Ciências Sociais e Geografia debatem descolonização do saber

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Evento promovido pelos dois cursos de licenciatura das FIC discute a dominação do conhecimento por países historicamente imperialistas e consequências político-sociais desse processo

Por Gian Cornachini e Pollyana Lopes

Um novo encontro de dois cursos das FIC, que já andam de mãos dadas há muito tempo, aconteceu esta semana, entre os dias 7 e 9, no Auditório FEUC. Geografia, com a XVII Semana Acadêmica, e Ciências Sociais, com seu XVIII Encontro, promoveram, juntos, três noites de debates sobre a “Descolonização do Saber: relações Sul-Sul”. O objetivo do evento foi discutir as relações de espaço, poder e saber, de modo a repensar as possibilidades além da organização proposta pelo “norte”, ou seja, os países ditos desenvolvidos e que exerceram práticas imperialistas e colonialistas nos países do “sul”, denominados subdesenvolvidos. Além de palestras, o encontro abriu ainda espaço para apresentações de trabalhos acadêmicos dos estudantes, destinando a noite de encerramento do evento para o protagonismo do saber discente.

Entendendo o que é descolonização do saber

A especialista em Geografia e professora do Colégio Pedro II Lucia Naegeli abriu as atividades explicando, primeiramente, o que é a temática central do evento: a descolonização do saber. Mas, para entender isso, é necessário compreender o que é colonização do saber. E Lucia tratou logo de esclarecer: “Colonização do saber, do conhecimento, é o saber imposto”, iniciou a professora. Segundo ela, os europeus eram os povos que acreditavam ter o conhecimento científico, e os povos colonizados dependiam desses países — que estabeleceram relações econômicas e de subordinação social e cultural, caracterizando-se um processo chamado, segundo Lucia, de “colonialidade”.

Lucia Naegeli, professora do Colégio Pedro II, sobre a descolonização do saber: "É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade". (Foto: Gian Cornachini)

Lucia Naegeli, professora do Colégio Pedro II, sobre a descolonização do saber: “É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade”. (Foto: Gian Cornachini)

Portanto, “descolonização do saber” significa, para a professora, resistir a esse movimento eurocêntrico que ainda se perpetua no campo do conhecimento: “É pensar até que ponto essas marcas coloniais estão entranhadas na sociedade. É respeitar o modo de vida do diferente, reconhecer saberes de povos além da Europa e dos EUA como parte de sua história e identidade, e não encará-los como excêntricos”, afirmou Lucia.

Também professor do Colégio Pedro II e doutor em História, Wolney Malafaia prosseguiu a fala de Lucia abordando o cenário global pós Segunda Guerra Mundial e suas implicações no surgimento do Movimento dos Países Não Alinhados — uma organização que chegou a reunir mais de 100 países com a finalidade de fortalecer suas relações internacionais e se distanciar de confrontos entre as nações consideradas grandes potências, como os EUA, países da Europa, Rússia, Japão, Austrália, Nova Zelândia, entre outros. O resultado foi a formação de um eixo Sul-Sul, ou seja, de fortalecimento de relações exclusivas entre a maior parte dos países do hemisfério Sul: “Isso pode ser entendido como um processo de descolonização, uma reação ao domínio do Norte gerada no período pós-guerra”, disse Wolney.

O professor Wolney Malafaia, do Colégio Pedro II, explicou a formação do Movimento dos Países Não Alinhados como uma reação ao domínio dos países do Norte. (Foto: Gian Cornachini)

O professor Wolney Malafaia, do Colégio Pedro II, explicou a formação do Movimento dos Países Não Alinhados como uma reação ao domínio dos países do Norte. (Foto: Gian Cornachini)

Para o professor da Uerj Jorge Braga, que é doutor em Geografia e especialista em Relações Internacionais — e que iniciou o debate no segundo dia do evento —, é urgente a necessidade da reflexão acerca de como os povos do Sul foram, ao longo da história, massacrados por uma ideologia que vem do Norte: “A colonialidade é um resíduo irredutível de nossa formação social e está arraigada nas mais variadas instituições políticas e acadêmicas. Ela não apenas submete outros povos à violência militar, mas também transforma radicalmente suas formas de conhecer o mundo e a si mesmos, levando o colonizado a adotar o universo cognitivo imposto pelo colonizador”, destacou. “Esse modelo eurocêntrico de mundo continua permanecendo. É importante descolonizarmos o saber e o poder a partir da sala de aula, questionar o que já vem especificado, promovendo um exercício de descolonização perpétuo na sociedade”, propôs ele.

Segundo o professor, outra maneira de ir contra a colonização do saber é adotar práticas em sala de aula que valorizem a história e formação dos povos do Sul, como, por exemplo, compreender estudos que abordem a América Latina: “A partir do momento que a gente desloca o locus da enunciação, saindo do eurocêntrico e trazendo para onde estamos, novas vozes emergem. A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela, a sua diversidade, importância, experiências e contribuições para esse processo”, relatou.

Jorge Braga, professor da Uerj: "A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela". (Foto: Gian Cornachini)

Jorge Braga, professor da Uerj: “A gente precisa fazer uma discussão sobre a América Latina porque moramos aqui, mas não vivemos ela”. (Foto: Gian Cornachini)

Seguindo a mesma lógica, Amauri Mendes Pereira, doutor em Ciências Sociais e professor da UFRRJ — e que dividiu a mesa de debate com Jorge —, destacou a necessidade de também valorizar a cultura africana, uma vez que nosso continente pode ser chamado, segundo ele, de América Afro-Latina devido a sua composição demográfica formada, em grande parte, por afrodescendentes.

“A constituição brasileira criou a obrigatoriedade do ensino de história cultural afro-brasileira, africana e indígena. Isso já é um passo, mas surgiu de reivindicações. E currículo escolar não se faz pela lei. Tem que emanar de movimentos sociais, do saber descolonial que emerge do povo a partir de lutas significativas de novos agentes sociais e políticos engajados nessas transformações”, ressaltou Amauri.

Professor Amauri Mendes Pereira, da UFRRJ, aposta no ensino sobre a cultura e história africana e afro-latina-americana como um dos eixos da descolonização do saber. (Foto: Gian Cornachini)

Professor Amauri Mendes Pereira, da UFRRJ, aposta no ensino sobre a cultura e história africana e afro-latina-americana como um dos eixos da descolonização do saber. (Foto: Gian Cornachini)

Descolonização do saber e “Escola sem Partido”

Ao tocar no assunto currículo escolar, é impossível deixar de fora a discussão a respeito do projeto “Escola sem Partido”, que prevê notificação extrajudicial para professores que falem sobre política, comentem notícias do dia a dia e discutam questões de gênero e identidade sexual em sala de aula. Os defensores desse movimento se dizem “preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras”, e afirmam que os educadores são “um exército organizado de militantes travestidos de professores” que se utilizam da “liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo” (saiba sobre o projeto em: http://www.escolasempartido.org/quem-somos).

Lucia Naegeli e Wolney Malafaia compartilham da mesma opinião sobre o "Escola sem Partido": "É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira". (Foto: Gian Cornachini)

Lucia Naegeli e Wolney Malafaia compartilham da mesma opinião sobre o “Escola sem Partido”: “É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira”. (Foto: Gian Cornachini)

Palestrantes e alunos presentes no evento se sentiram incomodados em pensar na possibilidade de serem considerados criminosos ao exercer, por exemplo, práticas da descolonização do saber. O professor Jorge lembrou que nosso sistema de educação é muito inspirado nos países do Norte, e isso desqualifica saberes e ideais que vão contra aqueles que nos são impostos: “Nossas gerações foram ensinadas a acreditar que havia um modelo de felicidade e sucesso que estava pautado na Europa e nos EUA, e isso acabou contaminando nosso currículo escolar, livros didáticos e a mídia com noções de progresso, fazendo a gente achar que desenvolvimento são construções de represas como Belo Monte e rodovias que atravessam o continente e cortam parques ambientais. Acredito que nós, professores, temos que construir nosso material e subverter os currículos instituídos”, declarou Jorge.

Estudantes fizeram perguntas e comentários sobre como colocar em prática a descolonização do saber diante de políticas retrógradas. (Foto: Gian Cornachini)

Estudantes fizeram perguntas e comentários sobre como colocar em prática a descolonização do saber diante de políticas retrógradas. (Foto: Gian Cornachini)

A professora Lucia comentou sobre o “Escola sem Partido” no primeiro dia do evento, considerando-o um retrocesso no processo de aprendizado e libertação da sociedade: “A gente custou tanto para perceber e reagir aos processos imperialistas e de exploração e, agora, isso tudo está sendo desconstruído de forma política, contrário à nossa libertação, soberania e resistência. A escola é o lugar que a gente tem que criar esses espaços para pensar”, opinou. Wolney também compartilhou da mesma ideologia e acredita que o projeto não conseguirá abafar as demandas sociais: “É uma falta de compreensão da complexidade da sociedade brasileira. E não adianta botar o ‘Escola sem Partido’. A realidade vai invadir as escolas, as fábricas e as universidades. Esses caras estão simplesmente colocando uma noite entre um dia e outro. Eles serão derrotados”.

Um dia de protagonismo estudantil

No terceiro dia da XVII Semana Acadêmica de Geografia e do XVIII Encontro de Ciências Sociais, foi a vez de os alunos darem continuidade ao evento. Divididos em dois espaços, dezenove grupos de estudantes, de todos os períodos, discutiram seus pôsteres e fizeram apresentações orais sobre temas variados. Entre as mostras, alguns temas foram as diferenças socioespaciais  nas sub-regiões do Nordeste brasileiro, as diferenças e similaridades da reforma agrária no Brasil e na África do Sul, a desterritorialização dos habitantes do morro do Bumba após a tragédia acontecida na região, o conflito entre os pescadores e grandes indústrias na Ilha da Madeira, entre outros. Já as apresentações orais trouxeram assuntos como “Registros do trabalho de campo de Barra de Guaratiba: Praias dos Corais e do Perigoso e a Pedra da Tartaruga”; “As relações Sul-Sul e a descolonização do saber”; “Agora sou Black: conversa com meninas”; “Os meninos: impressões e olhares sobre o Black”, etc.

Um dos temas que mais suscitaram o debate entre os alunos foi o que tratou sobre “O impacto dos megaeventos no Brasil: o caso da Copa do Mundo em Manaus”. A apresentação de Marcelle de Souza, André Germano e Júnior Oliveira foi fruto de um trabalho para a disciplina de Geografia Regional e trouxe os pontos positivos e negativos que a Copa do Mundo gerou para a população manauara. Os estudantes apresentaram dados que demonstram que a cultura cotidiana dos moradores da cidade não tem o futebol como referência e que a construção de um estádio no local se apresenta como uma prática colonizadora dos saberes, culturas e conhecimentos locais, introduzindo lógicas externas e gerando impactos negativos. De acordo com os estudantes, o único aspecto que poderia ser considerado positivo foi a inclusão da cidade do sistema de energia brasileiro, enquanto promessas como obras de mobilidade sequer foram iniciadas e a especulação imobiliária tem promovido, como legado, um processo de higienização social na cidade.

Marcelle de Souza e André Germano, na apresentação sobre os impactos da Copa do Mundo em Manaus. (Foto: Pollyana Lopes)

Marcelle de Souza e André Germano, na apresentação sobre os impactos da Copa do Mundo em Manaus. (Foto: Pollyana Lopes)

“Das duas obras que realmente ficaram, que foi o estádio e o aeroporto, nada beneficiou a população. A população não tinha um apego cultural com a cultura futebolística e ficou um estádio que é um elefante branco e um aeroporto novo, que não é algo que muda a vida de muita gente”, explicou Marcelle.

O professor do curso de Geografia Alexandre José Almeida Teixeira coordenou um dos espaços e destacou o conhecimento adquirido com o contato com outras visões e abordagens trazidas por palestrantes de outras instituições. Ele também falou sobre a importância, na formação dos estudantes, das apresentações discentes, no enriquecimento do currículo acadêmico, na preparação para processos seletivos e no contato com o público, já que serão todos professores:

“Particularmente, em um dia como esse da semana, os alunos têm a oportunidade de fazer uma produção científica, de sair da sala de aula e de serem agentes, de serem atores que constroem o conhecimento, que fazem o diálogo com os colegas do seu curso e do outro curso, no nosso caso, particularmente”, comentou.

Professor coordenou um dos espaços e destacou o dia dedicado a apresentações dos estudantes. (Foto: Pollyana Lopes)

Professor coordenou um dos espaços e destacou o dia dedicado a apresentações dos estudantes. (Foto: Pollyana Lopes)

Posição parecida mantém a professora de Ciências Sociais Carmem Castro. Antes de comentar alguns trabalhos, ela lembrou do aprendizado que adquiriu, enquanto cursou sua graduação, em encontros acadêmicos: “Às vezes era até maior do que a própria sala de aula”, enfatizou. Carmem também não deixou de cumprimentar os estudantes que se expuseram nas apresentações públicas: “Primeiro eu quero parabenizar os que vieram aqui na frente e apresentaram os trabalhos, isso torna o processo de uma semana mais dinâmico”.

Professora Carmen Castro parabenizou os estudantes fizeram apresentações. (Foto: Pollyana Lopes)

Professora Carmen Castro parabenizou os estudantes fizeram apresentações. (Foto: Pollyana Lopes)

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