Sistemas de Gestão Empresarial e sucesso profissional são temas de evento de Administração

Especialistas do mercado vêm à FEUC compartilhar conhecimentos e dicas da área

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini

A II Semana do Administrador aconteceu nos dias 8 e 9 de setembro, no Auditório FEUC, trazendo para a instituição palestras com profissionais de vasta experiência de mercado e sólida formação acadêmica. No primeiro dia, o gerente de Tecnologia de Informação da Guaracamp, Alcione Dolavale, falou sobre Gestão Empresarial na Logística e trouxe exemplos de como a implementação de Sistemas Integrados de Gestão Empresarial, ERP, a sigla em inglês para Enterprise Resource Planning, promove o melhor funcionamento das empresas. Ele, que é graduado em Tecnologia da Informação e tem mestrado em Logística pela PUC-Rio e MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV, destacou também a importância de estreitar os laços entre o mercado e as faculdades.

Alcione Dolavale destacou a importância da relação entre o mercado e as faculdades e deixou o e-mail do setor de Recursos Humanos da empresa em que trabalha para os alunos enviarem currículos. (Foto: Pollyana Lopes)

Alcione Dolavale destacou a importância da relação entre o mercado e as faculdades e deixou o e-mail do setor de Recursos Humanos da empresa em que trabalha para os alunos enviarem currículos. (Foto: Pollyana Lopes)

“Para nós, que estamos no mercado, é muito valiosa essa oportunidade de ir às faculdades, de encontrar com alunos. Afinal de contas, é aqui que estão sendo formados os futuros profissionais”.

Já na palestra de Paulo Panesi, convidado a participar do encerramento da II Semana de Administração — que aconteceu na sexta-feira, dia 9 de setembro —, o foco da discussão foi “sucesso” e os caminhos para conquistá-lo. Panesi, que tem especialização em Gestão de Pessoas e Gestão de Marketing, além de pós-graduação em Logística, atuou em grandes empresas como Xerox do Brasil e Polaroid, e afirmou que uma das principais chaves para ter uma carreira promissora é trabalhar com o que gosta: “Escolha fazer alguma coisa que você tenha prazer, porque, segundo Aristóteles, quem faz o que gosta, se diverte a cada dia”.

Panesi: "Escolha fazer alguma coisa que você tenha prazer". (Foto: Gian Cornachini)

Panesi: “Escolha fazer alguma coisa que você tenha prazer”. (Foto: Gian Cornachini)

O administrador acredita que o profissional precisa ter atitude e não esperar as oportunidades aparecerem. Segundo Panesi, a postura de quem está interessado em crescer determina, de fato, o que ele quer: “Quantas pessoas vocês conhecem e que estão no Facebook fazendo absolutamente nada? E depois vão dizer que vocês deram sorte? Nada cai do céu. Se vier uma coisa muito de graça, desconfie do custo que vocês vão ter que pagar por aquilo”, ponderou ele.

“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê”

Evento na FEUC debate inclusão e acessibilidade para pessoas cegas ou com baixa visão e o papel do professor de português nesse processo

Por Pollyana Lopes

Aconteceu na FEUC, na última quarta-feira, dia 6 de julho, o “I Encontro de Educação, Acessibilidade, Arte e Inclusão”, um evento para oficializar a participação da FEUC na Rede de Leitura Inclusiva, um dos projetos da Fundação Dorina Nowill, e celebrar o primeiro aniversário da Lei Brasileira de Inclusão.

A parceria da FEUC com o projeto é mais um fruto das atividades do PIBID Letras que, por meio da Produção de Acervo de Áudio, aproximou-se da Fundação Dorina, uma instituição que há 70 anos trabalha pela inclusão social de pessoas com deficiência visual. O objetivo era fazer com que as gravações de textos de domínio público lidos por estudantes de escolas públicas, sob a orientação de bolsistas das FIC, chegassem a cegos e portadores de baixa visão. Com a integração da FEUC à Rede, a parceria entre as instituições se fortalece e reforça o compromisso de ambas em promover ações voltadas para pessoas com deficiência visual.

"Não dá para pensar educação sem pensar em amor, em fraternidade. Não dá para pensar em inclusão, em acessibilidade sem também pensar em amor, em fraternidade, em respeito", declarou o professor Erivelto Reis, sobre o tema do debate, "Incluir com Qualidade e Amor". (Foto: Pollyana Lopes)

“Não dá para pensar educação sem pensar em amor, em fraternidade. Não dá para pensar em inclusão, em acessibilidade sem também pensar em amor, em fraternidade, em respeito”, declarou o professor Erivelto Reis, sobre o tema do debate, “Incluir com Qualidade e Amor”. (Foto: Pollyana Lopes)

“Esse encontro faz de todos os presentes cofundadores, testemunhas, parceiros também desse compromisso que a FEUC já vem trabalhando há algum tempo e que, a partir de agora, está assumindo definitivamente, tornando público para a comunidade de estudantes e para a comunidade externa”, frisou o professor Erivelto Reis.

O evento contou com a projeção do documentário “Janela da Alma”, um filme dos diretores João Jardim e Walter Carvalho, com depoimentos de homens e mulheres com diferentes níveis de deficiência visual. E também com falas do professor das FIC e psicólogo Marco Antônio Chaves, da professora da rede estadual Tatiana Reis, e do estudante do 3º ano do Colégio Albert Sabin Jeanderson Baptista, que é cego.

Tatiana falou sobre os desafios dos professores e das escolas em estar atender pessoas com deficiências. (Pollyana Lopes)

Tatiana falou sobre os desafios dos professores e das escolas em estar atender pessoas com deficiências. (Pollyana Lopes)

Tatiana falou sobre o papel de professores de português nos processos de inclusão, e declarou que o objetivo do educador é sensibilizar os estudantes para o texto e desenvolver neles autonomia para o aprendizado. Jeanderson, que foi aluno de Tatiana há dois anos, comentou sobre o seu processo de aprendizagem, alguns métodos e sua experiência como monitor na Sala de Recursos, um espaço, no Colégio Albert Sabin, que conta com materiais e atividades pedagógicas complementares orientadas por um Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado, com o objetivo de apoiar estudantes cegos, surdos e portadores de síndromes. O professor e psicólogo Marco Antônio destacou que, na qualidade de psicólogo, a prática de consultório o fez acreditar que uso da palavra deficiência reforça a diferença como algo pejorativo na sociedade e prefere o uso de outros termos, como disfunção.

 

Jeanderson está terminando o Ensino Médio, atua como monitor na Sala de Recursos auxiliando colegas e contou que acabou de passar em um concurso para o INSS. (Foto: Pollyana Lopes)

Jeanderson está terminando o Ensino Médio, atua como monitor na Sala de Recursos auxiliando colegas e contou que acabou de passar em um concurso para o INSS. (Foto: Pollyana Lopes)

Por fim, a fala do poeta Manoel de Barros no documentário “Janela da Alma” poetiza a ação cotidiana de quem atua no sentido de incluir socialmente pessoas com deficiências visuais, principalmente por meio da leitura. Jeanderson e os demais cegos não contam com o olho para ver, mas as palavras faladas podem inspirar as lembranças a serem revistas e, assim, o conhecimento a ser produzido por meio da imaginação, que transvê um mundo mais acessível, inclusivo e justo. Como complementa o poeta, “É preciso transver o mundo”.

Testando a didática com Cambridge

Incentivados por professor, estudantes do curso de Letras se preparam para fazer prova internacional que avalia conhecimentos pedagógicos

Por Pollyana Lopes

Uma avaliação que atesta internacionalmente que o professor é qualificado para dar aulas de inglês: assim é o Teaching Knowledge Test (TKT), um exame aplicado pela Universidade de Cambridge em diversas partes do mundo. Para quem já atua como professor de inglês, o certificado é um reconhecimento das habilidades e experiências do profissional; para quem está prestes a se formar, pode ser um diferencial na hora de disputar uma vaga.

Sabendo disso, o professor Victor Ramos, ao lecionar a disciplina Didática do Ensino de Língua Portuguesa e de Língua Inglesa, incentivou os alunos a fazerem o teste, oferecendo, inclusive, aulas preparatórias aos sábados para os interessados. Quem aceitou o desafio foi liberado de fazer apenas a prova escrita, tendo que cumprir, como avaliação da disciplina, outros instrumentos como fichamentos, resumos críticos e a produção de uma videoaula.

Professor utiliza material didático específico nos encontros de preparação dos alunos, que acontecem aos sábados. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor utiliza material didático específico nos encontros de preparação dos alunos, que acontecem aos sábados. (Foto: Pollyana Lopes)

Victor explica que os conteúdos da disciplina estão de acordo com o que é exigido no teste, e por isto este seria um bom momento para os alunos se submeterem ao TKT: “basicamente, tudo o que é cobrado na avaliação, a disciplina foi um preparatório. E não só esta disciplina, como todas as outras. A gente sempre levanta a questão nos nossos encontros ‘Lembra do conteúdo do primeiro período? É cobrado na avaliação! Lembra do conteúdo do terceiro período?’… Quer dizer, as questões que foram trabalhadas ao longo da graduação são recorrentes para a prova TKT”.

Os alunos concordam que a formação que tiveram ofereceu bases sólidas para que eles estivessem preparados para o teste. Mesmo assim, as estudantes se surpreenderam: “Eu achei tão fácil que eu não acreditei. Mas é por isso, toda a bagagem que a gente tem das outras disciplinas desde o início da graduação”, declarou Tainá Souza de Oliveira Tavares, do 5º período. “A prova é muito mais fácil do que eu pensei que seria. Porque quando eu ouço o nome Cambridge eu acho que é uma coisa dificílima, mas vendo e estudando o livro preparatório, dá para ver que é bem possível”, complementou Lorena Stellet de Lima, estudante do 7º período.

Enquanto os demais estudantes inscritos na disciplina fazem a prova escrita e concluem o semestre, o grupo de dez alunos continua tendo aulas, já que a prova será realizada no dia 22 de julho, e os encontros preparatórias continuam aos sábados. Mas, eles acreditam que vale a pena:

“Não está fácil conseguir emprego. Eu fiz várias entrevistas e não passei, pela falta de experiência. Eu acredito que o peso dessa prova no meu currículo vai fazer a diferença, vai fazer com que eu tenha mais oportunidades”, concluiu Nayara Martins de Almeida, do 5º período.

VII Encontro de Artes e Surdez lota auditório da FEUC

 

Evento reuniu alunos, ex-alunos, professores e familiares dos participantes do curso de Português para Surdos, ministrado gratuitamente pela professora Maria José Brum às quintas-feiras

Por Tania Neves

Maria José fala para a plateia de alunos, ex-alunos e familiares que prestigiaram o evento

Maria José fala para a plateia de alunos, ex-alunos e familiares que prestigiaram o evento

“A senhora é meio suspeita de falar porque a senhora me ama. As pessoas que me amam são muito suspeitas para falar”, brincou a professora Maria José Brum ao fim do discurso de Dona Sheila, mãe de um dos mais novos alunos que frequentam, às quintas-feiras na FEUC, o curso de Português para Surdos, ministrado gratuitamente por ela e um grupo de voluntários formado por alunos da graduação de Pedagogia das FIC e outras pessoas que aderiram à belíssima causa: ajudar surdos e deficientes auditivos a aprimorar seu domínio da língua portuguesa, e assim superar as barreiras comunicacionais que prejudicam seus estudos.

Mas se quem ama Maria José fosse mesmo suspeito para falar… não sobraria nenhum “não suspeito” em quem se pudesse confiar, pois no auditório lotado para o VII Encontro de Artes e Surdez, na noite de segunda-feira passada, simplesmente não havia quem não se derramasse em elogios, declarações de amor eterno e agradecimentos à professora.

Trabalho feito com profissionalismo e amor, e que ajuda a mudar vidas

Dona Sheila, atendendo ao convite para ir ao microfone dar seu depoimento, comentou que o filho Anderson Claiton está entusiasmado com as aulas de português, aprendendo com Maria José as letras, os números, e que isso tem sido um estímulo para ele gostar mais dos estudos: “Quando fala que é pra vir pra cá, ele se arruma com alegria… e eu só tenho a agradecer. A ela, aos voluntários, às mães… na verdade, a todos. Porque aqui somos uma família. E eu quero agradecer a Deus, primeiramente, e a cada um de nós que estamos aqui, doando nosso tempo, dando amor, e ensinando e aprendendo”, disse Sheila.

Dona Sheila expressa sua gratidão e admiração pelo trabalho feito por Maria José

Dona Sheila expressa sua gratidão e admiração pelo trabalho feito por Maria José

Maria José Brum, professora de Libras das FIC, agradeceu o discurso e completou: “Todo esse tempo eu mais tenho aprendido do que ensinado. Vocês aqui são os protagonistas”.

O VII Encontro de Artes e Surdez tem o objetivo de reunir alunos, ex-alunos, professores, voluntários, familiares e simpatizantes para uma noite de celebração e apresentações artísticas. Esta edição teve palestra, uma apresentação de dança e esquetes de teatro. O evento foi aberto pelo professor Valdemar Ferreira, coordenador Acadêmico das FIC, que festejou o fato de que, a cada ano, o encontro reúne mais gente e mostra mais vigor. “É um ganho para a disciplina de Libras, mas sobretudo para os alunos”, disse ele. Também a professora Maria Lícia Torres, coordenadora do curso de Pedagogia, deu um pulinho no auditório entre uma aula e outra para cumprimentar o público e parabenizar pelo encontro.

Palestra sobre a importância da profissionalização dos intérpretes

Ruan Diniz: intérprete precisa se profissionalizar

Ruan Diniz: intérprete precisa se profissionalizar

O convidado especial Ruan Diniz, intérprete profissional, instrutor de Libras no Senac e que também trabalha na TV Ines, fez palestra sobre a importância da qualificação dos intérpretes, no sentido de tornar cada vez mais profissional a tarefa de fazer a ponte comunicacional entre surdos e ouvintes, derrubando assim as barreiras linguísticas que acabam impedindo que os surdos estudem e se desenvolvam nas profissões que desejarem seguir. “O intérprete ajuda o surdo não porque ele é bonzinho, mas porque é a profissão dele. É preciso que o intérprete tenha proficiência em Libras, que estude, que se especialize. Isso é uma profissão”, enfatizou.

Entre um e outro discurso ou apresentação, Maria José seguia em seu papel de mestre de cerimônias e sorteava brindes para os convidados – caixas de bombons, perfumes e outros mimos. Sempre ressaltando a importância do encontro, a oportunidade de a cada dia tornar o curso de Português para Surdos mais acolhedor para aqueles que o frequentam.

Professores de Libras presentes na plateia falaram sobre seu trabalho e exaltaram a iniciativa de Maria José de oferecer um curso gratuito de Português para Surdos. As aulas acontecem todas as quintas-feiras na FEUC, entre 16h e 18h, e os interessados em ingressar na turma podem chegar. Basta se identificar na portaria e dizer que quer ir para a aula da professora Maria José.

A irmã Celi: a razão de Maria José transformar seu sonho em ação

Já perto do fim do evento, Maria José comentou que muitas pessoas costumam perguntar por que ela gosta tanto dos surdos, por que gosta tanto de falar com eles. E ela respondeu dando a palavra à irmã, Celi, que é surda e foi desde sempre a primeira razão para que ela se interessasse por estudar Libras e se dedicar à missão de tornar a vida dos surdos menos complicada do ponto de vista comunicacional.

Com vocês, Celi:

Maria José e a irmã Celi: emoção pura nas lembranças do passado

Maria José e a irmã Celi: emoção pura nas lembranças do passado

“Hoje é a primeira vez que eu estou aqui, juntamente com a minha irmã, Maria José, a minha irmã que eu amo muito, muito, muito. E eu me emociono muito por estar aqui, eu amei conhecer todos vocês”, disse Celi, elogiando o palestrante Ruan, as mães, professores e alunos que deram seus recados no encontro. E emendou com um relato mais pessoal: “A minha irmã, lá atrás, lá no passado, quando ela era criança e eu também, era eu quem fazia carinho, eu que estava com ela. Ela não sabia Libras, ela não sabia nada. Aí eu dizia ‘coitada da minha irmã, eu vou ajudar minha irmã’, aí ela foi aprendendo comigo, ela foi se desenvolvendo e tudo o que ela sabe hoje é graças a mim”, disse Celi, para delírio da plateia e da própria Maria José, que completou: “Verdade, verdade, verdade!”.

Esquetes de teatro para tirar os ouvintes da “zona de conforto”

A noite se completou com a apresentação de uma peça de teatro escrita e dirigida pelo casal de ouvintes William e Adriana, e interpretada por surdos e ouvintes. Os autores se dedicaram a um exercício de inversão da realidade: imaginar o mundo povoado por uma maioria de surdos, com poucos ouvintes precisando se “integrar” a esta sociedade, e enfrentando as dificuldades que os surdos enfrentam no mundo real. Em quatro esquetes, foi possível entender a agonia por que passam os surdos numa sociedade que pouco faz para que eles de fato possam se integrar.

Num dos esquetes, o ambiente era um banco, onde o atendente era surdo, e chega uma cliente ouvinte, pedindo ajuda para usar o caixa eletrônico. Como ela não consegue se comunicar com ele, e não há um intérprete à disposição, ele apenas faz um sinal para que ela espere. Aí entra uma surda, pede a ele a mesma ajuda que a outra pedira, e ele prontamente atende – para desespero da primeira, que brada que “chegou primeiro”, que ele “nem deu bola pra ela” etc. Ou seja: exatamente o que vivem os surdos em todo local onde não há intérpretes (como manda a lei) e nem os ouvintes dominam o mínimo de Libras para interagir com eles.

Participantes dos esquetes de teatro agradecem os aplausos

Participantes dos esquetes de teatro agradecem os aplausos

Em outro esquete, uma cidadã ouvinte entra desesperada na delegacia para denunciar que fora assaltada. O policial civil nada compreende, e o PM que chega em seguida também não. Inconformada, ela deixa a delegacia reclamando muito pelo mau atendimento. E os policiais, já que “o dia está tranquilo”, saem para tomar um cafezinho. Isso te lembra alguma coisa?

VEJA MAIS FOTOS DO VII ENCONTRO DE ARTES E SURDEZ

Letras: Semana Acadêmica do curso completa 25 anos com dezenas de atividades

 

Durante quatro dias de evento o público pôde enriquecer seus conhecimentos com palestras, mesas-redondas, oficinas e diversas outras programações

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Há quem diga que parece ter sido ontem que o curso de Letras das FIC promoveu, pela primeira vez, sua Semana Acadêmica. Mas o fato é que o evento já está na 25ª edição, garantindo o sucesso de sempre, seja por meio de suas ricas palestras ou por relatos e experiências de estudantes e professores com um único objetivo: fortalecer o saber teórico, técnico e humano do universo das Letras. E, neste ano, para comemorar seu Jubileu de Prata, a temática central foi “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo” — fio condutor de quase meia centena de atividades, entre comunicações científicas, palestras, mesas-redondas, oficinas, exposições e muito mais. Um resumo da Semana Acadêmica — que aconteceu de 31 de maio a 3 de junho, nos períodos da manhã e da noite — você confere a seguir.

Reencontro com a FEUC: ex-alunos relembram trajetória acadêmica

Para introduzir os graduandos no clima dos 25 anos da Semana, uma mesa-redonda foi organizada com a presença de ex-alunos de destaque. Ao público, eles contaram um pouco sobre como foi seu percurso acadêmico e as experiências pós FEUC.

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

O ex-agente da Polícia Militar Rodrigo Torres está apaixonado por dar aula e valoriza a mudança de carreira: “Graças a Deus eu saí da PM. Hoje eu faço o que gosto, e isso não tem preço. Não desistam e não parem de estudar. Tem que chegar em casa, sentar e pesquisar, preparar a sua aula, porque o aluno não vai engolir tudo o que você disse”.

Ramayana Del Secchi Linhares se formou recentemente e já atua como professora no Município, tendo dicas a oferecer: “Na maioria das vezes o aluno não acredita que é capaz porque os pais também não acreditam. Cabe a vocês, que tiveram uma boa formação, mostrar que esse aluno é capaz, porque se a educação não for para fazer diferença, então ela não valerá a pena”, ressaltou. Armando de Carvalho, que trabalha com educação para presidiários, concorda com Ramayana e procura, assim como a professora, transformar a vida dos detentos por meio da educação: “É muito importante atuar como incentivador, estimulador daquela criatura à sua frente que está ansiosa para ouvir o que você tem a dizer. O segredo todo é inspirar”, afirmou.

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Embora não pretenda ser professora, a atriz Gui Soarrê, também formada recentemente em Letras nas FIC, valoriza a profissão dos colegas: “Lecionar não é a minha grande paixão, mas eu acho uma profissão heroica. Vou usar a poesia e o teatro para também tocar as pessoas, usar o poder humanizador da arte para tocar essa essência humana”, disse Gui.

A coordenadora do curso, Arlene da Fonseca Figueira, fez uma análise das falas, destacando o respeito de todos pela figura do educador: “Nem todos são professores, mas todos são ex-alunos bem sucedidos, cada um com suas escolhas. E a voz que me encantou aqui é o respeito ao professor. Nossa sociedade e os políticos não têm esse mesmo respeito, mas só conseguiremos ir à frente quando respeitarem o professor e valorizarem a educação”.

CD “No caminho das Letras” é lançado no evento

Os professores Erivelto da Silva Reis e Arlene da Fonseca Figueira, à frente do subprojeto “Produção de Acervo de Áudio” (Letras/Português) do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) nas FIC, aproveitaram a Semana Acadêmica para apresentar aos estudantes o CD “No Caminho das Letras”. A produção, destinada a deficientes visuais, reúne diversas gravações de clássicos da literatura em domínio público, além da obra do poeta Primitivo Paes, lidas por estudantes do Ensino Fundamental II da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guaratiba. Erivelto revelou a satisfação de ter concluído o trabalho: “Esse CD é um motivo de orgulho para nós. Despertamos a leitura e compreensão do que os alunos liam e discutiam. Eles se tornaram sujeitos de sua própria leitura e entendiam que a pessoa cega que ouvirá os áudios dependerá da emoção, boa leitura e interpretação do texto”.

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Joyce da Silva dos Santos, uma das alunas bolsistas do subprojeto e que apresentou um resumo do trabalho aos licenciandos, contou o que aprendeu com a atividade do Pibid: “Eu não posso simplesmente chegar na escola e apresentar Machado de Assis sem contextualizar e mostrar o que posso tirar dali. A gente tem que puxar um ganchinho com as nossas experiências para perceber os efeitos da literatura em nossa vida e ver o que ela tem em comum com a gente”, destacou ela.

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Homenagem póstuma à ex-coordenadora do curso

A 25ª Semana de Letras também dedicou uma atividade a relembrar uma figura bastante importante para o curso das FIC: a professora Miriam da Silva Pires, falecida em fevereiro de 2013, quando era professora do curso de Letras da UFRRJ. Antes de passar no concurso para aquela instituição (em 2010), Miriam foi, durante anos, coordenadora de Letras das FIC. Ela esteve na organização de diversas edições da Semana Acadêmica, colaborando com a consolidação de um dos eventos mais importantes da FEUC.

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Os professores Erivelto Reis — que teve a oportunidade de ser aluno de Miriam — e Flávio Pimentel — que teve a honra de compartilhar mesas-redondas com a professora — contaram os momentos mais marcantes que tiveram com ela e destacaram sua importância para o curso de Letras das FIC: “Você ficava impressionado de onde vinha tanto conhecimento e as relações que ela estabelecia entre as diferentes áreas do saber. Celebrar a memória dela é celebrar o legado de uma pessoa que lutou a vida toda para que a educação transformasse a vida das pessoas”, ressaltou Erivelto. “Em nossas conversas entre filosofia e literatura havia uma proximidade muito grande [dos saberes], até o ponto de que eu nunca mais deixei de apresentar alguma coisa na Semana de Letras”, lembrou Flávio.

Antes de partir para os EUA, uma colaboração com a Semana

André Nascimento se formou em Letras (Português/Inglês) nas FIC em 2014, emendou na pós-graduação em Língua Inglesa, também na FEUC e, agora, ruma aos Estados Unidos para cursar, com bolsa integral, o mestrado em Português e Literaturas pela The University of New México (leia a reportagem “Da FEUC para o mundo” sobre a conquista do mestrando). Durante os próximos anos, André vai pesquisar a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas, mas, antes de partir para terra dos ianques, ele deu uma “palinha” dos seus estudos como convidado a palestrar na Semana de Letras. “O Carandiru e o medo: a masculinidade e a violência social em voga (des)cortinados pela narrativa fílmica” foi o tema de sua apresentação, que buscou esclarecer a relações machistas e de masculinidade no filme brasileiro Carandiru (2003).

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo André, a lógica de estupro dentro do presídio passa por um conceito de “herói” de uma “mitologia invertida”, além da constante necessidade de se autoafirmar como forte e macho: “Para que um detento tenha status de homem, ele precisa diminuir o outro. No banho, eles nunca ficam de bunda para o outro, ou seja, uma questão de autoafirmação”, ponderou André. “Um prisioneiro precisava fazer uma cirurgia, mas o médico disse que seria muito arriscado. E, ainda assim, o homem afirmou ter duas balas no corpo e que, portanto, aguentaria. Mesmo em meio à dor, afirmar-se como homem era altamente relevante”.

Para o estudante, esses fenômenos acontecem porque o homem latino-americano segue um padrão do que é ser homem, por diversas vezes carregado de valores sexuais: “É preciso ter uma habilidade sexual como maratonista para se aprovar e nunca pode dizer não ao sexo com uma mulher, porque aí a sua masculinidade seria confrontada”, explicou.

O Ciclo do Café e a produção literária

Em um intercâmbio entre História e Literatura, os professores Erivelto Reis, de Letras, e Márcia Vasconcellos, do curso de História, articularam contexto histórico e a produção artística e literária durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba.

Márcia falou das condições específicas que tornaram essa região privilegiada para a produção de café, na época, e forjaram os grandes barões do período. Além de mostrar o desejo deles em integrar a nobreza:

“Ao contrário de outras áreas, onde os cafeicultores investem em grandes inventários e casas opulentas para demonstrar riqueza e poder, em Vassouras não vai ficar só nisso, e como consequência surge uma vida urbana e cultural”, explicou. O professor Erivelto complementou: “Para eles, apenas ser rico não era suficiente, eles queriam fazer parte da elite. Conhecer a história desse período ajuda a gente a entender a ideia de elite no Brasil”, revelou.

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Também foi colocado por ambos os professores o papel da escravidão nessa sociedade. Márcia destacou as estratégias de sobrevivência e leitura dos escravos como sujeitos históricos. Erivelto, que faz pesquisa na região, contou que o tema é ausente nas visitas guiadas e museus do local, e fez um apelo aos estudantes: “Fica o convite para a galera de Literatura para, quando estudar romantismo, discutir essas relações, sobretudo aquela geração condoreira, Castro Alves, Gonçalves Dias. É preciso perceber o que esses homens estão vendo para escrever literatura. E eles estão vendo isso aí, sofrimento, escravidão, poderio econômico, opulência, esses homens achavam que não iam empobrecer nunca”.

A literatura dentro dos livros e no palco

Além de palestras, mesas-redondas e comunicações coordenadas, a Semana de Letras também apostou no lúdico como forma de conhecimento. Em sintonia com o tema do evento, “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo”, o espetáculo teatral “De dentro dos livros” arrancou risadas e também levou à reflexão. A peça fez uma oposição entre leitura e tecnologia, na qual personagens dos livros se materializaram em busca de novos leitores, já que estão desaparecendo devido ao interesse das crianças pela tecnologia.

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

A ideia de apresentar a obra partiu da estudante do 3º período de Letras Amanda Barboza, que também foi monitora da Semana. Ela, que é atriz e integra o Grupo Pipa, disse ter se surpreendido com o resultado, já que o espetáculo é mais voltado para o público infantil. “Eu até chamei uns alunos do CAEL para assistirem, mas as pessoas mais velhas também gostaram muito e riram bastante, porque mesmo as peças infantis têm apelo para outros públicos. O teatro foi a minha primeira profissão, conseguir a arte com a minha segunda profissão, que é ser professora, eu achei ótimo”, disse.

“As minhas raízes são aqui”

Pelos corredores da FEUC, no último dia da Semana de Letras, o professor Gustavo Adolfo da Silva  poderia passar despercebido pelo pátio não fosse o cumprimento dos mestres do curso de Letras acolhendo-o, agradecendo sua presença e parabenizando-o. Convidado a palestrar, ele não pôde participar por conta de outros compromissos, mas fez questão de prestigiar o evento. Gustavo, que é professor aposentado pela UERJ, cursou mestrado e doutorado na UFRJ e tem 13 livros publicados — sendo três de poesia — garante que a FEUC é a sua casa: “A minha graduação foi aqui, minha primeira especialização foi na FEUC, sou morador de Campo Grande. Eu dei aulas aqui durante dez anos, as minhas raízes são aqui”, disse.

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre 1974 e 1984 Gustavo lecionou disciplinas de Filologia, Sintaxe e Estilística. Sua atuação como professor, no entanto, foi passada adiante por meio de seus livros e das histórias de colegas. O professor Erivelto foi um dos que o encontraram e não perdeu a oportunidade de agradecê-lo: “Querido mestre, que satisfação reencontrá-lo. Seja bem-vindo a esta casa mais uma vez, é uma inspiração para nós. A sua presença nos honra muito e nos incentiva a continuar, porque os seus ensinamentos são importantes e a sua trajetória profissional é de inspiração para todos nós”, saudou.

Ligeiramente tímido, ele agradeceu o reconhecimento e o dedicou ao magistério: “Quando a gente está nessa idade, eu tenho 70 anos, sempre dedicado ao magistério, o magistério foi minha vida, é muito bom ouvir isso. É muito gratificante, para mim, ter o reconhecimento de ex-alunos, daqueles que leram os meus trabalhos. São coisas que a gente pode dizer que valeu a pena. A atividade docente vale a pena pelo reconhecimento de todos aqueles que eu convivi ao longo da minha vida”, acentuou.

Enquanto esperava sua neta que estuda no CAEL, ele aproveitou para mostrar, aos estudantes, seus livros que estavam à venda na banca do evento. Desconhecido da maioria, mas fundamental para a história do curso de Letras das FIC.

Mais fatos e fotos:

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda "Letramento literário como ferramenta de inclusão", na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda “Letramento literário como ferramenta de inclusão”, na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda "Pibid na formação continuada do docente" e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda “Pibid na formação continuada do docente” e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso "Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca", que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso “Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca”, que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Que Zona Oeste queremos? A questão norteou debate na FEUC

Representantes de movimentos sociais da região trouxeram temas que gostariam de ver contemplados nas políticas públicas, de modo a se sentirem mais pertencentes à cidade onde vivem

Por Tania Neves

“Se a Zona Oeste fosse nossa” foi o tema do Espaço de Diálogo aberto na noite de segunda-feira no Auditório FEUC, recebendo três mulheres representantes de movimentos sociais da região que trouxeram relatos e propostas para debate com o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, partido que há um ano e meio lançou o Programa/Movimento “Se a Cidade fosse nossa”, com o objetivo de recolher subsídios para sua proposta de gestão da cidade do Rio de Janeiro num eventual futuro governo. Bernardete Montezano, da Rede Carioca de Agroecologia Urbana; Bianca Wild, do Ecomuseu de Sepetiba; e Thamires de Lima Guedes, aluna de Ciências Sociais e educadora social na Fundação Xuxa Meneghel, abordaram alguns dos muitos temas que a população da região gostaria de ver contemplados nas políticas públicas municipais, como questões ambientais, segregação socioespacial e vulnerabilidade da juventude.

Plateia participa atentamente do Espaço de Diálogo

Plateia participa atentamente do Espaço de Diálogo

‘Na cidade que a gente quer, se produz alimento de verdade, alimento vivo!’

Após as boas-vindas dadas pelas professoras Célia Neves, coordenadora de Ciências Sociais, e Rosilaine Silva, coordenadora de Geografia, a jornalista e agricultora Bernardete Montezano iniciou o diálogo abordando as dificuldades enfrentadas pelos agricultores familiares na região, com a crescente invisibilização e inviabilização de sua atividade. Bernardete frisou que, se estivesse falando para um público de outro lugar, certamente teria que começar seu relato informando que esta cidade tem agricultura, pois, para além da vizinhança dos agricultores familiares, poucas pessoas sabem que o município do Rio de Janeiro produz alimentos. Segundo ela, o atual Plano Diretor exclui a agricultura e persegue o agricultor: “No Maciço da Pedra Branca, criaram um parque estadual nos anos 70 com regras feitas à revelia de quem já estava ali há gerações, cultivando a terra. Hoje tem até uma polícia específica para reprimir as pessoas que vivem e viveram ali a vida toda”, denunciou.

Bernardete tocou num ponto interessante sobre as Unidades de Conservação Ambiental, que se apresentam com o objetivo de preservar a floresta remanescente e a biodiversidade, e em nome disso combatem a agricultura em seu entorno: “Eles não concebem a presença de pessoas nas unidades de preservação, esquecendo que são justamente as pessoas que vivem lá que garantiram a sobrevivência dos bichos e das plantas”, argumentou.

A agricultora fechou sua fala descrevendo como seria a sua Zona Oeste: “Na cidade que a gente quer, se produz alimento de verdade, alimento vivo. Nessa nossa cidade, a Vila Autódromo fica, a agricultura fica, os agricultores e as agricultoras terão protagonismo”.

Ecomuseu: a comunidade desenvolvendo o território a partir da valorização de sua história

Bernardete, Bianca, Thamires e Freixo na mesa de debates

Bernardete, Bianca, Thamires e Freixo na mesa de debates

Professora e socióloga, Bianca Wild seguiu desenhando essa Zona Oeste dos desejos de quem nela mora ao explicitar os objetivos do Ecomuseu de Sepetiba, do qual é fundadora: ali se realizam ações museológicas para desenvolver o território, a partir da valorização do lugar onde as pessoas vivem. A ideia de ecomuseu é quando membros de uma comunidade decidem o que ali merece ser preservado e desenvolvido, incluindo desde o entorno natural até as construções, as populações e os modos de vida, entre outras características. Não por acaso, o lema do Ecomuseu de Sepetiba é “Espelho onde se revê e se descobre a própria imagem”, já que o ponto fundamental para os moradores é a Baía de Sepetiba, tão maltratada e degradada nos últimos 30 anos.

“A pesca e a balneabilidade, fundamentais para os modos de vida das marisqueiras e dos pescadores artesanais, foram arrasadas por este modelo desenvolvimentista que está aí. É isso que nós queremos recuperar”, disse Bianca, lembrando que a poluição causada principalmente pela multinacional TKCSA inviabilizou os meios de subsistência dessas populações tradicionais e empurrou marisqueiras para o trabalho de domésticas e pescadores para a construção civil. “A Zona Oeste que a gente quer vai valorizar as pessoas e sua história e sua memória, para que o ofício da pesca artesanal não se perca”.

E para os interessados em conhecer mais sobre o Ecomuseu de Sepetiba, ela deixou um convite: todo primeiro domingo do mês é feito um passeio de reconhecimento pela região, passando pelos lugares e histórias que a população quer preservar.

Jovens: entre outras dificuldades, precariedade do transporte impõe segregação socioespacial

A terceira convidada a falar foi Thamires de Lima Guedes, graduanda de Ciências Sociais nas FIC e educadora social do projeto Incidência Política e Participação Infantojuvenil (IPPI) da Fundação Xuxa Meneghel. Ela leu um relato sobre sua trajetória, da jovem de 16 anos atendida pelo IPPI até a militante e educadora social que hoje atua no mesmo projeto. Falou também dos problemas de Guaratiba, região onde mora, sobretudo os ligados à degradação ambiental, crescimento desordenado e precariedade de políticas públicas: “Guaratiba tem o tamanho de 65 Leblons, e nenhuma UPA. As ciclovias começam e terminam no nada. A criminalidade é cada vez maior, a violência parece não ter fim”, registrou.

Segundo Thamires, a precariedade do transporte público é um dos pontos que mais deixam transparecer que os governantes não enxergam esta cidade como sendo nossa. Afinal, quando não tem à disposição a oferta de um transporte rápido, farto e seguro, a população acaba sendo privada também de outros direitos, como cultura, educação, saúde, pois fica praticamente segregada naquele espaço em que os equipamentos públicos são raros ou mesmo inexistem. Na visão da educadora e estudante, é preciso dar mais voz e vez aos moradores da Zona Oeste, sobretudo os jovens, para que possam se apropriar mais do território em que vivem.

Em vez de Cidade Maravilhosa, um maravilhoso cenário para uma cidade

Na interlocução com as falas das convidadas, o deputado estadual do PSOL Marcelo Freixo começou definindo o “Se a cidade fosse nossa”: um movimento, em vias de se consolidar como um programa, que visa a recolher diretamente com a população subsídios para compor um futuro projeto de gestão para a cidade, de forma que as ações implementadas reflitam o que é melhor para a cidade real, de seus moradores, e não para a cidade vitrine, aquela que é vendida para os turistas e os investidores: “O Rio hoje é uma cidade mais de desejo do que de realidade, mais de negócios do que de direitos, onde quem vive não decide por ela. Os espaços de participação estão cerceados, principalmente na Zona Oeste e na Zona Norte”, disse.

Freixo: interlocução com os temas apresentados

Freixo: interlocução com os temas apresentados

O deputado concordou que o pior de todos os problemas é o do transporte, pois a mobilidade é ruim justamente para quem mais depende de se deslocar, que é o trabalhador e morador de localidades mais distantes. O que, segundo ele, resulta em não ter direito à cidade. Afinal, quando se gasta 3 horas e meia do dia para chegar a um lugar (Centro da cidade ou Zona Sul, por exemplo) e mais 3 horas e meia para voltar para casa, é como se te dissessem que não é para você ir àquele lugar, ele não te pertence. “Por isso que eu digo que o Rio não é a Cidade maravilhosa, e sim um maravilhoso cenário para uma cidade”, brincou o deputado, chamando a atenção para o fato de que não se deve aceitar a naturalização de que “ o trânsito é ruim assim mesmo”. Nada disso é natural: é assim porque interessa a algumas forças que seja assim. “É um processo perverso e pedagógico. Só muda isso se mudar a capacidade das pessoas de participarem”, frisou.

Quanto à questão do pouco acesso a bens culturais, Freixo apresentou alguns números que chocaram a plateia: enquanto nas Áreas de Planejamento 1 e 2 (que englobam a região do Centro e da Zona Sul) há 395 equipamentos culturais para cerca de 1,3 milhão de habitantes; as Áreas de Planejamento 3, 4 e 5 somam  cerca de 5 milhões de habitantes e contam com apenas 158 equipamentos culturais. “Podemos dizer que o morador das APs 1 e 2 tem o mesmo direito à cidade do que os outros?”, indagou o deputado.

Outro ponto que ele abordou, em resposta às muitas críticas feitas à empresa poluidora TKCSA, é a lógica de se receber uma empresa assim, dando R$ 500 milhões em incentivos fiscais em troca do fato de que ela geraria mil empregos na região. “Um complexo como a Cadeg, por exemplo, gera 6.800 empregos. Tem alguma coisa errada aí”, disse o deputado, em alusão ao fato de que a primeira causa poluição, degradação ambiental e doenças, enquanto a segunda abre opções de lazer, reforça a cultura regional e a convivência entre pessoas, além de ser igualmente uma atividade comercial lucrativa e que pagará impostos.

Freixo informou que todo o debate estava sendo gravado e que as propostas levantadas seriam incorporadas ao “Se a cidade fosse nossa”, e convidou todos e todas a conhecerem o site do programa/movimento e participarem com mais sugestões. Acesse AQUI a página.

Plateia reforçou pontos apresentados pelas convidadas e trouxe novos assuntos

Em sua participação, alunos e alunas das FIC e o público externo reforçaram os pontos abordados pelas convidadas, como as questões da degradação ambiental, crescimento desordenado e precariedade de transporte e segurança. E trouxeram novos pontos, como a luta de alunos e professores nas escolas ocupadas, a necessidade de expandir a malha ferroviária como opção para o nó da mobilidade urbana, as restrições impostas em certas áreas pela atuação da milícia.

Semana de Pedagogia: 27ª edição aborda os desafios de educar

 

Com o objetivo de fortalecer a formação dos professores, evento trouxe para o debate as possibilidades de desenvolver uma prática de ensino de forma reflexiva e crítica

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini

Há 27 anos acontece a semana acadêmica de um dos cursos mais tradicionais da FEUC: Pedagogia. E as demandas atuais da educação merecem discussões específicas, com o objetivo de fortalecer o ensino. É por isso que a XXVII Semana de Pedagogia abordou, entre os dias 16 e 18 de maio, a temática “Desafios, possibilidades, experiências e dilemas da Pedagogia contemporânea”, por meio de diversas palestras, oficinas, mesas-redondas e relatos de experiências. Na abertura do evento, o estudante Helton Tinoco já adiantou a importância da Semana para a formação dos alunos: “A gente, mesmo em espera, sem ter tantas possibilidades, deve buscar os desafios da nossa autonomia. A gente pode construir e deve construir um fazer pedagógico que estimule a reflexão e o pensamento de cada um dos alunos”. As 25 atividades da Semana, além das apresentações de trabalhos e lançamentos de livros, reuniram diversas experiências sobre esse fazer pedagógico apontado por Helton, e separamos, a seguir, um pouquinho do que aconteceu no evento.

Helton: "A gente pode construir e deve construir um fazer pedagógico que estimule a reflexão e o pensamento de cada um dos alunos". (Foto: Gian Cornachini)

Helton: “A gente pode construir e deve construir um fazer pedagógico que estimule a reflexão e o pensamento de cada um dos alunos”. (Foto: Gian Cornachini)

Mesa-redonda: Currículo, diversidade étnico-racial e formação de professores

O debate sobre “Currículo, diversidade étnico-racial e formação de professores” contou com a participação das professoras Janice Souza e Jane Souza, das FIC, e da professora da Secretaria Municipal de Educação do Rio, formada em Pedagogia também nas FIC, Luciana das Neves Rosa Costa.

Jane e Janice apresentaram a proposta do subprojeto Interdisciplinar do Pibid FEUC, que desenvolve ações didático-pedagógicas a partir da utilização de livros de literaturas africanas e afro-brasileira, e contaram suas experiências no Instituto de Educação Sarah Kubitschek (IESK). O colégio foi escolhido por abrigar o curso de formação de professor e, dessa forma, elas acreditam que o trabalho desenvolvido lá seja multiplicado quando os estudantes forem atuar profissionalmente.

Professora Jane apresentou o projeto Pibid Interdisciplinar e convidou duas alunos do IESK para relatarem suas experiências participando do programa. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Jane apresentou o projeto Pibid Interdisciplinar e convidou duas alunos do IESK para relatarem suas experiências participando do programa. (Foto: Pollyana Lopes)

A professora convidou duas alunas do IESK a assistirem à palestra, e elas aproveitaram para relatar ao público presente como o projeto modificou o olhar que elas tinham sobre o continente africano: “Participar do projeto mudou muito o meu pensamento, porque… acho que como todo mundo que vê a África através da mídia, eu pensava em um país pobre, um país que só tem coisas ruins, doenças. Mas quando a gente olha por um outro ponto de vista, que o projeto mostrou a nós, a gente vê que a África tem coisas boas, sim, tem riquezas, tem belezas e é um continente inteiro”, apontou Deise da Silva Francisco de Lima, estudante do 2º ano do Ensino Médio no IESK.

Deise da Silva Francisco de Lima é estudante do Instituto de Educação Sara Kubitschek e participa do projeto Pibid Interdisciplinar. (Foto: Pollyana Lopes)

Deise da Silva Francisco de Lima é estudante do Instituto de Educação Sara Kubitschek e participa do projeto Pibid Interdisciplinar. (Foto: Pollyana Lopes)

Já Mirian Piedade dos Santos, também aluna do 2º ano no IESK, destacou a importância de sentir orgulho de seus antepassados: “A gente viu que é um lugar com muita história. Em todos os países aparecem histórias de guerreiros, de lutadores, e a gente não dá o valor devido aos africanos. Tem gente que até alisa o cabelo com vergonha, com vergonha da cor da minha pele. Mas a gente tem que ver que não é vergonha, é orgulho, orgulho do povo que sempre lutou pela sua liberdade e, de um ponto de vista, para mudar a sociedade”.

A sala de aula é o que Luciana Costa escolheu para fazer sua parte na construção de uma sociedade diferente. A professora de Educação Infantil mostrou como inclui a diversidade étnico-racial nas aulas cotidianas. Ela também destacou sua formação na FEUC e a disciplina de História da Cultura Africana no Brasil: “A nossa faculdade é uma das pouquíssimas que tem isso no currículo, ainda mais enquanto obrigatório. É um privilégio que quem estuda na FEUC tem. Eu percebi isso quando comecei a ir para os espaços para discutir as relações étnico-raciais”, destacou.

Desafios da Educação Brasileira

Na palestra sobre “Desafios da Educação Brasileira”, as professoras Lúcia Baroni e Cristina Maia elencaram aspectos pedagógicos e administrativos que desafiam os profissionais na melhora efetiva da educação no Brasil. No quesito pedagogia, Lúcia Baroni destacou a falta de apoio da família e a necessidade de uma prática mais inclusiva:

“Qual é a diferença entre integração e inclusão? Integrar é colocar a criança dentro do ambiente escolar, incluir é preparar o ambiente escolar para receber a criança. Não existe professor inclusivo, existe escola inclusiva. A inclusão se dá desde o porteiro, o inspetor, porque todo mundo tem que se adaptar, o ambiente tem que estar pronto para a inclusão, senão, não é inclusão”, explicou.

Lúcia Baroni, Cristina Maia e a coordenadora do curso de Pedagogia, Maria Lícia, na palestra sobre os "Desafios para a Educação Brasileira". (Foto: Pollyana Lopes)

Lúcia Baroni, Cristina Maia e a coordenadora do curso de Pedagogia, Maria Lícia, na palestra sobre os “Desafios para a Educação Brasileira”. (Foto: Pollyana Lopes)

Já sobre os aspectos administrativos, Cristina Maia elencou a falta de apoio da família e formação docente fragilizada como pontos que precisam de mais atenção e esforço: “A gente precisa rever essa ideia de que a nossa formação está terminada. Não, nós estamos em um processo permanente. E precisamos sair dessa zona de conforto e não ficar aguardando que as coisas aconteçam. Nós precisamos fazer, apesar das condições adversas”.

Atendimento educacional especializado em pauta

Estudantes de Pedagogia foram protagonistas de algumas atividades da Semana. Os que já têm práticas educacionais puderam compartilhar suas experiências com os alunos. Foi o caso da formanda Edvane Cabral de Lima, que trabalha na direção geral do Centro Municipal de Atendimento Educacional Especializado (CEMAEE) de Itaguaí e que coordenou uma mesa-redonda com a participação de outras funcionárias do Centro. À plateia, ela mostrou fotos dos estudantes em atividades e contou como funciona o trabalho do CEMAEE, quais seus objetivos e a rotina de atendimento a alunos especiais: “A gente trabalha com a perspectiva de dar um suporte ao aluno especial regular, de acordo com as suas necessidades. Temos pedagogas, fonoaudiólogas e psicólogas apoiando não com um trabalho clínico, mas educacional, com o objetivo de que o aluno consiga se socializar na escola regular e não ficar segregado em uma escola especial, como uma ‘escola dos diferentes’”, esclareceu Edvane.

A aluna Edvane trabalha em instituição de apoio à estudantes especiais. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Edvane trabalha em instituição de apoio à estudantes especiais. (Foto: Gian Cornachini)

Educação emancipadora

Uma outra mesa-redonda também trouxe experiências para compartilhar com os graduandos das FIC, mas desta vez sobre uma escola municipal de Duque de Caxias que experimenta as possibilidades de um modelo educacional diferente do proposto pela Secretaria de Educação daquela cidade. O professor de ensino básico Eduardo Oliveira apresentou o dia a dia da escola Barro Branco, localizada no bairro de mesmo nome, onde trabalha desde 2007 com uma perspectiva de “educação emancipadora”.

Segundo o professor, a escola pretende formar alunos críticos e, para isso, precisa seguir um Projeto Político-Pedagógico diferente do praticado em outras escolas sob tutela da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias: “A gente quer que o aluno consiga ler o editorial recente de O Globo sobre a CPFM e fazer um link com um outro editorial do mesmo jornal, que anteriormente ‘metia o malho’ na CPFM. Queremos que eles sejam minimamente críticos da realidade para além da ideologia, e críticos e sujeitos do que eles irão produzir”.

Professor Eduardo compartilhou experiências de uma educação crítica e democrática na escola municipal Barro Branco, em Duque de Caxias. (Foto: GIan Cornachini)

Professor Eduardo compartilhou experiências de uma educação crítica e democrática na escola municipal Barro Branco, em Duque de Caxias. (Foto: GIan Cornachini)

Para isso se tornar possível, os estudantes são politicamente ativos na escola, que possui gestão democrática. Lá, não existe a figura do diretor. Tudo é decidido em conjunto, em contraponto a outras escolas que são subordinadas a diretores indicados por vereadores da cidade. Há eleição para representantes de turma, que participam ativamente do Conselho de Classe com os professores. A parte financeira da instituição que, a princípio, a gente imagina ser de responsabilidade dos adultos, passa pelo crivo das crianças, que ajudam a decidir o destino das verbas. Os professores também visitam as casas das famílias dos alunos com o intuito de entender a realidade imediata de cada estudante e como funciona a comunidade local. Com isso, eles conseguem se mobilizar pelas próprias causas, realizar passeatas e protestar por direitos.

“A gente está aqui para mostrar um outro tipo de educação, que é oposição ao que tentam impor a nós. Vai demandar mais força, mais trabalho, mas vai ser possível. O paraíso não é lá, mas o nosso Projeto Político-Pedagógico não é utopia. A gente tem o prazer de fazer algo ser de todo mundo, junto”, destacou Eduardo.

Contação de histórias

Tia Aninha (Ana Oliveira) já é uma figura conhecida na FEUC. Formada em Pedagogia nas FIC, ela sempre participa de eventos do curso, seja dando palestra ou oferecendo um curso sobre o que ela mais gosta de fazer: trabalhar com crianças e contar histórias. Nesta edição do evento, a pedagoga foi convidada a ministrar uma oficina para compartilhar seus conhecimentos sobre contação de histórias, e não faltou conteúdo para ajudar os futuros professores a aperfeiçoar suas habilidades na prática.

Tia Aninha deu dicas para alcançar objetivos educacionais por meio de contação de histórias. (Foto: Gian Cornachini)

Tia Aninha deu dicas para alcançar objetivos educacionais por meio de contação de histórias. (Foto: Gian Cornachini)

Para a profissional, o trabalho de contação de histórias requer que o professor seja sempre simpático, alegre, empático, e que receba seus alunos com sorriso e amor nos olhos, pois isso gera troca de confiança. Em relação à prática, Tia Aninha recomenda utilizar a voz em tons diferentes para marcar a mudança entre as figuras do conto. É necessário ter clareza e objetividade, além de usar palavras de fácil entendimento. É possível dar mais vivacidade à história munindo-se de artifícios corporais, como andar, correr e abusar de expressões faciais, pois, segundo a pedagoga, o corpo tem muito a falar, e isso ajuda a prender a atenção dos alunos: “Ao atrair a atenção, você terá bons resultados em seus objetivos, pois nenhuma contação de história é feita por fazer. A gente faz porque quer alcançar objetivos pedagógicos”, ressaltou Tia Aninha.

Orientação educacional atrelada às perspectivas profissionais nas escolas

Outra oficineira no evento foi a professora Selma Rosa de Oliveira, que ministrou a atividade “A orientação educacional da escola: uma possibilidade concreta de despertar perspectivas de vida profissional. O objetivo, com o trabalho, foi atentar para a importância do profissional de orientação educacional nas escolas e como ele pode auxiliar os alunos levando até eles um pouco do universo laboral, colaborando com suas futuras escolhas profissionais.

Selma: "O ideal é falar sobre o mundo do trabalho desde que os alunos são crianças". (Foto: Gian Cornachini)

Selma: “O ideal é falar sobre o mundo do trabalho desde que os alunos são crianças”. (Foto: Gian Cornachini)

A professora listou diversas práticas que podem ser adotadas na orientação educacional, e lembrou que trabalhar é praticamente uma regra de sobrevivência no modelo de sociedade em que vivemos, portanto é preciso que cada um seja feliz realizando suas tarefas: “O trabalho é nossa fonte de sustento, mas não nascemos para ser infelizes nele. É nessa perspectiva que o orientador educacional precisa trabalhar desde cedo na escola, e não deixar para fazer isso apenas no último ano do Ensino Médio. O ideal é falar sobre o mundo do trabalho desde que os alunos são crianças, não para ajuda-los desde cedo a fazer uma escolha, mas para que eles compreendam a sociedade em que estão inseridos e despertem sonhos”, propôs Selma.

Bonecas de barbante

O lúdico também se fez presente no universo adulto dos graduandos, enquanto despertava lembranças infantis em uma atividade oferecida por Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais das FIC. Na Brinquedoteca, em meio a rolos de barbantes, retalhos de tecidos, lãs e outros materiais, a professora convidou as alunas a retomar suas histórias passadas enquanto confeccionavam bonecas com os fios e tecidos. A proposta era a de ligar o fazer pedagógico com as histórias pessoais das alunas: “Construindo bonecas de barbante, podemos retomar nossas histórias e pensar as diferentes identidades de cada uma presente na atividade. Isso é importante para lembrar como vamos tecendo nossas identidades e, no momento em que a gente for lidar com as crianças, também ajudá-las a trabalhar com isso”, destacou Célia.

Professora Célia Neves, do curso de Ciências Sociais, ensinou estudantes a confeccionarem bonecas de barbante enquanto relembram histórias infantis. (Foto: Gian Cornachini)

Professora Célia Neves, do curso de Ciências Sociais, ensinou estudantes a confeccionarem bonecas de barbante enquanto relembram histórias infantis. (Foto: Gian Cornachini)

Manifestações culturais regionais na Educação Infantil

Uma das oficinas mais animadas foi a “Manifestações culturais regionais na Educação Infantil”, ministrada pela professora Roberta Asa Branca e pelo estudante de Pedagogia  Helton Tinoco. Depois de uma apresentação teórica sobre as possibilidades da utilização de cirandas, cantigas e brincadeiras regionais, os estudantes foram à brincadeira e, ao som do atabaque e do pandeiro da professora, dançaram e cantaram sobre jacaré, mulheres rendeiras, caranguejos, entre outros temas.

“As brincadeiras e as manifestações regionais estabelecem canais de comunicação, de interação social, promovem o acolhimento de diferentes culturas, religiosidades e valores. Não é só colocar a musiquinha, tem uma construção, tem um porquê, faz parte de um contexto”, explicou Helton.

Na oficina de "Manifestações culturais regionais na Educação Infantil", os estudantes aprenderam a importância das cirandas, cantigas e brincaram. (Foto: Pollyana Lopes)

Na oficina de “Manifestações culturais regionais na Educação Infantil”, os estudantes aprenderam a importância das cirandas, cantigas e brincaram. (Foto: Pollyana Lopes)

Experiências em exposição no pátio

O pátio da FEUC também esteve movimentado durante a XXVII Semana, com apresentações de trabalhos e exposições de experiências realizadas por professores e alunos nos domínios da pedagogia. A professora e poeta Rita Gemino, por exemplo, este ano optou por trocar as palestras e discussões por uma atividade mais lúdica: levou para o pátio, em momentos diferentes, três dos muitos projetos que já desenvolveu de tecedura de painéis literários – “Fuxicos e poesias: tecendo a leitura de versos”, “A Dona Contrariada (a tecedura de versos)” e “A tecedura do poema infantil de Mário Quintana”. Essa é a proposta de Rita para se trabalhar a poesia em sala de aula – segundo ela, uma dificuldade sempre relatada pelos professores. “Nós preparamos os tecidos com trechos das poesias e espalhamos pelo chão. Enquanto a poesia é falada, os alunos vão encontrando os versos e montando o painel, pois os pedaços de tecido se unem com velcro. É uma forma lúdica de penetrar no universo da poesia”, explica.

Professores da casa relançam livros na FEUC

Jairo Campos e Luiza Alves apresentaram suas publicações na semana de Pedagogia. (Foto: Gian Cornachini)

Jairo Campos e Luiza Alves apresentaram suas publicações na semana de Pedagogia. (Foto: Gian Cornachini)

A vice-coordenadora de Pedagogia, Luiza Alves, e o professor Jairo Campos lançaram, no início deste ano, seus livros de estudo — frutos de teses de doutoramento. Durante a Semana do curso, eles aproveitaram para relançar as publicações na FEUC, de modo a compartilhar com os estudantes suas análises sobre o universo docente.

“Sobre Fios de Identidades Docentes na Escrita Profissional dos Professores” é a publicação de Luiza. O livro discorre sobre a escrita do professor em seus registros de classe e cadernos pessoais de plano, a partir da implementação de políticas públicas da Secretaria de Educação do Município do Rio que visaram a padronizar o modelo de ensino. “O professor não precisa mais planejar a aula, pois tudo já vem pronto. Cadê a sua autonomia, o protagonismo desse professor?”, criticou Luiza. O livro está disponível na livraria Saraiva ao valor de R$ 39,90 (cliqueaqui para conferi-lo).

Já a publicação do professor Jairo Campos se aprofunda nas políticas públicas voltadas para a educação do Rio de Janeiro. Sob o título “A Gestão Gerencial da Educação Pública da Cidade do Rio de Janeiro”, a pesquisa demonstra as controversas faces dessas políticas, que surgiram com objetivo de acabar com o analfabetismo funcional dos alunos gastando menos recursos financeiros. Porém, na prática, isso não tem acontecido. O livro está disponível na Paco Editorial ao valor de R$ 53,91 (cliqueaqui para conferi-lo).

FEUC é palco de debate sobre reforma agrária

 

Evento realizado nos dias 10 e 11 de maio abordou Educação do Campo, saúde da mulher e os conflitos fundiários na América Latina

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Durante os meses de abril e maio, Instituições de Ensino Superior de todo o país debatem o campo na Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária. A campanha foi criada por professores que apoiam a questão e valorizam a discussão do assunto no meio acadêmico. Este ano, a terceira edição da jornada tem como tema “20 anos do massacre de Eldorado dos Carajás: as castanheiras lembram, e você?”, em referência ao dia 17 de abril, quando a chacina que matou 19 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Pará, completou duas décadas. Nos dias 10 e 11 de maio, a FEUC participou da programação, debatendo a Educação do Campo, a saúde da mulher e os conflitos fundiários na América Latina.

Reforma Agrária e Educação do Campo

Incluída no XVII Ciclo de Debates de História, a palestra “Os conflitos fundiários no Brasil e a Educação do Campo” contou com a participação de Luana Carvalho, do setor de educação do MST, e do coordenador do curso de Licenciatura em Educação do Campo na UFRRJ, professor Ramofly dos Santos.

Luana deixou claro que a educação é uma das principais bandeiras do MST. (Foto: Pollyana Lopes)

Luana deixou claro que a educação é uma das principais bandeiras do MST. (Foto: Pollyana Lopes)

Luana contribuiu para o debate apresentando o MST e mostrando como, desde a fundação do movimento, em 1984, a educação é parte essencial das lutas, tanto na democratização do acesso para os filhos de militantes e assentados quanto no sentido de repensar um modelo de ensino que seja libertador, que valorize os sujeitos, sua cultura e sua história. Ela explicou que as principais fontes teóricas que norteiam o trabalho do MST são a pedagogia socialista e a educação popular freiriana e que, a partir disso, o trabalho do movimento tem cinco matrizes: o trabalho como princípio educativo, a luta social, a História, a cultura e a organização coletiva.

“É necessário modificar forma e conteúdo, a escola de hoje não dá conta de fazer uma educação que seja libertadora a partir desses princípios. Precisamos formar sujeitos críticos e capazes de contribuir no processo de construção de seus assentamentos e da sociedade de modo geral”, destacou ela, já apresentando a situação da educação do campo no estado: “No Rio de Janeiro a gente ainda está na luta de construir escolas, já que cerca de 300 escolas do campo foram fechadas nos últimos anos”.

O professor Ramofly falou mais sobre a institucionalização da Educação do Campo enquanto modalidade da Educação Básica e inclusão no Ensino Superior. Ele explicou que o conceito de Educação do Campo surgiu em 1997, no I Encontro Nacional das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária (Enera), em oposição à ideia de Educação Rural, até então colocada no ensino formal.

Ramofly também falou como se aproximou dom os movimentos sociais. (Foto: Pollyana Lopes)

Ramofly também falou como se aproximou dom os movimentos sociais. (Foto: Pollyana Lopes)

“Quando o movimento cria o conceito de educação do campo, em 97, é exatamente para romper com o conceito de educação rural, que carrega uma ideia de rural negativa. E é muito importante o contexto no qual ele foi colocado: no I Encontro Nacional das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária (Enera). E quem estava lá, em sua grande maioria, eram educadores e educadoras dos movimentos sociais!”, disse, analisando a gênese do conceito de pessoas que lidam diariamente com o tema em oposição à ideia de educação rural, longamente institucionalizada: “Eram Pessoas que atuavam e ainda atuam com jovens e adultos nas áreas de reforma agrária. Ou seja, o conceito não surge nas universidades federais, nos gabinetes dos ‘ph-deuses’ nas universidades, o conceito surge com o MST, com Luana, com os movimentos, com quem lida todos os dias com a educação dessas pessoas do campo”.

A Saúde das Mulheres em oposição ao latifúndio

Para o Comitê Popular de Mulheres Zona Oeste a saúde da mulher está intimamente relaciona com o modelo de produção agrária imposta pelo agronegócio. Por isso, elas organizaram, junto à III Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária, o I Encontro Popular de Saúde das Mulheres da Zona Oeste. Para elas, os alimentos são o principal determinante da saúde e a forma como o latifúndio se organiza, fazendo uso intensivo e abusivo de agrotóxicos, expulsando trabalhadoras e trabalhadores do campo e destruindo saberes tradicionais, ameaça tanto a saúde humana quanto a saúde da terra.

Para saber mais sobre o encontro, leia nossa reportagem neste link.

Sílvia é agricultora e quilombola e falou do quanto a saúde está relacionada com a alimentação. (Foto: Pollyana Lopes)

Sílvia é agricultora e quilombola e falou do quanto a saúde está relacionada com a alimentação. (Foto: Pollyana Lopes)

América Latina e os grandes latifúndios

Para encerrar o evento, o professor da Uerj Paulo Alentejano, especialista na área de Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, e o integrante da direção nacional do MST Joaquín Piñero trouxeram à instituição um debate sobre “Os conflitos fundiários na América Latina”. Paulo fez um panorama histórico do desenvolvimento agrário na região, e apontou que, desde a chegada dos Europeus no território ocupado anteriormente por habitantes nativos, as terras foram apropriadas pela elite, transformadas em grandes latifúndios e cultivadas por meio de trabalho escravo.

“Os conflitos começaram desde a dominação colonial, que tinha como foco central a exploração dos recursos naturais e de instauração de monoculturas [exploração do solo com o objetivo de produzir apenas um produto agrícola]. Os povos foram submetidos a trabalhos forçados, que viabilizavam essa empreitada e o desenvolvimento latino-americano de modo a atender à metrópole. Foi um processo brutal, violento, com conflitos e resistência”, contou o professor.

Paulo Alentejano: "A América Latina é um conjunto de conflitos criados pelo neoextrativismo, que representa a nova face da violência no campo". (Foto: Gian Cornachini)

Paulo Alentejano: “A América Latina é um conjunto de conflitos criados pelo neoextrativismo, que representa a nova face da violência no campo”. (Foto: Gian Cornachini)

De acordo com Paulo, essa lógica foi se aprimorando com o passar do tempo e, após a industrialização do campo ocorrida nas últimas décadas, quase não se encontram mais trabalhadores rurais — ao passo que, hoje, existe um trabalhador no campo para cada 100 hectares de soja. “Você percorre o campo e não vê gente, porque são quilombolas, indígenas e trabalhadores rurais sendo expulsos de suas terras. A América Latina é um conjunto de conflitos criados pelo neoextrativismo, que representa a nova face da violência no campo”, ressaltou Paulo.

Joaquín complementou a fala do professor chamando a atenção para a evolução do MST ao longo dos anos na luta por direitos. Segundo o militante, o Brasil se caracterizou exclusivamente como um dos países pertencentes ao grupo dos exportadores de matéria prima. E isso é resultado de uma concentração de monoculturas, divididas em grandes latifúndios e que estão nas mãos de poucos donos — uma elite formada por apenas 1% de todos os proprietários de terras e que tem em mãos o controle de 46% de todas as terras no Brasil. “As elites brasileiras acumularam a sua riqueza baseada em trabalho escravo. São quase 400 anos baseados nesse sistema. Uma elite escravocrata que se mantém perpetuada nos poderes até hoje, incluindo o Legislativo, formando a bancada ruralista”, destacou o integrante do MST.

Joaquín Piñero sobre os latifundiários: "Uma elite escravocrata que se mantém perpetuada nos poderes até hoje, incluindo o Legislativo, formando a bancada ruralista". (Foto: Gian Cornachini)

Joaquín Piñero sobre os latifundiários: “Uma elite escravocrata que se mantém perpetuada nos poderes até hoje, incluindo o Legislativo, formando a bancada ruralista”. (Foto: Gian Cornachini)

A luta do Movimento, atualmente, já não é apenas contra o latifundiário. Joaquim explicou que o foco atual é fortalecer a educação dos trabalhadores sem terra para que, juntos, seja possível lutar contra grandes empresas e mineradoras que dominam a exploração de terra no país. Segundo o militante, o MST atua, portanto, nas seguintes frentes:

- Democratização da estrutura fundiária no país: o Movimento acredita que não é possível conviver em uma sociedade democrática com tamanha desigualdade de terra;

- Mudança no modelo de produção: os alimentos que consumimos hoje são produzidos por meio do monocultivo, de insumos químicos e sementes transgênicas. O Brasil é recordista no consumo de veneno e, para reverter esse modelo de produção, o MST aposta na reforma agrária popular;

- Desenvolvimento integral e sustentável: o grupo luta, também, por acesso a trabalho e estudos, de modo a garantir melhorias e políticas públicas, e desenvolver, de fato, o país de forma integral, com respeito à saúde e ao meio ambiente.

MST e a relação com o Partido dos Trabalhadores (PT)

Após a palestra dos convidados, o público levantou muitas dúvidas a respeito da atuação do MST. Uma pergunta que se repetiu foi sobre os ganhos concretos que o Movimento conseguiu durante os anos de governo PT e o porquê de os militantes terem um histórico de atos favoráveis ao Partido dos Trabalhadores.

Estudantes abriram debate sobre a atuação do MST e suas conquistas no governo PT. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes abriram debate sobre a atuação do MST e suas conquistas no governo PT. (Foto: Gian Cornachini)

Joaquín explicou que o MST foi duramente perseguido nos anos 1990, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, e que a liberdade de protestar só foi possível com o PT à frente da presidência: “Na era FHC, grande parte dos dirigentes ou estava presa ou foragida. Havia uma deliberação para destruir o MST. Mas, com a chegada de Lula, essa perseguição não ocorreu”, relatou.

Apesar de poucos ganhos de terras no período, as maiores conquistas estiveram voltadas para políticas públicas, como o programa “Luz Para Todos” que, para Joaquín, foi como se tivesse tirado as famílias assentadas da Idade Média e trazido para a Modernidade. Além disso, houve ganhos com projetos que forçaram municípios a adquirirem dos produtores locais ao menos 30% dos alimentos servidos nas escolas públicas — o que beneficiou diretamente os pequenos agricultores.

“Mas isso não é reforma agrária. Isso são apenas políticas pontuais a partir de muita luta e pressão”, observou Joaquín, apontando para a importância da mobilização do MST: “As empresas, a mídia e muitas pessoas acham que a gente é um movimento contra a lei. Mas, não. Somos um movimento para exigir que a lei seja feita. A terra tem que cumprir suas funções sociais, como diz a Constituição de 1988, produzindo, gerando bem-estar e respeitando o meio ambiente. Se não está, tem que ir para a reforma agrária”.

História debate política, reforma agrária e islamismo na contemporaneidade

 

XVII Ciclo de Debates de História trouxe estudiosos de diversas áreas para discutir temas pertinentes da atualidade

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini

A décima sétima edição do Ciclo de História das FIC discutiu, a partir de temas atuais, os desafios e possibilidades teóricos e metodológicos no trabalho do historiador, em evento realizado nos dias 10 e 11 de maio, na FEUC. A professora Nathália Rodrigues Faria reforçou a importância desse tipo de reflexão para o futuro professor: “Coletar dados dá para fazer na internet. Se não tiver reflexão, não é História. E o que nós propomos aqui é justamente isso, fazer com que professores de História discutam a História de forma atual, lúcida. Que a gente consiga trazer o passado para o presente por meio de instrumentos que façam refletir, até para a gente poder discutir com os colegas, com a família, com os amigos”.

Combate à corrupção ou às políticas sociais?

Na primeira palestra do Ciclo, “A Elite Política Brasileira e as Políticas Públicas Atuais”, o doutorando em História pela Uerj e coordenador do curso de História da UNIABEU, Vinícius Gentil, apresentou as principais políticas públicas implementadas desde 2002 no Brasil e como as classes mais abastadas se colocam contrárias a esses programas. Para iniciar sua fala, o professor contextualizou o cenário político que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República e o lugar das elites nesse processo:

Professor Vinícius analisou o cenário da política atual. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Vinícius analisou o cenário da política atual. (Foto: Pollyana Lopes)

“Que Brasil era esse, em 2002, que permitiu que o Partido dos Trabalhadores chegasse ao poder? As políticas econômicas do governo FHC eram essenciais para acalmar a classe que a gente está falando aqui — que são as elites e, vamos chamar assim, a classe média tradicional, que tinha acesso a várias políticas como, por exemplo, do trabalho doméstico. Mas também tínhamos um país complicado, numa crise cíclica, e um esgotamento do projeto do Plano Real”.

A partir desta premissa, Gentil apontou as principais medidas do governo em relação a quatro áreas-chave (saúde, educação, distribuição de renda e infraestrutura) e como elas impactaram as elites, principalmente aproximando economicamente e compartilhando certos padrões de consumo com as camadas sociais mais pobres.

“Qual é a grande disputa no cenário político atual? Tirando essa questão do impeachment, qual foi a grande demanda, qual era o grito de guerra de quem foi à rua de verde e amarelo? Eles dizem que são contra a corrupção, mas contra a corrupção todo mundo é. Quando eu discuto em outro campo, o que eu vejo não é uma luta pelo fim da corrupção, é uma luta contra as políticas atuais. Porque quando eu pergunto a essas mesmas pessoas que são contra a corrupção, normalmente elas também são contra o acesso à educação por cotas, são contra o acesso mais voltado a pessoas com menos renda, são contra uma série de políticas públicas que foram implementadas justamente nesses últimos governos”, explicou.

A História nem sempre anda para a frente

Convidado a fazer uma análise da conjuntura e ciclo na História Contemporânea, Oswaldo Munteal Filho, doutor em História e pós-doutor em Administração Pública, falou na noite do primeiro dia do evento sobre política e questionou a ideia de que avançar é evoluir. Ele, que é professor da Uerj, da PUC-RJ e das Faculdades Integradas Hélio Alonso, ressaltou que “dar aula de História é falar sobre o tempo presente”, pois “toda história é história do presente”.

Oswaldo Munteal Filho e a professora Viviam Zampa, coordenadora de História das FIC. (Foto: Gian Cornachini)

Oswaldo Munteal Filho e a professora Viviam Zampa, coordenadora de História das FIC. (Foto: Gian Cornachini)

Para ilustrar a afirmação, o estudioso mencionou o apoio que o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, pediu ao Partido dos Trabalhadores em relação ao processo que tramita no Conselho de Ética contra ele, por quebra de decoro parlamentar — ou seja, uma conduta não compatível com o que se espera de um representante eleito pela sociedade. O PT negou apoio a Eduardo Cunha, e o deputado decidiu abrir, imediatamente, o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff — capítulo recente e polêmico da história política do Brasil.

“O tempo presente exige um cálculo do que está acontecendo agora. Quando Cunha fez a proposta dele, era pegar ou largar. Dilma optou por ser ética. Mas sua honradez não interessa”, destacou Oswaldo.

Para o professor, ser contemporâneo não é estar ligado, necessariamente, ao ambiente tecnológico. Segundo Oswaldo, é possível ser absolutamente tecnológico, porém avesso às mudanças de costume; ter o aplicativo WhatsApp, mas ser conservador. Por isso, ele questionou: “Será que o tempo que se vive hoje é melhor que antes, ou o passado é melhor do que o tempo que vivemos agora? Será que o progresso é sempre melhor? Não sei. São perguntas contemporâneas, e a História não anda necessariamente para a frente”, disse.

Reforma Agrária e Educação do Campo

No segundo dia, pela manhã, a palestra “Os conflitos fundiários no Brasil e a Educação do Campo” cumpriu dupla função: além de integrar a programação do Ciclo de História, o encontro também fez parte da III Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária. O evento contou com a participação de Luana Carvalho, do setor de educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e do coordenador do curso de Licenciatura em Educação do Campo na UFRRJ, professor Ramofly dos Santos.

Luana deixou claro que a educação é uma das principais bandeiras do MST. (Foto: Pollyana Lopes)

Luana deixou claro que a educação é uma das principais bandeiras do MST. (Foto: Pollyana Lopes)

Em sua fala, Luana apresentou o MST e mostrou como, desde a fundação do movimento, em 1984, a educação é parte essencial das lutas, tanto na democratização do acesso para os filhos de militantes e assentados quanto no sentido de repensar um modelo de ensino que seja libertador, que valorize os sujeitos, sua cultura e sua história. Luana explicou que as principais fontes teóricas que norteiam o trabalho do MST são a pedagogia socialista e a educação popular freiriana e que, a partir disso, o trabalho do movimento tem cinco matrizes: o trabalho como princípio educativo, a luta social, a História, a cultura e a organização coletiva.

“É necessário modificar forma e conteúdo, a escola de hoje não dá conta de fazer uma educação que seja libertadora a partir desses princípios. Precisamos formar sujeitos críticos e capazes de contribuir no processo de construção de seus assentamentos e da sociedade de modo geral. No Rio de Janeiro a gente ainda está na luta de construir escolas, já que cerca de 300 escolas do campo foram fechadas nos últimos anos. E para reverter esse quadro a gente precisa continuar apontando e lutando para que não aconteça mais o fechamento de escolas”, disse.

Já o professor Ramofly falou mais sobre a questão agrária e da institucionalização da Educação do Campo enquanto modalidade da Educação Básica e inclusão no Ensino Superior. Ele explicou que o conceito de Educação do Campo surgiu em 1997, no I Encontro Nacional das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária (Enera), em oposição à ideia de Educação Rural, até então colocada no ensino formal.

“Quando o movimento cria o conceito de educação do campo, em 97, é exatamente para romper com o conceito de educação rural, que carrega uma ideia de rural negativa. E é muito importante o contexto no qual ele foi colocado: no I Encontro Nacional das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária (Enera). E quem estava lá, em sua grande maioria, eram educadores e educadoras dos movimentos sociais! Pessoas que atuavam e ainda atuam com jovens e adultos nas áreas de reforma agrária. Ou seja, o conceito não surge nas universidades federais, nos gabinetes dos ‘ph-deuses’ nas universidades, o conceito surge com o MST, com Luana, com os movimentos, com quem lida todos os dias com a educação dessas pessoas do campo”, analisou Ramofly.

Muçulmanos não são terroristas

Quando se pensa em islamismo, logo vem à memória as lembranças de homens-bomba e terrorismo. Mas pensar dessa maneira é reforçar o preconceito aprendido por meio das TVs e pela cultura ocidental. Quem chama a atenção para o problema são Claudio Santos, diretor-presidente do Centro Islâmico e de Diálogo Inter-Religioso e Inter-Cultural (CIDI); e Erick Coelho, graduando em História nas FIC e muçulmano desde 2012, ambos convidados a palestrar sobre a visão contemporânea do Oriente Islâmico no fim do Ciclo de Debates.

Claudio reforçou que a religião não prega o caos, mas o respeito à vida e à diversidade cultural e religiosa. (Foto: Gian Cornachini)Claudio reforçou que a religião não prega o caos, mas o respeito à vida e à diversidade cultural e religiosa, e que os versículos do Alcorão surgiram para organizar, banir alguns costumes e promover direitos. Ele lembrou, ainda, que a religião tem a mesma base do cristianismo e do judaísmo: “Pelo fato de o Islã ser uma religião monoteísta e abraâmica, temos mais coisas em comum com a Torá e com a Bíblia do que podemos acreditar”, ressaltou Claudio.

No islamismo, muçulmanos acreditam que Jesus foi um profeta de Deus, mas não seu filho, e que foi concebido milagrosamente pela virgem Maria. No entanto, o personagem mais importante e do qual seguem seus ensinamentos é Muhammad (Maomé), líder religioso árabe que viveu entre 570 d.C. e 632 d.C. e considerado, na fé islâmica, o último profeta do Deus de Abraão, ou seja, a mesma figura criadora do universo e cultuada no cristianismo e no judaísmo.

A palestra também abordou o conceito de Jihad, que significa “luta” e “esforço” (em árabe). “A Jihad é o esforço de quando começo a olhar para dentro de mim e me esforçar para ser uma pessoa melhor”, pontuou Claudio. A Jihad também é entendida como um dos esforços em divulgar a fé islâmica, e o termo passou a ser erroneamente empregado aos extremistas religiosos, chamados de “jihadistas”, e que impõem a fé por meio de lutas e guerras.

Erick revelou enfrentar estigmas relacionado à sua fé islâmica. (Foto: Gian Cornachini)

Erick revelou enfrentar estigmas relacionado à sua fé islâmica. (Foto: Gian Cornachini)

O estudante Erick Coelho afirmou que sofre com o estigma da religião: “A primeira coisa que me perguntam quando sabem que sou muçulmano é se explodi alguém”, lamentou o rapaz. “Aqui na faculdade as pessoas se posicionam contra o senso comum, mas quando é sobre o Islã, repetimos o discurso da mídia. Eu quero convidar a todos a pensar essa questão”, propôs ele, que logo reforçou não considerar verdadeiros muçulmanos os membros do grupo terrorista Estado Islâmico: “O Estado Islâmico não é estado e nem islâmico, porque contrária tudo o que vimos sobre o islamismo. Eles estão em uma busca de uma radicalização, da pureza da religião, mas estão indo contra a raiz”.

É por conta de grupos terroristas, com a clássica figura de homens coberto de vestes longas e dotados de muitas armas de fogo, que a imagem do Islã está distorcida no Ocidente. Mas Erick criticou essa única visão, lembrando fatos históricos protagonizados por outros grupos em que ações igualmente desumanas não carregaram a mesma simbologia do terror: “Os EUA destruíram Hiroshima e Nagazaki e não são acusados de terroristas. Israel bombardeou a Palestina entre 2008 e 2009, e 1.417 pessoas morreram. E o país não é acusado de terrorismo”.

XIV Jornada de Educação discutiu a Base Curricular Comum

Evento reuniu professores e estudantes das diversas licenciaturas para debater o significado da implantação do currículo mínimo e as saídas para a construção de uma escola democrática 

Por: Pollyana Lopes e Tania Neves

Com intenção de estimular entre alunos e alunas da graduação a discussão acerca do currículo mínimo – que deverá ser implantado nas escolas de educação básica do país após a conclusão pelo MEC da Base Nacional Curricular Comum, que esteve aberta a sugestões via internet e recebeu mais de 12 milhões de contribuições – a XIV Jornada Regional de Educação da FEUC promoveu no último sábado um dia inteiro de debate e compartilhamento de ideias, guiada pelo tema “Desafios à Construção da Escola Democrática”.  O ponto de partida foi a palestra da professora Talita Vidal Pereira, que é doutora em Educação e atualmente coordena o Programa de Pós-Graduação em Educação, Cultura e Comunicação da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (UERJ), com contrapontos  das professoras Jane Souza e Janice Souza, do curso de Pedagogia, e Rosilaine Silva, coordenadora de Geografia.

A professora Talita Vidal Pereira fala para plateia de estudantes no Auditório FEUC. Foto: Gian Cornachini

A professora Talita Vidal Pereira fala para plateia de estudantes no Auditório FEUC. Foto: Gian Cornachini

Talita chamou a atenção para o fato de que esta discussão é política, e que as diversas posições sobre o tema são antagônicas tanto na sociedade em geral quanto no ambiente estrito da Academia – e que, portanto, não existe “posição correta”, mas que cada graduando e cada professor devem se inteirar do assunto para formar sua própria convicção a partir de informações embasadas, e não em “achismos”. E, sobretudo, pensarem sobre seu papel no estabelecimento de uma Escola Cidadã, que forme estudantes para a vida e não somente para o mercado.

Neste sentido, a professora ressaltou o caráter regulador da Base Comum, notando que ela aprofunda a ideia de controle sobre a Educação. Algo que, segundo Talita, é uma tendência mundial, uma vez que interessa ao capitalismo globalizado dar aos sistemas educacionais um sentido de eficiência, de formadores de populações capazes de consumir aquilo que o mercado disponibiliza, atrelando a qualidade da educação à difusão de um conteúdo específico que atenda a essas premissas do mercado: “Para este sistema, o cidadão educado é o consumidor treinado, padronizado, qualificado para se inserir no mercado e se vender como uma mercadoria neste mercado. O que é oposto à lógica da formação humanista, que resultaria em cidadãos críticos que podem escolher o que querem ou não para suas vidas”.

Exercer sua autonomia é fundamental para o professor

Para Talita, o pecado maior de uma proposta de Base Comum é o fato de que tudo se volta para a avaliação em larga escala que será feita no final, o que em certa medida pode atentar contra a autonomia docente: como as avaliações verificarão o quanto os alunos aprenderam daquele conteúdo mínimo proposto, e o professor ganhará bônus ou não em função disso, ele acaba se adequando e fazendo meramente o que este currículo mínimo propõe, deixando assim de perceber o que seus diferentes alunos querem e precisam. “Não tenho nada contra regulação, mas sim contra a padronização. Os alunos são diferentes, então o avanço de cada um na educação se dará de forma diferente, e isso essas avaliações não pegam. Mas a tarefa do professor é proporcionar o maior crescimento possível a cada aluno”, explicou.

Talita: 'O pior que pode acontecer para nossa carreira é a gente se achar incapaz. Foto: Gian Cornachini

Talita: ‘O pior que pode acontecer para nossa carreira é a gente se achar incapaz. Foto: Gian Cornachini

Ainda sobre esta questão, a professora fez uma analogia sobre o que ela chamou de Aluno Ferrari e Aluno Fusquinha: o primeiro já parte em vantagem, pois tem mais “potência”; entretanto, se o segundo avançar duas os três vezes mais em comparação ao primeiro, embora não vá alcançar o mesmo ponto daquele, terá crescido infinitamente mais – o sistema, porém, não verá isso, pois na avaliação padronizada o Aluno Fusquinha certamente receberá o carimbo de insuficiente. É nesta hora, segundo Talita, que o professor deve exercer sua autonomia e trabalhar pelo crescimento de seus alunos, independente do resto.

Por fim, a professora Talita deixou um recado à plateia: “A ideia de que o professor não sabe o que fazer e precisa de auxílio é uma ideia prepotente. O professor não precisa de quem diga a ele o que fazer, mas sim de quem pergunte o que ele precisa para fazer o que ele tem que fazer. E isso inclui tempo para estudar, possibilidade de sobreviver de forma digna, acesso a recursos especializados… porque há dúvidas, há crianças diferentes umas das outras, há desafios o tempo todo. Mas, estando amparado, ele certamente dará conta. O pior que pode acontecer para nossa carreira [de docentes] é a gente se achar incapaz”.

  Os Espaços de Diálogo

Gabriela explicou que, com a inclusão do Ensino Médio no entendimento da Educação Básica, o estado é obrigado a garantir vagas no ensino público. (Foto: Pollyana Lopes)

Gabriela explicou que, com a inclusão do Ensino Médio no entendimento da Educação Básica, o estado é obrigado a garantir vagas no ensino público. (Foto: Pollyana Lopes)

Na parte da tarde, docentes se dividiram com alunos e alunas em grupos para estabelecer os Espaços de Diálogo, onde foram debatidas questões específicas de cada um dos eixos programáticos. Na discussão sobre a Matemática, a professora Gabriela Barboza fez um breve histórico da nomenclatura e das leis sobre o que hoje nós entendemos como Educação Básica, que hoje inclui a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Médio, lembrando que o Ensino Médio já foi chamado de Científico e Segundo Grau, e que é recente o entendimento da Classe de Alfabetização como primeiro ano do Ensino Fundamental.

Como a participação dos alunos foi majoritariamente de estudantes da pós-graduação, o grupo foi dividido para debater a transversalidade de suas áreas de formação com a matemática. Como destacou Leandro de Sousa Martins, que é formado em Matemática nas FIC e agora cursa a História, também aqui “você quer fazer um projeto de mosaicos, você chama um professor de Artes que tem essa base de estrutura, um de História para falar sobre a história dos mosaicos, e o de Matemática para relacionar as formas geométricas. E também pegar a Geografia, onde que isso se aplica no mundo”.

Bolsistas do Pibid apresentam suas experiências

No auditório FEUC, com o grupo que debateu Educação Infantil, Educação Especial e Linguagens, a professora Claudia Miranda apresentou como o conceito de infância foi construído com o tempo e, a partir disto, falou sobre os direitos da criança e sobre a LDB. Além de apresentar alguns transtornos que dificultam o processo de ensino-aprendizagem e ressaltar a importância dos professores estarem preparados para reconhecer esses problemas e atuar de maneira inclusiva.

Professora Cláudia destacou os direitos da criança, o que inclui a a educação formal. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Cláudia destacou os direitos da criança, o que inclui a a educação formal. (Foto: Pollyana Lopes)

Para falar sobre Linguagens, o debate foi direcionado por alunas bolsistas do subprojeto Pibid de Letras. Ao relatar a experiência de trabalhar, com os alunos da rede pública de ensino, “a inclusão da literatura infanto-juvenil no currículo do professor”, Flávia Daiana lembrou, em vários momentos, de sua experiência com os estudantes do Ensino de Jovens e Adultos, e destacou a importância de os professores estarem abertos a aprenderem com dos alunos.

Filosofia e Sociologia aparentemente “salvas” na Base Comum

Na discussão sobre as Ciências Humanas – incluindo Geografia, Ciências Sociais e História – o professor de geografia da UFRJ Eduardo Maia falou sobre o histórico de tentativas de criar um sistema unificado da educação nos moldes do Sistema Único de Saúde e questionou o fato desse processo de unificação começar pela avaliação, com Enem.

Professora Miriam explicou que os profissionais da Sociologia estão razoavelmente satisfeitos com o texto da Base Curricular Nacional pois a disciplina é mantida sem perda de autonomia. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Miriam explicou que os profissionais da Sociologia estão razoavelmente satisfeitos com o texto da Base Curricular Nacional pois a disciplina é mantida sem perda de autonomia. (Foto: Pollyana Lopes)

A professora das FIC, da Faetec e da Rede Municipal de Ensino Miriam Dolzani ponderou que as disciplinas de Sociologia e Filosofia hoje são obrigatórias no currículo base da educação graças à mobilização dos profissionais da área, e isto acontece há pouco tempo. Sempre na iminência de serem retiradas (o que já aconteceu em momentos de autoritarismos políticos) com justificativas de que a grade curricular estaria sobrecarregada e que estas disciplinas seriam dispensáveis, desta vez isso não acontece. O documento proposto para se tornar a Base Nacional Comum mantém a obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia com certo nível de autonomia, e apenas isto já agrada os profissionais da área.

Bem diferente do relatado pelo professor de História das FIC Jayme Ribeiro, que explicou que o componente curricular da História presente no documento foi o que mais teve problemas, tanto que o texto desta área foi aprovado somente duas semanas depois das outras disciplinas. Jayme fez críticas à maneira como o processo de construção da Base Curricular foi feito, com o espaço limitado para a participação do público em geral, e sem a presença dos maiores pesquisadores de currículo na equipe: “O que me espanta também na Base Curricular é que na estrutura a gente não pode mexer. A gente pode mexer em algumas coisas, mas a estrutura já está montada, e tudo o que vem montado de cima pra baixo é uma coisa complicada”.