Wilson Choeri: educador e empreendedor

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FEUC sente a perda de um de seus fundadores e presidente dos últimos 21 anos, que também ergueu a UERJ e reergueu o Pedro II

Por Tania Neves
emfoco@feuc.br

Dias após ser reeleito presidente da FEUC, o professor Wilson Choeri é fotografado para matéria da FEUC em Foco, em fevereiro deste ano, sobre a nova composição dos Conselhos Estatutários. (Foto: Gian Cornachini)

Dias após ser reeleito presidente da FEUC, o professor Wilson Choeri é fotografado para matéria da FEUC em Foco, em fevereiro deste ano, sobre a nova composição dos Conselhos Estatutários.
(Foto: Gian Cornachini)

Quando surgiu a ideia de publicar na FEUC em Foco uma série de perfis de nossos instituidores ainda vivos, de modo a relembrar a história da instituição por meio de relatos de e sobre os fundadores, procuramos o professor Wilson Choeri para apresentar a proposta. Pensávamos em começar por ele, por ser o presidente, mas Choeri elegantemente recomendou que antes fossem perfilados os que estiveram desde a Sociedade Universitária Campograndense (SUC) — como as professoras Leda Corrêa de Noronha e Carmen Navarro Rivas — e ele, que chegou anos depois, na transição para a Fundação Educacional Unificada Campograndense (FEUC), aguardaria a vez.

Assim o fizemos, publicando na edição passada o perfil da professora Leda e programando para esta o da professora Carmen. Mas a triste perda de Choeri, no último dia 13 de agosto, 15 dias antes de seu aniversário de 88 anos, nos fez mudar o rumo e trazer aos leitores neste número um pequeno apanhado das muitas realizações de um homem que tinha alma de educador, mas que em sua extensa e produtiva trajetória atuou em muitos outros papeis.

Formado em Física, Matemática e Ciências Sociais, Wilson Choeri foi professor da UERJ e de colégios como o Pedro II, de Aplicação da UERJ e da Aeronáutica. Como gestor, esteve na linha de frente da UERJ a partir dos anos 60, participando ativamente da construção do campus Maracanã da universidade; mesma energia que empregou no Pedro II a partir dos anos 80, primeiro reestruturando e ampliando as unidades existentes e depois promovendo a expansão para a Zona Oeste e outros municípios do Rio. Foi ainda o criador do Projeto Rondon e fundador de algumas instituições privadas de ensino no Rio, entre elas a FEUC, em cuja vida esteve presente por 48 anos, nos últimos 21 como presidente.

Missões do profissional que gostava de ser o nº 2

Choeri abraça a professora Vera na passagem de cargo, em 2008. (Foto: Alex Batista / Acervo do Pedro II)

Choeri abraça a professora Vera na passagem de cargo, em 2008. (Foto: Alex Batista / Acervo do Pedro II)

No serviço público, UERJ e Pedro II foram as duas grandes missões de Wilson Choeri. Graduado pelo Instituto La-Fayette, uma das faculdades que deram origem ao que hoje é a UERJ, ele foi o primeiro professor a alcançar a cátedra naquela instituição por concurso público, em 1963. No período em que o campus Maracanã foi erguido, esteve à frente da Secretaria de Planejamento e depois à disposição do gabinete do Reitor, sempre em função executiva: “Ele encabeçou tudo isso, com gestões junto ao Governador Lacerda para obter o máximo para a universidade”, conta Raul Choeri, filho do professor.

Raul recorda-se que o pai viajou a vários países para trazer para a universidade as mais atualizadas tecnologias existentes na época. Muitas vezes foi sondado para se tornar reitor, mas recusou: “Ele queria ser o número dois, nunca o número um. Achava que contribuía mais como executor”, diz Raul.

Já com o Pedro II sua história começou em 1940, quando ainda garoto ingressou como aluno. Posteriormente se tornou professor da casa, e em 1980 assumiu a secretaria de ensino, onde ficou por 12 anos. De 1994 a 2008 foi diretor-geral do colégio. Reitora Pro Tempore do Pedro II,Vera Maria Ferreira Rodrigues lembra que nesses 26 anos como administrador (houve breve hiato de 20 meses), Choeri elevou o número de alunos de 3.800 para mais de 13 mil e expandiu as unidades de 5 para 14, chegando ao bairro de Realengo e aos municípios de Niterói e Caxias. “Sinto-me privilegiada por ter convivido com ele esse tempo todo. Foi um mestre que tive na administração pública”.

A primeira expedição do Projeto Rondon é notícia em ‘O GLOBO’.(Imagem: Reprodução)

A primeira expedição do Projeto Rondon é notícia em ‘O GLOBO’.
(Imagem: Reprodução)

No Rondon, ‘Integrar para não entregar’

Em 10 de agosto de 1967, “O GLOBO” publicava a matéria “Universitários do Projeto Rondon clamam por soluções”. O principal entrevistado, criador daquele projeto de integração entre a universidade e os brasileiros de localidades distantes, o professor Wilson Choeri relatava as preocupações dos estudantes que acabavam de voltar da primeira expedição, a PR Zero, em Rondônia: eles ansiavam por ver aproveitados pelo governo seus relatórios sobre os problemas encontrados em campo, com o objetivo de saná-los.

Foi esta a intenção do professor quando idealizou o Projeto Rondon, em meados dos anos 60, e o apresentou ao governo federal: unir o conhecimento acadêmico com a presença militar nas regiões remotas do país para conseguir diagnosticar as necessidades das populações mais pobres e contribuir com soluções.

O coronel José Maria Teixeira da Fonseca, hoje com 82 anos, que se tornou secretário geral do projeto logo após aquela primeira expedição, comenta: “O Choeri foi o grande ideólogo, se bateu pelo projeto, e não foi fácil; mas conseguiu implementar. Creio que foi ele mesmo quem cunhou o slogan ‘Integrar para não entregar’, sobre a Amazônia”, conta.

Grande entusiasmo ao falar sobre a FEUC

Quando assumiu a presidência da FEUC, há 21 anos, o professor Wilson Choeri deu início a um momento extremamente criativo para a instituição, conseguindo unir todas as forças em torno de um grande objetivo comum, que era o de trabalhar pela Educação na Zona Oeste, particularmente o ensino universitário e o técnico. Quem conta é professor Durval Neves da Silva, sucessor de Choeri na presidência: “Com o gesto corajoso dele, outras demandas menores e pessoais saíram de cena naquele momento, estabelecendo-se um clima de harmonia e sinergia, e os esforços frutificaram”, afirma.

Para o professor Choeri, o maior valor da FEUC é ser uma casa que pertence à comunidade e que tem instituidores e não financiadores. (Foto: Gian Cornachini)

Para o professor Choeri, o maior valor da FEUC é ser uma casa que pertence à comunidade e que tem instituidores e não financiadores. (Foto: Gian Cornachini)

Durval lembra que o grande sonho de Choeri era acabar com o “prédio hemiplégico” — como ele se referia ao que hoje é o prédio principal da FEUC, e que na época era uma construção inacabada. O novo presidente ressalta ainda o papel do antecessor ao receber as comissões do MEC e outros visitantes ilustres na instituição. Segundo ele, Choeri impressionava a todos com seu conhecimento profundo da educação e a memória viva e ativa retratando a história do ensino superior na Zona Oeste: “Muitos avaliadores chegavam às lágrimas pela emoção que Choeri passava, ao falar com entusiasmo do ensino técnico e superior numa área que outrora foi Zona Rural e hoje é um grande centro de influência”, diz o professor.

Abaixo, destacamos algumas frases dele sobre a FEUC, em entrevistas que deu à FEUC em Foco:

 

“As articulações do vereador Miécimo da Silva com intelectuais como Deblangy Machado, Leda Noronha e outros permitiram trazer para cá uma intelectualidade docente de primeira grandeza, e todos trabalhavam por idealismo”

“Bem cedo foi adotada a regra de dar preferência, na contratação de professores, a nossos egressos: os melhores alunos se tornavam professores da faculdade. Esse recrutamento criou o espírito de tradição que nos contamina até hoje”

“A FEUC tem imagem própria e intensa grandeza em Campo Grande, onde cumpre papel relevantíssimo: sendo uma fundação, não tem dono nem objetivo de lucro. Por isso, não comprometemos nossa estrutura pedagógica, como outras fazem, porque não temos financiadores, mas sim instituidores”

 

Vascaíno apaixonado e excelente cozinheiro

O professor Wilson Choeri foi casado por 59 anos com dona Carolina da Silva Choeri, com quem teve dois filhos: Luís Carlos, economista; e Raul, advogado e procurador federal. Completam a família três netas, duas bisnetas e um bisneto. “Ele era o xodó desses bisnetos”, conta Raul. “Moramos próximo, então o apartamento de meus pais era o centro de tudo: Natal, aniversários, almoços de domingo”, relembra. Almoços, muitas vezes, preparados pelo próprio Choeri, que era excelente cozinheiro, segundo o filho. Na família Silva Choeri, aliás, juntaram-se duas tradições de boa mesa: a culinária árabe por parte dele, de origem libanesa, e a portuguesa por contribuição de dona Carolina. “Meu pai adorava fazer as compras no mercado, gostava de gastar com comida, valorizava uma mesa farta; simples, mas farta”, diz Raul.

Vascaíno apaixonado por futebol, pai de dois botafoguenses, Choeri os levava ao Maracanã quando garotos, na torcida do Botafogo, e se esforçava para ficar calado nos gols do Vasco. “Esse é um bom exemplo de como ele era democrático: nunca nos exigiu ser vascaínos, não nos impôs nenhuma religião, jamais interferiu em escolha de profissão nem em tomada de posição política. Sempre votei em candidatos diferentes dos dele, e isso não rendia qualquer atrito”, afirma Raul.

Choeri com o filho Raul e a bisneta mais nova, Tayla, então com três meses, em agosto de 2011.(Foto: Álbum de família)

Choeri com o filho Raul e a bisneta mais nova, Tayla, então com três meses, em agosto de 2011.
(Foto: Álbum de família)

A marca mais forte, nas lembranças do filho, é a dedicação ao trabalho. Nas fases em que estava envolvido em algum grande projeto — e isso era quase sempre — ele mal parava em casa. “Tinha dias que nem via meu pai”, diz Raul. Nenhuma dificuldade o demovia do que estava disposto a fazer: “Na minha infância, moramos em Niterói, e além da UERJ ele dava aulas em vários lugares, muitos deles distantes, como a Aeronáutica, em Campinho. Imagina: de Niterói a Campinho, sem carro”.

Ainda com relação ao trabalho, exercia no limite a autonomia que seus cargos lhe conferiam, e costumava dizer: “Se tenho autonomia, vou fazer”. Foi assim quando decidiu atender à antiga reivindicação da comunidade de Realengo, que já havia batido em mil portas pedindo uma escola federal para a região. Quando o procuraram no Pedro II, logo deu curso ao projeto. “Ele chamava para si as responsabilidades. Como procurador federal, muitas vezes o alertei sobre consequências que alguma dessas atitudes ousadas poderiam acarretar. E ele respondia: ‘Eu assumo. O que não vou é deixar de fazer’. E ia lá e fazia”, conta Raul.

Colegas e filho definem Choeri

“Ele foi um educador por formação, um gestor por uso da vida e um engenheiro por vocação, pois construiu a UERJ, ampliou o Pedro II e foi fundamental nas expansões da FEUC”, afirma o professor Durval Neves da Silva, novo presidente da instituição. “Ele exercia a engenharia de gente: plantava raízes e fazia brotar projetos para melhorar a vida das pessoas”, analisa.

A lembrança do filho Raul é de um pai que nunca parou de trabalhar, nunca tirou férias e era incansável: “Ele estava no meio de algum projeto, sempre”, afirma. De acordo com o filho, talvez uma das coisas ruins que a idade avançada e a saúde frágil impuseram ao pai foi um certo freio para o dinamismo e a ousadia que cultivou desde a juventude. “Ele costumava dizer: ‘é preferível o mar tempestuoso à calmaria dos pântanos’. Isso porque, como timoneiro, ele se garantia e sabia que ia conseguir conduzir o barco a bom porto”.

Já a professora Vera Maria o considera uma das mentes mais inteligentes, criativas e ousadas que ela já conheceu. E destaca seu engajamento social: “Tinha preocupação de atender os menos favorecidos. Foi aí que uniu a Matemática e as Ciências Sociais”, diz.

Contemporâneo no Projeto Rondon, o coronel José Maria da Fonseca considera que o professor Choeri era, antes de tudo, um visionário, pois apostava em soluções ousadas e não tinha medo de avançar para além do que lhe diziam ser possível. “Era um líder; mais ainda: um ídolo”, define.

Também integrante do grupo de fundadores da FEUC, a professora Leda Corrêa de Noronha, diretora da Universidade da Terceira Idade em Campo Grande (UNATIC), resume a importância que Choeri teve não somente para a instituição campograndense, mas para o país: “Foi um incansável estudioso da educação brasileira”.

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Exercia a engenharia de gente: plantava raízes e
fazia brotar projetos para melhorar a vida das pessoas

Durval Neves da Silva — Presidente da FEUC

 

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Como timoneiro, ele se garantia e sabia que ia
conseguir conduzir o barco a bom porto

Raul Choeri — Filho do professor Choeri

 

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Tinha preocupação de atender os menos favorecidos.
Foi aí que uniu a Matemática e as Ciências Sociais

Vera Maria Ferreira Rodrigues — Reitora ‘Pro Tempore’ do Pedro II

 

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Ele foi um incansável estudioso da
educação brasileira

Leda Corrêa de Noronha — Diretora da UNATIC

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