Tita Parra em palestra musical: debate e encantamento

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Evento organizado pela FEUC aconteceu na Lona Cultural Elza Osborne, onde a neta da cantora chilena Violeta Parra tocou, cantou e falou de política, latinidade, vida, lutas, amores…

Por Tania Neves

Uma noite memorável. Assim foi o encontro da cantora, compositora e escritora Tita Parra, neta de Violeta Parra, e um pequeno e emocionado público que teve a honra de recebê-la na última quinta-feira, dia 7 de julho, na Lona Cultural Elza Osborne, em Campo Grande. A atividade foi promovida pela Coordenação de Eventos Especiais da FEUC. A proposta foi uma palestra musical, “Nossa vida é música”, em que a convidada entremeou vídeos históricos com apresentações da Família Parra, relatos sobre a vida de Violeta e das mulheres chilenas, lindas músicas folclóricas do repertório da avó e composições dela própria. E muita, muita conversa boa com a plateia, trocando impressões sobre o momento político da região e frases de força e incentivo para seguir na luta. No fim, Tita autografou seu CD “El camino del medio” para os que quiseram levar para casa uma lembrança do feliz encontro.

Tita Parra na palestra musical "Nossa vida é música", no palco da Lona Cultural Elza Osborne

Tita Parra na palestra musical “Nossa vida é música”, no palco da Lona Cultural Elza Osborne

Por que Campo Grande?
Organizadora da atividade, a professora Célia Neves, de Ciências Sociais, contou que a oportunidade de ter Tita Parra em Campo Grande veio por meio de uma ex-aluna de Pedagogia da FEUC, Marisa Silva, grande amiga de Tita. A artista, que estava em turnê pelo Cerrado brasileiro desde o começo de junho, incluíra em seus planos uma parada na casa da amiga, e esta fez contato com Célia: “Há umas duas semanas, Marisa me ligou e disse: ‘ Tita está chegando aí pelo Rio no início de julho. Você não quer levá-la em Campo Grande?’ Como assim? Claro que eu quis”, contou a professora. E assim surgiu a possibilidade de apresentação, no auditório da FEUC, da palestra “Nossa vida é música”. Entretanto, em busca de um equipamento sonoro com melhores recursos para o show de Tita, Célia fez contato com Ives Macena, da Lona Cultural Elza Osborne, e este gentilmente cedeu espaço para que o encontro fosse realizado lá.

A ex-aluna da FEUC Marisa fala ao lado da professora Célia

A ex-aluna da FEUC Marisa fala ao lado da professora Célia

Marisa fala um pouco ao público
“Eu queria falar sobre essa pessoa aqui: ela foi minha professora, e vai ser sempre minha professora. Porque quem estuda com a Célia sabe bem o que eu estou dizendo. Se hoje estamos aqui, é porque esta sementinha foi plantada lá atrás, no meu curso de formação. Eu estudei na FEUC e tenho muito carinho por aquele espaço, foi muito importante tudo o que eu aprendi na universidade. E o que venho fazendo a partir dali é florescer as sementes que foram plantadas”, disse Marisa, reiterando sua convicção de que a Educação se faz com cultura e pela cultura. Em seguida, convidou o público para chamar em Tita ao palco, em coro.

Com vocês, Tita Parra!
A cantora e compositora chilena iniciou a palestra musical exibindo no telão uma obra rara: um vídeo da Família Parra se apresentando em um show em Genebra, na Suíça, no qual ela aparece ainda criancinha, dançando junto da avó, Violeta Parra, e de outros familiares. E brincou sobre o registro: “É o mais antigo videoclipe da história, eu acho, porque é antigo mesmo!”.

Tita apresenta no telão um vídeo histórico da Família Parra em show na Europa

Tita apresenta no telão um vídeo histórico da Família Parra em show na Europa

Para explicar sua ligação com a música e os temas folclóricos de seu país, Tita contou sobre uma turnê com a família pela Europa, iniciada quando tinha apenas 6 anos, no começo dos anos 60, e que durou três anos, viajando principalmente de navio e trens, e se apresentando em diversas cidades e festivais populares: “Minha avó Violeta aproveitava então para mostrar a cultura popular latina, a cultura popular do Chile, para a Europa. Ela mesma costurava as roupas, fazia a cenografia, bordava, compunha as músicas e nos fazia cantar, tocar… o público europeu ficava muito feliz, e ela ganhava muitos prêmios por apresentar a cultura do Chile para o mundo”, lembrou Tita, atribuindo a essa vivência o prazer que ainda hoje tem de viajar por diversos países, privilegiando sempre as cidades pequenas e os públicos mais intimistas, para apresentar sua música e também relembrar os sucessos da avó.

Uma forte ligação com o Brasil
Dizendo-se admiradora “fanática” da música brasileira, contou sobre antigas amizades de Violeta com artistas daqui – entre eles o poeta amazonense Thiago de Mello – e mostrou-se orgulhosa de hoje repetir turnês como as que a avó fazia. “Eu hoje realizo um sonho, o sonho de viajar com minha música pelo interior do Brasil, cantando, tocando, criando um público que ama a cultura, me envolvendo com as pessoas. Violeta, sempre que lhe perguntavam qual era a arte que preferia, se tivesse que escolher uma entre bordar, pintar, compor, cantar, escrever… ela dizia que gostava de ficar com as pessoas, ela adorava as pessoas. E é disso que eu gosto também”.

Tita convidou o público a visitar, em Santiago, o Museu de Violeta Parra, que reúne o acervo do qual sua mãe sempre cuidou. No museu, contou Tita, há uma espetacular sala de música, batizada de Sala Antar, em homenagem a seu filho, também músico, Antar Parra, falecido em 2010 no Rio de Janeiro, onde morava e estudava violão.

A cantora conversa com o público, contando histórias de família e experiências de latinidade

A cantora conversa com o público, contando histórias de família e experiências de latinidade

Interação com o público: proposta de conversa espontânea
Como era a proposta da palestra musical, Tita passou a palavra à plateia para que lhe fizessem perguntas. Na primeira intervenção, uma espectadora pediu à artista que contasse como se deu a composição de “Nuestra respuesta és la vida”. Tita respondeu que fez a canção durante a ditadura, impressionada ao escutar o discurso de Gabriel García Márquez ao receber o Prêmio Nobel: “Eu peguei umas frases do discurso que falavam algo como que frente a diversas dores que sofríamos na América Latina, nossa resposta era a vida. Eu escrevi a letra e coloquei as frases dele no refrão. Mostrei para minha mãe, que estava no exílio, e a chamei para cantarmos juntas. Cantamos pela primeira em um festival no Peru, onde estavam muitos artistas de toda parte da América Latina: nós, Mercedes Sosa, Silvio Rodríguez”, relembrou.

Após alguns números musicais, a conversa foi retomada com o pedido de outra espectadora – as mulheres eram maioria absoluta na lona – para que ela discorresse sobre o que é ser mulher na Família Parra, e que falasse um pouco sobre as diversas gerações femininas que a antecederam. Tita então fez uma verdadeira análise sociológica, partindo da história de sua bisavó camponesa, Clara, continuando com a da avó Violeta e chegando nas gerações mais jovens: “Clara era uma mulher lutadora, criou seus dez filhos na luta. Ela tinha um marido que bebia. Violeta também teve marido que bebia, e suas filhas também tiveram maridos assim. Chile é um país alcoólico, todos bebemos muito vinho. Para passar a pobreza, para passar as dificuldades, para passar a falta de trabalho, a discriminação… “, disse a cantora, pintando um retrato das dificuldades por que sempre passaram as mulheres no Chile, sobretudo as mais pobres. “É algo que se repete de geração em geração, e Violeta abordou isso em suas canções. É um matriarcado, mulheres que sustentam a família e homens que bebem e vão embora, que desaparecem, ou que morrem cedo porque não se cuidam. E é muito parecido em todos os países da América Latina em desenvolvimento: homens que se vão e mulheres que ficam cuidando da família. Mas agora, com a evolução psicológica e outros elementos, temos também mulheres mais felizes. Estamos hoje em um processo de crescimento diferente, lutando contra os condicionamentos sociais que nos programam para sermos infelizes”, ressaltou.

Pausa para também ouvir

O professor Mauro fala sobre o momento que vivemos

O professor Mauro fala sobre o momento que vivemos

Tita também quis saber do público o que tinha a dizer sobre a vida no Brasil neste momento, e o primeiro a responder foi o professor de espanhol da FEUC Mauro Ferreira, que fez um resumo de alguns tristes acontecimentos recentes, como o assassinato do estudante Diego Vieira Machado na UFRJ, em um provável crime de ódio, os recorrentes casos de violência contra a mulher e a virulência dos julgamentos e ataques entre pessoas nas redes sociais, marcando o que ele definiu como um momento de obscuridade e retrocesso nas liberdades. Mas fechou com otimismo. “Me encantaria que nós recomeçássemos e não nos esquecêssemos que somos latino-americanos. E para mim é uma honra estar aqui esta noite ouvindo a voz latino-americana. Vou seguir falando, e você também é a nossa voz”, disse o professor, ressaltando que atua em oito diferentes escolas para “fechar o orçamento” e que havia se levantado às 5 horas da manhã para trabalhar: “Mas aqui estou para ouvi-la e encantar-me. Muito obrigada”.

O sarau e bate-papo seguiu por diversos outras lindas canções folclóricas e temas instigantes, como as ações dos movimentos sociais contra a escalada do capital privado sobre a vida das populações pobres nas cidades, a resistência cultural de grupos que organizam pequenos encontros – como aquele próprio evento em que ela cantava – relatos sobre a cena musical atual do Chile e muito mais. Tita defendeu que não se pode aceitar a criminalização da política como um todo – o que, segundo ela, tanto no Chile quanto em outros países da América Latina tem sido uma tática empreendida pela direita – mas sim lutar com os bons políticos e o povo em geral por mudanças que restaurem e reforcem a democracia. “Não temos outra alternativa senão lutar. Seja através da música, da arte, da criatividade. Não vamos esperar que os governantes mudem as coisas. Nós temos que mudar. E ter uma vida próspera em nosso interior, nos solidarizando e nos comunicando com o outro. Então, não se deprimam. Porque se a gente se deprimir… fudeu!”, completou, arrancando gargalhadas da plateia.

O fecho que não poderia faltar: Volver a los 17!
Após mais um punhado de músicas e trocas de experiências com seus entusiasmados interlocutores, Tita agradeceu a recepção e o interesse da plateia, e certificou-se de que não poderia encerrar o encontro sem Tita9cantar “Volver a lós 17”, talvez a canção de Violeta Parra mais conhecida por aqui, junto com “Gracias a la vida”. Ela disse: “É uma obrigação? É uma obrigação! Então vamos cantar todos juntos. No coro, todos cantam. Mas vejam que é ‘el musguito en la piedra’ e não ‘el mosquito en la pierna’, está?”, brincou.

Ao fim do show, ela foi cercada no palco por todos que queriam comprar seu CD e levar para casa uma lembrança autografada. E se estendeu por longos minutos autografando e ouvindo pequenas histórias pessoais e elogios a seu trabalho.

Nos resta dizer: até a próxima, Tita!! Obrigada, Marisa!!

One comment on “Tita Parra em palestra musical: debate e encantamento

  1. Celia Neves disse:

    Memorável, é verdade! Tita Parra nos proporcionou uma noite memorável, encantadora, leve e forte. E me pego pensando que isso foi possível porque Tita nos traz memórias de mulheres simples e profundas. Nos traz relatos de luta, de dores, de resistência, de arte, de amor. Tita nos traz um convite a viver criando, e criando sobretudo momentos e relações de felicidade.
    Gratidão e esperamos seu retorno
    Célia Neves

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