado que são terras onde o povo trabalha e que ficam bastante afastadas das políticas de incentivo à produção agrícola”, observou Luiz. “O MAB entende que é a luta que transforma, mas ainda assim não há segurança de que a mobilização possa garantir os direitos das pessoas atingidas. Só que a Justiça tem usado dos nossos relatórios para fazer as indenizações, e isso já é motivo para festejar”, destacou ele.

E nada melhor que uma vítima direta dos impactos socioambientais para contar seus dilemas diários de resistência. O pescador Alexandre Anderson, da Associação Homens do Mar da Baía da Guanabara (AHOMAR), apresentou o vídeo “Rio: Baía de todos os perigos!” – que resume a luta de sua comunidade – e relatou os impactos que os pescadores vêm sofrendo com a poluição e industrialização da Baía de Guanabara, e a presença da Petrobras com seus terminais, refinarias e dutos.

Assista ao documentário “Rio: Baía de Todos os Perigos”

Alexandre luta pelo direito de continuar pescando na Baía da Guanabara. (Foto: Gian Cornachini)

Alexandre luta pelo direito de continuar pescando na Baía da Guanabara. (Foto: Gian Cornachini)

“No final dos anos 90, a gente ocupava 70% do espelho d’água da Baía de Guanabara. Depois de 2010, a gente passou a ocupar só 12%. Hoje, pesca-se 80% menos que pescava em 2000. A Baía de Guanabara está sendo tomada por uso industrial, e o que queremos é o direito de continuar fazendo o que os nossos avós e tataravós faziam de maneira digna, em nosso ambiente local”, ressaltou Alexandre.

O pescador mostrou fotos de manifestações da AHOMAR e lembrou da perseguição que sofrem na luta pelo direito a um meio ambiente limpo e um mar próspero para o exercício de sua profissão: “’Só’ fui preso 12 vezes, e absolvido as 12. Tive cinco companheiros assassinados, quatro em militância. Mas a gente não para, e por isso que um dos únicos lugares que não deixo de ir para dar palestra é na academia, porque é daqui que sai a nossa voz”, valorizou ele.

Gratificada com a militância de Alexandre, a estudante Gabriela Barboza da Silva, do 3º período de Geografia, solicitou um espaço para agradecê-lo: “O que seria da sociedade sem um Alexandre? O que seria do mundo sem aquele que grita pela natureza? Eu não tenho a garra de sofrer um tiro como ele, mas tenho de chegar na sala para instruir o meu aluno a não poluir. Na minha vida acadêmica vou falar eternamente sobre você. Meus parabéns!”.

A aluna Gabriela agradeceu ao pescador Alexandre pela resistência de sua comunidade. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Gabriela agradeceu ao pescador Alexandre pela resistência de sua comunidade. (Foto: Gian Cornachini)

Nas sessões dedicadas a trabalho de alunos… o dedicado trabalho de alunos!

A manhã e a noite do último dia ficaram reservadas para as apresentações de trabalhos de alunos – que foram muitos e de extrema qualidade, como frisou a professora Gisele Miranda, que coordenou um dos eixos temáticos na terça à noite: “Vocês estão todos de parabéns. Fizeram uma belíssima participação neste encontro acadêmico. É este mesmo o momento de fazerem suas primeiras apresentações, perderem a timidez. Estou orgulhosa”, disse.

Como não se orgulhar vendo o entusiasmo de estudantes que saíram das salas de aula e foram pesquisar a história e os problemas do entorno de onde vivem, já pensando em como sensibilizar seus futuros alunos para a preservação do meio ambiente e a produção de conhecimento sobre sua região e sua condição? Foi o caso do grupo de Daniele Lourenço, Leyduane Paula, Priscila Ribeiro e Tamiris Sena, graduandos de geografia, que apresentaram o trabalho “Dinâmica fluvial e a escola: o ensino da educação ambiental através da Geomorfologia fluvial”, em que mostraram a situação de degradação do rio Cabuçu e contaram sobre o trabalho desenvolvido com alunos da região, levando-os para observar o rio e entenderem que aquele é o resultado do que as pessoas fazem com a natureza – mas que pode ser diferente.

Pedro e Rosangela apresentam trabalho sobre barra de Guaratiba

Pedro e Rosangela apresentam trabalho sobre barra de Guaratiba. (Foto: Tania Neves)

Pedro Pimenta e Rosangela Goldinho, graduandos de Ciências Sociais, abordaram “Guaratiba – Aspectos urbanos numa região rural”, levantando um pouco da história e mostrando como uma espécie de “urbanização forçada” pode ser a raiz da maior parte dos problemas vistos hoje na região. Na pesquisa, os estudantes observaram lá nos anos 1940, quando foi construído o polígono de tiro e a ponte da Marambaia, o mesmo tipo de discurso que hoje justifica as grandes obras em andamento: “Lá era um discurso sobre proteger o litoral, e com isso construíram a ponte e o polígono e mudaram completamente a cara da região. Antes havia pescadores que trocavam produtos com agricultores. Para realizar essas grandes construções, usaram esses pescadores como mão de obra, e as colônias de pescadores praticamente acabaram, descaracterizando completamente a região. Ao fim das obras, foram abandonados”, relatou Pedro.

Lançamento da Khóra e Carta de Repúdio para as redes

A noite de encerramento XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente contou ainda com o lançamento do segundo número da Revista Khóra, que já pode ser acessada no link http://www.site.feuc.br/khora. Os professores Flávio Pimentel (Pedagogia), Mauro Lopes (Ciências Sociais), KhoraRosilaine Silva (Geografia) e Natália Faria (História), citaram os artigos de professores e alunos de seus  cursos incluídos na revista e fizeram um chamamento geral para que todos enviassem propostas de artigos e outras contribuições para o terceiro número, que deve ser lançado durante o Fórum de Educação, Ciência e Cultura, no segundo semestre: “Estamos de braços abertos para receber publicações tanto de professores quanto de alunos”, disse Flávio. “Vamos aproveitar este momento: quem está entregando suas monografias, converse com o orientador sobre a possibilidade de submeter uma parte para publicação na Khóra”, convidou Mauro.

Por fim, a professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais, fez um balanço do evento, considerando que o Encontro de Ciências Sociais e a Semana de Geografia mostraram um grande vigor ao mergulhar na produção de conhecimento feito de forma coletiva , ressaltando que esta é a única boa ferramenta para a luta e a militância por um mundo mais justo. “Saímos daqui esperançosos, do verbo esperançar, como Paulo Freire nos ensinou”, disse a professora, que em seguida leu a “Carta em repúdio às intervenções e violações no Rio de Janeiro” (título provisório), escrita a muitas mãos na tarde de quarta-feira, como fruto das intensas discussões realizadas no encontro e tentando refletir o sentimento de indignação coletiva que envolveu todos os que presenciaram os relatos sobre as violações ambientais que o Rio vem sofrendo. A carta será digitada e divulgada nas redes sociais nos próximos dias.

Craque nas salas e nos campos

 

Mauro Lopes é professor de História do curso de Ciências Sociais e atleta de destaque do Mortinho Futebol Clube

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

O mais novo mestre “do pedaço” — defendeu no final de abril a dissertação “Milícias e relações de poder em Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro: práticas clientelistas e dominação” — o professor Mauro Lopes de Azevedo foi por isso escolhido para inaugurar esta nova série da revista FEUC em Foco, que abre espaço para professores falarem de sua prática pedagógica e temas de pesquisa. Graduado em História pelas FIC em 1998, Mauro cursou o mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em Seropédica, desenvolvendo um tema que atrai seu interesse desde que se mudou para Campo Grande, em 1987, depois de se casar com Wilma, também professora.

Professor Mauro pesquisa as práticas clientelistas e dominação na Zona Oeste. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Mauro pesquisa as práticas clientelistas e dominação na Zona Oeste. (Foto: Gian Cornachini)

Na pesquisa, Mauro entrevistou pessoas que ocupam cargos de mando em repartições públicas e empresas da Zona Oeste, para entender as relações de poder presentes nas questões políticas na região. O objetivo principal foi investigar se as ações da milícia tinham algum peso nessa configuração política. E o que o professor constatou é que não há necessariamente uma oposição marcada entre políticos e milícia, muito pelo contrário: “As declarações de apoio à milícia, explícitas ou não, aparecem muitas vezes no discurso de políticos como César Maia, Garotinho e Eduardo Paes”, explicou.

Além das entrevistas, o trabalho incluiu também uma pesquisa documental, feita nos arquivos de jornais e outras fontes de informação, como o relatório da CPI das Milícias realizada na Assembleia Legislativa do Rio. Nesse material, Mauro encontrou comprovação das relações existentes entre políticos do Rio e diversos grupos de milicianos. Entre outras coisas, segundo ele, o noticiário mostra o crescimento repentino do número de votos de certos políticos em áreas que passam a ser dominadas pelo poder paralelo.

Em sala de aula, o professor aplica o resultado de sua dissertação traçando um paralelo do momento atual abordado na pesquisa com outros períodos da História do Brasil e do Rio, mostrando que a prática do clientelismo não é nova, ela apenas vai ganhando contornos diferentes em cada época. “Relacionar essa configuração política atual com outros momentos da História ajuda o aluno a entender e refletir sobre esses acontecimentos e processos políticos”, diz Mauro, que também costuma lançar mão da exibição de filmes e realização de debates para estimular a participação das turmas.

Mauro já havia abraçado a carreira de professor muito antes de se graduar, atuando em educação popular. Logo que se formou nas FIC, começou a lecionar na rede particular e depois ingressou também no ensino público municipal. Mas onde será que ele se sente mais realizado, dando aulas na faculdade ou no Ensino Fundamental? “Eu não poderia fazer um juízo de valor. Adoro as duas atividades, o prazer é o mesmo. Com a molecada, tem essa sensação boa de poder construir uma relação e se fazer respeitar sem autoritarismo. Na faculdade o que predomina é o diálogo adulto. Nas turmas, a maioria são pessoas trabalhadoras, daí o curto tempo para estudar. Então sou exigente e flexível ao mesmo tempo, e tenho um retorno bacana da parte dos alunos”, elogia.

Foto: Gian Cornachini

Foto: Gian Cornachini

Fora das salas de aula, além da dedicação à família, os prazeres de Mauro giram em torno de ouvir música, ir ao cinema, papear com os amigos bebendo uma cerveja e — acreditem! — cultivar uma certa vida de atleta. Vá lá que essa última parte andou meio abandonada nos últimos tempos por causa da necessidade de dedicar todo tempo livre à pesquisa de mestrado, mas Mauro revela ser adepto do ciclismo e um talentoso jogador de futebol. Sem falsa modéstia, ele assume que é um dos craques do Mortinho Futebol Clube, time formado por professores da casa e que já teve seus dias de holofotes na quadra da FEUC, disputando torneios animadíssimos. O nome Mortinho F. C., é bom frisar, não se refere à situação atual do time, mas ao estado dos jogadores ao final de cada partida: “A gente terminava exausto, mas feliz”, lembra Mauro, que promete (“pode cobrar!”) se esforçar junto aos colegas para fazer renascer das cinzas a agremiação, que tem até mesmo seu uniforme personalizado.

Saberes teóricos convertidos em olhares práticos

 

Cursos de História, Geografia e Ciências Sociais das FIC têm apostado bastante em atividades além das salas de aula; em um mês, quatro roteiros foram marcados com o objetivo de visualizar na prática as teorias aprendidas no ambiente acadêmico

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Os cursos de Geografia, Ciências Sociais e História das FIC estiveram bastante movimentados nos meses de maio e junho. Os três marcaram atividades de campo em fins de semana seguidos, e sempre com o mesmo objetivo: converter o saber teórico aprendido em sala de aula para um olhar prático fora da faculdade.

Região portuária e Vila Recreio II

Como extensão da XV Semana de Geografia e Meio Ambiente e do XVI Encontro de Ciências Sociais (realizados em conjunto entre os dias 12 e 14 de maio), estudantes dos dois cursos tiveram a oportunidade de ver de perto as transformações na região portuária do Rio de Janeiro com as obras do Porto Maravilha — apresentado pela Prefeitura como um projeto de revitalização da área — e também a situação da Vila Recreio II, comunidade do Recreio dos Bandeirantes removida para abrir espaço às obras da Transoeste.

Geografia: Grupo visita a região portuária do Rio; na foto, estudantes na Pedra do Sal. (Foto: Gian Cornachini)

Geografia: Grupo visita a região portuária do Rio; na foto, estudantes na Pedra do Sal. (Foto: Gian Cornachini)

Quem conduziu os alunos pelo trajeto na região portuária foi Tatiane Vaz, mestre em Geografia e professora do Colégio Pedro II de Realengo. O principal objetivo do trabalho foi levar os estudantes para o local a fim de questionarem a chamada “revitalização” da área: “Quando a gente diz que vai revitalizar um lugar, pressupõe-se que lá não tem vida, e que você quer levar vida de novo. Mas a região portuária tem muita vida sim, e precisamos entender qual é esse planejamento urbano dessa cidade”, afirma Tatiane.

O grupo percorreu locais como o Cais da Imperatriz, o Cemitério dos Pretos Novos, a Pedra do Sal, o Centro Cultural José Bonifácio, as proximidades do Morro da Providência e subida ao Morro da Conceição. O trajeto pôde dar um panorama de como a região foi se estruturando nos últimos séculos, e como está sendo a transformação atual que, segundo Tatiane, vem se adaptando para atender, majoritariamente, as classes sociais com maior poder aquisitivo, uma vez que a meta é tornar a região um solo economicamente ativo: “A gente não é contra a renovação e a qualidade de vida, mas contra a maneira como as ações são feitas. A população está alheia ao projeto, fora desse processo. Queremos um Porto Maravilha para todos, e não só para turista, e que a cultura e presença da população local sejam mantidas, sem que ela tenha que se mudar por não conseguir mais sobreviver em um lugar que irá se valorizar com a conclusão dessas obras”, explica Tatiane.

Mapa no Centro Cultural José Bonifácio ilustra as mudanças na região portuária. (Foto: Gian Cornachini)

Mapa no Centro Cultural José Bonifácio ilustra as mudanças na região portuária. (Foto: Gian Cornachini)

A estudante Nilcilene Santos Vieira, de 27 anos, do 4º período de Geografia, ficou surpresa ao ver as diversas transformações na região: “Foi muito interessante ter esse contato de perto com as mudanças, os tombamentos, a história da formação da zona portuária e a retirada forçada de famílias do morro da Providência. Isso me fez refletir sobre essa coisa de interferir no dia a dia das pessoas para mudar o que já existe em função dos interesses do capital”, observa Nilcilene.

Em Vila Recreio II, o jardineiro José Jorge de Oliveira Santos, de 53 anos, morador da comunidade removida para a passagem da Transoeste — uma das quatro vias expressas que estão sendo construídas na cidade — acompanhou o grupo de alunos de Ciências Sociais e os professores Célia Neves, Mauro Lopes e Artur Sérgio. Ele contou que as remoções começaram em 2010, com a justificativa de que era necessário abrir espaço para o traçado da Transoeste, mas o fato é que muitas das casas — como a dele próprio — poderiam ter ficado, pois a avenida não foi construída sobre o local onde elas estavam. Para Jorge, isso levanta dúvidas sobre se, de fato, o projeto é voltado para a melhoria do bem-estar da população — como vende a Prefeitura — ou se serviu apenas como desculpa para varrer a pobreza de uma área que se torna cada vez mais valorizada e de interesse para o grande capital.

De acordo com a professora Célia Neves, esse tipo de atividade em campo é muito importante para subsidiar os graduandos nas necessárias reflexões que devem fazer, tanto academicamente, com amparo na teoria que estudam em sala de aula, quanto a respeito de sua atuação social. “Especialmente em nossa região, mas também em outras partes do Rio e do Brasil, o território vem sofrendo com o racismo ambiental, a violação dos direitos e a segregação cada vez maior dos pobres. O profissional de Ciências Sociais precisa estar atento para interpretar isso e dar sua contribuição na discussão e, também, construir formas de ação na sociedade”, afirma a professora.

Quilombo Sao Jose-17-05-14 008Quilombo São José

Ainda no dia 17 de maio, estudantes do curso de História foram para uma atividade de campo no Quilombo São José da Serra, em Valença, no interior do Estado do Rio. No local, a turma pôde observar a estrutura da comunidade criada por volta de 1850 e que, segundo o professor Oswaldo Bendelack, pouco se modificou depois da abolição da escravatura, em 1888: “Os quilombos são comunidades independentes criadas por negros escravos durante o Período Colonial e Imperial. Eles são vistos como locais de resistência e preservação da cultura africana, e no Quilombo São José pudemos conhecer um pouco da história e memória dessa comunidade”, conta o professor.

Elba Gaya, do 5º período de História, define como “mágica” a visita ao local: “Os quilombolas estavam atordoados com tanta gente, mas pudemos todos nos socializar com delicadeza e consideração. Sentimos o clima, a paisagem, a emoção de estarmos em plena natureza. Tudo foi um grande aprendizado”, ressalta a estudante.

História: alunos observam Monumentoao Marechal Floriano Peixoto, na Cinelândia. (Foto: Gian Cornachini)

História: alunos observam Monumento
ao Marechal Floriano Peixoto, na Cinelândia. (Foto: Gian Cornachini)

Trajeto por monumentos

A professora Vivian Zampa, coordenadora do curso de História, esteve com um grupo de estudantes, no dia 31 de maio (um sábado), em uma atividade de campo chamada de “Caminhada Cultural”, que teve o objetivo de percorrer a região central do Rio de Janeiro por um trajeto que contemplasse a observação de monumentos e espaços históricos. A caminhada se iniciou no Chafariz da Pirâmide, obra de Mestre Valentim criada em 1789 para abastecer com água a região da Praça XV de Novembro; passou pelas estátuas de D. João VI e João Cândido, também na Praça XV; Arco do Telles; Paço Imperial; Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé; o Monumento ao Marechal Floriano Peixoto, na Cinelândia, entre outros. Os lugares percorridos tiveram uma lógica dentro da história do país: possibilitar que os estudantes observassem diversos fatos da virada do Brasil Imperial para o Brasil República.

“No Monumento ao Marechal Floriano Peixoto, fica claro a ideia do que se esperava para o Brasil a partir do século XX: um país militarizado, que celebra valores iluministas e que tenta trabalhar a noção de patriotismo e nacionalidade, convertidos na figura da bandeira do Brasil atrás de Marechal Floriano, e na mulher de braços abertos, que representa a república”, explica Vivian.

Entre rochas e natureza

A I Feira de Desenvolvimento Sustentável e Economia Solidária, que aconteceu no dia 5 de junho, também resultou em uma atividade de campo no dia 7 (um sábado). Os professores Alexandre Teixeira e Vânia Sueli da Costa, ambos do curso de Geografia, levaram estudantes para visualizarem a formação geológica do morro do Pão de Açúcar e a biodiversidade do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, espaço fundado em 1808 pelo príncipe regente D. João de Bragança — que viria e ser coroado rei D. João VI — e que fez daquelas terras o “Real Horto”.

“A formação rochosa do Pão de Açúcar e de todo o Rio de Janeiro contribuiu para a paisagem da cidade. E esse é o objetivo da atividade, observar como os aspectos geológicos e a biodiversidade interagem com a paisagem, pois são conceitos fundamentais da Geografia para entender o espaço geográfico”, diz Alexandre.

Professor Alexandre reúne alunos no Pão de Açúcar para aula de Geomorfologia. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Alexandre reúne alunos no Pão de Açúcar para aula de Geomorfologia. (Foto: Gian Cornachini)

Sobre a formação geológica do Pão de Açúcar, o professor explicou, durante a atividade, que todos os continentes eram apenas um, chamado de Pangeia. Com o passar de milhares de anos, eles foram se desconectando e se deslocando. Essa movimentação possibilitou, segundo Alexandre, que atividades vulcânicas e dobramentos da crosta terrestre dessem origem aos morros do Rio de Janeiro. E que chuva, sol forte e a brisa marítima foram desgastando, por exemplo, o Pão de Açúcar, dando a ele o formato que podemos observar hoje.

Todo o conteúdo aprendido durante o dia foi bastante significativo para Cristiano Escobar Ramos, de 24 anos, estudante do 2º período de Geografia. O jovem valoriza a oportunidade de participar de atividades de campo: “Eu acredito que o aprendizado não acontece só na sala de aula, ainda mais em Geografia, que tem muita observação dos espaços”, afirma Cristiano.  Ele ainda avalia a possibilidade de utilizar a metodologia futuramente, quando se tornar professor: “É um tipo de trabalho que é muito bom para poder aplicar com seus alunos do Ensino Fundamental e do Médio. Vai ajudá-los a entender melhor e dar sentido ao que o professor explica, porque vendo na prática fica mais fácil de compreender”, ressalta.

Professora Vania contribui na discussão sobre a formação biológica sobre as rochas. (Foto: Gian Cornachini)

Professora Vania contribui na discussão sobre a formação biológica sobre as rochas. (Foto: Gian Cornachini)

O álbum de fotos completo das atividades de campo está disponível na página da FEUC no Facebook. Clique aqui para acessá-lo.

Encontro de Geografia e Ciências Sociais: Porto Maravilha, remoções e super-herói dos protestos

 

Encerramento dos debates reuniu pessoas para discutir as transformações na região portuária do Rio e o reassentamento da população da Vila Recreio II; militante ‘super-heroi’ insistiu na luta contra injustiças

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

O último dia de debates da XV Semana de Geografia e Meio Ambiente e do XVI Encontro de Ciências Sociais aconteceu na última quarta-feira, dia 14, e foi reservado para discussões sobre os trabalhos de campo de sábado, dia 17, apresentação de trabalhos e um depoimento de um ex-morador da Vila Recreio II – derrubada para a construção do BRT Transoeste. Ainda houve apresentações de trabalhos de estudantes dos cursos de Geografia e Ciências Sociais, e a presença de um militante conhecido por se vestir de super-herói em protestos contra os abusos de poder.

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Preparação para atividade de campo

Durante a manhã, Tatiane Vaz, mestre em Geografia e professora do Colégio Pedro II de Realengo, esteve discutindo questões envolvendo o Porto Maravilha e a região afetada pela obra. O local foi escolhido para a realização de uma atividade de campo, que aconteceu no sábado, dia 17, e teve como tema “A produção do espaço urbano na cidade: Conflitos e Resistências na área portuária do Rio de Janeiro”. No mesmo dia, também esteve programado um outro roteiro de atividade de campo, que aconteceu na Vila Recreio II e que teve como tema “A produção do espaço urbano na cidade: Conflitos e Resistências na Zona Oeste do Rio: Vila Recreio II e locais de assentamento dos removidos”.

Vista para a Praça Mauá: região inserida no roteiro da atividade de campo concentra obras do Porto Maravilha. (Foto: Gian Cornachini)

Vista para a Praça Mauá: região inserida no roteiro da atividade de campo concentra obras do Porto Maravilha. (Foto: Gian Cornachini)

Como seria a responsável pela atividade de campo na região portuária, a professora esteve presente no evento para fazer um panorama do que seria analisado durante a visita no sábado. Tatiane enfocou sua fala no projeto do Porto Maravilha e discutiu a questão do público para qual se destina essas obras no local.

“Os projetos de renovação são, em grande parte, voltados para o turismo e a atração de um perfil social que não é característico da zona portuário do Rio, que é mais pobre e que está morando há muito tempo na região”, explicou a professora. “Precisamos entender o planejamento urbano dessa cidade, essa alteração na forma de pensar e construir de acordo com o neoliberalismo e a globalização, e como o Porto Maravilha se insere nesse contexto”, apontou.

O jardineiro José Jorge teve sua casa derrubada para a construção do BRT Transoeste. (Foto: Gian Cornachini)

O jardineiro José Jorge teve sua casa derrubada para a construção do BRT Transoeste. (Foto: Gian Cornachini)

‘Eu tive muitas desgraças? Tive. Mas eu ganhei muito’

Na noite de encerramento da semana, o jardineiro José Jorge de Oliveira Santos, de 53 anos, esteve no Auditório FEUC contanto detalhes de sua remoção e de outras dezenas de famílias da Vila Recreio II, uma ocupação que ficava localizada à beira da atual estação Pontal do BRT Transoeste, no Recreio. No final de 2010, a Prefeitura do Rio de Janeiro começou a despejar essas pessoas do local e a demolir suas casas. A justificativa para tal ação era a construção do BRT. No entanto, casas como a de José não precisariam ser derrubadas, pois a avenida não foi construída sobre o seu terreno – o que levanta dúvidas a respeito de o projeto ser de fato voltado para a melhora do bem-estar social ou se é meramente uma desculpa para a remoção da pobreza de uma região para a entrada das classes média e alta.

As famílias da Vila Recreio II foram reassentadas em um condomínio do programa Minha Casa, Minha Vida, na Estada dos Caboclos, em Campo Grande, a 20 quilômetros de suas moradias originais. José alega que, além da distância, principalmente do Recreio e Barra da Tijuca – locais de trabalho de muitos moradores da Vila –, as famílias não se sentem devidamente indenizadas: “Me parece que o Minha Casa, Minha Vida foi pensado para quem não tem casa e que quer realizar o sonho da casa própria. Nós fomos colocados em um programa errado, porque nós tínhamos casa, e trocamos ela por outra, e para mais longe”, disse José. “Vamos entrar na justiça querendo o documento dessas casas em nossas mãos”, garantiu ele.

Outro problema decorrente da remoção apontado por José é a quebra forçada de conexão das famílias com o local onde moravam. Reassentadas em um outro bairro, o processo de se acostumar com o novo local, com os vizinhos e a distância do trabalho é sofrido: “Nós formávamos uma família lá na Vila. Agora, muitos de nós estamos perdidos, porque as raízes são fundamentais para o ser humano que não tem nada”, afirmou o jardineiro.

Após contar a história da Vila Recreio II, José respondeu às perguntas do público presente. Uma das questões levantadas foi acerca das conclusões e ensinamentos que ele pôde tirar dos problemas enfrentados com a remoção. Apesar de ter visto sua casa ser demolida, ele considera que a Prefeitura lhe fez o favor de despertá-lo para as opressões que a classe mais pobre sofre: “Se tudo isso não tivesse acontecido comigo, eu continuaria sentado na frente da TV e assistindo ao jornal diário após o dia de trabalho. Mas ali começou a se construir uma nova realidade de mundo para mim. Eu conheci pessoas de movimentos sociais, me envolvi com universidades, com jovens”, contou José. “Eu tive muitas desgraças? Tive. Mas eu ganhei muito, porque hoje eu acordei, estou sendo chamado para falar sobre o caso, estou lutando por essas pessoas. Então, eu deixo um pedido para vocês: não esperem ninguém tentar mudar o mundo, porque mudar o mundo é muito difícil. Mas faça cada um a sua parte”, recomendou.

Área onde ficava a Vila Recreio II não passou por obras e continua ociosa. (Foto: Renato Cosentino/Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas)

Área onde ficava a Vila Recreio II não passou por obras e continua ociosa. (Foto: Renato Cosentino/Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas)

Mostra de trabalhos

A atividade de encerramento dos três dias do evento foi uma apresentação breve de trabalhos desenvolvidos por estudantes dos cursos de Geografia e Ciências Sociais. Os temas foram diversos, como impactos ambientais decorrentes de extração de areia, resistências sociais urbanas, reassentamentos em Campo Grande e agricultura familiar.

O que mais chamou a atenção foi o trabalho do grupo de João Henrique Santos de Oliveira, de 34 anos, estudante do 2º período de Ciências Sociais. Com o tema “Aldeia Maracanã e remoções”, João trouxe o Batman, uma figura conhecida nos protestos no Rio de Janeiro, para dar uma palavra ao público.

Por trás da fantasia do super-herói, o protético Eron Morais de Melo, de 32 anos, morador do bairro Marechal Hermes, ganhou espaço na mídia após participar de manifestações vestido de Batman. A ideia de se fantasiar aconteceu após ele ver na internet uma montagem de Eduardo Paes pintado como o vilão Coringa: “Se o Eduardo Paes é o Coringa, eu pensei: ‘Eu sou o Batman!’”, contou Eron, que não queria ser visto como mais um nas ruas, mas como uma figura atuante em favor dos direitos de cidadãos oprimidos.

Batman: "Quem não protesta contra o mal, coopera com ele". (Foto: Gian Cornachini)

Batman: “Quem não protesta contra o mal, coopera com ele”. (Foto: Gian Cornachini)

Durante sua fala, o Batman pediu que as pessoas continuem ocupando os espaços públicos para se manifestarem: “Os educadores estão nas ruas, movimentos sociais estão aparecendo. Não aceitem injustiças, remoções, falta de investimentos nas áreas que mais precisamos. Quem não protesta contra o mal, coopera com ele”, observou o Batman, que continuou com um recado aos futuros professores: “Educadores têm o poder fundamental de transformar a mente de seus alunos. Conhecimento é poder, e os opressores não querem perder poder. Então, façam a diferença”, ressaltou.

Realidade brasileira é discutida em evento que vai até novembro

 

Promovido pelo NEURB, a terceira edição do Fórum Permanente de Debates começou ontem e contará com mais três dias de palestras

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Abertura do III Fórum Permanente de Debates discutiu as manifestações que têm acontecido no mundo e, principalmente, no Brasil. (Foto: Gian Cornachini)

Abertura do III Fórum Permanente de Debates discutiu as manifestações que têm acontecido no mundo e, principalmente, no Brasil. (Foto: Gian Cornachini)

As ruas de todo o país estão tomadas por manifestantes. Expressões como “O gigante acordou” e “Vem pra rua” são cotidianamente pronunciadas. O povo tem se levantando contra o poder e clamado por um país melhor. E isso não é apenas no Brasil. Em diferentes partes do mundo, grupos têm ido às ruas para mostrar a indignação contra os governos de suas nações. Mas por que isto tem acontecido? Para entender mais e discutir sobre o assunto, o Núcleo de Estudos Urbanos Josué de Castro (NEURB), do curso de Ciências Sociais da FEUC, iniciou ontem o “III Fórum Permanente de Debates: Reflexões sobre a realidade brasileira”. O evento, que contará com mais três palestras nos próximos meses, tem como objetivo convidar os estudantes e demais pessoas do público a questionarem os processos políticos que desencadearam tais manifestações aqui e pelo mundo afora.

O primeiro dia do Fórum aconteceu na noite de ontem, no Auditório da FEUC. Para abrir os debates, foram convidados dois novos professores doutores do curso de Ciências Sociais: José Renato Baptista e Carmem Verônica dos Santos Castro. O tema da primeira palestra foi “O povo em movimento: As grandes manifestações no Brasil e no mundo”. José Renato aprovou a proposta do Fórum: “É importante provocar a discussão sobre temas que afetam diretamente a vida das pessoas.  Ninguém está alheio ao que está acontecendo. A faculdade é um momento de debate, um lugar de provocação do pensamento. É a grande chance de transformar a sua visão de mundo e de se transformar”, analisou o professor.

Para José Renato Baptista, professor do curso de Ciências Sociais das FIC, as manifestações populares são consequências do sistema econômico mundial. (Foto: Gian Cornachini)

Para José Renato Baptista, professor do curso de Ciências Sociais das FIC, as manifestações populares são consequências do sistema econômico mundial. (Foto: Gian Cornachini)

Manifestações globais e o capitalismo

Em um debate que durou mais de duas horas, diversos pontos foram abordados pelos professores para entender esses movimentos populares. Logo no início da palestra, o professor José Renato afirmou que um dos maiores problemas está no sistema econômico que move o mundo: o capitalismo. Para ele, diversos movimentos estão ligados às consequências desse modelo de economia, que aumenta as diferenças sociais, acentua a pobreza e explora o trabalho do homem. De acordo com o professor, casos como a manifestação em Seattle, nos Estados Unidos, contra o encontro da Organização Mundial do Comércio (OMC); a crise financeira na Grécia, na Espanha e em Portugal; e o movimento da Primavera Árabe, que lutou pelo direito à democracia, são conjuntos de demandas e de problemas que impulsionaram as populações a reagir contra os governos e o sistema econômico.

A professora Carmem Verônica dos Santos Castro  afirma que protestos não surgem do nada, mas basta um acontecimento para emergirem. (Foto: Gian Cornachini)

A professora Carmem Verônica dos Santos Castro afirma que protestos não surgem do nada, mas basta um acontecimento para emergirem. (Foto: Gian Cornachini)

Manifestações no Brasil

Ao trazer o foco da discussão para o que tem acontecido no Brasil, a professora Carmem citou o ditado da faísca que incendeia uma pradaria. Ao dizer isto, ela reforçou que as manifestações não surgem do nada, mas que basta um acontecimento para dar condição de levar milhares de pessoas às ruas. “O processo de lutas de classe pode não aparecer claramente, mas ele vai se gestando por baixo, até emergir”, disse Carmem, citando a metáfora da Toupeira, do filósofo, economista e revolucionário alemão Karl Marx, que ilustra a ideia de que a toupeira trabalha no subsolo, mas ninguém vê o que ela está fazendo, até que emerja. Para Carmem, as manifestações populares são assim: movimentos sociais estão acontecendo em diversos lugares, mas basta um fator para que eles ganhem mais força – no caso dos movimentos do mês de junho, o estopim foi o aumento das passagens de ônibus em São Paulo e Rio de Janeiro.

Carmem enumerou outros fatores sociais que deram e continuam dando força para que as manifestações persistam. Dentre os citados, estão as remoções de famílias dos locais que passarão por obras para a Copa do Mundo e as Olimpíadas e os gastos com elas: “Existem grupos como o Comitê Popular da Copa que denunciam essa falta de diálogo do governo com a população quando apresentam os projetos dos megaeventos. São projetos que interferem na vida da cidade e da sociedade, utilizam um volume gigantesco de recursos, enquanto várias questões em nossas vidas não são supridas, como educação, saúde, mobilidade urbana e transporte”, explicou a professora.

 

Por todas essas especificidades, Carmem discutiu a expressão “O gigante acordou”: “O povo nunca esteve dormindo. Aí vem a outra expressão do ‘Gigante que nunca dormiu’, que significa que existem pessoas que vêm atuando há bastante tempo em fóruns urbanos, em militâncias ligadas a partidos e movimentos sociais”, disse. “As pessoas que sofrem com o descaso do governo não estão dormindo. As pessoas que sofrem com as políticas públicas de pacificação nos morros não estão dormindo. Está aí o caso do sumiço do pedreiro Amarildo, que vai mexer com a política de estado propagandeada como a grande invenção do governo”, afirmou a professora, referindo-se, no último caso, às queixas da população com relação ao funcionamento das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

O professor José Renato também comentou o caso de Amarildo: “Não interessa se o Amarildo era um trabalhador ou um traficante de drogas. A polícia não pode sumir com uma pessoa”, criticou o professor. “Tem muita coisa para revirar aí nessa questão de política de segurança pública. É legal diminuir o controle territorial do tráfico e desarmar as favelas? É fundamental. Mas qual a lógica que está sendo obedecida nesse processo? A gente precisa fomentar essas discussões”, ressaltou ele.


Vídeo intitulado “Papa, cadê o Amarildo?” foi apresentado pelos professores no debate

Sobre o Fórum

O Fórum Permanente de debates é uma atividade que o curso de Ciências Sociais tem realizado sempre no semestre contrário ao Encontro de Ciências Sociais. Para a coordenadora do curso, professora Célia Neves, participar do evento é um momento especial na vida acadêmica do estudante: “Em junho passado, diversos alunos vieram perguntar se a gente iria questionar e debater o que está acontecendo agora nas ruas do Brasil. A gente trouxe para o primeiro dia do Fórum essa temática que discute a realidade brasileira e o povo em movimento. É um momento singular que a gente vive e que, efetivamente, diferentes grupos e categorias têm se fortalecido no processo de conscientização da realidade brasileira”, observou ela.

A inscrição para o III Fórum Permanente de Debates pode ser feita no Setor de Cursos Livres. Para efetuá-la, basta levar uma lata de leite em pó para contribuir com as doações que a FEUC tem feito a orfanatos e entidades de assistência social. O atendimento no setor é feito de segunda a sexta-feira, das 8h às 21h, e aos sábados, de 8h às 17h. A participação das palestras em sua totalidade renderá 20 horas de atividades complementares, ou 5 horas por palestra.

Confira abaixo as datas dos próximos debates:

“Megaeventos e violação dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro”
Palestrante: Renato Constantino – Justiça Global e Comitê Popular da Copa
Mediador: Profª. Ma. Célia Neves – FIC
Data: 17 de setembro (terça-feira)
Horário: 19h às 21h50min
Local: Auditório da FEUC

O que é Dívida Pública? Como anda a Dívida Pública Brasileira?
Palestrante: Sandra Quintela – economista / Jubileu Sul e PACS
ediadora: Profª. Ma. Rosilaine Araújo – FIC
Data: 23 de outubro (quarta-feira)
Horário: 19h às 21h50min
Local: Auditório da FEUC

O que é Reforma Política?
Palestrante: Prof. Dr Marco Antonio Perruso – UFRRJ
Mediador: Prof. Mauro Lopes – FIC
Data: 07 de novembro (quinta-feira)
Horário: 19h às 21h50min
Local: Auditório da FEUC

Saiba mais:

BRASIL DE FATO: Com marcha de 300 mil, Rio de Janeiro tem noite de repressão e feridos
Carta Capital: Desaparecimento de pedreiro Amarildo preocupa e comove no Rio
Video: Papa, cadê o Amarildo?
BBC: Em imagens: A Batalha de Seattle (matéria fotográfica de 1999)