Imprensa e Política: fiscalização do poder público ou autopromoção?*

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Fabrício Ferreira de Medeiros

Graduando do 7º período de História e bolsista PIBID/FIC

 

A Imprensa é um dos personagens mais presentes em nosso cotidiano. Através de jornais, revistas etc., apreendemos acontecimentos que fogem à nossa experiência pessoal. Por sua vez, os órgãos de comunicação costumam atribuir grande importância a seus serviços prestados à sociedade, enquanto agentes de mediação entre o poder político (agentes e instituições públicas) e o povo. Apresentam-se na condição de fiscalizadores do poder público. Contudo, a Imprensa não se define apenas por informar o cidadão.

Como observou Nelson Werneck Sodré, “a história da imprensa é a própria história do desenvolvimento da sociedade capitalista”. A partir do momento em que o jornal deixa de ser produzido artesanalmente, no decorrer do século XIX, e se torna um produto industrial, seu caráter sofre alterações. O jornal, aponta Francisco Surian, “continua a apresentar-se como legítimo guardião da liberdade de imprensa”, porém passa a ser instrumento de novos interesses. “Na qualidade de empresa, preocupa-se mais com as necessidades da empresa, insere-se no jogo do mercado, necessita gerar lucro e afasta-se da defesa da cidadania e dos direitos do cidadão”. Ainda assim, os grandes jornais de hoje (Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo etc.) se consideram fiéis intérpretes da opinião pública.

Consta nos Princípios Editoriais do Grupo Globo, por exemplo, que “só se divulga informação relevante”. Obviamente, a atividade jornalística é limitada e seletiva, sendo impossível noticiar tudo o que acontece na sociedade. Então, cabe a pergunta: será que os interesses de uma empresa midiática, como o Grupo Globo, que fatura bilhões de reais por ano, são os mesmos do trabalhador assalariado? Dificilmente.

Portanto, os jornais tendem a se afastar do papel de simples fiscalizadores do poder público, na medida em que têm como objetivo maior o lucro. Além disso, a Imprensa não só informa, como também busca influenciar o público leitor/telespectador, enfatizando determinados “princípios de visão e divisão” do mundo social em detrimento de outros, diria Pierre Bourdieu. Ao dizer “conflito” em vez de “massacre”, noticiando a relação estabelecida entre uma determinada categoria profissional (professores, garis etc.) e as forças policiais, em meio a um ato de reivindicação de direitos trabalhistas, o jornal interpreta o acontecimento de acordo com os interesses e valores de seu grupo diretor. Em suma, há uma distância enorme entre a autoimagem da Imprensa e seus noticiários que precisa ser questionada.

*Este artigo é parte de pesquisa (em andamento) para o Trabalho de Conclusão de Curso, sob orientação da professora Nathalia Faria, em que é analisado o posicionamento político e ideológico do jornal O Globo nas eleições presidenciais de 1994 e 1998.

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