Quem é o dono da gramática?

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Hudson 030Por Hudson dos Santos Barros
Doutor em Letras (Literatura Comparada), escritor e professor da FAETERJ, da Faculdade Machado de Assis e do Município do Rio

O advento da linguística trouxe nos últimos anos muitas discussões acerca do papel da gramática no ensino da leitura e da escrita. Inúmeros são os linguistas que questionam a natureza prescritiva das gramáticas tradicionais, sendo a principal direcionada ao conjunto de leis e classificações sem tanta ligação com o cotidiano das modalidades orais e escritas do nosso idioma. Para muitos, sejam pesquisadores ou não da língua portuguesa, gramática é sinônimo de opressão ou distanciamento. Tendo em vista essas problematizações, foi proposta no Simpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa, em Goiânia, em julho passado, uma mesa-redonda que reuniu os principais gramáticos da atualidade. Com o título “Defino minha/nossa gramática como…”, a mesa teve o objetivo de apresentar e discutir os diferentes pressupostos de elaboração das principais gramáticas de circulação nacional, apresentando os pontos de vista de consagrados estudiosos da língua portuguesa da atualidade. O encontro revelou profissionais atentos ao desenvolvimento dos estudos linguísticos: a imagem do gramático como uma autoridade indiscutível e distante cedeu lugar à realidade de profissionais críticos de seu próprio trabalho, de estudiosos que reconhecem suas limitações diante da imensidade das manifestações linguísticas.

Um significativo tema que norteou as falas dos convidados foi a questão da aplicabilidade dos conteúdos gramaticais, isto é, a relação destes com o uso do português no dia a dia. Perini alertou que a gramática deve ter utilidade, deve contribuir para a formação científica dos jovens. José Carlos Azeredo enfatizou que o estudo da gramática deve se associar à funcionalidade da língua para a construção do conhecimento e para o seu compartilhamento. De modo similar argumentou Ataliba Teixeira de Carvalho ao frisar que as gramáticas precisam focalizar os usos básicos da língua, visto que as línguas naturais são o ponto mais alto de nossa identidade. Já Marcos Bagno defendeu a autenticidade do vernáculo brasileiro e sua validade ao lado de uma norma padrão de caráter prático e atuante. Vale destacar finalmente a concepção de Maria Helena de Moura Neves de que a gramática não precisa ser um corpo estranho à língua, ou seja, uma peça pronta e fechada que se resuma a um conjunto de classificações redutoras das potencialidades de uso da língua portuguesa.

Nesse relevante encontro, pôde-se perceber que, apesar das diferentes abordagens e ideologias dos autores, a gramática ainda é considerada um importante instrumento de formação intelectual; não apenas de aprendizagem linguística, mas também de construção do pensamento crítico. Mesmo com profícuas inovações ao longo dos anos, a gramática continua a ser um gênero textual de relativa estabilidade no conteúdo e na forma, uma vez que ainda é um compêndio para o estudo linguístico que traz teorias, definições, classificações e exemplos. Mesmo que não acompanhe a riqueza e a velocidade das transformações de nossa língua, pode ser um meio eficaz para o aprimoramento das práticas de expressão formal e para a edificação de uma consciência dos processos que regem as manifestações linguísticas e a autenticidade do português brasileiro.

Ao fim desse valoroso encontro, algo fundamental foi ensinado aos amantes da língua portuguesa: os verdadeiros donos da gramática não são os gramáticos, mas aqueles que sabem como utilizar nosso idioma de forma crítica no exercício de sua identidade e cidadania.

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