Coisa que a gente nem imagina que é, é

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Natácia Evilen Queiroz Araújo
Graduanda do 6º período de Letras/Literaturas e bolsista do Pibid/FIC

 

Era uma vez um menino chamado Masala. Ele era pretinho da cor do café. Ele se achava diferente porque os meninos de sua escola eram branquinhos da cor do leite. O cabelo de Masala era duro que nem água entrava, e os dos outros meninos eram molinhos que da água escorria.

Um dia, vó Antônia, sentada na sala, mostrava toda orgulhosa as fotos de família.

— Quem é essa gente toda vestindo esquisito, vó?

Vó Antônia riu e pôs-se a explicar:

— Essa gente pretinha e bonita é nossa família. Todos de um país muito lindo na África: Guiné-Bissau. Sua velha vó aqui veio de lá, sabia?

Masala olhou… Olhou… Olhou…

Até que o olho parou pra olhar um menino na fotografia. O menino que ele via tinha seu tamanho e era tão pretinho como ele, da cor do café. Masala o achou risonho e até parecido. Ele ficou curioso pra saber mais:

— Vó Antônia… E esse aqui?

— Ah, meu brotinho… Esse? Esse é Masala, meu irmão e seu tio-avô.

Masala ficou mais abismado ainda: que diabo! Como podia aquele menino tão pretinho da cor do café ser tão parecido com ele e ainda ter seu nome?

Vó Antônia, que não era boba, percebeu o estranhamento e os dois olhos arregalados do moleque, e começou a contar:

— Seu tio-avô foi um menino muito corajoso como você. Ele era da tribo Fula, toda nossa família veio de lá.

E continuou:

— A noite da África é a mais bonita do mundo, sabia? E veja bem que o mundo é bem grande! Os nossos dentes são brancos como as estrelas e nosso cabelo é forte como as árvores de nossa terra! Um dia, tivemos de sair de lá, viemos para o Brasil, e muitos de nós para outros países para que o nosso povo colorisse os outros povos.

— Igual no arco-íris, vó?

— Sim, filho. Tem um bocadinho da tinta que pintou nossa cor em cada pedacinho desse mundão. Tem fruta nossa, tem músicas, instrumentos, histórias, brincadeiras e muito mais! Até coisa que a gente nem imagina que é, é.

— Vó… Meu cabelo é forte igual de árvore?

— Sim, filho.

— Minha cor é cor da noite?

— Sim, filho. É sim.

— E meus dentes, vó? São as estrelas da minha noite?

— Sim, meu pequeno. E da minha noite também. Seu sorriso “alumeia” que chega a arrepiar minha noite — disse vó Antônia, apontando pra pele.

— Vó…

— Diga, meu pequeno…

— A água que sai do olho da gente é igual à dos brancos porque a gente chora amor, né?!

— Sim, meu filho… É sim. (A essa altura, vó Antônia era puro orgulho).

— E o amor não tem cor, né vó?!

E vó Antônia, emocionada, lavou a noite dela de amor enquanto Masala brincava feliz exibindo suas estrelas branquinhas.

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