Geografia: Aula Inaugural debate o desastre de Mariana (MG)

 

Curso convida professor da Uerj para detalhar o rompimento das barragens da Samarco e os desdobramentos do maior desastre ambiental do Brasil

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

Passados 16 meses após o desastre de Mariana (MG) — quando duas barragens da mineradora Samarco se romperam, causando mortes e destruição ao longo do percurso da lama —, os desdobramentos do caso foram o tema da Aula Inaugural de Geografia, primeiro evento anual realizado pelo curso das FIC, e que aconteceu ontem, dia 22 de março. Convidado a debater o assunto, o professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj e pesquisador no grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), da UFJF, apresentou dados da Samarco e suas controladoras — Vale e BHP Biliton —, além de expor o funcionamento das barragens em Minas Gerais e os danos causados pelos rompimentos.

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj, expõe dados referentes às barragens da Samarco. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj, expõe dados referentes às barragens da Samarco. (Foto: Gian Cornachini)

Impactos socioambientais a curto prazo

De acordo com Luiz, é extensa a lista de danos causados imediatamente após o desastre, entre eles:

- Destruição de áreas populacionais;
- Morte e/ou desaparecendo de 19 pessoas;
- 1,4 mil hectares de terras arrasadas;
- 80 km marítimos atingidos pela lama;
- Mudança do pH da água do Rio Doce;
- Comprometimento do abastecimento hídrico;

Impactos socioambientais a médio e longo prazo

Os efeitos do desastre não se encerraram após o rompimento das barreias e, segundo o professor, eles ainda podem ser observados, hoje, tais como:

- Devastação da paisagem e das matas ciliares;
- Rejeito estéril (material resultante do processo de mineração e sem aproveitamento econômico) liberado no solo;
- Assoreamento de rios;
- Contaminação da água por metais pesados;
- Risco para a saúde humana e de animais.

Estudantes lotam auditório durante primeira evento de Geografia da FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes lotam auditório durante primeira evento de Geografia da FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Sujeitos atingidos

O grupo PoEMAS tem levantado dados e feito estudos nas áreas atingidas para dimensionar o impacto na vida das populações. Luiz apontou que uma característica marcante é o peso do desastre sobre os negros:

“É possível verificar um racismo ambiental. A maior parte das pessoas atingidas é negra. Os engenheiros nos diziam que não escolhem um lugar para instalar uma mineradora de acordo com a cor da pele, mas a gente vê que elas só são instaladas em lugares onde as pessoas não têm força para lutar contra o empreendimento”, explicou o professor.

Outro grupo diretamente impactado, mas, segundo Luiz, pouco comentado na mídia, são os indígenas Krenak, que encaram o Rio Doce não apenas como um recurso hídrico, mas como um ente da família:

“Não adianta dar dinheiro para eles, para indenizá-los. A partir do momento que o rio morre, qual o impacto disso sobre a cultura deles? Eles querem o rio de volta para poder batizar seus filhos, pois isso é um valor intangível e diferente de nossa lógica de pensar a relação da sociedade com a natureza”, ressaltou Luiz.

Alunos fizeram rodadas de perguntas. (Foto: Gian Cornachini)

Alunos fizeram rodadas de perguntas. (Foto: Gian Cornachini)

Durante o debate, em que os estudantes apresentaram dúvidas sobre o futuro das operações da Samarco e da fiscalização de barragens, o professor foi claro em seu posicionamento, transferindo exclusivamente a responsabilidade dos danos para a Samarco, Vale e BHP:

“Os estudos não tinham a real proporção do que poderia ser um rompimento de uma barragem. Deveria ser considerada uma escala mais regional, e essa escala sequer mencionava o Rio Doce, pois ele estava longe demais. Os problemas são infindáveis e a gente tem que evitar que os custos sejam públicos. A culpa é das empresas e são elas que devem pagar a conta”.

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley responsabiliza as empresas pelo desastre de Mariana. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley responsabiliza as empresas pelo desastre de Mariana. (Foto: Gian Cornachini)

Saindo de casa para conquistar o mundo!

 

Aprovados em seleção de mestrado para diversos programas da Universidade Federal Fluminense (UFF), alunos e egressos de Letras festejam e dividem sucesso com professores

 
Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Se para um docente de graduação é maravilhoso quando um aluno dá a notícia de que foi aprovado para o mestrado numa universidade de prestígio, imagina quando cinco deles chegam juntos com a mesma novidade? Foi exatamente assim o novembro dourado dos professores de Letras da FEUC ao contabilizarem a aprovação para o mestrado da UFF de três alunos do 7º período e mais dois recém-formados. E isso por enquanto, pois há outros em processos de seleção. “Acho que nós vibramos tanto quanto eles ou até mais”, conta a professora Arlene Fonseca, coordenadora do curso de Letras.

Meire Lucy Cunha, do 7º período de Português-Literaturas, e João Armando Henriques Gonçalves, formado em Português-Inglês em 2013, foram aprovados para o programa de Literatura Africana de Língua Portuguesa; Thiago Rodrigues, do 7º período de Português-Inglês, conquistou vaga no programa de Literatura Inglesa; Joyce Silva dos Santos Monforte, do 7º período de Português-Literaturas, e Thamyres Gonçalves Gomes, formada ano passado em Português-Espanhol e aluna da nossa pós-graduação em Língua Portuguesa, ingressarão no programa de Estudos da Linguagem.

Temas das monografias de fim de curso foram ampliados na elaboração de projetos para o mestrado

Meire conta que o processo de seleção foi tenso: “Os candidatos iam chegando, falando uns com os outros, os professores também conheciam diversos deles pelo nome. Acho que eu era a única desconhecida”, brinca a estudante. A prova tinha 4 questões e o candidato deveria escolher uma para desenvolver no prazo de 4 horas. Ela escolheu falar sobre uma obra literária que acabara de ler, o que certamente influiu em seu bom desempenho e classificação para a etapa final. Na entrevista, foi questionada sobre a escolha de uma obra da autora guineense Odete Costa Semedo para nortear sua pesquisa: “Disseram não ser usual o conhecimento daquela autora na graduação, pois normalmente os estudantes são apresentados a ela na pós. E elogiaram muito meu projeto”, alegra-se Meire, revelando que sua proposta de pesquisa para o mestrado – “Silêncio eloquente: tradições, feminino, silenciamento e retomada de discurso numa narrativa guineense” – foi uma ampliação do escopo de sua monografia de conclusão da graduação, orientada pela professora Norma Jacinto, na qual abordou apenas um dos contos de Odete, enquanto no mestrado analisará cinco.

Thiago e Meire Lucy: tensão durante seleção substituída por alegria da classificação. (Foto:  Pollyana Lopes)

Thiago e Meire Lucy: tensão durante seleção substituída por alegria da classificação. (Foto: Pollyana Lopes)

Thiago teve a mesma sensação de Meire, de que era um estranho no ninho entre os 25 candidatos que disputaram com ele as 5 vagas de Literatura Inglesa, pois a maioria se conhecia. No seu caso, a questão da prova foi sorteada e não escolhida. E o pior: o ponto sorteado foi justamente o que era total novidade e, portanto, não estava entre os assuntos abordados em provas passadas e que ele chegou a estudar. “Após o sorteio, 5 candidatos desistiram imediatamente, nem começaram a prova. No fim, 9 passaram para a entrevista. Fui o último a ser entrevistado, e acho que a segurança com que defendi meu projeto foi uma das razões de ter entrado”, avalia Thiago, atribuindo tal segurança à qualidade do projeto, e dividindo os créditos desta com seu orientador, professor Victor Ramos: “Ele foi fundamental para que eu soubesse exatamente o que estava fazendo”, diz o estudante, que no mestrado vai se debruçar sobre a insuficiência de gênero em “Orlando”, de Virginia Woolf.

Joyce: Atividades acadêmicas, como seminários e PIBID, ajudaram na preparação. (Foto: Gian Cornachini)

Joyce: Atividades acadêmicas, como seminários e PIBID, ajudaram na preparação. (Foto: Gian Cornachini)

Quando pensa na tranquilidade que teve para passar pelo processo seletivo, apesar de toda a dificuldade, Joyce logo se dá conta do tanto que as atividades realizadas no PIBID ajudaram nessa preparação. “Além das atividades em si nas escolas, teve os seminários, as semanas de Letras, a oportunidade de levar nossos trabalhos a outras universidades, a congressos, a interação com outros graduandos. Sempre com muito incentivo dos professores. Tudo isso deu muita força e experiência”, avalia a estudante, que pesquisará no mestrado a relação entre imagem e texto verbal. Sobre a prova, ela conta que chegou a estudar alguma coisa da bibliografia proposta no processo seletivo, mas acabou usando principalmente a base de conhecimentos vistos ao longo da graduação.

João Armando: livro oferecido por professor inspirou projeto de mestrado. (Foto: Gian Cornachini)

João Armando: livro oferecido por professor inspirou projeto de mestrado. (Foto: Gian Cornachini)

Anteriormente graduado em Psicologia, João Armando se formou aqui em Inglês, mas no mestrado da UFF entrou para o programa de Literatura Africana de Língua Portuguesa. O interesse, segundo ele, surgiu numa aula do professor Bruno Ferrari, que o apresentou à literatura de Mia Couto – autor que inspira sua pesquisa de mestrado – e se intensificou com as aulas das professoras Arlene e Norma. “Inclusive, quando me perguntaram na entrevista que sementinha é essa que tem na FEUC, eu logo pensei nelas. E em todos os outros professores, pois a formação que tive aqui foi de excelência. E fiquei muito feliz de ver que a qualidade da FEUC é reconhecida em todo canto”, elogia João Armando.

Thamyres diz que sempre sonhou com o mestrado, desde antes de entrar para a graduação. Por saber que seria muito difícil, vinha estudando há bastante tempo: “Estudei pelos meus cadernos da FEUC e não pelos livros da bibliografia. Cheguei a comprar alguns livros, mas com a falta de tempo, pois estou cursando a pós aqui, preferi

Thamyres: estudo feito a partir dos cadernos da graduação foi suficiente

Thamyres: estudo feito a partir dos cadernos da graduação foi suficiente. (Foto: Gian Cornachini)

estudar pelos meus antigos cadernos, e foi suficiente”, revela. Em sua pesquisa, Thamyres vai analisar o uso dos recursos pragmáticos na aquisição da linguagem por parte das crianças, dando continuidade ao que pesquisou na graduação. Ela agradece a seus professores da FEUC, especialmente à professora Lia, que foi sua orientadora na graduação e repete a parceria na pós em Língua Portuguesa. Diz que esse estímulo constante dos professores é crucial, pois lá fora as pessoas dizem que não vale a pena se esforçar pra fazer um mestrado, diante da situação do país: “Dizem que valorizam pouco, que eu não vou ter um emprego futuramente por conta dessa reforma do ensino médio… Mas eu acho muito interessante, até porque eu não estou estudando para o governo, não estou estudando para outras pessoas, estou estudando para mim”, afirma Thamyres, mandando um recado para quem gostaria de seguir o mesmo rumo, mas tem dúvidas: “Que os alunos confiem mais em si, porque falta essa confiança. Então é ter foco e pensar ‘quero passar’, e vai conseguir. Estuda e se esforça que consegue”.

Gratidão foi o sentimento mais mais expressado pelos alunos e alunas ao se referir a seus professores da graduação. Além dos respectivos orientadores, lembraram muito das aulas do professor Valmir Oliveira: “Quem mergulha com vontade no conteúdo que ele oferece não tem como não fazer um bom projeto”, pontua Meire. E Thiago revela outro grande prazer que teve durante a entrevista com a banca da UFF: “Me perguntaram o que que é FIC, e se a FEUC era uma federal. Aí eu pude falar bastante da nossa faculdade, pois eles viram a qualidade que os candidatos daqui apresentaram”.

XXIII Octobermática: evento aborda a história da Matemática

 

Tradicional semana acadêmica do curso de Matemática, este ano a Octobermática trouxe comunicações, palestras e teatro sobre grandes nomes do universo numérico

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

O curso de Matemática das FIC realiza, há 23 anos, a Octobermática, semana acadêmica que acontece em outubro, sempre com um tema diferente envolvendo aspectos científicos e pedagógicos da licenciatura. Na semana passada, entre os dias 3 e 6, o evento, que nesta edição abordou a história da Matemática, movimentou mais uma vez os estudantes do curso, que participaram ativamente como organizadores, ouvintes, expositores e, inclusive, como atores de uma peça teatral. Confira um resumo de como foi a semana:

Palestra

Em uma das palestras mais importantes, o professor da UFRRJ Pedro Carlos Pereira falou sobre a História da Matemática a partir da perspectiva brasileira e da educação matemática. Sem ignorar o papel essencial de nomes como Einstein, Newton e Galileu para o reconhecimento da importância da Matemática, ele destacou, em sua fala, grandes matemáticos brasileiros e o papel que eles tiveram no estabelecimento da Ciência e da Matemática no Brasil.

Professor Pedro também contou que teve trajetória parecida com os os alunos da FEUC. Ele também cursou graduação em universidade particular e trabalhou durante o dia para bancar estudar. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Pedro contou que teve trajetória parecida com os os alunos da FEUC. Ele também cursou graduação em universidade particular e trabalhou durante o dia para bancar estudar. (Foto: Pollyana Lopes)

O professor também falou, esmiuçadamente, sobre o início e o estabelecimento do ensino de Matemática no Brasil, primeiro a partir das escolas de engenharia, e apresentou argumentos sobre a importância da história da disciplina:

“História da Matemática não é só para contar que Pitágoras nasceu no ano tal, morreu no ano tal fez isso ou fez aquilo. É para entender porque ele pensou daquela maneira. Aí a gente precisa da História, da Filosofia. A gente precisa conhecer a psicologia daquela época para entender porque Pitágoras pensou daquela maneira e escreveu aquele teorema. Aí sim nós estamos formando cidadãos pela Matemática”.

Professor Pedro também contou que teve trajetória parecida com os os alunos da FEUC. Ele também cursou graduação em universidade particular e trabalhou durante o dia para bancar estudar. (Foto: Pollyana Lopes)

Pedro: “História da Matemática não é só para contar que Pitágoras nasceu no ano tal”. (Foto: Pollyana Lopes)

Ao final, a professora Gabriela Barboza agradeceu a participação do professor e destacou o papel do debate na formação dos estudantes:

“Dificilmente a gente vai lembrar de todos os fatos históricos que o Pedro contou aqui, mas uma coisa a gente entendeu: que a nossa profissão tem uma História e que ela foi construída ao longo de anos, ela é fruto de estudos e ela gera ainda muitos estudos futuros”.

Comunicações

Um dos momentos mais importantes do evento, as Comunicações repetiram, este ano, a alegria e criatividade dos alunos. Espaço para apresentar, de forma lúdica, assuntos referentes à temática da Semana, a atividade cumpriu também com outro objetivo: a integração entre os alunos. “A alegria, a confraternização, um ambiente fora de sala de aula, os alunos se abraçando”, assim foi descrita as Comunicações pelo professor Alzir Fourny, coordenador do curso, após assistir a uma apresentação de um funk matemático elaborado por estudantes justamente para o evento.

Estudantes apresentaram trabalhos no pátio da FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes apresentaram trabalhos no pátio da FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Grupos cumpriram com objetivo das Comunicações: levar conhecimento com alegria e interação. (Foto: Gian Cornachini)

Grupos cumpriram com objetivo das Comunicações: levar conhecimento com alegria e interação. (Foto: Gian Cornachini)

“A Octobermática tem essa leveza, um pouco de ludicidade, de alegria. Há esse trabalho em que a matemática não é profunda, complexa. Pega o mais simples, as ideias, para mostrar a importância de conhecer a história, a origem da Matemática, como surgiu a partir desses gênios”, explicou Alzir.

Alzir:

Alzir: “A Octobermática tem essa leveza, um pouco de ludicidade, de alegria”. (Foto: Pollyana Lopes)

Café, teatro, História da Matemática e muitas risadas

Outro ponto alto da XXIII Octobermática foi a encenação da peça teatral Café com História da Matemática, no último dia do evento. O enredo da apresentação tem como protagonistas um casal, em um café, que discute a formação do conselho de uma entidade fictícia que reúne grandes matemáticos, inclusive eles mesmos. Interrompidos, frequentemente, por garçons que apresentam algum matemático famoso para história da disciplina, o debate fica mais acalorado, o casal se irrita mutuamente e tudo termina em uma grande guerra de comida, cessada apenas pelo professor Alzir Fourny Marinhos, que interpretou ele mesmo na peça. Fazendo várias referências aos professores das FIC, o trabalho apresentado pela turma do 5º período arrancou gargalhadas e conquistou o público.

Em meio a muitas risadas, informações importantes foram apresentadas no texto da peça Café com história da Matemática. (Foto: Pollyana Lopes)

Em meio a muitas risadas, informações importantes foram apresentadas no texto da peça Café com história da Matemática. (Foto: Pollyana Lopes)

Texto da peça de teatro trouxe uma série de referências aos professores do curso de Matemática da FEUC, que estavam presentes e entraram na brincadeira. (Foto: Pollyana Lopes)

Texto da peça de teatro trouxe uma série de referências aos professores do curso de Matemática da FEUC, que estavam presentes e entraram na brincadeira. (Foto: Pollyana Lopes)

 

Guineenses e FEUC se unem para discutir a Guiné-Bissau no dia de sua independência

 

O aniversário de 43 anos da independência do país africano é comemorado no dia 24 de setembro; a data foi marcada por uma manhã de reflexão que integrou a comunidade guineense, alunos das FIC e estudantes da região

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

Com o objetivo de pensar a Guiné-Bissau em seu 43º aniversário de independência, a Associação dos Estudantes Guineenses no Estado do Rio de Janeiro (AEG-RJ) realizou hoje, dia 24 de setembro, o encontro “Nô Pensa Guiné-Bissau” (Refletir a Guiné-Bissau). A FEUC, em parceria com o grupo, mais uma vez cedeu espaço para que o evento acontecesse na Zona Oeste e, assim, pudesse promover troca cultural entre brasileiros e alunos e intelectuais do país africano. A atividade contou com uma exposição de roupas e tecidos típicos, além de palestras e debates.

Corredor do Auditório FEUC teve exposição de roupas e tecidos típicos. (Foto: Gian Cornachini)

Corredor do Auditório FEUC teve exposição de roupas e tecidos típicos. (Foto: Gian Cornachini)

O mestrando em Sociologia na UFF Tchinho Kaabunke fez, em sua fala ao público, um panorama histórico da Guiné-Bissau, desmistificando a ideia de que o poder sobre a África aconteceu unicamente com o domínio pelos povos europeus. Kaabunke relembrou elementos da ancestralidade africana e citou a invasão árabe a partir do século VII no continente, ressaltando que o local sempre foi alvo de disputas territoriais.

Tchinho Kaabunke, mestrando em sociologia na UFF, fez panorama histórico da Guiné-Bissau. (Foto: Gian Cornachini)

Tchinho Kaabunke, mestrando em sociologia na UFF, fez panorama histórico da Guiné-Bissau. (Foto: Gian Cornachini)

Já Timótio Saba M’Bunde, mestre em Ciência Política, trouxe para o centro do debate os desafios que a Guiné-Bissau enfrenta, hoje, para se afirmar como um estado democrático de direito: “É um país caracterizado por golpes parlamentares, rupturas do funcionamento normal do Estado, e isso tem dificultado a própria afirmação da democracia, pois, em 43 anos de independência, nunca concluiu um mandato democraticamente eleito pelo povo”, observou M’Bunde.

Timótio Saba M’Bunde, mestre em Ciência Política, falou sobre o estado democrático de direito no país africano. (Foto: Gian Cornachini)

Timótio Saba M’Bunde, mestre em Ciência Política, falou sobre o estado democrático de direito no país africano. (Foto: Gian Cornachini)

Na avaliação da coordenadora do curso de Ciências Sociais das FIC, professora Célia Neves, pensar a realidade política da Guiné-Bissau nos leva também a atentar para os recentes fatos da história política de nosso país, como o impeachment da presidente Dilma Rousseff — também eleita democraticamente pelo povo, mas julgada e deposta por parlamentares sem aprovação unânime da sociedade: “Tudo isso discutido aqui é importante até para nós, em nosso processo democrático, porque a gente é obrigada a pensar os nossos processos de rupturas política que sofremos aqui”, disse ela.

Célia Neves, coordenadora de Ciências Sociais das FIC, relacionou o tema com a atual conjuntura política no Brasil. (Foto: Gian Cornachini)

Célia Neves, coordenadora de Ciências Sociais das FIC, relacionou o tema com a atual conjuntura política no Brasil. (Foto: Gian Cornachini)

Além do âmbito político, o debate também se voltou para o estereótipo negativo que os países ocidentais criam sobre nações do continente africano. Hilenio Silva Monteiro, guineense e membro da organização do evento, foi categórico ao culpar a mídia por grande parte desse preconceito: “O Brasil precisa pesquisar muito sobre a África e não se informar pela mídia. O que a gente aprende por ela é a dominação por dinheiro, a fome, a ideia de que tudo na África é ruim — e quando é bom, pinta-se a imagem para que não seja mérito dos países africanos, mas da Europa…”, apontou ele, completando: “Quem aprende somente pela mídia, é condenado à inocência total”.

Hilenio Silva Monteiro, membro da organização do evento, criticou a mídia por criar esteriótipos negativos sobre a África. (Foto: Gian Cornachini)

Hilenio Silva Monteiro, membro da organização do evento, criticou a mídia por criar esteriótipos negativos sobre a África. (Foto: Gian Cornachini)

A estudante Renata Azevedo, do 1º ano do Ensino Médio do Instituto de Educação Sarah Kubitschek (IESK), reconhece ter uma visão distorcida sobre a África, e também culpa a mídia televisiva por isso: “Vendo pela TV, quando fala da África, a gente só vê criança desnutrida, com fome e sede. E aqui a gente viu uma realidade diferente. Também só é falado do homem europeu como invasor, e eu não sabia que os árabes foram lá antes dos portugueses”, relatou Renata, que aprovou a proposta do evento: “Eu adorei, adorei esse contato com eles. Só não vou ficar para o debate porque tenho reposição de aula no Sarah daqui a pouco”.

Renata Azevedo, aluna do 1º ano no IESK, relatou ter visão distorcida sobre o continente africano, muito pelo o que vê na TV. (Foto: Gian Cornachini)

Renata Azevedo, aluna do 1º ano no IESK, relatou ter visão distorcida sobre o continente africano, muito pelo o que vê na TV. (Foto: Gian Cornachini)

Sistemas de Gestão Empresarial e sucesso profissional são temas de evento de Administração

Especialistas do mercado vêm à FEUC compartilhar conhecimentos e dicas da área

Por Pollyana Lopes e Gian Cornachini

A II Semana do Administrador aconteceu nos dias 8 e 9 de setembro, no Auditório FEUC, trazendo para a instituição palestras com profissionais de vasta experiência de mercado e sólida formação acadêmica. No primeiro dia, o gerente de Tecnologia de Informação da Guaracamp, Alcione Dolavale, falou sobre Gestão Empresarial na Logística e trouxe exemplos de como a implementação de Sistemas Integrados de Gestão Empresarial, ERP, a sigla em inglês para Enterprise Resource Planning, promove o melhor funcionamento das empresas. Ele, que é graduado em Tecnologia da Informação e tem mestrado em Logística pela PUC-Rio e MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV, destacou também a importância de estreitar os laços entre o mercado e as faculdades.

Alcione Dolavale destacou a importância da relação entre o mercado e as faculdades e deixou o e-mail do setor de Recursos Humanos da empresa em que trabalha para os alunos enviarem currículos. (Foto: Pollyana Lopes)

Alcione Dolavale destacou a importância da relação entre o mercado e as faculdades e deixou o e-mail do setor de Recursos Humanos da empresa em que trabalha para os alunos enviarem currículos. (Foto: Pollyana Lopes)

“Para nós, que estamos no mercado, é muito valiosa essa oportunidade de ir às faculdades, de encontrar com alunos. Afinal de contas, é aqui que estão sendo formados os futuros profissionais”.

Já na palestra de Paulo Panesi, convidado a participar do encerramento da II Semana de Administração — que aconteceu na sexta-feira, dia 9 de setembro —, o foco da discussão foi “sucesso” e os caminhos para conquistá-lo. Panesi, que tem especialização em Gestão de Pessoas e Gestão de Marketing, além de pós-graduação em Logística, atuou em grandes empresas como Xerox do Brasil e Polaroid, e afirmou que uma das principais chaves para ter uma carreira promissora é trabalhar com o que gosta: “Escolha fazer alguma coisa que você tenha prazer, porque, segundo Aristóteles, quem faz o que gosta, se diverte a cada dia”.

Panesi: "Escolha fazer alguma coisa que você tenha prazer". (Foto: Gian Cornachini)

Panesi: “Escolha fazer alguma coisa que você tenha prazer”. (Foto: Gian Cornachini)

O administrador acredita que o profissional precisa ter atitude e não esperar as oportunidades aparecerem. Segundo Panesi, a postura de quem está interessado em crescer determina, de fato, o que ele quer: “Quantas pessoas vocês conhecem e que estão no Facebook fazendo absolutamente nada? E depois vão dizer que vocês deram sorte? Nada cai do céu. Se vier uma coisa muito de graça, desconfie do custo que vocês vão ter que pagar por aquilo”, ponderou ele.

“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê”

Evento na FEUC debate inclusão e acessibilidade para pessoas cegas ou com baixa visão e o papel do professor de português nesse processo

Por Pollyana Lopes

Aconteceu na FEUC, na última quarta-feira, dia 6 de julho, o “I Encontro de Educação, Acessibilidade, Arte e Inclusão”, um evento para oficializar a participação da FEUC na Rede de Leitura Inclusiva, um dos projetos da Fundação Dorina Nowill, e celebrar o primeiro aniversário da Lei Brasileira de Inclusão.

A parceria da FEUC com o projeto é mais um fruto das atividades do PIBID Letras que, por meio da Produção de Acervo de Áudio, aproximou-se da Fundação Dorina, uma instituição que há 70 anos trabalha pela inclusão social de pessoas com deficiência visual. O objetivo era fazer com que as gravações de textos de domínio público lidos por estudantes de escolas públicas, sob a orientação de bolsistas das FIC, chegassem a cegos e portadores de baixa visão. Com a integração da FEUC à Rede, a parceria entre as instituições se fortalece e reforça o compromisso de ambas em promover ações voltadas para pessoas com deficiência visual.

"Não dá para pensar educação sem pensar em amor, em fraternidade. Não dá para pensar em inclusão, em acessibilidade sem também pensar em amor, em fraternidade, em respeito", declarou o professor Erivelto Reis, sobre o tema do debate, "Incluir com Qualidade e Amor". (Foto: Pollyana Lopes)

“Não dá para pensar educação sem pensar em amor, em fraternidade. Não dá para pensar em inclusão, em acessibilidade sem também pensar em amor, em fraternidade, em respeito”, declarou o professor Erivelto Reis, sobre o tema do debate, “Incluir com Qualidade e Amor”. (Foto: Pollyana Lopes)

“Esse encontro faz de todos os presentes cofundadores, testemunhas, parceiros também desse compromisso que a FEUC já vem trabalhando há algum tempo e que, a partir de agora, está assumindo definitivamente, tornando público para a comunidade de estudantes e para a comunidade externa”, frisou o professor Erivelto Reis.

O evento contou com a projeção do documentário “Janela da Alma”, um filme dos diretores João Jardim e Walter Carvalho, com depoimentos de homens e mulheres com diferentes níveis de deficiência visual. E também com falas do professor das FIC e psicólogo Marco Antônio Chaves, da professora da rede estadual Tatiana Reis, e do estudante do 3º ano do Colégio Albert Sabin Jeanderson Baptista, que é cego.

Tatiana falou sobre os desafios dos professores e das escolas em estar atender pessoas com deficiências. (Pollyana Lopes)

Tatiana falou sobre os desafios dos professores e das escolas em estar atender pessoas com deficiências. (Pollyana Lopes)

Tatiana falou sobre o papel de professores de português nos processos de inclusão, e declarou que o objetivo do educador é sensibilizar os estudantes para o texto e desenvolver neles autonomia para o aprendizado. Jeanderson, que foi aluno de Tatiana há dois anos, comentou sobre o seu processo de aprendizagem, alguns métodos e sua experiência como monitor na Sala de Recursos, um espaço, no Colégio Albert Sabin, que conta com materiais e atividades pedagógicas complementares orientadas por um Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado, com o objetivo de apoiar estudantes cegos, surdos e portadores de síndromes. O professor e psicólogo Marco Antônio destacou que, na qualidade de psicólogo, a prática de consultório o fez acreditar que uso da palavra deficiência reforça a diferença como algo pejorativo na sociedade e prefere o uso de outros termos, como disfunção.

 

Jeanderson está terminando o Ensino Médio, atua como monitor na Sala de Recursos auxiliando colegas e contou que acabou de passar em um concurso para o INSS. (Foto: Pollyana Lopes)

Jeanderson está terminando o Ensino Médio, atua como monitor na Sala de Recursos auxiliando colegas e contou que acabou de passar em um concurso para o INSS. (Foto: Pollyana Lopes)

Por fim, a fala do poeta Manoel de Barros no documentário “Janela da Alma” poetiza a ação cotidiana de quem atua no sentido de incluir socialmente pessoas com deficiências visuais, principalmente por meio da leitura. Jeanderson e os demais cegos não contam com o olho para ver, mas as palavras faladas podem inspirar as lembranças a serem revistas e, assim, o conhecimento a ser produzido por meio da imaginação, que transvê um mundo mais acessível, inclusivo e justo. Como complementa o poeta, “É preciso transver o mundo”.

Testando a didática com Cambridge

Incentivados por professor, estudantes do curso de Letras se preparam para fazer prova internacional que avalia conhecimentos pedagógicos

Por Pollyana Lopes

Uma avaliação que atesta internacionalmente que o professor é qualificado para dar aulas de inglês: assim é o Teaching Knowledge Test (TKT), um exame aplicado pela Universidade de Cambridge em diversas partes do mundo. Para quem já atua como professor de inglês, o certificado é um reconhecimento das habilidades e experiências do profissional; para quem está prestes a se formar, pode ser um diferencial na hora de disputar uma vaga.

Sabendo disso, o professor Victor Ramos, ao lecionar a disciplina Didática do Ensino de Língua Portuguesa e de Língua Inglesa, incentivou os alunos a fazerem o teste, oferecendo, inclusive, aulas preparatórias aos sábados para os interessados. Quem aceitou o desafio foi liberado de fazer apenas a prova escrita, tendo que cumprir, como avaliação da disciplina, outros instrumentos como fichamentos, resumos críticos e a produção de uma videoaula.

Professor utiliza material didático específico nos encontros de preparação dos alunos, que acontecem aos sábados. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor utiliza material didático específico nos encontros de preparação dos alunos, que acontecem aos sábados. (Foto: Pollyana Lopes)

Victor explica que os conteúdos da disciplina estão de acordo com o que é exigido no teste, e por isto este seria um bom momento para os alunos se submeterem ao TKT: “basicamente, tudo o que é cobrado na avaliação, a disciplina foi um preparatório. E não só esta disciplina, como todas as outras. A gente sempre levanta a questão nos nossos encontros ‘Lembra do conteúdo do primeiro período? É cobrado na avaliação! Lembra do conteúdo do terceiro período?’… Quer dizer, as questões que foram trabalhadas ao longo da graduação são recorrentes para a prova TKT”.

Os alunos concordam que a formação que tiveram ofereceu bases sólidas para que eles estivessem preparados para o teste. Mesmo assim, as estudantes se surpreenderam: “Eu achei tão fácil que eu não acreditei. Mas é por isso, toda a bagagem que a gente tem das outras disciplinas desde o início da graduação”, declarou Tainá Souza de Oliveira Tavares, do 5º período. “A prova é muito mais fácil do que eu pensei que seria. Porque quando eu ouço o nome Cambridge eu acho que é uma coisa dificílima, mas vendo e estudando o livro preparatório, dá para ver que é bem possível”, complementou Lorena Stellet de Lima, estudante do 7º período.

Enquanto os demais estudantes inscritos na disciplina fazem a prova escrita e concluem o semestre, o grupo de dez alunos continua tendo aulas, já que a prova será realizada no dia 22 de julho, e os encontros preparatórias continuam aos sábados. Mas, eles acreditam que vale a pena:

“Não está fácil conseguir emprego. Eu fiz várias entrevistas e não passei, pela falta de experiência. Eu acredito que o peso dessa prova no meu currículo vai fazer a diferença, vai fazer com que eu tenha mais oportunidades”, concluiu Nayara Martins de Almeida, do 5º período.

VII Encontro de Artes e Surdez lota auditório da FEUC

 

Evento reuniu alunos, ex-alunos, professores e familiares dos participantes do curso de Português para Surdos, ministrado gratuitamente pela professora Maria José Brum às quintas-feiras

Por Tania Neves

Maria José fala para a plateia de alunos, ex-alunos e familiares que prestigiaram o evento

Maria José fala para a plateia de alunos, ex-alunos e familiares que prestigiaram o evento

“A senhora é meio suspeita de falar porque a senhora me ama. As pessoas que me amam são muito suspeitas para falar”, brincou a professora Maria José Brum ao fim do discurso de Dona Sheila, mãe de um dos mais novos alunos que frequentam, às quintas-feiras na FEUC, o curso de Português para Surdos, ministrado gratuitamente por ela e um grupo de voluntários formado por alunos da graduação de Pedagogia das FIC e outras pessoas que aderiram à belíssima causa: ajudar surdos e deficientes auditivos a aprimorar seu domínio da língua portuguesa, e assim superar as barreiras comunicacionais que prejudicam seus estudos.

Mas se quem ama Maria José fosse mesmo suspeito para falar… não sobraria nenhum “não suspeito” em quem se pudesse confiar, pois no auditório lotado para o VII Encontro de Artes e Surdez, na noite de segunda-feira passada, simplesmente não havia quem não se derramasse em elogios, declarações de amor eterno e agradecimentos à professora.

Trabalho feito com profissionalismo e amor, e que ajuda a mudar vidas

Dona Sheila, atendendo ao convite para ir ao microfone dar seu depoimento, comentou que o filho Anderson Claiton está entusiasmado com as aulas de português, aprendendo com Maria José as letras, os números, e que isso tem sido um estímulo para ele gostar mais dos estudos: “Quando fala que é pra vir pra cá, ele se arruma com alegria… e eu só tenho a agradecer. A ela, aos voluntários, às mães… na verdade, a todos. Porque aqui somos uma família. E eu quero agradecer a Deus, primeiramente, e a cada um de nós que estamos aqui, doando nosso tempo, dando amor, e ensinando e aprendendo”, disse Sheila.

Dona Sheila expressa sua gratidão e admiração pelo trabalho feito por Maria José

Dona Sheila expressa sua gratidão e admiração pelo trabalho feito por Maria José

Maria José Brum, professora de Libras das FIC, agradeceu o discurso e completou: “Todo esse tempo eu mais tenho aprendido do que ensinado. Vocês aqui são os protagonistas”.

O VII Encontro de Artes e Surdez tem o objetivo de reunir alunos, ex-alunos, professores, voluntários, familiares e simpatizantes para uma noite de celebração e apresentações artísticas. Esta edição teve palestra, uma apresentação de dança e esquetes de teatro. O evento foi aberto pelo professor Valdemar Ferreira, coordenador Acadêmico das FIC, que festejou o fato de que, a cada ano, o encontro reúne mais gente e mostra mais vigor. “É um ganho para a disciplina de Libras, mas sobretudo para os alunos”, disse ele. Também a professora Maria Lícia Torres, coordenadora do curso de Pedagogia, deu um pulinho no auditório entre uma aula e outra para cumprimentar o público e parabenizar pelo encontro.

Palestra sobre a importância da profissionalização dos intérpretes

Ruan Diniz: intérprete precisa se profissionalizar

Ruan Diniz: intérprete precisa se profissionalizar

O convidado especial Ruan Diniz, intérprete profissional, instrutor de Libras no Senac e que também trabalha na TV Ines, fez palestra sobre a importância da qualificação dos intérpretes, no sentido de tornar cada vez mais profissional a tarefa de fazer a ponte comunicacional entre surdos e ouvintes, derrubando assim as barreiras linguísticas que acabam impedindo que os surdos estudem e se desenvolvam nas profissões que desejarem seguir. “O intérprete ajuda o surdo não porque ele é bonzinho, mas porque é a profissão dele. É preciso que o intérprete tenha proficiência em Libras, que estude, que se especialize. Isso é uma profissão”, enfatizou.

Entre um e outro discurso ou apresentação, Maria José seguia em seu papel de mestre de cerimônias e sorteava brindes para os convidados – caixas de bombons, perfumes e outros mimos. Sempre ressaltando a importância do encontro, a oportunidade de a cada dia tornar o curso de Português para Surdos mais acolhedor para aqueles que o frequentam.

Professores de Libras presentes na plateia falaram sobre seu trabalho e exaltaram a iniciativa de Maria José de oferecer um curso gratuito de Português para Surdos. As aulas acontecem todas as quintas-feiras na FEUC, entre 16h e 18h, e os interessados em ingressar na turma podem chegar. Basta se identificar na portaria e dizer que quer ir para a aula da professora Maria José.

A irmã Celi: a razão de Maria José transformar seu sonho em ação

Já perto do fim do evento, Maria José comentou que muitas pessoas costumam perguntar por que ela gosta tanto dos surdos, por que gosta tanto de falar com eles. E ela respondeu dando a palavra à irmã, Celi, que é surda e foi desde sempre a primeira razão para que ela se interessasse por estudar Libras e se dedicar à missão de tornar a vida dos surdos menos complicada do ponto de vista comunicacional.

Com vocês, Celi:

Maria José e a irmã Celi: emoção pura nas lembranças do passado

Maria José e a irmã Celi: emoção pura nas lembranças do passado

“Hoje é a primeira vez que eu estou aqui, juntamente com a minha irmã, Maria José, a minha irmã que eu amo muito, muito, muito. E eu me emociono muito por estar aqui, eu amei conhecer todos vocês”, disse Celi, elogiando o palestrante Ruan, as mães, professores e alunos que deram seus recados no encontro. E emendou com um relato mais pessoal: “A minha irmã, lá atrás, lá no passado, quando ela era criança e eu também, era eu quem fazia carinho, eu que estava com ela. Ela não sabia Libras, ela não sabia nada. Aí eu dizia ‘coitada da minha irmã, eu vou ajudar minha irmã’, aí ela foi aprendendo comigo, ela foi se desenvolvendo e tudo o que ela sabe hoje é graças a mim”, disse Celi, para delírio da plateia e da própria Maria José, que completou: “Verdade, verdade, verdade!”.

Esquetes de teatro para tirar os ouvintes da “zona de conforto”

A noite se completou com a apresentação de uma peça de teatro escrita e dirigida pelo casal de ouvintes William e Adriana, e interpretada por surdos e ouvintes. Os autores se dedicaram a um exercício de inversão da realidade: imaginar o mundo povoado por uma maioria de surdos, com poucos ouvintes precisando se “integrar” a esta sociedade, e enfrentando as dificuldades que os surdos enfrentam no mundo real. Em quatro esquetes, foi possível entender a agonia por que passam os surdos numa sociedade que pouco faz para que eles de fato possam se integrar.

Num dos esquetes, o ambiente era um banco, onde o atendente era surdo, e chega uma cliente ouvinte, pedindo ajuda para usar o caixa eletrônico. Como ela não consegue se comunicar com ele, e não há um intérprete à disposição, ele apenas faz um sinal para que ela espere. Aí entra uma surda, pede a ele a mesma ajuda que a outra pedira, e ele prontamente atende – para desespero da primeira, que brada que “chegou primeiro”, que ele “nem deu bola pra ela” etc. Ou seja: exatamente o que vivem os surdos em todo local onde não há intérpretes (como manda a lei) e nem os ouvintes dominam o mínimo de Libras para interagir com eles.

Participantes dos esquetes de teatro agradecem os aplausos

Participantes dos esquetes de teatro agradecem os aplausos

Em outro esquete, uma cidadã ouvinte entra desesperada na delegacia para denunciar que fora assaltada. O policial civil nada compreende, e o PM que chega em seguida também não. Inconformada, ela deixa a delegacia reclamando muito pelo mau atendimento. E os policiais, já que “o dia está tranquilo”, saem para tomar um cafezinho. Isso te lembra alguma coisa?

VEJA MAIS FOTOS DO VII ENCONTRO DE ARTES E SURDEZ

Letras: Semana Acadêmica do curso completa 25 anos com dezenas de atividades

 

Durante quatro dias de evento o público pôde enriquecer seus conhecimentos com palestras, mesas-redondas, oficinas e diversas outras programações

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Há quem diga que parece ter sido ontem que o curso de Letras das FIC promoveu, pela primeira vez, sua Semana Acadêmica. Mas o fato é que o evento já está na 25ª edição, garantindo o sucesso de sempre, seja por meio de suas ricas palestras ou por relatos e experiências de estudantes e professores com um único objetivo: fortalecer o saber teórico, técnico e humano do universo das Letras. E, neste ano, para comemorar seu Jubileu de Prata, a temática central foi “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo” — fio condutor de quase meia centena de atividades, entre comunicações científicas, palestras, mesas-redondas, oficinas, exposições e muito mais. Um resumo da Semana Acadêmica — que aconteceu de 31 de maio a 3 de junho, nos períodos da manhã e da noite — você confere a seguir.

Reencontro com a FEUC: ex-alunos relembram trajetória acadêmica

Para introduzir os graduandos no clima dos 25 anos da Semana, uma mesa-redonda foi organizada com a presença de ex-alunos de destaque. Ao público, eles contaram um pouco sobre como foi seu percurso acadêmico e as experiências pós FEUC.

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

Longe da Polícia Militar, Rodrigo Torres se apaixonou por dar aula. (Foto: Gian Cornachini)

O ex-agente da Polícia Militar Rodrigo Torres está apaixonado por dar aula e valoriza a mudança de carreira: “Graças a Deus eu saí da PM. Hoje eu faço o que gosto, e isso não tem preço. Não desistam e não parem de estudar. Tem que chegar em casa, sentar e pesquisar, preparar a sua aula, porque o aluno não vai engolir tudo o que você disse”.

Ramayana Del Secchi Linhares se formou recentemente e já atua como professora no Município, tendo dicas a oferecer: “Na maioria das vezes o aluno não acredita que é capaz porque os pais também não acreditam. Cabe a vocês, que tiveram uma boa formação, mostrar que esse aluno é capaz, porque se a educação não for para fazer diferença, então ela não valerá a pena”, ressaltou. Armando de Carvalho, que trabalha com educação para presidiários, concorda com Ramayana e procura, assim como a professora, transformar a vida dos detentos por meio da educação: “É muito importante atuar como incentivador, estimulador daquela criatura à sua frente que está ansiosa para ouvir o que você tem a dizer. O segredo todo é inspirar”, afirmou.

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Grupo destacou, em geral, os desafios e importância de ser professor. (Foto: Gian Cornachini)

Embora não pretenda ser professora, a atriz Gui Soarrê, também formada recentemente em Letras nas FIC, valoriza a profissão dos colegas: “Lecionar não é a minha grande paixão, mas eu acho uma profissão heroica. Vou usar a poesia e o teatro para também tocar as pessoas, usar o poder humanizador da arte para tocar essa essência humana”, disse Gui.

A coordenadora do curso, Arlene da Fonseca Figueira, fez uma análise das falas, destacando o respeito de todos pela figura do educador: “Nem todos são professores, mas todos são ex-alunos bem sucedidos, cada um com suas escolhas. E a voz que me encantou aqui é o respeito ao professor. Nossa sociedade e os políticos não têm esse mesmo respeito, mas só conseguiremos ir à frente quando respeitarem o professor e valorizarem a educação”.

CD “No caminho das Letras” é lançado no evento

Os professores Erivelto da Silva Reis e Arlene da Fonseca Figueira, à frente do subprojeto “Produção de Acervo de Áudio” (Letras/Português) do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) nas FIC, aproveitaram a Semana Acadêmica para apresentar aos estudantes o CD “No Caminho das Letras”. A produção, destinada a deficientes visuais, reúne diversas gravações de clássicos da literatura em domínio público, além da obra do poeta Primitivo Paes, lidas por estudantes do Ensino Fundamental II da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guaratiba. Erivelto revelou a satisfação de ter concluído o trabalho: “Esse CD é um motivo de orgulho para nós. Despertamos a leitura e compreensão do que os alunos liam e discutiam. Eles se tornaram sujeitos de sua própria leitura e entendiam que a pessoa cega que ouvirá os áudios dependerá da emoção, boa leitura e interpretação do texto”.

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

CD é destinado a deficientes visuais e tem textos literários lidos por crianças do Ensino Fundamental. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Joyce da Silva dos Santos, uma das alunas bolsistas do subprojeto e que apresentou um resumo do trabalho aos licenciandos, contou o que aprendeu com a atividade do Pibid: “Eu não posso simplesmente chegar na escola e apresentar Machado de Assis sem contextualizar e mostrar o que posso tirar dali. A gente tem que puxar um ganchinho com as nossas experiências para perceber os efeitos da literatura em nossa vida e ver o que ela tem em comum com a gente”, destacou ela.

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Joyce da Silva dos Santos é bolsista do Pibid e apresentou o projeto e resultados para os alunos. (Foto: Gian Cornachini)

Homenagem póstuma à ex-coordenadora do curso

A 25ª Semana de Letras também dedicou uma atividade a relembrar uma figura bastante importante para o curso das FIC: a professora Miriam da Silva Pires, falecida em fevereiro de 2013, quando era professora do curso de Letras da UFRRJ. Antes de passar no concurso para aquela instituição (em 2010), Miriam foi, durante anos, coordenadora de Letras das FIC. Ela esteve na organização de diversas edições da Semana Acadêmica, colaborando com a consolidação de um dos eventos mais importantes da FEUC.

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Professores Erivelto Reis e Flávio Pimentel relembraram trajetória de Miriam da Silva Pires na FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Os professores Erivelto Reis — que teve a oportunidade de ser aluno de Miriam — e Flávio Pimentel — que teve a honra de compartilhar mesas-redondas com a professora — contaram os momentos mais marcantes que tiveram com ela e destacaram sua importância para o curso de Letras das FIC: “Você ficava impressionado de onde vinha tanto conhecimento e as relações que ela estabelecia entre as diferentes áreas do saber. Celebrar a memória dela é celebrar o legado de uma pessoa que lutou a vida toda para que a educação transformasse a vida das pessoas”, ressaltou Erivelto. “Em nossas conversas entre filosofia e literatura havia uma proximidade muito grande [dos saberes], até o ponto de que eu nunca mais deixei de apresentar alguma coisa na Semana de Letras”, lembrou Flávio.

Antes de partir para os EUA, uma colaboração com a Semana

André Nascimento se formou em Letras (Português/Inglês) nas FIC em 2014, emendou na pós-graduação em Língua Inglesa, também na FEUC e, agora, ruma aos Estados Unidos para cursar, com bolsa integral, o mestrado em Português e Literaturas pela The University of New México (leia a reportagem “Da FEUC para o mundo” sobre a conquista do mestrando). Durante os próximos anos, André vai pesquisar a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas, mas, antes de partir para terra dos ianques, ele deu uma “palinha” dos seus estudos como convidado a palestrar na Semana de Letras. “O Carandiru e o medo: a masculinidade e a violência social em voga (des)cortinados pela narrativa fílmica” foi o tema de sua apresentação, que buscou esclarecer a relações machistas e de masculinidade no filme brasileiro Carandiru (2003).

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

André Nascimento vai estudar, no exterior, a relação entre a masculinidade latino-americana e a violência em regiões periféricas. (Foto: Gian Cornachini)

Segundo André, a lógica de estupro dentro do presídio passa por um conceito de “herói” de uma “mitologia invertida”, além da constante necessidade de se autoafirmar como forte e macho: “Para que um detento tenha status de homem, ele precisa diminuir o outro. No banho, eles nunca ficam de bunda para o outro, ou seja, uma questão de autoafirmação”, ponderou André. “Um prisioneiro precisava fazer uma cirurgia, mas o médico disse que seria muito arriscado. E, ainda assim, o homem afirmou ter duas balas no corpo e que, portanto, aguentaria. Mesmo em meio à dor, afirmar-se como homem era altamente relevante”.

Para o estudante, esses fenômenos acontecem porque o homem latino-americano segue um padrão do que é ser homem, por diversas vezes carregado de valores sexuais: “É preciso ter uma habilidade sexual como maratonista para se aprovar e nunca pode dizer não ao sexo com uma mulher, porque aí a sua masculinidade seria confrontada”, explicou.

O Ciclo do Café e a produção literária

Em um intercâmbio entre História e Literatura, os professores Erivelto Reis, de Letras, e Márcia Vasconcellos, do curso de História, articularam contexto histórico e a produção artística e literária durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba.

Márcia falou das condições específicas que tornaram essa região privilegiada para a produção de café, na época, e forjaram os grandes barões do período. Além de mostrar o desejo deles em integrar a nobreza:

“Ao contrário de outras áreas, onde os cafeicultores investem em grandes inventários e casas opulentas para demonstrar riqueza e poder, em Vassouras não vai ficar só nisso, e como consequência surge uma vida urbana e cultural”, explicou. O professor Erivelto complementou: “Para eles, apenas ser rico não era suficiente, eles queriam fazer parte da elite. Conhecer a história desse período ajuda a gente a entender a ideia de elite no Brasil”, revelou.

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Márcia, do curso de História, apresentou o contexto social e político que permitiu que produtores de café do Vale do Paraíba se tornassem grandes barões. (Foto: Pollyana Lopes)

Também foi colocado por ambos os professores o papel da escravidão nessa sociedade. Márcia destacou as estratégias de sobrevivência e leitura dos escravos como sujeitos históricos. Erivelto, que faz pesquisa na região, contou que o tema é ausente nas visitas guiadas e museus do local, e fez um apelo aos estudantes: “Fica o convite para a galera de Literatura para, quando estudar romantismo, discutir essas relações, sobretudo aquela geração condoreira, Castro Alves, Gonçalves Dias. É preciso perceber o que esses homens estão vendo para escrever literatura. E eles estão vendo isso aí, sofrimento, escravidão, poderio econômico, opulência, esses homens achavam que não iam empobrecer nunca”.

A literatura dentro dos livros e no palco

Além de palestras, mesas-redondas e comunicações coordenadas, a Semana de Letras também apostou no lúdico como forma de conhecimento. Em sintonia com o tema do evento, “Práticas, teorias e talentos no cenário literário e linguístico contemporâneo”, o espetáculo teatral “De dentro dos livros” arrancou risadas e também levou à reflexão. A peça fez uma oposição entre leitura e tecnologia, na qual personagens dos livros se materializaram em busca de novos leitores, já que estão desaparecendo devido ao interesse das crianças pela tecnologia.

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

Lara (ao centro) é uma menina apaixonada por livros e por brincar ao ar livre, mas sua prima só quer saber de jogos digitais. Então, os personagens favoritos de Lara saem dos livros na tentativa de conquistar novamente as crianças a lerem. (Foto: Pollyana Lopes)

A ideia de apresentar a obra partiu da estudante do 3º período de Letras Amanda Barboza, que também foi monitora da Semana. Ela, que é atriz e integra o Grupo Pipa, disse ter se surpreendido com o resultado, já que o espetáculo é mais voltado para o público infantil. “Eu até chamei uns alunos do CAEL para assistirem, mas as pessoas mais velhas também gostaram muito e riram bastante, porque mesmo as peças infantis têm apelo para outros públicos. O teatro foi a minha primeira profissão, conseguir a arte com a minha segunda profissão, que é ser professora, eu achei ótimo”, disse.

“As minhas raízes são aqui”

Pelos corredores da FEUC, no último dia da Semana de Letras, o professor Gustavo Adolfo da Silva  poderia passar despercebido pelo pátio não fosse o cumprimento dos mestres do curso de Letras acolhendo-o, agradecendo sua presença e parabenizando-o. Convidado a palestrar, ele não pôde participar por conta de outros compromissos, mas fez questão de prestigiar o evento. Gustavo, que é professor aposentado pela UERJ, cursou mestrado e doutorado na UFRJ e tem 13 livros publicados — sendo três de poesia — garante que a FEUC é a sua casa: “A minha graduação foi aqui, minha primeira especialização foi na FEUC, sou morador de Campo Grande. Eu dei aulas aqui durante dez anos, as minhas raízes são aqui”, disse.

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor Gustavo Adolfo se formou nas FIC e trabalhou como professor aqui por dez anos. (Foto: Pollyana Lopes)

Entre 1974 e 1984 Gustavo lecionou disciplinas de Filologia, Sintaxe e Estilística. Sua atuação como professor, no entanto, foi passada adiante por meio de seus livros e das histórias de colegas. O professor Erivelto foi um dos que o encontraram e não perdeu a oportunidade de agradecê-lo: “Querido mestre, que satisfação reencontrá-lo. Seja bem-vindo a esta casa mais uma vez, é uma inspiração para nós. A sua presença nos honra muito e nos incentiva a continuar, porque os seus ensinamentos são importantes e a sua trajetória profissional é de inspiração para todos nós”, saudou.

Ligeiramente tímido, ele agradeceu o reconhecimento e o dedicou ao magistério: “Quando a gente está nessa idade, eu tenho 70 anos, sempre dedicado ao magistério, o magistério foi minha vida, é muito bom ouvir isso. É muito gratificante, para mim, ter o reconhecimento de ex-alunos, daqueles que leram os meus trabalhos. São coisas que a gente pode dizer que valeu a pena. A atividade docente vale a pena pelo reconhecimento de todos aqueles que eu convivi ao longo da minha vida”, acentuou.

Enquanto esperava sua neta que estuda no CAEL, ele aproveitou para mostrar, aos estudantes, seus livros que estavam à venda na banca do evento. Desconhecido da maioria, mas fundamental para a história do curso de Letras das FIC.

Mais fatos e fotos:

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Norma apresentou sua pesquisa de doutorado, na qual ela elaborou um livro didático bilíngue em português e guarani. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda "Letramento literário como ferramenta de inclusão", na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Viviane Barbosa, Michele Santos, Dandara Ignácio e Raissa Lima compuseram a mesa-redonda “Letramento literário como ferramenta de inclusão”, na qual apresentaram análises sobre as experiências vivenciadas no projeto Pibid. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda "Pibid na formação continuada do docente" e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Raissa Rizetto, Juliana Conceição e Gustavo da Silva apresentaram a mesa-redonda “Pibid na formação continuada do docente” e debateram o como o projeto contribui no processo de formação dos futuros professores. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso "Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca", que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Estudantes tiveram protagonismo em várias atividades. Na foto, as estudantes Ana Carolina de Aguiar (esquerda), Fabiane Souza (ao centro) e Andreza da Silva (direita) entre as professoras Ana Paula Cypriano e Lucy Julião após o mini-curso “Aprendendo a Ensinar, uma jornada Quixotesca”, que elas apresentaram conjuntamente. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Uma das atividades da Semana de Letras fez a alegria de amantes da culinária portuguesa e famintos de planto. Estudantes das turmas de Teoria Literária Portuguesa prepararam uma mesa culinária com pratos típicos como bacalhoada, quindim, pastéis de belém, pães de centeio, entre outros. (Foto: Pollyana Lopes)

Que Zona Oeste queremos? A questão norteou debate na FEUC

Representantes de movimentos sociais da região trouxeram temas que gostariam de ver contemplados nas políticas públicas, de modo a se sentirem mais pertencentes à cidade onde vivem

Por Tania Neves

“Se a Zona Oeste fosse nossa” foi o tema do Espaço de Diálogo aberto na noite de segunda-feira no Auditório FEUC, recebendo três mulheres representantes de movimentos sociais da região que trouxeram relatos e propostas para debate com o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, partido que há um ano e meio lançou o Programa/Movimento “Se a Cidade fosse nossa”, com o objetivo de recolher subsídios para sua proposta de gestão da cidade do Rio de Janeiro num eventual futuro governo. Bernardete Montezano, da Rede Carioca de Agroecologia Urbana; Bianca Wild, do Ecomuseu de Sepetiba; e Thamires de Lima Guedes, aluna de Ciências Sociais e educadora social na Fundação Xuxa Meneghel, abordaram alguns dos muitos temas que a população da região gostaria de ver contemplados nas políticas públicas municipais, como questões ambientais, segregação socioespacial e vulnerabilidade da juventude.

Plateia participa atentamente do Espaço de Diálogo

Plateia participa atentamente do Espaço de Diálogo

‘Na cidade que a gente quer, se produz alimento de verdade, alimento vivo!’

Após as boas-vindas dadas pelas professoras Célia Neves, coordenadora de Ciências Sociais, e Rosilaine Silva, coordenadora de Geografia, a jornalista e agricultora Bernardete Montezano iniciou o diálogo abordando as dificuldades enfrentadas pelos agricultores familiares na região, com a crescente invisibilização e inviabilização de sua atividade. Bernardete frisou que, se estivesse falando para um público de outro lugar, certamente teria que começar seu relato informando que esta cidade tem agricultura, pois, para além da vizinhança dos agricultores familiares, poucas pessoas sabem que o município do Rio de Janeiro produz alimentos. Segundo ela, o atual Plano Diretor exclui a agricultura e persegue o agricultor: “No Maciço da Pedra Branca, criaram um parque estadual nos anos 70 com regras feitas à revelia de quem já estava ali há gerações, cultivando a terra. Hoje tem até uma polícia específica para reprimir as pessoas que vivem e viveram ali a vida toda”, denunciou.

Bernardete tocou num ponto interessante sobre as Unidades de Conservação Ambiental, que se apresentam com o objetivo de preservar a floresta remanescente e a biodiversidade, e em nome disso combatem a agricultura em seu entorno: “Eles não concebem a presença de pessoas nas unidades de preservação, esquecendo que são justamente as pessoas que vivem lá que garantiram a sobrevivência dos bichos e das plantas”, argumentou.

A agricultora fechou sua fala descrevendo como seria a sua Zona Oeste: “Na cidade que a gente quer, se produz alimento de verdade, alimento vivo. Nessa nossa cidade, a Vila Autódromo fica, a agricultura fica, os agricultores e as agricultoras terão protagonismo”.

Ecomuseu: a comunidade desenvolvendo o território a partir da valorização de sua história

Bernardete, Bianca, Thamires e Freixo na mesa de debates

Bernardete, Bianca, Thamires e Freixo na mesa de debates

Professora e socióloga, Bianca Wild seguiu desenhando essa Zona Oeste dos desejos de quem nela mora ao explicitar os objetivos do Ecomuseu de Sepetiba, do qual é fundadora: ali se realizam ações museológicas para desenvolver o território, a partir da valorização do lugar onde as pessoas vivem. A ideia de ecomuseu é quando membros de uma comunidade decidem o que ali merece ser preservado e desenvolvido, incluindo desde o entorno natural até as construções, as populações e os modos de vida, entre outras características. Não por acaso, o lema do Ecomuseu de Sepetiba é “Espelho onde se revê e se descobre a própria imagem”, já que o ponto fundamental para os moradores é a Baía de Sepetiba, tão maltratada e degradada nos últimos 30 anos.

“A pesca e a balneabilidade, fundamentais para os modos de vida das marisqueiras e dos pescadores artesanais, foram arrasadas por este modelo desenvolvimentista que está aí. É isso que nós queremos recuperar”, disse Bianca, lembrando que a poluição causada principalmente pela multinacional TKCSA inviabilizou os meios de subsistência dessas populações tradicionais e empurrou marisqueiras para o trabalho de domésticas e pescadores para a construção civil. “A Zona Oeste que a gente quer vai valorizar as pessoas e sua história e sua memória, para que o ofício da pesca artesanal não se perca”.

E para os interessados em conhecer mais sobre o Ecomuseu de Sepetiba, ela deixou um convite: todo primeiro domingo do mês é feito um passeio de reconhecimento pela região, passando pelos lugares e histórias que a população quer preservar.

Jovens: entre outras dificuldades, precariedade do transporte impõe segregação socioespacial

A terceira convidada a falar foi Thamires de Lima Guedes, graduanda de Ciências Sociais nas FIC e educadora social do projeto Incidência Política e Participação Infantojuvenil (IPPI) da Fundação Xuxa Meneghel. Ela leu um relato sobre sua trajetória, da jovem de 16 anos atendida pelo IPPI até a militante e educadora social que hoje atua no mesmo projeto. Falou também dos problemas de Guaratiba, região onde mora, sobretudo os ligados à degradação ambiental, crescimento desordenado e precariedade de políticas públicas: “Guaratiba tem o tamanho de 65 Leblons, e nenhuma UPA. As ciclovias começam e terminam no nada. A criminalidade é cada vez maior, a violência parece não ter fim”, registrou.

Segundo Thamires, a precariedade do transporte público é um dos pontos que mais deixam transparecer que os governantes não enxergam esta cidade como sendo nossa. Afinal, quando não tem à disposição a oferta de um transporte rápido, farto e seguro, a população acaba sendo privada também de outros direitos, como cultura, educação, saúde, pois fica praticamente segregada naquele espaço em que os equipamentos públicos são raros ou mesmo inexistem. Na visão da educadora e estudante, é preciso dar mais voz e vez aos moradores da Zona Oeste, sobretudo os jovens, para que possam se apropriar mais do território em que vivem.

Em vez de Cidade Maravilhosa, um maravilhoso cenário para uma cidade

Na interlocução com as falas das convidadas, o deputado estadual do PSOL Marcelo Freixo começou definindo o “Se a cidade fosse nossa”: um movimento, em vias de se consolidar como um programa, que visa a recolher diretamente com a população subsídios para compor um futuro projeto de gestão para a cidade, de forma que as ações implementadas reflitam o que é melhor para a cidade real, de seus moradores, e não para a cidade vitrine, aquela que é vendida para os turistas e os investidores: “O Rio hoje é uma cidade mais de desejo do que de realidade, mais de negócios do que de direitos, onde quem vive não decide por ela. Os espaços de participação estão cerceados, principalmente na Zona Oeste e na Zona Norte”, disse.

Freixo: interlocução com os temas apresentados

Freixo: interlocução com os temas apresentados

O deputado concordou que o pior de todos os problemas é o do transporte, pois a mobilidade é ruim justamente para quem mais depende de se deslocar, que é o trabalhador e morador de localidades mais distantes. O que, segundo ele, resulta em não ter direito à cidade. Afinal, quando se gasta 3 horas e meia do dia para chegar a um lugar (Centro da cidade ou Zona Sul, por exemplo) e mais 3 horas e meia para voltar para casa, é como se te dissessem que não é para você ir àquele lugar, ele não te pertence. “Por isso que eu digo que o Rio não é a Cidade maravilhosa, e sim um maravilhoso cenário para uma cidade”, brincou o deputado, chamando a atenção para o fato de que não se deve aceitar a naturalização de que “ o trânsito é ruim assim mesmo”. Nada disso é natural: é assim porque interessa a algumas forças que seja assim. “É um processo perverso e pedagógico. Só muda isso se mudar a capacidade das pessoas de participarem”, frisou.

Quanto à questão do pouco acesso a bens culturais, Freixo apresentou alguns números que chocaram a plateia: enquanto nas Áreas de Planejamento 1 e 2 (que englobam a região do Centro e da Zona Sul) há 395 equipamentos culturais para cerca de 1,3 milhão de habitantes; as Áreas de Planejamento 3, 4 e 5 somam  cerca de 5 milhões de habitantes e contam com apenas 158 equipamentos culturais. “Podemos dizer que o morador das APs 1 e 2 tem o mesmo direito à cidade do que os outros?”, indagou o deputado.

Outro ponto que ele abordou, em resposta às muitas críticas feitas à empresa poluidora TKCSA, é a lógica de se receber uma empresa assim, dando R$ 500 milhões em incentivos fiscais em troca do fato de que ela geraria mil empregos na região. “Um complexo como a Cadeg, por exemplo, gera 6.800 empregos. Tem alguma coisa errada aí”, disse o deputado, em alusão ao fato de que a primeira causa poluição, degradação ambiental e doenças, enquanto a segunda abre opções de lazer, reforça a cultura regional e a convivência entre pessoas, além de ser igualmente uma atividade comercial lucrativa e que pagará impostos.

Freixo informou que todo o debate estava sendo gravado e que as propostas levantadas seriam incorporadas ao “Se a cidade fosse nossa”, e convidou todos e todas a conhecerem o site do programa/movimento e participarem com mais sugestões. Acesse AQUI a página.

Plateia reforçou pontos apresentados pelas convidadas e trouxe novos assuntos

Em sua participação, alunos e alunas das FIC e o público externo reforçaram os pontos abordados pelas convidadas, como as questões da degradação ambiental, crescimento desordenado e precariedade de transporte e segurança. E trouxeram novos pontos, como a luta de alunos e professores nas escolas ocupadas, a necessidade de expandir a malha ferroviária como opção para o nó da mobilidade urbana, as restrições impostas em certas áreas pela atuação da milícia.