Com vocês, os vencedores de 2014

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Premiados dois estreantes na categoria Aluno e uma veterana – todos poetas de longa data

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Muitas semelhanças unem os vencedores da edição de 2014 de nosso Prêmio de Literatura na categoria Alunos da FEUC: os três são atores, escrevem poesia desde a adolescência e vieram buscar, nas Letras e na Pedagogia, suporte para melhor desenvolver suas atividades nas artes.  Júlio Corrêa, que faz pós-graduação em Estudos Literários, ficou em 1º lugar; Helton Tinoco, aluno de Pedagogia, em 2º; e Suely Resende Oliveira (Gui Soarrê), que está se formando em Letras, cravou o 3º lugar.

Júlio e Helton: semelhanças físicas, de idade e na paixão por teatro e poesia. (Foto: Gian Cornachini)

Júlio e Helton: semelhanças físicas, de idade e na paixão por teatro e poesia. (Foto: Gian Cornachini)

Na categoria Âmbito Nacional os vencedores foram Wesley Moreira de Almeida, da Bahia, em 3º lugar; Manoela Frances, de Pernambuco, em 2º; e Alcir Pimenta, aqui de Campo Grande, que conquistou o primeiríssimo lugar com um soneto em homenagem ao poeta Manuel Bandeira. Nas páginas seguintes, publicamos um perfil deste ilustre morador da Zona Oeste.

De acordo com o poeta e professor Américo Mano, que coordena o Prêmio FEUC junto com a também poeta e professora Rita Gemino, o nível da competição cresce a cada ano, tanto em quantidade de inscritos — foram 571, nas duas categorias — quanto na qualidade dos poemas: “O aumento do número de inscrições permite uma seleção de textos com mais apuro, tanto na parte objetiva, técnica, quanto na parte subjetiva, causadora da emoção”.

Voltando aos alunos premiados, nosso encontro com os dois primeiros colocados foi curioso. Constatamos que Júlio e Helton têm a mesma idade (40 anos), ambos são atores e escritores, guardam uma incrível semelhança física entre si e concorreram na categoria Alunos pela primeira vez. Mas as coincidências terminam aí, porque Helton é absoluto estreante em concursos, ao tempo que Júlio é assíduo em disputas desse tipo, foi finalista do Prêmio FEUC em Âmbito Nacional por diversas vezes, venceu vários outros concursos e tem três livros publicados. E os dois ainda não se conheciam!

Gui Soarrê: premiada nos três anos da graduação de Letras. (Foto: Arquivo Pessoal)

Gui Soarrê: premiada nos três anos da graduação de Letras. (Foto: Arquivo Pessoal)

Júlio é oficial da Marinha, formou-se em Letras, estuda Artes Cênicas e escolheu a pós em Estudos Literários por causa da atividade como escritor.  É conhecido no meio literário da região e saudado como destaque da nova geração de poetas. Já Helton é ator e dramaturgo, e cursava Teatro na UniRio antes de se transferir para Pedagogia na FEUC, à cata de mais subsídios para sua prática dramatúrgica, pois escreve e monta pelo menos uma peça infantil por ano.

Gui Soarrê, detentora do primeiro lugar nas duas edições anteriores do Prêmio FEUC, recebeu a notícia da terceira colocação em 2014 com surpresa. Não por ter caído de posição, mas por figurar entre os vencedores. A atriz e maquiadora — que cursa Letras por uma satisfação pessoal — conta que escolheu de última hora um poema para inscrever, mas sem esperanças, pois não o considerava bom para concurso: “Pelo inesperado, a premiação teve um sabor diferente. E também porque é o meu último período e estou feliz por ter tido meus versos premiados durante os três anos que aqui estive”, conclui.

 

[1º] SUPER-HERÓI EM QUADRINHOS (Júlio Correa)

Reconto os azulejos do banheiro
Perco a conta das gotas
que nascem da torneira prateada

Minhas ideias se confundem
com as idas e vindas das formigas negras
que esbarram nos meus pés

A toalha esticada sobre o basculante
o sabonete amarelo
o papel higiênico
o chuveiro elétrico
Sou a única peça estranha
no quadrado pintado de salmão

A porta não está trancada
mas tenho medo de girar a maçaneta

Deito no chão frio
Abraço o vazio
Beijo a pedra marrom

Sou flor só na pintura

Sou eu só por dentro

Sou super-herói só em quadrinhos.

 

[2º] RADIOGRAFIA (Helton Tinoco)

Bicho-homem, difuso, re-cheio de desejos.
Olho-te de fora como se eu fosse uma estrela.
Olho-te por dentro como se eu fosse uma veia.
Bicho, homem repleto de certezas e ilusões.
Olho-te para além dos olhos com compaixão.
Atravesso membranas, egos, ecos, elos, ímã.
Bicho, homem, triste, gente, carne da alegria.
Bicho-homem, eu vim te ver. Conhecer-te. Amar-te!
Vim como você, nu!
Quase sem limites. Como tu. Sem tirar nem pôr. Vim assim.
Sem temor! Sem morte! Sem sentir nada. Frio. Seco.
Bicho da terra, homem do barro, de eternos brados.
Vim ver-te. Verter meu dom. Vasculhar-te profundo.
Enraizar minhas próprias dores.
Conhecer-te, sendo tu. De carne e osso…
De mil amores, vim “ser-te” agora, hoje, sempre!
Exatamente igual, seu pai, seu filho.
Vim roubar-te o espírito e mostrá-lo às aves.
Vim amar-te e pousar sob o teu coração, tocar-lhe a mão.
Pegar os pesos dos sonhos, os sons de instrumentos.
Dizer-te palavras e desnudar-te a alma.
Vim ser poeta.
Inventar almas, vivas e mortas.
Reinventar a vida numa rima explícita.
Fazer coloridos, criar lágrimas e dar alegrias.
Vim ser artista com acento agudo.
Vim ser apenas uma radiografia que revela o cálcio,
Mas deixa passar o espírito!

 

[3º] É  (Gui Soarrê)

Entre o desespero e o grito
Convivem em afinado desacordo
O mudo discurso caduco,
A eloquência do destempero
E um rosilho que escoiceia
Entre as lâminas de dois punhais.
Certa vez me contaram
Que os duelos sangrentos se dão
No caminho sem curvas,
Entre a pele e o coração.
Hoje eu sei.

 

É de Campo Grande o vencedor de Âmbito Nacional

 

Professor e político aposentado, Alcir Pimenta escreve poesias desde seus 40 anos

Escrever poesias, inscrevê-las em concursos e ser premiado não é novidade para o professor de português e político aposentado Alcir Pimenta, mas esta vitória teve gosto especial: “Foi meu primeiro soneto premiado”, diz Alcir, que sempre foi leitor de poesias, mas só ousou escrever as primeiras depois dos 40 anos. Dono de memória invejável, aos 81 anos, ele recita de cor os versos alexandrinos que aprendeu ainda menino, com o avô. E comenta sobre o soneto em homenagem a Bandeira: “É minha resposta a ‘Renúncia’, que li na adolescência”.

Aluno da primeira turma de Letras Neolatinas da antiga Sociedade Universitária Campograndense (SUC — precursora da FEUC), o professor Alcir Pimenta lembra com saudades seus tempos de universitário: “Além do português, tínhamos aulas de francês, latim, italiano e espanhol. A professora de francês, dona Guida, era tradutora do Itamaraty. E tínhamos também nomes como o José Ricardo da Silva Rosa, um erudito de cultura vastíssima. Para ver a qualidade do corpo docente”, recorda.

Poetas e amigos: Mano, o coordenador, festejou vitória de Alcir no Âmbito Nacional. (Foto: Gian Cornachini)

Poetas e amigos: Mano, o coordenador, festejou vitória de Alcir no Âmbito Nacional. (Foto: Gian Cornachini)

Sua carreira no Magistério se iniciou em 1953, no Colégio Belizário dos Santos. Também lecionou no Cesário de Melo e depois ingressou no ensino público estadual, tornando-se, em 1962, chefe do Distrito Educacional de Santíssimo a Santa Cruz. E conta que mais do que triplicou o número de escolas em cinco anos. “Quando assumi, havia pouquíssimas escolas aqui, principalmente na região do Mato Alto. Diziam que era bobagem construir escolas ‘nesses cantões que nem gente tem’, mas eu ia nos lugares, consultava a comunidade e levava à chefia uma lista de famílias com filhos querendo estudar. E assim conseguia abrir as escolas”, conta.

A admiração conquistada nas comunidades onde “plantou” escolas foi o que alavancou a carreira política do professor. Ao constatar o quanto ele era querido, um alto dirigente do MDB sugeriu que saísse candidato a deputado estadual. Ele consultou a família e topou, mas por fim o que lhe restou foi a vaga para concorrer a deputado federal, disputa muito mais difícil. A população, porém, abraçou sua candidatura e ele conseguiu se eleger, em 1970, para o primeiro dos três mandatos que cumpriria em Brasília.

Casado há 57 anos com Marina dos Santos Pimenta, pai de duas filhas — a jornalista Tereza Cristina e a economista Dila Maria — e avô de Luiza (filha de Dila), o professor Alcir Pimenta hoje se dedica a escrever poesias e memórias, tem vários livros editados e planeja em breve lançar uma autobiografia. Os convites para palestras e homenagens ele já não atende com tanta frequência: “A idade trouxe certa dificuldade de locomoção, por isso saio pouco”, diz. E quando sai — quem revela é o amigo Américo Mano — costuma ter momentos de superstar: “Certa vez, saímos de um evento no Calçadão e tivemos que andar umas quadras até o carro. No caminho, as pessoas com quem cruzávamos dirigiam saudações a ele. Nem dava tempo de abaixar o braço e já era preciso acenar de novo. E ele comentava, a cada aceno: ‘foi meu aluno’, ‘foi minha aluna’, ‘esse também’…”, conta Mano.

Seu legado? “Meu projeto mais importante foi o do Estágio Profissional, transformado em Lei Ordinária em 1977, e que deu aos estudantes de cursos técnicos e superiores a possibilidade de complementar seus conhecimentos em atividades práticas. Em meus mandatos, sempre me empenhei muito pela nossa região, mas minha maior alegria mesmo é ter sido professor. Tudo de bom que me ficou na vida veio a partir da minha atividade como professor”, completa.

 

UM VERSO DE BANDEIRA (Alcir Pimenta)

Segue comigo pela vida afora
Uma dor tão grande, tanta tristura,
Que sempre temo nunca vá embora,
Transformando-se em perene amargura.

Lembra-me, então, um verso de Bandeira:
“Só a dor enobrece e é grande e é pura”,
O que parece colossal asneira
Do bardo sempre ao pé da sepultura.

Por que vamos amar um mal sem cura,
Se o mundo não tolera choradeira,
Antes sendo feliz que sofredor?

Quem pensa seja, pois, esse Bandeira:
Um simples vate da fama à procura,
Ou de Cristo na terra sucessor?

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