Semana de Pedagogia 2013 foi marcada por grandes relatos de vivências escolares

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Professores, diretores de colégios e estudantes contaram suas experiências com a educação no cotidiano escolar

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

A XXIV Semana de Pedagogia da FEUC começou na segunda-feira, dia 23, e se encerrou ontem, dia 25. Durante três dias, palestrantes, professores e alunos discutiram o tema “Educação Ambiental e Direitos Humanos: qual o papel do pedagogo neste contexto?”. O objetivo foi debater as ações do pedagogo a partir dos direitos básicos do homem, da responsabilidade de preservação do meio ambiente e do respeito à vida. O evento contou com palestras, oficinas, debates, exibição de filmes, rodas de conversas e apresentação de trabalhos dos estudantes, espalhados por toda a instituição, durante os três turnos do dia.

Abertura

A 24ª edição da Semana de Pedagogia se iniciou no Auditório da FEUC com uma notícia muito positiva. Em suas primeiras palavras, a professora Maria Lícia Torres, coordenadora de Pedagogia, expressou sua satisfação com a reavaliação do MEC, que brindou o curso com a nota 4: “Tenho uma satisfação imensa em abrir esta semana, ainda mais com a nossa nota 4”, disse Maria Lícia. “Temos a responsabilidade de conservá-la e ir além para proporcionar o que esta casa sempre fez: educação de qualidade”, ressaltou.

Em seguida, um grupo de estudantes coordenado pela professora Maria José da Gama Brum fez uma apresentação da música “Maior que as muralhas”, da banda Fresno, na Língua Brasileiras de Sinais (Libras). O auditório esteve todo escuro enquanto uma luz negra fazia brilhar somente as luvas brancas dos alunos vestidos com roupas pretas. O efeito dessa técnica criava uma ilusão de mãos dançantes, que levitavam e expressavam a letra da música em Libras.

A abertura da XXIV Semana de Pedagogia contou com uma apresentação musical em Libras.(Foto: Gian Cornachini)

A abertura da XXIV Semana de Pedagogia contou com uma apresentação musical em Libras.
(Foto: Gian Cornachini)

Depois da apresentação, houve uma breve cerimônia de Ação de Graças em memória do professor Wilson Choei, presidente da FEUC nos últimos 21 anos e que faleceu em agosto passado. Luiza Alves de Oliveira, vice-coordenadora de Pedagogia, leu uma carta escrita por ela e por Maria Lícia. O texto lamentava a morte do professor e o colocava como exemplo a ser seguido: “Mais do que educador, gestor, pesquisador e cientista, Choeri também era um ser humano íntegro e comprometido com valores sociais e humanos como respeito, dignidade, humildade, sabedoria e a crença na esperança para construir uma nova história humana”, afirmou Luiza, reforçando que a comunidade acadêmica deve ter os mesmos sonhos de Choeri: “Esperamos construir uma nova história para nossas vidas e para a história desse país”, concluiu ela.

Vídeo homenageou professor Wilson Choeri.(Foto: Gian Cornachini)

Vídeo homenageou professor Wilson Choeri.
(Foto: Gian Cornachini)

Após a leitura da carta, foi feita uma oração ecumênica e a apresentação de um vídeo com fotos de Choeri, elaborado pela professora Maria Lícia. O vídeo poético descrevia a pessoa de Choeri e fazia uma reflexão sobre a vida. “A carta e o vídeo são nossa singela homenagem para uma pessoa que deixa um legado de sabedoria e ensinamento para nós”, reconheceu Maria Lícia.

O pedagogo bem intencionado

No primeiro dia do evento, a pedagoga Sonia Norberto Gama, uma figura conhecida na FEUC, abriu a XXIV Semana de Pedagogia com a palestra “Infância e Desenvolvimento – uma questão de direito”. Sonia dá aula na pós-graduação em Pedagogia na FEUC e foi coordenadora da graduação até 2009. Durante dez anos, foi diretora da Creche Municipal Sempre Vida Professora Eugenea Maria Veloso Marchese, localizada na comunidade Aguiar Torres, em Inhoaíba, na Zona Oeste. A palestra foi proferida em cima de experiências e lutas diárias que a pedagoga teve na creche.

Sobre a atuação do pedagogo, Sonia fez algumas considerações: “Todas as nossas ações não são neutras. Elas têm intenções. Se o pedagogo tem uma boa formação e sabe das suas intenções, vai formar pessoas melhores e esclarecidas”, afirmou ela, lançando uma pergunta crítica em seguida: “Temos a intenção de transformar ou manter o que está?”, provocou.

Pedagoga Sonia experiências profissionais como diretora de uma creche. (Foto: Gian Cornachini)

Pedagoga Sonia contou suas experiências como diretora de uma creche. (Foto: Gian Cornachini)

Como exemplo prático do educador que transforma as pessoas, Sonia contou a história de uma criança com limitação de movimentos que ela atendeu na creche em que era diretora. O garoto tinha necessidades educativas especiais e a escola não dispunha de vaga para ele. “Aquela criança, como todas, tinha o direito à educação, mas não foi contemplada pelo sorteio entre os inscritos na lista de espera”, relatou Sonia.

A pedagoga, ciente de suas intenções, se esforçou e conseguiu fazer com que o menino entrasse para a creche e recebesse toda a atenção necessária para o seu desenvolvimento: “O conhecimento tem que me tornar melhor para ajudar o outro, se não ele não tem valor. Eu não poderia brigar diretamente com a secretaria de Educação porque eu estava na direção da creche, mas poderia orientar a mãe sobre como agir”, explicou Sonia.

Estudos da mente para a área da Educação

Na terça-feira, uma palestra da manhã se repetiu à noite devido ao teor da temática, que é novidade no campo teórico da Pedagogia: “A neurociência como ferramenta pedagógica na ação do pedagogo”. Quem falou sobre o tema foi o convidado Robson Cavalcante, mestre em Educação, Cultura e Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador dos campos do letramento, alfabetização, leitura e escrita.

O pesquisador Robson apresentou chamou a atenção para o estudo da neurociência aplicado às práticas pedagógicas. (Foto: Gian Cornchini)

O pesquisador Robson apresentou chamou a atenção para o estudo da neurociência aplicado às práticas pedagógicas. (Foto: Gian Cornchini)

A neurociência é o estudo científico do sistema nervoso e, segundo Robson, esses estudos ainda são pouco aproveitados pela educação: “Quem aqui se interessar por isso estará em uma vanguarda”, indicou ele. “Nós, professores, estamos mais atrasados que os médicos e psicólogos. Nós não estudamos tanto os comportamentos que envolvem a aprendizagem”, lamentou o pesquisador.

Um dos exemplos ligados à neurociência e aplicados à educação é a postura de elogiar o estudante. Alunos que recebem elogios tornam-se motivados a ampliar e incrementar seu conhecimento, e a crítica em excesso atrapalha o aprendizado. Mas, de acordo com Robson, a escola desqualifica o campo das emoções, que são essenciais para o aprendizado: “O próprio professor que ensina com uma cara de desanimado e sem dar um sorriso passa uma imagem que gera uma emoção aos estudantes. Como é que eles vão aprender melhor com alguém que não passa tranquilidade e motivação?”, questionou o pesquisador. “Por isso, precisamos estudar a neurociência para que a gente possa ensinar mais e de maneira melhor, e promover mudanças na aprendizagem do aluno”, orientou Robson.

Rodas de conversas e experiências

Na noite de encerramento, rodas de conversas estimularam os professores, convidados e o público participante a debater e trocar experiências sobre o dia a dia nas salas de aula.

Aparecida Tiradentes Santos, doutora em Educação e professora há 20 anos na pós-graduação em Pedagogia na FEUC, montou a roda de leitura “A superação do fracasso escolar como Direito Humano fundamental”. Na atividade, Aparecida utilizou seu livro “Listrinho – crônicas para professores” (à venda na Livraria Cultura) para discutir questões ligadas aos problemas com os quais o professor se depara em salas de aula. As crônicas do livro são sobre histórias vividas pela própria autora em escolas de locais carentes na região do bairro de Campo Grande.

Professora montou uma roda de leitura para conversar sobre situações vividas no dia a dia em sala de aula. (Foto: Gian Cornachini)

Professora montou uma roda de leitura para conversar sobre situações vividas no dia a dia em sala de aula. (Foto: Gian Cornachini)

A partir da leitura em grupo de trechos do livro, foi discutido o problema do fracasso escolar, ou seja, alunos que repetem vários anos e ficam por muito tempo nas mesmas séries, tendo que conviver com crianças mais novas que eles e, até mesmo, utilizar carteiras que não são feitas para seus tamanhos.

Para Aparecida, o educador precisa ter olhar sensível sobre essas crianças: “O educador tem que buscar entender qual o problema do seu aluno e ajudá-lo a quebrar o rótulo de que ele é incapaz de aprender”, ressaltou.

Em outra roda de conversa, a professora Janice Rosane Silva Souza trouxe ex-alunos, professores e o diretor do CIEP Major Manoel Gomes Arches, no Jardim Palmares, para exporem suas experiências com o Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA).

Adenir ficou 52 anos longe das salas de aula e voltou a estudar na escola em que ajudou a construir. (Foto: Gian Cornachini)

Adenir ficou 52 anos longe das salas de aula e voltou a estudar na escola em que ajudou a construir. (Foto: Gian Cornachini)

Adenir Alves da Silva, de 65 anos, se formou recentemente no PEJA e contou como foi voltar aos estudos: “Passei 52 anos sem entrar em uma sala de aula. Trabalhei como pedreiro e ajudei a construir essa escola. Sou velho, mas não quis ficar parado no sofá assistindo televisão. Foi muito bom voltar à escola depois de cinco décadas”, disse, contente, Adenir.

Alguns professores também externaram a satisfação em educar adultos e idosos. Foi o caso de Stanislaw Perezynski, que dá aulas de História e Geografia para o PEJA no CIEP. “A gente tem o aluno mais como um companheiro de trabalho do que como um adversário, que é o caso dos adolescentes no Ensino Regular. Mesmo assim, é um desafio, porque trabalhamos com pessoas que têm mais experiência de vida que a gente. Mas todas as dificuldades são superadas com a boa vontade”, esclareceu o professor.

Francisco Liberato do Nascimento, diretor do colégio, revelou que é mais fácil educar adultos e idosos do que crianças: “A criança vai obrigada para a escola, sem interesse. Muitas vezes não sabe nem por que está indo para lá. Já com a turma do PEJA é diferente. O aluno está lá porque tem interesse em ir à escola, pois tem um sonho a ser realizado. E quando ele chega, o ambiente muda. Se alguém quiser fazer bagunça, os outros chamam a atenção porque são pessoas maduras. O professor fica mais à vontade para ensinar e até mesmo brincar”, avaliou o diretor.

Ao fim do encontro, os ex-alunos do PEJA cantaram o arranjo musical gospel “Oh happy day”, de Edwin Hawkins Singers. Ouça abaixo a apresentação musical:

Ex-alunos do PEJA apresentaram uma canção na noite de encerramento da Semana de Pedagogia. (Foto: Gian Cornachini)

Ex-alunos do PEJA apresentaram uma canção na noite de encerramento da Semana de Pedagogia.
(Foto: Gian Cornachini)

A professora Janice encerrou a roda de conversa reforçando o papel do pedagogo: “Para que serve o nosso conhecimento adquirido na faculdade? Para passar nas provas e fazer concurso?”, provocou ela. “Devemos entender a educação como forma política e de luta pelas camadas mais excluídas. Quando estivermos em sala de aula, seja trabalhando com crianças, adolescentes ou com adultos, temos que perceber qual o nosso papel social, político e como profissionais da educação”, concluiu Janice.

Para fechar a XXIV Semana de Pedagogia com chave de ouro, os professores Umberto Eller, do curso de Ciências Sociais, e Flávio Pimentel, do curso de Letras, presentearam o público com uma performance musical. Umberto no vocal e Flávio no violão apresentaram seis músicas do repertório nacional: “Tocando em frente” (Almir Sater), “As coisas tão mais lindas” (Nando Reis), “O segundo sol” (Cássia Eller), “Partir, andar” (Os Paralamas do Sucesso), “Comportamento geral” (Gonzaguinha) e “Primeiros erros” (Capital Inicial). As canções podem ser ouvidas logo abaixo:






Os professores Umberto Eller e Flávio Pimentel fecharam o evento com canções do repertório nacional.(Foto: Gian Cornachini)

Os professores Umberto Eller e Flávio Pimentel fecharam o evento com canções do repertório nacional.
(Foto: Gian Cornachini)

Organização difícil

Nem tudo ocorreu como o esperado pela coordenadora do curso, a professora Maria Lícia. A comissão de avaliação do MEC visitou recentemente a instituição para reavaliar o curso de Pedagogia e, por conta disso, tanto Maria Lícia quanto a vice-coordenadora, Luiza, precisaram se dedicar ao compromisso com o MEC. A programação foi fechada em cima da hora e os alunos tiveram pouco tempo para se inscrever em cada atividade.

Apesar da correria, Maria Lícia considerou o resultado positivo: “Se os alunos fizerem reclamações, nós iremos assumi-las. Foi difícil organizar tudo com as questões da reavaliação do curso para resolver. Vimos até que não deu muito certo colocar atividades durante a tarde, porque não apareciam mais que cinco alunos. Mas estamos contentes com o resultado, ainda mais com a notícia do nosso merecido 4 na nota do MEC”, comemorou Maria Lícia.

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