‘Justiça com as próprias mãos’ é justiça?

 

Professores da FEUC debatem os sentidos das manifestações violentas na sociedade e dos discursos de incentivo à barbárie presentes na mídia

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Desde que a artista plástica e ativista Yvonne Bezerra de Mello postou nas redes sociais a foto de um menor espancado e despido, preso a um poste no Flamengo, e denunciou o caso como obra de autoproclamados justiceiros que agem na região atacando quem eles identificam como bandidos, a polêmica se instalou nos meios de comunicação e nas rodas de conversa: “é válido fazer justiça com as próprias mãos?”, “torturar um suposto ladrão, em vez de chamar a polícia, é fazer justiça?”, “ações assim vão resolver o problema da insegurança e da criminalidade?”.

Pinçando comentários sobre o tema na mídia, temos desde as violentas palavras ditas no ar pela jornalista do SBT Rachel Sheherazade, que se alinha aos que defendem o ‘olho por olho’ (“Num país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes, que arquiva mais de 80 por cento de inquéritos de homicídio e sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível”), até a quase poética tomada de posição do escritor Luís Fernando Veríssimo, em crônica publicada dia 16 de fevereiro em O Globo (“Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela e, mesmo assim, defende o vigilantismo brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição”).

Sociologia Carmen Castro: "O ‘bandidinho’  pode ser amarrado no poste,  mas o banqueiro corrupto não?" (Arte: Gian Cornachini sobre foto de Yvonne Bezerra de Mello)

Sociologia Carmen Castro: “O ‘bandidinho’ pode ser amarrado no poste, mas o banqueiro corrupto não?” (Arte: Gian Cornachini sobre foto de Yvonne Bezerra de Mello)

Para estimular a discussão no ambiente da escola e da comunidade, convidamos três professores das FIC e um do CAEL a “pensarem em voz alta” com a gente sobre esses fatos. Cada um buscou interpretar de acordo com suas convicções e também a partir do olhar das disciplinas que ministram: Sociologia, Filosofia e Direito.

Umberto Eller, professor de Ciências Sociais, acredita que uma das razões desse cenário é o imediatismo que está tomando conta das pessoas: cada vez mais, todos querem respostas muito rápidas e automáticas para os problemas, em vez de soluções mais pensadas. “A gente tem trabalhado mais, dado mais atenção às coisas da vida, e se dedicado pouco à essência mesmo. Não se fala de uma educação mais humanizada, de acesso à cultura para todos, daí esse embrutecimento. É a barbárie civilizada de que falava Foucault”, diz o professor.

Especialista em Direito e Legislação e coordenador do turno da noite do CAEL, o professor e advogado Paulo Accioly entende que o papel de punir é exclusivo do Estado, e que quem julga deve fazê-lo sempre à luz da Constituição, respeitando os direitos humanos acima de qualquer situação. Ele considera que uma das razões dessas atitudes extremas de “justiçamento” tem a ver com nossa legislação, que seria defasada e não garantiria a aplicação adequada da Justiça: “Só está funcionando para quem tem recursos, a polícia prende e o advogado vai lá e liberta. A lei, do jeito que está, só atende aos interesses dos magnatas. Os políticos estão vendo isso, mas parece que não lhes interessa enxergar. A insegurança do povo está aí”, defende.

A professora de Sociologia Carmen Castro concorda que a lei acaba atendendo mais aos estratos sociais poderosos, mas duvida que a dita desatualização do Código Penal seja a questão principal. “O problema não é falta de lei, mas sim o modo como alguns sujeitos se servem da lei, passando por cima dela, um uso mais ao nível do privado do que do coletivo. O Estado no Brasil é altamente punitivo, basta ver que temos um dos sistemas carcerários mais lotados do planeta. Mas quem está lá? Os pobres, os negros. O ‘bandidinho’  pode ser amarrado no poste,  mas o banqueiro corrupto não?”, diz Carmen, chamando a atenção para o fato de que os episódios de linchamento não são um fenômeno novo: “Muitos sociólogos no passado já abordaram essas características de autoritarismo e barbárie. A sociedade brasileira não é pacífica. E é excludente, desigual. Não é possível falar de justiça num sistema assim”.

Flávio Pimentel, professor de Filosofia, também rejeita a justificativa dada por alguns de que o povo estaria fazendo “justiça com as próprias mãos” porque faltaria a presença da polícia para coibir a violência: “Quando está presente, o que a polícia faz é aplicar violência e não coibir. Tanto que, quando se arvoram a ‘fazer justiça’, essas pessoas reproduzem a violência da polícia”, diz Flávio. O professor não vê aí uma manifestação massiva do povo, mas sim de alguns grupos: “A maior parte da população está é na posição de vir a ser vítima desse tipo de violência, tanto por parte dos ‘justiceiros’ quanto da polícia. E se há algo que aparece aí como falta, é a falta de uma política de segurança cidadã”.

Para finalizar, os três professores das FIC chamam a atenção para uma mesma questão: o tanto que esse clima de violência e linchamento tem sido estimulado pela abordagem rasa do problema nos meios de comunicação: “O debate é desequilibrado, já que as TVs, principal meio de acesso à informação por parte da população, não propõem uma reflexão mais abrangente, focando apenas nos pontos de interesse dos poderosos”, diz Umberto. “Quando uma jornalista diz no ar que a atitude de vingadores é compreensível, está estimulando a violência e não a reflexão”, ressalta Carmen. “Ao dizer que isso é o povo fazendo justiça, os meios de comunicação estimulam o oprimido a incorporar o olhar do opressor e ver o outro oprimido como seu inimigo”, conclui Flávio.

Educar o filho em casa ou matriculá-lo na escola?

 

O Ensino Domiciliar não é legalizado no Brasil, mas famílias, políticos e uma associação lutam pelo direito de educar os filhos em casa, independentes da escola

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Uma audiência pública debateu em Brasília, no dia 12 de novembro, a possibilidade de a Educação Básica — que compreende as séries entre o 1º e 9º anos) ser realizada em casa. O deputado Lincoln Portela (PR-MG) apresentou um projeto de lei em fevereiro de 2012 que pede o acréscimo de um 3º parágrafo ao artigo 23 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei 9344/96) para liberar o exercício do Ensino Domiciliar no Brasil. Atualmente, a prática não é regulamentada, e a legislação a classifica como evasão escolar, podendo gerar processo aos pais por abandono intelectual dos filhos. Se o projeto for aprovado, a Educação Domiciliar passará a ser uma modalidade de ensino e opção a famílias que preferem educar a criança em casa, seja por um preceptor, professor ou até mesmo os próprios pais, caso tenham condições intelectuais de oferecer essa educação.

O tema tem gerado bastante discussão entre os defensores da prática e aqueles que não a veem com bons olhos. O principal argumento de quem é a favor da Educação Domiciliar é de que a escola formal, muitas vezes, não consegue dar conta de oferecer uma educação adequada a todos. O presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), Samuel Alves Freitas, explica que o objetivo de lutar pela regulamentação da prática é de que os pais possam proporcionar um ensino de mais qualidade aos seus filhos: “Existem pessoas que acusam a gente de ser contra a escola. Não somos contra a escola. Entendemos que a escola é necessária no país e fundamental para muita gente. O que acontece é que alguns pais entendem que a educação que é dada na escola não atende seus anseios e necessidades, e que eles têm condições de fazer um trabalho mais eficaz para a educação dessa criança e formar um cidadão consciente, de caráter, valores e princípios morais corretos”, afirma Samuel.

Se o projeto de lei for aprovado, a Educação Domiciliar passará a ser uma modalidade de ensino e opção às famílias. (Foto-ilustração: Gian Cornachini)

Se o projeto de lei for aprovado, a Educação Domiciliar passará a ser uma modalidade de ensino e opção às famílias. (Foto-ilustração: Gian Cornachini)

De acordo com o presidente da Aned, o modelo mais comum do Ensino Domiciliar é ensinar o estudante com base nas diretrizes do Ministério da Educação e Cultura (MEC), pesquisas em livros, internet e visitações a museus e outros espaços culturais que reforcem o aprendizado em casa.

Aparecida Tiradentes Santos, doutora em Educação e professora das Faculdades Integradas Campo-grandenses (FIC), é contra a Educação Domiciliar e tem muitas críticas à prática: “Que realidade familiar seria essa? Quem estaria em casa com a criança oferecendo essa educação? Que formação técnico-pedagógica teria essa pessoa? Pode até ser um excelente professor, mas faltará um elemento importantíssimo nessa educação, que é a sociabilidade”, aponta Aparecida. “A escola é um espaço de convivência extrafamiliar de extrema importância para o desenvolvimento infantil, não só afetivo e social, mas cognitivo. Um local de diversidade cultural, de convívio, de afetividade, desenvolvimento de laços, de aprender a dividir e adquirir outros olhares sobre o mundo. A criança precisa de um espaço onde ela possa fugir do olhar vigilante da família para permitir seu processo de desenvolvimento psicológico”, argumenta a doutora em educação.

Samuel não concorda com a posição de Aparecida, e alega mais um motivo para os pais terem o direito à Educação Domiciliar: poupar seus filhos da violência escolar: “A grande maioria das escolas está entregue à desordem, a professores desmotivados e alunos baderneiros. Do ponto de vista da socialização, a escola gera mais traumas que boas imagens. Garanto que as memórias de bullying, opressão, maus tratos, professores inadequados, rigorosos demais e que gritam marcam o aluno por toda a vida”, analisa Samuel. “Os doutores em educação falam de uma escola ideal. Mas se formos ver na prática, vemos uma escola que não dá conta por si só de formar as pessoas”, critica ele.

Apesar de identificar problemas no ambiente escolar formal, Aparecida acredita que a solução é investir nesse espaço coletivo, e não desqualificá-lo: “A Educação Domiciliar me parece uma prática bastante conservadora e um sintoma de uma sociedade que tem medo do espaço coletivo, adoecida, onde as famílias não confiam nas escolas e onde as várias formas de assédio sexual e moral são identificadas somente nelas. De fato, alguns pais ficam reféns desses problemas. Mas a solução, então, é preservar a criança e colocá-la dentro de uma cápsula ou mudar a escola e torná-la um ambiente saudável? Porque, se falarmos de ambiente saudável, a cápsula também não é, por melhor que seja essa família. A criança precisa construir sua própria identidade pelo espaço social da escola, o qual tem muitas funções além da transmissão de conteúdo, o que não seria suprido por um ensino individualizado”, pondera a professora.

Apolítico e apartidário… é tudo igual?

 

Termos ditos e repetidos nas manifestações de rua rendem boa discussão

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Entre outras coisas, as manifestações de rua que começaram em junho pelo país trouxeram para o centro das discussões dois termos que ora apareceram como se fossem sinônimos, ora com suas diferenças marcadas: apolítico e apartidário.  Inicialmente capitaneadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), contra os aumentos das passagens de ônibus, as manifestações foram somando novas pautas de reivindicações e sendo engrossadas por outros grupos, muitos dos quais lançavam gritos de ordem e exibiam cartazes de “Fora partidos!”, em alguns casos agredindo militantes e exigindo que recolhessem suas bandeiras. O MPL, que em sua carta de princípios se apresenta como “um movimento horizontal, autônomo, independente e apartidário, mas não antipartidário”, criticou tais atitudes.

Grupos foram às ruas e levantaram bandeiras sem partidos; mas qual é a diferença de apolítico e apartidário? (Foto-ilustração: Gian Cornachini)

Grupos foram às ruas e levantaram bandeiras sem partidos; mas qual é a diferença de apolítico e apartidário? (Foto-ilustração: Gian Cornachini)

Afinal, apolítico e apartidário significam a mesma coisa?

Professor de História no curso de Ciências Sociais das FIC, Mauro Lopes lembra que, do ponto de vista filosófico, dizer-se apolítico é uma contradição em si, pois essa tomada de posição já é uma atitude política. “A própria expulsão dos grupos que levavam bandeiras de partidos, isso não deixa de ser uma atitude política. Então como se dizer apolítico? Não ter vínculo com partido, ok. Dizer-se apartidário, tudo bem. Mas a tentativa de desqualificação geral da política foi outra coisa, eu vi um cunho bem conservador nisso”, destaca o professor, que apesar disso considerou aquele momento muito rico: “Quando os grupos mais conservadores tentaram se apropriar do movimento, buscando determinar a pauta, se aproveitando daquela reação inicial de rejeição à política, aí os grupos de esquerda acordaram e foram para as ruas colocar também suas questões”.

Patrick Silva dos Santos, aluno do 5º período de Ciências Sociais que esteve em algumas dessas manifestações, não gostou das vezes em que viu a associação do termo apolítico ao movimento. Segundo ele — que integra o coletivo de política estudantil Juntos!, ligado ao PSOL — desde o início, entre os grupos que se articularam pelas redes sociais para tomar as ruas, muitos eram de militantes, embora houvesse também os sem filiação. Patrick considera justo que os não filiados quisessem evitar ser confundidos ou ter suas ações apropriadas pelos outros, mas daí a combater a presença ou querer cassar a voz e destruir bandeiras, vai uma grande diferença. “Brigar para não ter nenhuma bandeira é o mesmo que brigar por uma bandeira única, é querer a ditadura”, afirma o estudante.

Doutor em História e professor das FIC, Jayme Fernandes Ribeiro entende que havia entre os manifestantes muitos que rejeitam os atuais partidos, e o recado que estavam dando nas ruas era exatamente esse: que os partidos são aproveitadores e que eles não queriam se vincular a isso. Neste sentido, podem ter ingenuamente empregado o termo apolítico quando queriam dizer apartidário. Mas Jayme acredita que, quando a mídia valorizou isso e passou a martelar o tempo todo a questão da rejeição à política como um todo, já não havia mais ingenuidade: “Eu estive lá e juro que não vi bandeiras do PSDB, do DEM. Vi do PSOL, do PCB, do PT. Se o movimento fosse associado a partidos, seria aos de esquerda, e isso não era interessante para a mídia. Não sei se a confusão do apartidarismo com o apolítico foi intencional, mas que há ganhos políticos para os conservadores com essa confusão, isso há”, opina o professor.

Prestes a se formar em História, o aluno do 7º período Carlos Eduardo Moreira viu no movimento um forte sentimento de descrédito com os políticos. E mesmo compartilhando o pesar — “É difícil querer discutir política tendo os parlamentares que temos” — ele afirma que não existe outra possibilidade fora da política, e até se pergunta se as coisas não chegaram a este ponto exatamente porque muita gente insiste em achar que “política não é coisa minha”. E sugere: “O negócio é se manifestar, participar, se interessar por saber o que nossos eleitos fazem, assistir a sessões na Câmara de Vereadores e na Alerj. Se não tiver tempo pra isso, manda e-mail, entope a caixa deles, usa a Lei de Acesso à Informação. O que não pode é deixar a política só com eles”.

Vale relembrar a frase do economista britânico Arnold Toynbee, que viveu na segunda metade do século XIX: “O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam”.

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Jovem de hoje: alienado ou muito pelo contrário?

 

Inspirados nos empolgantes debates do XV Encontro de Ciências Sociais, convidamos alguns participantes do evento para ‘baterem uma bola’ aqui sobre o assunto

Por Gian Cornachini e Tania Neves
emfoco@feuc.br

Marina Ribeiro, egressa do curso de Ciências Sociais das FIC e pesquisadora do Ibase, acredita que o jovem reflete o mesmo comportamento da sociedade. Portanto, se convive com grupos desinteressados das questões políticas e sociais, será tão apático quanto, mas dizer que uma geração como um todo é mais ou menos alienada do que as anteriores, não faz qualquer sentido, segundo ela. “Não se pode comparar gerações, é preciso contextualizar o que era a vida em cada época para entender os dilemas que cada geração de jovens viveu ou vive”, afirma a pesquisadora. Marina lembra que, se em outros tempos o movimento juvenil era associado apenas ao movimento estudantil, hoje os jovens estão envolvidos nas mais diversas causas: política, movimentos sociais, movimento negro, causa LGBT, feminismo, mercado de trabalho, manifestações culturais… “E tem também os que não fazem nada disso, que refletem a parte alienada da sociedade”.

Carolina Dias, integrante do Levante Popular da Juventude, vê na atual configuração da sociedade elementos mais do que suficientes para empurrar para baixo os jovens menos resistentes, ou aqueles que não chegam a se questionar sobre que padrão está ditando o seu comportamento: “Acredito que o jovem de hoje é fruto de um tempo em que ele é constantemente bombardeado pela mídia, a sociedade de consumo foca nesse jovem. E a gente também tem que estudar, trabalhar, ganhar dinheiro e não sei o quê. Para uma pessoa parar e ser alguém pensante no meio disso tudo é difícil. Não é um problema individual. É um problema da sociedade que impõe dificuldades para esse jovem”, opina a militante, mas sem qualquer pessimismo: “Ao mesmo tempo vemos que têm acontecido mobilizações no mundo todo, que eu acredito que é um processo que só vai aumentar. Enfim, os jovens estão se mobilizando, procurando outros meios para ter voz”, diz.

Na mesma linha de pensamento de Carolina, o repper Fiell acha importante refletir sobre como chegamos a este ponto: “Os escravos, os negros, ficaram proibidos de se alfabetizar durante 300 anos. Mais de 40 anos após a ditadura militar no Brasil, a educação pública foi esfacelada. Nada disso é prática da natureza. Todas essas ações políticas são pensadas para o benefício de uma burguesia que explora, massacra os trabalhadores.  No Brasil estão funcionando várias ferramentas, não só de comunicação de massa, para manter a alienação. Uma criança, por exemplo, já vai para os primeiros dias de aula com 7 mil horas de programação televisiva. Isso é muito ruim, pois a criança sabe qual o biscoito que ela gosta, mas não sabe que teve uma escravidão no seu país”, argumenta Fiell.

Com o respaldo que lhe dão os seus cabelos brancos, o escritor e educador Vito Giannotti afirma que os velhos sempre acusam os jovens de serem alienados. “Isso é coisa de velho babaca”, dispara Giannotti, que assim como Fiell identifica na hegemonia da mídia comercial a articulação para fazer dos jovens um grupo cordato e consumidor. “A sociedade que está aí quer formar pessoas que não pensam, que não estão nem aí. E a sociedade hoje é muito mais capaz do que em outros tempos. Então, se você disser ‘o jovem é mais alienado hoje do que antigamente’ — e eu não estou dizendo que é — não tenho dúvidas de que o investimento do capital é para deixá-lo assim”, denuncia o escritor. Segundo ele, o conteúdo que se vê na mídia brasileira é tão fora da realidade das pessoas que a muitos não resta outra opção senão dissociar: “A menos que o jovem tenha um conjunto de experiência, que viva no coletivo, ou que tenha pessoas — como professores, educadores, formadores — que o estimulem a abrir os olhos, a ter um senso crítico e a se organizar”.

A doutora em Educação Daniela Patti, coordenadora pedagógica dos cursos de licenciatura da UFRJ, não esteve no Encontro de Ciências Sociais, mas foi chamada a opinar porque recentemente levantou um tema interessante em outro debate na FEUC: a tramitação, no Congresso, de projetos de lei instituindo no ensino básico as disciplinas de Cidadania, Moral e Ética e Ética Social e Política, numa espécie de reedição das velhas Educação Moral e Cívica e OSPB impostas pelo regime militar: “Em boa parte das ementas desses projetos de lei é recorrente a ideia do que eu chamo de uma ‘pedagogia do resgate’. Há, por parte do legislativo federal brasileiro, a intenção de resgatar valores que a juventude brasileira perdeu”, diz a educadora, questionando se haveria acordo na sociedade sobre quais valores éticos seriam esses. “É possível chegar a um consenso de que esses valores que precisam ser resgatados são universais?”, pergunta-se ela, finalizando: “Em um país tão desigual como o nosso, não se pode falar em juventude, mas em juventudes”.

 

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Doutora em Educação escreve sobre a participação da juventude nas questões sociais

Daniela Patti* do Amaral acredita que ‘Em um país desigual como o nosso, não se pode falar em juventude, mas em juventudes’ 

 

‘Em um país desigual como o nosso, não se pode falar em juventude, mas em juventudes’ 

A perspectiva de participação da juventude nas discussões relevantes da sociedade é uma questão que merece destaque no cenário brasileiro atual. Seja nos desenhos das políticas educacionais, sociais, culturais ou políticas, a juventude brasileira é, hoje, alvo de ações articuladas do Estado. A criação, em 2005, da Secretaria e do Conselho Nacional da Juventude é apenas uma ilustração da preocupação do Estado brasileiro com o atendimento a essa parcela da população. Somam-se, ainda, políticas como o Programa Universidade para Todos (ProUni), o Projovem e a expansão da rede federal de instituições de ensino superior. Observo, com essas ações, os interesses do Executivo Federal em incluir a juventude pela via da educação inicial e continuada e aumentar as estatísticas de jovens entre 18 e 24 anos com escolarização.

"Creio que a juventude de hoje está diante de um quadro de oportunidades ampliado e confuso" — Daniela Patti do Amaral. (Foto: Tania Neves)

“Creio que a juventude de hoje está diante de um quadro de oportunidades ampliado e confuso” — Daniela Patti do Amaral. (Foto: Tania Neves)

Entretanto, não observo as mesmas ações no âmbito do legislativo. São muitos os Projetos de Lei tramitando na esfera federal que insistem na inclusão de novas disciplinas no ensino médio e mesmo no ensino superior. Em boa parte das ementas desses projetos de lei é recorrente a ideia do que eu chamo de uma “pedagogia do resgate”. Há, por parte do legislativo federal brasileiro, a intenção de resgatar valores que a juventude brasileira perdeu. Esses projetos ilustram uma forte corrente para a retomada da educação moral na escola através de um ponto de vista de cunho religioso que irá combater a falta de respeito, a desordem e o vandalismo que marcam o dia a dia das escolas e da sociedade tendo os jovens como protagonistas. A ética como disciplina escolar virou a panaceia para todos os males que assolam a juventude brasileira. E, também, uma forma de controle. Cabe destacar, no entanto, que valores éticos são esses que estão sendo veiculados pelos projetos de lei, pela mídia e se há consenso sobre eles. Indago: é possível chegar a um consenso de que esses valores que precisam ser resgatados são universais? Será que esses oradores no legislativo conseguirão persuadir os jovens através desses discursos? Será, ainda, que eles são vistos pela juventude como modelos? O ethos desses oradores, isto é, sua credibilidade assentada em seu caráter, sua honra, estão servindo de modelo para os jovens?

A juventude procura por modelos que servirão de inspiração para seus caminhos e percursos. Na falta de modelos que os jovens não encontram nas artes, na política, na religião, eles poderão substituir por padrões e modelos que a mídia impõe. Ser o mais magro, o mais bonito, o mais famoso e viver a vida que a sociedade do espetáculo legitima. No caso brasileiro, especialmente a mídia televisiva tem largo alcance. Logo, é preciso indagar que padrões e modelos são esses que estão sendo transmitidos pela mídia. Adicionalmente, é fundamental refletir que os valores que muitos dizem que precisam ser resgatados acabam por se tornar um discurso enfraquecido porque os acordos são firmados no tempo, conforme os interesses, desejos e necessidades dos diferentes grupos. Logo, não são imutáveis.

Finalizando, não acho que a juventude seja alienada nem que ela está sendo excluída das discussões. Creio que a juventude de hoje está diante de um quadro de oportunidades ampliado e confuso. O mundo do trabalho está muito mais complexo, há um alargamento no horizonte de possibilidades da formação inicial e continuada. E, ainda, há que se destacar que diante da realidade de um país tão desigual como o nosso não se pode falar em juventude, mas em juventudes, afinal as experiências de vida em tempos e espaços tão distintos vividas por jovens permitem diferentes concepções do que é que ser jovem no Brasil do século XXI.

*Daniela Patti do Amaral é professora adjunta do Programa de Pós Graduação em Educação da Faculdade de Educação da UFRJ

Doutora em educação analisa o papel da escola

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Andrea Ramal avalia a escola como formadora de um ser pensante e alerta sobre o desafio de incorporar novas tecnologias em sala de aula

Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Na matéria “Escola: mão de obra ou educação crítica” (nº 12, março de 2013), foram publicadas algumas considerações da doutora em educação Andrea Ramal* a respeito do papel da escola. Agora, trazemos ao site a entrevista completa com a doutora. Além de sugerir que a escola tem função essencial na formação crítica do estudante, Andrea também opina sobre usar novas tecnologias para prender a atenção dos jovens.

"A escola já não se entende simplesmente como uma provedora de conteúdos" — Andrea Ramal, doutora em educação (Foto: Arquivo Pessoal)

“A escola já não se entende simplesmente como uma provedora de conteúdos” — Andrea Ramal, doutora em educação (Foto: Arquivo Pessoal)

FEUC em Foco: Como a senhora vê a educação de hoje em dia: ela está voltada para estimular a competitividade ou propõe uma forma de conhecimento para a vida toda?

Andrea Ramal: Acredito que a educação escolar está se transformando aos poucos para ficar mais integral e, portanto, mais atenta a muitas dimensões. A escola já não se entende simplesmente como uma provedora de conteúdos. Ela assume também o papel — junto com a família — da formação cidadã, da formação ética, além de desenvolver competências ligadas ao mundo do trabalho, como a postura empreendedora, a capacidade de trabalhar em grupo ou de compartilhar conhecimento. Esse movimento é positivo, pois a tendência é que os alunos passem a sair da escola com visões mais globais e, portanto, mais preparados para a vida.

FEUC em Foco: E como fica o papel da escola na formação de um ser pensante?

Andrea Ramal: O papel da escola é fundamental para formar seres pensantes e críticos. Vivemos num mundo em que a tecnologia coloca todo e qualquer conteúdo disponível com muita facilidade, para qualquer pessoa. Mas como as crianças e jovens poderão julgar o que é válido, coerente, atual? Como serão capazes de não simplesmente copiar o que encontram, mas de criar conhecimento novo a partir do que aprendem?

FEUC em Foco: De que maneira a escola busca resolver esse problema?

Andrea Ramal: A escola, junto com a família, ajuda — e precisa ajudar —os jovens a construir um olhar crítico, a avaliar o que aprendem e o que fazem a partir de determinados critérios, a construir o seu próprio projeto de vida de forma responsável, autônoma e solidária.

FEUC em Foco: Hoje em dia, os jovens parecem estar mais dispersos na sala de aula, pois estar conectado, muitas vezes, é mais atraente do que frequentar o ambiente escolar, por exemplo. Como a escola dribla esses entraves?

Andrea Ramal: A escola ainda está se estruturando para atender estas crianças e jovens da geração “Z”, que já nasceu num mundo repleto de tecnologias fascinantes. O desafio é tornar a sala de aula mais interativa, incorporando estas mídias e tecnologias. Mas não por um modismo ou por precisar de atenção dos jovens. As tecnologias são novos ambientes de aprendizagem e a escola precisa se preparar para entendê-las e utilizá-las assim. Isso envolve, entre outras coisas, uma nova formação dos educadores e uma apropriação das redes de conhecimentos no projeto pedagógico escolar.

 

*Andrea Ramal é doutora em educação pela PUC-Rio, educadora e escritora, além de comentarista de educação do programa jornalístico Bom Dia Rio, da TV Globo.

Escola: mão de obra ou educação crítica?

 

Somos ‘forçados’ a manter uma máquina social ou desfrutamos de um espaço ideal do conhecimento? Da educação técnica à formação de um ser pensante, a escola enfrenta críticas e elogios

Gian Cornachini*
emfoco@feuc.br

Veja também: Doutora em educação analisa o papel da escola

 

Tão presente na cultura ocidental, parece que a escola sempre existiu. Mas ela, tal como a conhecemos hoje, é uma instituição moderna e fruto, principalmente, do desenvolvimento econômico mundial. A partir daí, surgem questionamentos: para que a educação atual está voltada? Qual o papel dela na formação dos estudantes? Será que a escola sempre foi assim?

Um breve apanhado histórico

Para entender a escola de hoje, vamos voltar no tempo. A cultura oral, antecessora à escrita, era a responsável por manter a história dos povos. Os ensinamentos passados de pais a filhos eram informais, conforme sugere a filósofa e escritora Maria Lúcia de Arruda Aranha. Em seu livro Filosofia da Educação (2006), a autora explica que a educação informal é caracterizada pela sua forma casual e empírica, ou seja, não organizada a partir de um sistema, mas passada a partir de suas próprias vivências e bom senso.

O surgimento de sociedades mais complexas, fundadas em instituições políticas e práticas econômicas sofisticadas, começou a desvalorizar a educação informal. Considerado insuficiente e sem conhecimentos específicos, esse modelo de educação passou a ser substituído pelo formal. Surgiu, então, a figura do professor — geralmente um filósofo, especialista em repassar conhecimento intelectual e moral. Na Grécia Antiga, essa nova educação era um privilégio de poucos: homens ricos, que não tinham necessidade de trabalhar e dispostos a investir o tempo livre no saber.

Na Idade Média, a cultura escrita ganhou força: surgiram os estudos em gramática, retórica e filosofia, e a Igreja Católica criou escolas e transformou esses estudos em disciplinas. Para a historiadora Maria Lúcia Hilsdorf, a educação escolar começou a ser delineada na Idade Média, principalmente com o interesse da Igreja Católica em educar o clero. Posteriormente, outros saberes foram adicionados, como a estenografia — um processo de escrita por meio de abreviações que permite a transcrição das palavras tão rapidamente conforme são pronunciadas. Com o avanço da sociedade, os centros de ensino da Igreja Católica passaram a oferecer “cabeça de obra” para o Estado, ou seja, leigos educados para trabalhar na administração das cidades.

Já na Idade Moderna, a cultura humanista cresceu, as cidades começaram a inchar e a economia se tornou mais urbana. Bastou um passo ao período contemporâneo para a escola tomar as formas atuais. Movida pelos ideais iluministas, a educação escolar passou a ser orientada pela razão. O Estado também ficou responsável por mantê-la, e então ela se voltou para o público. O material escolar dispensou os livros religiosos e adotou os didáticos e de cunho laico.  O movimento educacional “Escola Nova”, no século XX, reviu as formas tradicionais de ensino e incorporou estudos voltados para as áreas de psicologia e biologia. Consolidou-se, então, a escolarização organizada em etapas – hoje com a nomenclatura de Ensino Básico (infantil e fundamental) e Secundário (médio e técnico).

O(s) papel(eis) da escola

Segundo dados do Ministério da Educação com base no último Censo (2010), a população em idade de escolarização básica (de 4 a 17 anos) no Brasil ultrapassa os 45 milhões de estudantes. Com tanta gente matriculada, será que a escola de hoje é a referência na Educação?

O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) foi um crítico da educação escolar. Ele via na escola moderna um espaço para vigiar e adestrar o corpo e a mente. É como se a criança fosse sequestrada de sua família para passar longos anos sob uma disciplina voltada para conduzir seu comportamento e formar seus pensamentos.  A isso ele deu o nome de “corpos dóceis”, e tal “docilização” geraria vantagens sociais e políticas: corpos dóceis significam corpos produtivos. O pensamento de Foucault sugere que o papel da escola moderna seria o de formar mão de obra para alimentar a necessidade contínua e crescente de produção, seja ela de bens materiais ou não. E quanto à questão de a escola formar um ser pensante, que vá além de conteúdo, habilidades e competências propostas pelo ensino tradicional? Para a doutora em Educação Andrea Ramal, a escola ainda é esse local de formação diferenciada do estudante: “O papel da escola é fundamental para formar seres pensantes e críticos”, afirma ela. “A escola, junto com a família, precisa ajudar os jovens a construir um olhar crítico, a avaliar o que aprendem e o que fazem a partir de determinados critérios, a construir o seu próprio projeto de vida de forma responsável, autônoma e solidária”.

Apesar de defender que a escola busca contribuir para a formação de seres críticos, Andrea Ramal não renega a crítica de Foucault: “Ela [a escola] assume também o papel — junto com a família — da formação cidadã, da formação ética, além de desenvolver competências ligadas ao mundo do trabalho, como a postura empreendedora, a capacidade de trabalhar em grupo ou de compartilhar conhecimento”, esclarece a especialista. Mesmo assim, segundo Andrea, a formação técnica da escola não deve ser descartada: “Esse movimento é positivo, pois a tendência é que os alunos passem a sair da escola com visões mais globais e, portanto, mais preparados para a vida”, completa.

 

A ‘decadência’ da escola em pauta

Documentário argentino “La Educación Prohibida” critica o modelo tradicional da educação (Foto: Divulgação)

Documentário argentino “La Educación Prohibida” critica o modelo tradicional da educação (Foto: Divulgação)

Os métodos de ensino e a estrutura prática da escola são grandes pautas de discussões. O documentário argentino “La Educación Prohibida” (2012), financiado vias redes sociais e disponibilizado gratuitamente na internet, propõe uma reflexão sobre o modelo tradicional da educação. Exibido no ‘Cinema na FEUC’ em setembro de 2012, o filme defende que a escola tradicional se baseia em um sistema repetitivo e autoritário, orientado à competição e limitador do aprendizado. O filme apresenta outras formas de pensar a educação, que valorizam a diversidade educativa, a liberdade pedagógica e a necessidade de democratização.

Outro tema que vem alimentando discussões é o chamado “abolicionismo escolar”, abordado pelo historiador Danilo de Camargo em sua dissertação de mestrado na USP (“O abolicionismo escolar: reflexões a partir do adoecimento e da deserção dos professores”). Na pesquisa, ele conclui que o problema de afastamento dos professores se dá pela conduta das escolas enquanto instituições. Danilo sugere que se questione a existência da escola como um grave problema político, pois, para ele, a instituição é falha e não se propõe a pensar um outro modelo educacional que substitua o atual.

*Com a colaboração de dados históricos fornecidos por Ellanny Brabo de Matos, professora do curso de História das FIC.