‘No Pibid eu descobri o que eu queria fazer da minha vida’

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A fala emocionada de uma das bolsistas do Pibid Letras demonstra um pouco a importância do Programa de Iniciação à Docência

Por Pollyana Lopes
emfoco@feuc.br

É de Raissa Lima a fala que dá título a esta matéria. As palavras foram pronunciadas no lançamento do CD produzido pelo subprojeto de Letras, com gravações das crianças da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guaratiba, lendo textos clássicos. Depois de um ano inteiro de atividades desenvolvidas nas escolas públicas da região, os subprojetos de História, Ciências Sociais e Letras do Pibid promoveram em novembro eventos para apresentar à comunidade os resultados das atividades.  O Pibid Letras reuniu toda a comunidade escolar em torno de uma grande cerimônia, já os estudantes das escolas estaduais Irineu José Ferreira e Fernando Antônio Raja Gabaglia lotaram o auditório da FEUC para debater a questão de gênero junto de bolsistas, coordenadores e supervisores dos subprojetos de Ciências Sociais e História. Em agosto, os bolsistas de Geografia já haviam apresentado, no Centro Interescolar Miécimo da Silva, os documentários realizados com os estudantes de lá em seu subprojeto.

Auditório lotado durante um dos debates da segunda edição do Pibid em Movimento. (Foto: Gian Cornachini)

Auditório lotado durante um dos debates da segunda edição do Pibid em Movimento. (Foto: Gian Cornachini)

II Pibid em Movimento

O debate “Violações e violência de gênero: processo histórico e resistências” contou com a participação da professora do curso de História Marcia Vasconcellos e a advogada, assistente social, teóloga e pastora da Igreja Metodista Rute Noemi da Silva Souza. Mas o destaque da conversa foi a madura participação dos estudantes, que fizeram intervenções com falas empoderadas, contaram vivências particulares e casos de violências sofridas.

Marcia buscou mostrar, em sua fala, que o machismo que perpassa as relações sociais atualmente é herança direta do sistema patriarcal, que colocava apenas os homens como autoridade legítima das famílias. Para isso, ela apresentou casos de mulheres que, durante o período da escravidão no Brasil, romperam essa mentalidade. Entre os casos documentados que a professora apresentou destacam-se o da mulher branca, oriunda de um grupo da elite, que geria o patrimônio da família, mesmo com a repreensão dos filhos; e o das negras escravas que, com trabalho lícito de venda de tabuleiros, compravam a liberdade e se tornavam arrimos de família, com posses registradas e casamentos em regime de separação de bens.

“O que eu quero mostrar para você é que as mulheres sempre resistiram ao patriarcalismo. Não eram todas as mulheres ricas que viviam sob a égide dos maridos, e as mulheres negras escravas utilizavam meios lícitos, e não apenas o roubo e a prostituição, para comprarem a própria liberdade e se tornarem pessoas autônomas”, explicou Marcia.

Rute Noemi: pastoraressaltou a necessidade de se quebrar o ciclo da violência. (Foto: Pollyana Lopes)

Rute Noemi: pastora ressaltou a necessidade de se quebrar o ciclo da violência. (Foto: Pollyana Lopes)

Já Rute Noemi da Silva Souza utilizou sua formação multidisciplinar para instigar os estudantes a pensarem o quanto são atingidos, cotidianamente, por diversas formas de violência, e como também podem ser reprodutores dessa lógica. Ela utilizou a definição de palavras como violência, gênero, agressividade, machismo e espiritualidade para levar os estudantes a reflexões e atuação por uma cultura de paz.

“Como eu faço para ter essa cultura de paz? Primeiro você precisa ficar inquieta, inquieto com tudo isso que está sendo dito para você. Para meninas: não tenham medo de namorado! Não tenham medo de usar a roupa que vocês usam, porque a culpa do estupro não é da sua roupa, a culpa do estupro é do estuprador. Ele que está praticando um crime. E, olha, eu sou uma pastora. A gente tem que se libertar dessas amarras que fazem com que a gente só reforce a violência”, reiterou Rute.

Depois da longa apresentação das palestrantes, os estudantes ocuparam o microfone com questionamentos e proposições. A colocação de mulheres transgênero no mercado de trabalho; gordofobia na escola; o papel da mulher negra na sociedade, ainda mais marginalizado que das mulheres brancas, e a fetichização por elas sofridas; a violência sofrida por homens pobres, que reproduzem essa lógica, foram alguns dos temas trazidos pelos alunos, junto de exemplos e experiências pessoais.

“O discurso do feminismo é importante para todas, mas é mais importante para as mulheres negras como eu. Quando eu vejo feministas como Clarice Falcão e Emma Watson recebendo total apoio da população porque batem na tecla do feminismo, eu reparo que o que elas falam já foi dito por pessoas negras há muito mais tempo. As blogueiras negras, Malcon X, Martin Luther King, os Panteras Negras, todos figuras negras que estão batendo na tecla do machismo e da opressão muito antes de Clarice Falcão e afins. Mas ainda assim, porque ela é branca, bonita, classe média, tem toda a atenção da sociedade. Legal, mas pessoas da minha cor estão morrendo muito mais do que pessoas da cor dela”, provocou Marcele Lopes, estudante do 3°ano do Colégio Estadual Irineu José Ferreira.

Clássicos da literatura para quem não pode ler

No subprojeto de Letras do Pibid FIC, os bolsistas promovem oficinas de leitura com estudantes do primeiro segmento da Escola Municipal Euclides da Cunha, em Guratiba. O objetivo é desenvolver a capacidade de interpretação e compreensão na leitura, o que já é uma causa nobre, mas os exercícios são gravados e o produto dos áudios também tem finalidade generosa: CDs com as gravações serão distribuídos para escolas e institutos que orientam cegos.

Os professores Erivelto e Arlene palestram em evento do subprojeto de Letras. (Foto: Pollyana Lopes)

Os professores Erivelto e Arlene palestram em evento do subprojeto de Letras. (Foto: Pollyana Lopes)

No evento de lançamento do volume I do audiolivro “No caminho das Letras”, o pátio da escola recebeu bolsistas, estudantes, pais e professores. Foi com grande alegria e orgulho que todo o grupo apresentou o resultado dos trabalhos desenvolvidos dentro da escola desde março deste ano. Foram oficinas diárias, com leituras de textos clássicos de domínio público, que incluíam autores como Casimiro de Abreu, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Olavo Bilac, além do poeta pernambucano, radicado em Campo Grande e frequentador das atividades da FEUC nos últimos anos de vida, Primitivo Paes.

Dentre os alunos mais assíduos nas oficinas está Ingryd Estefane Ferreira de Campos, de 11 anos. A estudante do 6°ano estava acompanhada da mãe, Gleicy Ellen Ferreira de Jesus, no lançamento do audiolivro. “Ela agora está bem melhor, pegando mais livros para ler na biblioteca e também na igreja. E na leitura, em vista do que ela era, está bem melhor”, conta a mãe, que acrescenta que o desenvolvimento de Ingryd ultrapassa a leitura: “Ela também está até se expressando melhor. Às vezes, conversando, ela consegue encaixar melhor algumas palavras, se expressar melhor”, conta.

Elo entre os graduandos e os estudantes, as professoras supervisoras perceberam os resultados dos trabalhos para além das leituras que eram gravadas, como comentou Joice Mara Gonçalves de Souza, uma das supervisoras. “Foi muito bom ver os alunos participando das oficinas e melhorando o desempenho nas outras matérias, se prontificando para fazer as leituras”, disse.

O progresso e o crescimento intelectual também afeta os bolsistas que, depois de uma série de orientações e discussões internas em coletivo para preparar as oficinas, encontram na escola espaço para o exercício da docência. Joyce Silva dos Santos, do 6º período, está no projeto desde o início, ainda no segundo semestre de 2014. Ela conta como amadureceu sua atuação enquanto professora no programa: “O crescimento que eu pude obter a partir das pesquisas e do trabalho diretamente com eles foi espetacular. Nós desenvolvemos pesquisa na área de letramento, relacionadas à produção do audiolivro e, principalmente, nós desenvolvemos essa prática pedagógica que é o que a gente mais estuda, a mediação literária”.

Alunos da escola Euclides da Cunha no lançamento do CD "Caminho das Letras". (Foto: Pollyana Lopes)

Alunos da escola Euclides da Cunha no lançamento do CD “Caminho das Letras”. (Foto: Pollyana Lopes)

As possibilidades enriquecedoras do programa também foram colocadas por outros bolsistas em declarações emocionadas. Isadora Lins contou que foi chamada de professora, pela primeira vez, no projeto; Andreia da Silva Neto Passos falou sobre a relação entre teoria e prática que o Pibid possibilita; e numa das falas mais comoventes, que dá título a esta matéria, Raissa Caroline da Silva Lima contou que se descobriu na profissão: “Eu entrei no projeto esse ano e não esperava que seria uma experiência tão maravilhosa. Fiz amigos e cresci como ser humano. Eu vou sentir muita saudade, porque antes do projeto eu não sabia que eu queria ser professora e foi uma experiência maravilhosa, porque no Pibid eu descobri o que eu queria fazer da minha vida”, contou, entre um soluço e outro, a estudante.

Como a atividade foi realizada durante o dia, os estudantes do EJA (Educação de Jovens e Adultos) participantes não puderam estar presentes, pois só frequentam a escola à noite. Vendo a quase decepção deles, a bolsista Flávia Daiana, do 6º período de Literaturas, não pensou duas vezes: providenciou para o horário noturno uma cerimônia quase igual, com entrega de certificados e muita emoção. “È bacana ver nossos bolsistas tomando iniciativas e acolhendo os alunos como um verdadeiro educador deve fazer”, comentou a professora Arlene Figueira, coordenadora do subprojeto de Letras.

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