VII Encontro de Artes e Surdez lota auditório da FEUC

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Evento reuniu alunos, ex-alunos, professores e familiares dos participantes do curso de Português para Surdos, ministrado gratuitamente pela professora Maria José Brum às quintas-feiras

Por Tania Neves

Maria José fala para a plateia de alunos, ex-alunos e familiares que prestigiaram o evento

Maria José fala para a plateia de alunos, ex-alunos e familiares que prestigiaram o evento

“A senhora é meio suspeita de falar porque a senhora me ama. As pessoas que me amam são muito suspeitas para falar”, brincou a professora Maria José Brum ao fim do discurso de Dona Sheila, mãe de um dos mais novos alunos que frequentam, às quintas-feiras na FEUC, o curso de Português para Surdos, ministrado gratuitamente por ela e um grupo de voluntários formado por alunos da graduação de Pedagogia das FIC e outras pessoas que aderiram à belíssima causa: ajudar surdos e deficientes auditivos a aprimorar seu domínio da língua portuguesa, e assim superar as barreiras comunicacionais que prejudicam seus estudos.

Mas se quem ama Maria José fosse mesmo suspeito para falar… não sobraria nenhum “não suspeito” em quem se pudesse confiar, pois no auditório lotado para o VII Encontro de Artes e Surdez, na noite de segunda-feira passada, simplesmente não havia quem não se derramasse em elogios, declarações de amor eterno e agradecimentos à professora.

Trabalho feito com profissionalismo e amor, e que ajuda a mudar vidas

Dona Sheila, atendendo ao convite para ir ao microfone dar seu depoimento, comentou que o filho Anderson Claiton está entusiasmado com as aulas de português, aprendendo com Maria José as letras, os números, e que isso tem sido um estímulo para ele gostar mais dos estudos: “Quando fala que é pra vir pra cá, ele se arruma com alegria… e eu só tenho a agradecer. A ela, aos voluntários, às mães… na verdade, a todos. Porque aqui somos uma família. E eu quero agradecer a Deus, primeiramente, e a cada um de nós que estamos aqui, doando nosso tempo, dando amor, e ensinando e aprendendo”, disse Sheila.

Dona Sheila expressa sua gratidão e admiração pelo trabalho feito por Maria José

Dona Sheila expressa sua gratidão e admiração pelo trabalho feito por Maria José

Maria José Brum, professora de Libras das FIC, agradeceu o discurso e completou: “Todo esse tempo eu mais tenho aprendido do que ensinado. Vocês aqui são os protagonistas”.

O VII Encontro de Artes e Surdez tem o objetivo de reunir alunos, ex-alunos, professores, voluntários, familiares e simpatizantes para uma noite de celebração e apresentações artísticas. Esta edição teve palestra, uma apresentação de dança e esquetes de teatro. O evento foi aberto pelo professor Valdemar Ferreira, coordenador Acadêmico das FIC, que festejou o fato de que, a cada ano, o encontro reúne mais gente e mostra mais vigor. “É um ganho para a disciplina de Libras, mas sobretudo para os alunos”, disse ele. Também a professora Maria Lícia Torres, coordenadora do curso de Pedagogia, deu um pulinho no auditório entre uma aula e outra para cumprimentar o público e parabenizar pelo encontro.

Palestra sobre a importância da profissionalização dos intérpretes

Ruan Diniz: intérprete precisa se profissionalizar

Ruan Diniz: intérprete precisa se profissionalizar

O convidado especial Ruan Diniz, intérprete profissional, instrutor de Libras no Senac e que também trabalha na TV Ines, fez palestra sobre a importância da qualificação dos intérpretes, no sentido de tornar cada vez mais profissional a tarefa de fazer a ponte comunicacional entre surdos e ouvintes, derrubando assim as barreiras linguísticas que acabam impedindo que os surdos estudem e se desenvolvam nas profissões que desejarem seguir. “O intérprete ajuda o surdo não porque ele é bonzinho, mas porque é a profissão dele. É preciso que o intérprete tenha proficiência em Libras, que estude, que se especialize. Isso é uma profissão”, enfatizou.

Entre um e outro discurso ou apresentação, Maria José seguia em seu papel de mestre de cerimônias e sorteava brindes para os convidados – caixas de bombons, perfumes e outros mimos. Sempre ressaltando a importância do encontro, a oportunidade de a cada dia tornar o curso de Português para Surdos mais acolhedor para aqueles que o frequentam.

Professores de Libras presentes na plateia falaram sobre seu trabalho e exaltaram a iniciativa de Maria José de oferecer um curso gratuito de Português para Surdos. As aulas acontecem todas as quintas-feiras na FEUC, entre 16h e 18h, e os interessados em ingressar na turma podem chegar. Basta se identificar na portaria e dizer que quer ir para a aula da professora Maria José.

A irmã Celi: a razão de Maria José transformar seu sonho em ação

Já perto do fim do evento, Maria José comentou que muitas pessoas costumam perguntar por que ela gosta tanto dos surdos, por que gosta tanto de falar com eles. E ela respondeu dando a palavra à irmã, Celi, que é surda e foi desde sempre a primeira razão para que ela se interessasse por estudar Libras e se dedicar à missão de tornar a vida dos surdos menos complicada do ponto de vista comunicacional.

Com vocês, Celi:

Maria José e a irmã Celi: emoção pura nas lembranças do passado

Maria José e a irmã Celi: emoção pura nas lembranças do passado

“Hoje é a primeira vez que eu estou aqui, juntamente com a minha irmã, Maria José, a minha irmã que eu amo muito, muito, muito. E eu me emociono muito por estar aqui, eu amei conhecer todos vocês”, disse Celi, elogiando o palestrante Ruan, as mães, professores e alunos que deram seus recados no encontro. E emendou com um relato mais pessoal: “A minha irmã, lá atrás, lá no passado, quando ela era criança e eu também, era eu quem fazia carinho, eu que estava com ela. Ela não sabia Libras, ela não sabia nada. Aí eu dizia ‘coitada da minha irmã, eu vou ajudar minha irmã’, aí ela foi aprendendo comigo, ela foi se desenvolvendo e tudo o que ela sabe hoje é graças a mim”, disse Celi, para delírio da plateia e da própria Maria José, que completou: “Verdade, verdade, verdade!”.

Esquetes de teatro para tirar os ouvintes da “zona de conforto”

A noite se completou com a apresentação de uma peça de teatro escrita e dirigida pelo casal de ouvintes William e Adriana, e interpretada por surdos e ouvintes. Os autores se dedicaram a um exercício de inversão da realidade: imaginar o mundo povoado por uma maioria de surdos, com poucos ouvintes precisando se “integrar” a esta sociedade, e enfrentando as dificuldades que os surdos enfrentam no mundo real. Em quatro esquetes, foi possível entender a agonia por que passam os surdos numa sociedade que pouco faz para que eles de fato possam se integrar.

Num dos esquetes, o ambiente era um banco, onde o atendente era surdo, e chega uma cliente ouvinte, pedindo ajuda para usar o caixa eletrônico. Como ela não consegue se comunicar com ele, e não há um intérprete à disposição, ele apenas faz um sinal para que ela espere. Aí entra uma surda, pede a ele a mesma ajuda que a outra pedira, e ele prontamente atende – para desespero da primeira, que brada que “chegou primeiro”, que ele “nem deu bola pra ela” etc. Ou seja: exatamente o que vivem os surdos em todo local onde não há intérpretes (como manda a lei) e nem os ouvintes dominam o mínimo de Libras para interagir com eles.

Participantes dos esquetes de teatro agradecem os aplausos

Participantes dos esquetes de teatro agradecem os aplausos

Em outro esquete, uma cidadã ouvinte entra desesperada na delegacia para denunciar que fora assaltada. O policial civil nada compreende, e o PM que chega em seguida também não. Inconformada, ela deixa a delegacia reclamando muito pelo mau atendimento. E os policiais, já que “o dia está tranquilo”, saem para tomar um cafezinho. Isso te lembra alguma coisa?

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