De gari a escritor, uma trajetória feliz

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Campo-grandense por opção, Odir Ramos da Costa é autor de várias peças de teatro, dirigiu o Arthur Azevedo e teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Sabe aquelas pessoas sobre quem a gente diria “a vida de fulano rende um romance”? O campo-grandense por opção Odir Ramos da Costa é uma dessas pessoas. E o melhor de tudo: talentoso escritor, ele mesmo tascou no livro “Buquê para Faceira”, lançado há alguns meses, pinceladas do muito que viu e viveu ao longo de seus 79 anos, embora não se trate explicitamente de uma história autobiográfica. “O narrador fala na primeira pessoa, mas não se identifica. É um garoto que descobre o mundo num ambiente pesado que era a limpeza urbana na época ainda da tração animal”, revela Odir.

Esse garoto, fosse o autor, teria nascido em Rio Bonito e chegado em Campo Grande aos seis meses de idade, junto com a mãe, que se separara do pai. Odir foi criado pela mãe e o padrasto, que se tornou seu melhor amigo e exemplo de vida. E pelas mãos de quem foi parar na limpeza urbana (hoje Comlurb), aos 18 anos, depois de “sobrar” na seleção para o Exército e não ter como voltar para o trabalho que fazia desde os 14 numa agência de publicidade, de onde saíra para cumprir o dever cívico.  “Sem emprego, me restou ir trabalhar com meu padrasto, que então varria ruas no Méier. Encarei por um ano e pouco essa função, depois passei para a parte administrativa, em Bangu, onde fiquei por mais uma década”, conta.

Odir Ramos da Costa teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região. (Foto: Tania Neves)

Odir Ramos da Costa teve importante atuação no jornalismo e na cultura em nossa região. (Foto: Tania Neves)

O padrasto de Odir, Atílio, fora por muitos anos um bem-sucedido gerente de um barracão de laranjas em Campo Grande, quando esta era praticamente a única atividade econômica da região. Com esse trabalho, deu uma vida confortável à família. Mas a Segunda Guerra Mundial e a fumagina, que dizimou os laranjais, quebraram a atividade, e Atílio mudou-se com a família para a Ilha do Governador, onde se tornou padeiro. Foi assim que Odir se iniciou na vida do trabalho, aos 7 anos, ajudando o padrasto nas entregas: enquanto o homem conduzia a carroça, o menino deixava o pão e o leite nas portas, numa jornada que ia das 5h às 6h40m da manhã, e dali ele emendava na escola.

“Tempos depois voltamos para Campo Grande, e eu continuei meus estudos no Almirante Saldanha. Aos 14 anos comecei a trabalhar no Centro, numa agência de publicidade dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Eu vi nascer a TV no Brasil”, relembra. A primeira função de Odir era praticamente de boy: ele levava os clichês com os anúncios publicitários para os jornais e depois levava as publicações para os anunciantes verem. Transferido para o setor de anúncios fúnebres, passou ele mesmo a redigir as notas, depois que descobriram que sabia datilografar. “Eu adorava a palavra féretro. E fazia com a maior dedicação os comunicados fúnebres, que seriam lidos na Rádio JB. Pensava assim: ‘graças a mim esse cara não cairá no esquecimento’. Considerava importante”.

Voltando à limpeza pública, foi ainda paralelamente ao trabalho como gari que Odir começou a colaborar em jornais da região — Tribuna Rural foi um deles — e a escrever suas peças de teatro, ramo em que conquistou reconhecimento público e acumulou prêmios, entre eles o 2º lugar no concurso do Serviço Nacional de Teatro, em 1975, com “Sonhos de uma noite de velório”. Ele então já era repórter do Jornal de Campo Grande, onde trabalhou por 17 anos.

Seu livro está à venda em www.livrariacultura.com.br. (Imagem: Divulgação)

Seu livro está à venda em www.livrariacultura.com.br. (Imagem: Divulgação)

No vasto currículo de Odir, além de 7 peças escritas e uma em andamento, consta ainda a direção do Teatro Arthur Azevedo, nos anos 80, e uma passagem como editor pelo Jornal de Hoje, de Nova Iguaçu, nos anos 90. Uma vida dedicada ao jornalismo e ao teatro, e sempre envolvido com as questões culturais e sociais da Zona Oeste. Casado com Ana Maria, tem quatro filhos (dois do primeiro casamento), dois netos e um bisneto. Hoje aposentado, dedica-se somente à literatura e à dramaturgia. Seu mais recente livro, “Buquê para Faceira”, foi lançado pela portuguesa Chiado Editora, e pode ser comprado no site da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br). “Se passar de mil exemplares vendidos, será revertido para o espanhol e o inglês, e ganhará o resto do mundo”, avisa, orgulhoso.

3 comments on “De gari a escritor, uma trajetória feliz

  1. Valeria trigueiro disse:

    Muito bom ver Odir Ramos, ainda que em foto. Ele eterniza-se na vida da gente com aquilo que a vida lhe deu de presente – o verbo fácil! Palavra é Alquimia, transforma, cura e nos transporta. Agora lendo sobre ele, não só me veio a vontade de atravessar a cidade e dar-lhe um abraço. Veio um sorriso fácil ao ler que ele de um lado da cidade ainda menino começava sua vida de escritor no JB escrevendo e admirando a palavra “féretro”… Achei graça, porque eu, ainda menina me impactava com a mesma palavra pronunciada pelo locutor da rádio JB que ainda posso ouvir na minha cabeça, quer ver? (A Família de …. Cumpre o doloroso dever de comunicar…. O féretro sairá da capela XXX do cemitério São João Batista). Naquela época fazia parte do grande mistério da Vida e ouvia com um misto de medo, de dor e respeito, mas aquela palavra era o que mais doía…
    Enfim, anos mais tarde venho a conhecer o amigo, poeta, escritor, diretor teatral, chefe de família maneiro, amigo com quem se aprende, mal sabia que a a vida estava poetizando, me fazendo encontrar aquele menino escritor da palavra assustadora, do entregador de laranjas, pão e leite e do gari protetor da Faceira. Todos eles formaram o poeta mediúnico, sensível e único com seu ar tranquilo, que fala coisas profundas com ar de simplicidade, que tenho o privilégio de ter como amigo.

  2. Ruth Mezeck disse:

    Parabéns pela matéria, dando espaço a um autor nacional. Faltou dizer que Odir é um brilhante dramaturgo, várias vezes premiado pelo Concurso Nacional de Dramaturgia do antigo Serviço Nacional de Teatro da FUNARTE-MINC, entre outras importantes premiações.

  3. Angélica Angelo disse:

    Odir Ramos é uma daquelas pessoas tão especiais que reverenciamos a trajetória, a obra e agradecemos aos Céus que podemos privar da amizade, das conversas inteligentes, da mente sensível e criativa! Tenho o meu exemplar autografado do Buquê para Faceira e recomendo a deliciosa leitura!
    Parabéns pela matéria respeitosa, zelosa da biografia de Odir Ramos da Costa!
    Angélica Angelo

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