A legitimação do desamparo

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Meire Lucy Cunha Araujo
Por Meire Lucy Cunha Araujo
Graduanda do 4º período de Letras/Literaturas e bolsista PIBID/FIC

Vivemos uma era de discursos inflamados em favor da redução da maioridade penal. Nesta era falamos em dar um basta na “educação marxista”, convocamos panelaço, lamentamos a queda de um avião em São Paulo por três ou quatro dias, mas nos esquecemos dos incidentes do Morro da Serrinha ou do Complexo do Alemão no dia seguinte.

Não me parece absurdo afirmar que esta era revela uma obscuridade devastadora. Criamos estatísticas com a oferta crescente de vagas nas escolas públicas, agredimos os professores que atendem a essa demanda, nos empenhamos em manter baixíssimos os índices de reprovação escolar, transformamos nossas escolas em fábricas com engrenagens enferrujadas e ineficientes, convivemos tranquilamente com o número alarmante de óbitos de jovens e adolescentes (em sua maioria, negros e pobres), desde que no fim do intervalo comercial voltemos a assistir nossa novela ou episódio de reality show sem maiores incômodos. Falamos sobre quase tudo: corrupção, futebol, o reajuste da conta de energia elétrica, propaganda publicitária, olimpíadas, feriados prolongados, copa do mundo, menos no desamparo institucional de uma população que está à mercê da criminalidade ao mesmo tempo em que está sendo criminalizada.

Enquanto futura professora, não consigo ter uma perspectiva que normaliza esse cenário social. Vejo com pessimismo uma postura pública que opta por punir ao invés de educar e uma estrutura social com forte vínculo midiático que culpa as vítimas desse desamparo em suas vulnerabilidades. Refletindo sobre a proposta de lei da redução da maioridade penal, uma indagação me foi feita: quantos de nós ainda precisaremos morrer esfaqueados para que se tome uma atitude rumo à redução dessa estrutura social violenta? Não tenho essa reposta. Não sei se um dia terei essa resposta, e isso me incomoda. Mas é fato que muitos de nós já vêm morrendo nas periferias há muito tempo, e não é de facada. Os agressores de hoje foram as vítimas de ontem. Reduzir a maioridade penal no Brasil hoje é legitimar a negligência estatal, é punir o algoz que também é vítima.

Sou mulher negra, pobre e favelada. Conheço a realidade cruel do desamparo. Minha redenção? Educação. Educação crítica, de qualidade, e não essa de carteiras escolares em esteiras industriais. Fui impactada por professores que, assim como eu, acreditam na essência humanizante da educação. Questionei minha realidade. Questionei meu desempenho ante a minha realidade e a transformei. Aprendi o caminho e estou convicta de que ele está aberto a todos nós. Daqui a pouco tempo, a guia serei eu.

One comment on “A legitimação do desamparo

  1. Renato Cardoso de Oliveira disse:

    Boa Tarde!
    Parabéns pelo Texto, sou aluno de Letras/ Português estou no 2º período.

    abraços Renato

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