Arte, emoções e talentos marcam a 26ª Semana de Letras da FEUC

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Evento tradicional do curso revelou muita criatividade do público interno e externo; livro de poesias foi lançado

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

Uma bela edição da Semana de Letras aconteceu entre os dias 31 de maio e 2 de junho, na FEUC, e cumpriu com o propósito de trazer estudantes e visitantes da comunidade para compartilhar conhecimento, arte e emoções. Além das tradicionais palestras e oficinas, o número 26 do evento contou, este ano, com apresentações teatrais, declamações de poesia e dança típica, regados de muita criatividade e sensibilidade de quem foi a público expor seus trabalhos.

A começar por uma das apresentações de trabalhos que mais chamou a atenção dos estudantes. A aluna Marina Monteiro, do curso de Letras da UFRRJ, veio compartilhar com os alunos da FEUC suas análises sobre o funk carioca, que tem se mostrado um exemplo de resistência feminina no cenário artístico-musical.

Marina exibiu algumas letras de cantores homens que, segundo ela, sexualizam e objetificam mulheres, como em “Vem todo mundo“, de MC Catra. Em seguida, apresentou letras de funkeiras que retratam, também a partir de conotações sexuais, a resistência feminina ao machismo, como a música “A P**** da B***** é minha“, da Gaiola das Popozudas.

Estudante da UFRRJ apresenta análise sobre machismo no funk. (Foto: Gian Cornachini)

Estudante da UFRRJ apresenta análise sobre machismo no funk. (Foto: Gian Cornachini)

“O homem trata de uma forma baixa o corpo da mulher, como um objeto. Ele só quer sexo. E a mulher também vem com o mesmo discurso, mas para retratar a forma de liberdade que ela trata com seu corpo”, ressaltou Marina.

No quesito emoção, tanto a educação quanto a arte foram expressadas com angústia, dúvidas e esperança no evento. A professora de Língua Brasileiras de Sinais (Libras) Ana Carla Ziner Nogueira, da UFRRJ, tem uma irmã surda e vivencia a experiência de entender, de perto, os desafios enfrentados pela comunidade surda no Brasil. Na Semana de Letras, ela deu uma palestra sobre a importância da educação de surdos com o objetivo de chamar a atenção dos alunos para um grupo ainda tão excluído das possibilidades de crescimento profissional, intelectual e social.

Professora Ana Carla Ziner, da UFRRJ, chama a atenção para o ensino de surdos. (Foto: Gian Cornachini)

Professora Ana Carla Ziner, da UFRRJ, chama a atenção para o ensino de surdos. (Foto: Gian Cornachini)

“Cerca de 85% a 90% dos surdos nascem em famílias de ouvintes. Eles não aprendem, desde cedo, uma língua primária. Na escola, são expostos à Língua Portuguesa e ensinados fonemas”, apontou Ana Carla. “Língua de Sinais é encarada como recurso pedagógico e não linguístico. E isso é lamentável, porque língua não é um recurso, mas uma necessidade humana”.

E a humanidade, controversa e repleta de dúvidas, foi tema do poema “Ser humano?”, escrito pelo estudante Lucas Hermsdorff, do 3º ano do técnico em Administração do CAEL. O jovem aproveitou um sarau da Semana de Letras para levantar questionamentos por meio da arte das palavras: “Um ser que se denomina racional, mas possui atitudes irracionais, pode se considerar pensante?”, lançou Lucas, interpretando o poema que mantinha bem decorado.

O que é ser humano? Poema de Lucas Hermsdorff, estudante do 3º de Administração do CAEL, levantou questionamentos em sarau. (Foto: Gian Cornachini)

O que é ser humano? Poema de Lucas Hermsdorff, estudante do 3º de Administração do CAEL, levantou questionamentos em sarau. (Foto: Gian Cornachini)

O poema do jovem divide páginas com outros textos no livro “Vozes em Construção”, organizado, escrito e confeccionado por alunos de Literatura Brasileira e Poesia do turno da noite (2017.1) e que conta, também, com textos de convidados, como o de Lucas. Em meio ao sarau, a obra — idealizada e coordenada pelo professor Erivelto Reis — foi lançada sob declamações dos textos que integram a antologia poética.

“Era um sonho muito grande que esse livro acontecesse”, revelou o professor Erivelto. “Foi um grupo que uniu ideais em torno da literatura, ao redor da poesia, com vivências tão diferentes, gente que teve coragem de tirar um poema do fundo da gaveta e colaborar”, destacou ele, emocionado.

Professor Erivelto idealizou livro "Vozes em Construção", lançado na Semana. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Erivelto idealizou livro “Vozes em Construção”, lançado na Semana. (Foto: Gian Cornachini)

O livro “Vozes em Construção” esta disponível, gratuitamente, para download. Clique aqui para baixar o e-book.

Inspirando esperança e alegria por uma formação que valoriza as raízes históricas da população, alunos da disciplina de Literaturas Africanas, orientados pela professora Norma Maria, fizeram um jogral a partir do poema “Grito Negro”, do autor moçambicano José Craveirinha e, em seguida, cantaram e dançaram a música zulu “Siyahamba”, todos caracterizados com vestimenta de influência africana.

A aluna Ingra de Assis, do 3º período, explicou a mensagem que Craveirinha quis passar em seu poema: “Ele queria transmitir a angústia e o sofrimento da escravidão na época; a vontade de encerrar algo que ele não queria mais”, disse Ingra.

A estudante Ingra explicou poema moçambicano que inspirou jogral no evento. (Foto: Gian Cornachini)

A estudante Ingra explicou poema moçambicano que inspirou jogral no evento. (Foto: Gian Cornachini)

A professora Norma, visivelmente empolgada com a apresentação, fez questão de elogiar os estudantes: “Vocês me surpreenderam e mostraram quanta capacidade, criatividade e amor pela arte vocês têm. É isso que queremos fazer, mostrar aos alunos a diversidade, mistura do indígena, do português e do africano, porque somos um único povo e não podem existir diferenças e discriminação”, ponderou Norma, pedindo um bis com apoio do público: “Queremos ver de novo, porque é só uma vez ao ano!”. Sob o som de um belo batuque, tudo virou alegria de novo.

Com direito a bis, dança, canto e batuque africano alegraram o público. (Foto: Gian Cornachini)

Com direito a bis, dança, canto e batuque africano alegraram o público. (Foto: Gian Cornachini)

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