Encontro de Ciências Sociais e Geografia traz violações socioambientais no Rio para o centro do debate

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Evento, que reuniu professores e estudantes da casa e recebeu pesquisadores e militantes, terminou com divulgação de carta em repúdio às intervenções que o Rio vem sofrendo 

Por Gian Cornachini, Pollyana Lopes e Tania Neves
emfoco@feuc.br

Os cursos de Ciências Sociais e de Geografia das FIC mantiveram a parceria na produção de seus eventos em 2015. O XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente anconteceram conjuntamente nos dias 1, 2 e 3 de junho, nesta semana. Com o tema “Intervenções e violações socioambientais no estado do Rio de Janeiro no século XXI”, o evento contou com profissionais de diferentes áreas, que trouxeram distintas abordagens sobre a geografia, a política, as questões sociais e econômicas do estado do Rio de Janeiro.

Geotecnologias e espacialidades fluminenses

A primeira palestra foi mais voltada para as questões da Geografia. Com o tema “Geotecnologias e espacialidades fluminenses”, a mesa-redonda teve a participação do professor da UERJ Vinicius da Silva Seabra, do professor da FAETEC Elton Simões Gonçalves e do geógrafo do Instituto Pereira Passos (IPP) João Grand Júnior. Os dois primeiros apresentaram análises sobre a geografia do leste fluminense: Vinícius mostrou diferentes pesquisas sobre a região feitas sob distintos aspectos (hidrográfico, físico, socioeconômico) que utilizam algum tipo de geotecnologia, principalmente o Sistema de Informações Geográficas (SIG); e Elton mostrou um pouco da sua pesquisa para a dissertação de mestrado sobre a Bacia do Rio São João e explicou como o trabalho só foi possível com o uso de determinas geotecnologias. Já João Grand expôs algumas ferramentas geotecnológicas aplicadas nas pesquisas do instituto.

A relação da geografaia rural com as geotecnologias foi o tema do mestrado de Elton Simões Gonçalves, que ele apresentou no evento. (Foto: Pollyana Lopes)

A relação da geografaia rural com as geotecnologias foi o tema do mestrado de Elton Simões Gonçalves, que ele apresentou no evento. (Foto: Pollyana Lopes)

Tratando assuntos diferenciados, sob olhares heterogêneos, os participantes da mesa foram unânimes em defender o uso das geotecnologias, lembrando que estas são facilitadoras do trabalho dos geógrafos e que elas têm aplicação em várias outras áreas do conhecimento. “Eu costumo dizer que as geotecnologias não trazem nenhum tipo de dado novo para as questões que são geográficas, porque essas questões sempre existiram e sempre foram trabalhadas na geografia. O que acontece é que as geotecnologias otimizam os processos mercadológicos utilizados pelas geografia”, explicou o professor Victor.

Marildo pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. (Foto: Gian Cornachini)

Marildo pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. (Foto: Gian Cornachini)

“Uma cidade em que todos não cabemos não vale a pena”

A noite do primeiro dia do encontro rendeu bastante discussão entre os palestrantes convidados e os estudantes presentes. Pós-doutor em Filosofia e professor da UFRJ, Marildo Menegat iniciou o debate sobre a temática “O papel do Estado e da sociedade civil na atual fase de mercantilização da cidade”. Didaticamente, ele pontuou ao longo do século XX o processo de expansão do capitalismo e suas consequências arrasadoras na vida urbana. De acordo com o professor, esse modelo econômico se apropria das grandes cidades para realizar imensas obras de infraestrutura, tornando o Estado endividado e dependente de financiamentos do capital: “Na medida em que o capitalismo não se torna mais rentável apenas nas quatro paredes de uma fábrica, ele precisa tornar o espaço urbano rentável”, sugeriu Marildo. “Estados Unidos, Japão e Grécia hoje estão com dívidas acima do seu PIB. Eduardo Paes vai deixar o Rio de Janeiro com uma grande dívida. Uma vez que o capital se torna financeirizado, ele vai forçar o Estado a se endividar. O problema não é o dirigente do Estado, mas esse modo de vida social, e que a gente não pode aceitar de forma natural, porque uma cidade em que todos nós não cabemos não vale a pena”, criticou o professor.

Marildo também lembrou que vivemos uma situação de liberdade se comparado ao mundo escravista, mas que ainda continuamos reféns de um sistema segregador: “A reprodução dessa sociedade já não cabe a todos nós. Uma parte significativa está sendo esmagada, e suas vidas não valem nada. No Brasil, morrem de forma violenta 54 mil pessoas por ano: jovens de 15 a 25 anos, do sexo masculino e negros. E a sociedade não se comove porque incorporou a ideia de que a vida dessas pessoas marginalizadas não vale nada”, destacou o professor. “Diante de um mundo em que não cabemos todos, ele produz vários mecanismos inteligentes que fazem uma seleção por meio de assassinatos, moradias… A realidade não é nada razoável, é péssima. E podemos ser pessimistas, porque isso nos deixa lúcidos para percebermos o mundo”, apontou.

Sandra sugeriu que a luta e resistência são as maiores armas para mudar a história. (Foto: Gian Cornachini)

Sandra sugeriu que a luta e resistência são as maiores armas para mudar a história. (Foto: Gian Cornachini)

Diante deste cenário desenhado por Marildo, a economista Sandra Quintela, do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), sugeriu que a luta e resistência ainda são as maiores armas para tentar mudar os rumos da história: “O grande desafio da gente é a luta nos territórios para fortalecer as resistências que existem e garantir modos de viver diferentes desse imposto pelo capital, que passa por cima de tudo”, lançou ela. O estudante André Germano, do 3º período de Geografia, expôs sua frustração em não conseguir ver em sua região grupos se manifestando: “A gente não consegue reunir essas pessoas para a resistência. Parece que nada vai dar certo. Queria que vocês falassem para a gente o modo como podemos fazer isso, porque para mim é dar um tiro no escuro”, lamentou ele.

Um caminho proposto para driblar o cenário atual foi belamente sugerido pela aluna Rosangela Godinho, do 7º período de Ciências Sociais. Emocionada, ela não quis fazer pergunta aos palestrantes, mas externar a sua esperança na educação como fator de transformação da sociedade: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada, mas temos que nos unir. Tentar ouvir tudo o que foi dito em uma palestra é o começo do começo. Essa oportunidade que a gente tem aqui é de ouro. Somos um curso de licenciatura e a gente vai estar em sala de aula, e é lá que vão começar os primeiros passos de uma modificação, que é possível sim!”, apontou Rosangela. “Se o mundo mais justo se chama ‘loucura’, então celebro essa loucura e digo que sou louca todos os dias”, concluiu a estudante.

Rosangela: "O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada". (Foto: Gian Cornachini)

Rosangela: “O capital quer nos amedrontar e dizer que a nossa luta não vai dar em nada”. (Foto: Gian Cornachini)

Violações socioambientais: lutas e resistências

Outro momento de destaque durante a Semana de Geografia e Ciências Sociais foi a noite do segundo dia do evento, que trouxe para o debate “Resistências rurais e urbanas aos impactos socioambientais no Estado do Rio de Janeiro”. O palestrante Luiz Otávio Ribas, representante do coletivo nacional de Direitos Humanos do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), chamou a atenção dos estudantes para populações que sofrem com obras arbitrárias do Governo com a promessa de solucionar questões hídricas. Ele destacou a barragem no rio Guapiaçu, no município de Cachoeiras de Macacu (RJ), como um projeto repleto de irregularidades que afetam diretamente a vida e propriedades de 3 mil pessoas, além de 15 mil trabalhadores.

Assista ao curta “Guapiaçu: Um Rio (de Janeiro) Ameaçado”

“As barragens são construídas com escolhas que envolvem uma política pública e de desenvolvimento econômico. Privilegiam áreas do estado que são terras onde o povo trabalha e que ficam bastante afastadas das políticas de incentivo à produção agrícola”, observou Luiz. “O MAB entende que é a luta que transforma, mas ainda assim não há segurança de que a mobilização possa garantir os direitos das pessoas atingidas. Só que a Justiça tem usado dos nossos relatórios para fazer as indenizações, e isso já é motivo para festejar”, destacou ele.

E nada melhor que uma vítima direta dos impactos socioambientais para contar seus dilemas diários de resistência. O pescador Alexandre Anderson, da Associação Homens do Mar da Baía da Guanabara (AHOMAR), apresentou o vídeo “Rio: Baía de todos os perigos!” – que resume a luta de sua comunidade – e relatou os impactos que os pescadores vêm sofrendo com a poluição e industrialização da Baía de Guanabara, e a presença da Petrobras com seus terminais, refinarias e dutos.

Assista ao documentário “Rio: Baía de Todos os Perigos”

Alexandre luta pelo direito de continuar pescando na Baía da Guanabara. (Foto: Gian Cornachini)

Alexandre luta pelo direito de continuar pescando na Baía da Guanabara. (Foto: Gian Cornachini)

“No final dos anos 90, a gente ocupava 70% do espelho d’água da Baía de Guanabara. Depois de 2010, a gente passou a ocupar só 12%. Hoje, pesca-se 80% menos que pescava em 2000. A Baía de Guanabara está sendo tomada por uso industrial, e o que queremos é o direito de continuar fazendo o que os nossos avós e tataravós faziam de maneira digna, em nosso ambiente local”, ressaltou Alexandre.

O pescador mostrou fotos de manifestações da AHOMAR e lembrou da perseguição que sofrem na luta pelo direito a um meio ambiente limpo e um mar próspero para o exercício de sua profissão: “’Só’ fui preso 12 vezes, e absolvido as 12. Tive cinco companheiros assassinados, quatro em militância. Mas a gente não para, e por isso que um dos únicos lugares que não deixo de ir para dar palestra é na academia, porque é daqui que sai a nossa voz”, valorizou ele.

Gratificada com a militância de Alexandre, a estudante Gabriela Barboza da Silva, do 3º período de Geografia, solicitou um espaço para agradecê-lo: “O que seria da sociedade sem um Alexandre? O que seria do mundo sem aquele que grita pela natureza? Eu não tenho a garra de sofrer um tiro como ele, mas tenho de chegar na sala para instruir o meu aluno a não poluir. Na minha vida acadêmica vou falar eternamente sobre você. Meus parabéns!”.

A aluna Gabriela agradeceu ao pescador Alexandre pela resistência de sua comunidade. (Foto: Gian Cornachini)

A aluna Gabriela agradeceu ao pescador Alexandre pela resistência de sua comunidade. (Foto: Gian Cornachini)

Nas sessões dedicadas a trabalho de alunos… o dedicado trabalho de alunos!

A manhã e a noite do último dia ficaram reservadas para as apresentações de trabalhos de alunos – que foram muitos e de extrema qualidade, como frisou a professora Gisele Miranda, que coordenou um dos eixos temáticos na terça à noite: “Vocês estão todos de parabéns. Fizeram uma belíssima participação neste encontro acadêmico. É este mesmo o momento de fazerem suas primeiras apresentações, perderem a timidez. Estou orgulhosa”, disse.

Como não se orgulhar vendo o entusiasmo de estudantes que saíram das salas de aula e foram pesquisar a história e os problemas do entorno de onde vivem, já pensando em como sensibilizar seus futuros alunos para a preservação do meio ambiente e a produção de conhecimento sobre sua região e sua condição? Foi o caso do grupo de Daniele Lourenço, Leyduane Paula, Priscila Ribeiro e Tamiris Sena, graduandos de geografia, que apresentaram o trabalho “Dinâmica fluvial e a escola: o ensino da educação ambiental através da Geomorfologia fluvial”, em que mostraram a situação de degradação do rio Cabuçu e contaram sobre o trabalho desenvolvido com alunos da região, levando-os para observar o rio e entenderem que aquele é o resultado do que as pessoas fazem com a natureza – mas que pode ser diferente.

Pedro e Rosangela apresentam trabalho sobre barra de Guaratiba

Pedro e Rosangela apresentam trabalho sobre barra de Guaratiba. (Foto: Tania Neves)

Pedro Pimenta e Rosangela Goldinho, graduandos de Ciências Sociais, abordaram “Guaratiba – Aspectos urbanos numa região rural”, levantando um pouco da história e mostrando como uma espécie de “urbanização forçada” pode ser a raiz da maior parte dos problemas vistos hoje na região. Na pesquisa, os estudantes observaram lá nos anos 1940, quando foi construído o polígono de tiro e a ponte da Marambaia, o mesmo tipo de discurso que hoje justifica as grandes obras em andamento: “Lá era um discurso sobre proteger o litoral, e com isso construíram a ponte e o polígono e mudaram completamente a cara da região. Antes havia pescadores que trocavam produtos com agricultores. Para realizar essas grandes construções, usaram esses pescadores como mão de obra, e as colônias de pescadores praticamente acabaram, descaracterizando completamente a região. Ao fim das obras, foram abandonados”, relatou Pedro.

Lançamento da Khóra e Carta de Repúdio para as redes

A noite de encerramento XVII Encontro de Ciências Sociais e a XVI Semana de Geografia e Meio Ambiente contou ainda com o lançamento do segundo número da Revista Khóra, que já pode ser acessada no link http://www.site.feuc.br/khora. Os professores Flávio Pimentel (Pedagogia), Mauro Lopes (Ciências Sociais), KhoraRosilaine Silva (Geografia) e Natália Faria (História), citaram os artigos de professores e alunos de seus  cursos incluídos na revista e fizeram um chamamento geral para que todos enviassem propostas de artigos e outras contribuições para o terceiro número, que deve ser lançado durante o Fórum de Educação, Ciência e Cultura, no segundo semestre: “Estamos de braços abertos para receber publicações tanto de professores quanto de alunos”, disse Flávio. “Vamos aproveitar este momento: quem está entregando suas monografias, converse com o orientador sobre a possibilidade de submeter uma parte para publicação na Khóra”, convidou Mauro.

Por fim, a professora Célia Neves, coordenadora do curso de Ciências Sociais, fez um balanço do evento, considerando que o Encontro de Ciências Sociais e a Semana de Geografia mostraram um grande vigor ao mergulhar na produção de conhecimento feito de forma coletiva , ressaltando que esta é a única boa ferramenta para a luta e a militância por um mundo mais justo. “Saímos daqui esperançosos, do verbo esperançar, como Paulo Freire nos ensinou”, disse a professora, que em seguida leu a “Carta em repúdio às intervenções e violações no Rio de Janeiro” (título provisório), escrita a muitas mãos na tarde de quarta-feira, como fruto das intensas discussões realizadas no encontro e tentando refletir o sentimento de indignação coletiva que envolveu todos os que presenciaram os relatos sobre as violações ambientais que o Rio vem sofrendo. A carta será digitada e divulgada nas redes sociais nos próximos dias.

2 comments on “Encontro de Ciências Sociais e Geografia traz violações socioambientais no Rio para o centro do debate

  1. Artur disse:

    Muito legal a luta de vocês parabéns que bom que existem pessoas que lutam por um Brasil socialista e igualitário!!!

  2. Um encontro com esclarecimentos e deixando todos indignados com a geopolítica que vem utilizado em nosso país. Mas também nos dando esperança e caminho para seguirmos uma luta;

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