Geografia: Aula Inaugural debate o desastre de Mariana (MG)

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Curso convida professor da Uerj para detalhar o rompimento das barragens da Samarco e os desdobramentos do maior desastre ambiental do Brasil

Por Gian Cornachini
gian@feuc.br

Passados 16 meses após o desastre de Mariana (MG) — quando duas barragens da mineradora Samarco se romperam, causando mortes e destruição ao longo do percurso da lama —, os desdobramentos do caso foram o tema da Aula Inaugural de Geografia, primeiro evento anual realizado pelo curso das FIC, e que aconteceu ontem, dia 22 de março. Convidado a debater o assunto, o professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj e pesquisador no grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), da UFJF, apresentou dados da Samarco e suas controladoras — Vale e BHP Biliton —, além de expor o funcionamento das barragens em Minas Gerais e os danos causados pelos rompimentos.

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj, expõe dados referentes às barragens da Samarco. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley, da Uerj, expõe dados referentes às barragens da Samarco. (Foto: Gian Cornachini)

Impactos socioambientais a curto prazo

De acordo com Luiz, é extensa a lista de danos causados imediatamente após o desastre, entre eles:

- Destruição de áreas populacionais;
- Morte e/ou desaparecendo de 19 pessoas;
- 1,4 mil hectares de terras arrasadas;
- 80 km marítimos atingidos pela lama;
- Mudança do pH da água do Rio Doce;
- Comprometimento do abastecimento hídrico;

Impactos socioambientais a médio e longo prazo

Os efeitos do desastre não se encerraram após o rompimento das barreias e, segundo o professor, eles ainda podem ser observados, hoje, tais como:

- Devastação da paisagem e das matas ciliares;
- Rejeito estéril (material resultante do processo de mineração e sem aproveitamento econômico) liberado no solo;
- Assoreamento de rios;
- Contaminação da água por metais pesados;
- Risco para a saúde humana e de animais.

Estudantes lotam auditório durante primeira evento de Geografia da FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes lotam auditório durante primeira evento de Geografia da FEUC. (Foto: Gian Cornachini)

Sujeitos atingidos

O grupo PoEMAS tem levantado dados e feito estudos nas áreas atingidas para dimensionar o impacto na vida das populações. Luiz apontou que uma característica marcante é o peso do desastre sobre os negros:

“É possível verificar um racismo ambiental. A maior parte das pessoas atingidas é negra. Os engenheiros nos diziam que não escolhem um lugar para instalar uma mineradora de acordo com a cor da pele, mas a gente vê que elas só são instaladas em lugares onde as pessoas não têm força para lutar contra o empreendimento”, explicou o professor.

Outro grupo diretamente impactado, mas, segundo Luiz, pouco comentado na mídia, são os indígenas Krenak, que encaram o Rio Doce não apenas como um recurso hídrico, mas como um ente da família:

“Não adianta dar dinheiro para eles, para indenizá-los. A partir do momento que o rio morre, qual o impacto disso sobre a cultura deles? Eles querem o rio de volta para poder batizar seus filhos, pois isso é um valor intangível e diferente de nossa lógica de pensar a relação da sociedade com a natureza”, ressaltou Luiz.

Alunos fizeram rodadas de perguntas. (Foto: Gian Cornachini)

Alunos fizeram rodadas de perguntas. (Foto: Gian Cornachini)

Durante o debate, em que os estudantes apresentaram dúvidas sobre o futuro das operações da Samarco e da fiscalização de barragens, o professor foi claro em seu posicionamento, transferindo exclusivamente a responsabilidade dos danos para a Samarco, Vale e BHP:

“Os estudos não tinham a real proporção do que poderia ser um rompimento de uma barragem. Deveria ser considerada uma escala mais regional, e essa escala sequer mencionava o Rio Doce, pois ele estava longe demais. Os problemas são infindáveis e a gente tem que evitar que os custos sejam públicos. A culpa é das empresas e são elas que devem pagar a conta”.

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley responsabiliza as empresas pelo desastre de Mariana. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Luiz Jardim de Moraes Wanderley responsabiliza as empresas pelo desastre de Mariana. (Foto: Gian Cornachini)

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