XIX Ciclo de Debates em História discutiu questões historiográficas atuais

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Evento promoveu uma ponte entre os estudos de Thompson e Hobsbawm e a produção historiográfica nacional

Por Gian Cornachini
emfoco@feuc.br

Na semana passada, o curso de História das FIC promoveu seu XIV Ciclo de Debates. O tema discutido este ano foi “Thompson, Hobsbawm e a Historiografia Inglesa no Brasil”. O evento, que aconteceu entre os dias 10 e 13, debateu a importância dos dois historiadores – Edward Thompson e Eric Hobsbawm – e suas metodologias de pesquisa para a história mundial e, principalmente, a brasileira.

Alunos participam do Ciclo de Debates. Foto de Divulgação.

Alunos participam do Ciclo de Debates. Foto de Divulgação.


Uma história a partir do trabalhador

O Ciclo de Debates foi aberto com a palestra do historiador Marcelo Badaró Mattos, professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em “50 anos de ‘A Formação da Classe Operária Inglesa’”, o historiador abordou o cinquentenário do livro “A Formação da Classe Operária Inglesa”, de Edward Thompson, e sua influência – tanto da obra como do autor – nos movimentos sociais brasileiros.

Badaró estuda as teorias de Thompson e aplica a metodologia do autor em seus estudos sobre sindicatos e trabalhadores no Brasil. Na palestra, o historiador apresentou Thompson enquanto professor que lecionou durante muito tempo para trabalhadores e seus filhos – fato muito pouco comentado na academia. Segundo Badaró, o contato de Thompson com os trabalhadores foi importante para que ele fundamentasse seus estudos sobre a classe operária inglesa.

O historiador também explicou que Thompson foi um autor que escrevia suas obras utilizando fontes que faziam parte do cotidiano de seu objeto de estudo – os trabalhadores. Sua pesquisa não se atinha somente a documentos e atas oficiais, mas incluía as músicas que os trabalhadores ouviam, as poesias, a cultura deles – uma metodologia que torna a história mais social.

Outra questão abordada por Badaró foi a juventude da classe operária livre brasileira. Na palestra, o historiador disse a seguinte frase: “Trabalhadores livres convivendo com os escravizados: valores presentes na formação da classe operária brasileira”. O historiador chamou a atenção para o fato de que ainda está se construindo a experiência de trabalho livre no Brasil. O país passou por quatro séculos de escravidão. Depois, vieram momentos da ditadura do presidente Getúlio Vargas (entre 1937 e 1945) e a ditadura militar (de 1964 e 1985). Para o historiador, esses períodos após a escravidão reprimiram a liberdade do trabalhador brasileiro, que ainda está buscando se entender como um trabalhador livre.

Diálogos sobre a classe das prostitutas

Frederico Guimarães abordou no debate os processos de lutas organizados pelas prostitutas na capital fluminense. Foto de Gian Cornachini

Frederico Guimarães abordou no debate os processos de lutas organizados pelas prostitutas na capital fluminense. Foto de Gian Cornachini

A primeira palestra do segundo dia do evento foi de Frederico Guimarães, mestre em Memória Social e professor da rede pública de ensino. O tema de sua palestra foi “Prostitutas no Rio de Janeiro e ação política – uma discussão entre os conceitos da Classe e Movimento Social”. Frederico debateu os processos de lutas organizados pelas prostitutas na capital fluminense, o reconhecimento de sua cidadania e seus direitos trabalhistas.

Frederico explicou que, desde os anos 70, as prostitutas vêm lutando por direitos e reconhecimento de sua classe trabalhadora. Em 1987, o I Encontro Nacional das Prostitutas debateu essas questões e conseguiu vitórias: reconhecimento como profissional e participação da classe em campanhas de prevenção sexual. Para Frederico, a última conquista é muito emblemática: “É construtivo pensar nisso: em um país com baixos índices de educação, as prostitutas sabem como se prevenir. A própria prostituta, às vezes, acaba tendo que ‘educar’ seu cliente e exigir que ele use preservativo”, observou ele.

Para o professor, a legalização da classe das prostitutas foi uma atitude de avanço do governo: “O Brasil passou por um processo de legalização que vai além da aceitação social. Ele não pergunta à sociedade se ela aceita que se trabalhe a favor dos direitos das prostitutas, mas ele está trabalhando a favor”, explicou ele. “Independente se a gente aceita ou não, o Estado tem trabalhado a favor dessas minorias”, afirmou.

A estudante Cátia Cunha Galdino, do 3º período de História, disse se sentir no dever de contribuir com a discussão quando estiver em sala de aula lecionando: “A gente ainda tem tanto resquício de preconceito e, por isso, é importante participar de debates como esses para entender melhor a realidade da classe trabalhadora das prostitutas. É uma questão para ser levada em sala de aula para os alunos e problematizar o tema com eles”, considerou a estudante.

Rigor metodológico

Marco Pestana: "Se você estuda uma década, tem que entender e articular o processo histórico que desencadeou os acontecimentos daquela época". Foto de Gian Cornachini

Marco Pestana: “Se você estuda uma década, tem que entender e articular o processo histórico que desencadeou os acontecimentos daquela época”. Foto de Gian Cornachini

Uma das palestras do terceiro dia do evento debateu a importância Eric Hobsbawm para o jeito de se fazer História. O professor Marco Pestana, mestre em História Social e professor do Instituto Nacional de Educação de Surdos, fez suas considerações sobre Hobsbawm na palestra intitulada “Política e História na obra de Eric Hobsbawm”.

Entre as primeiras frases ditas pelo professor Pestana estava a seguinte: “A abrangência de sua obra vai fazer com que ele seja lembrando por muitas gerações”. A referência do professor a Eric Hobsbawm já começa por ele reforçar que, só em português, o autor tem mais de 30 livros publicados.

Pestana afirma que Hobsbawm sempre foi preocupado com o rigor metodológico, ou seja, ele não discutia apenas o que foi pesquisado, mas a metodologia utilizada para realizar tal pesquisa: “Se você estuda uma década, tem que entender e articular o processo histórico que desencadeou os acontecimentos daquela época. Não pode dar um recorte em seu objeto de estudo e ignorar os acontecimentos que desencadearam aquela década. Isso Hobsbawm fazia muito bem”, disse.

Nessa mesma linha de raciocínio, a palestrante Nathalia Rodrigues Faria, mestranda em História Política, afirmou no último dia do evento que a história de um determinado tempo, principalmente do tempo presente, não pode ser contada sem olhar para acontecimentos anteriores que a desencadearam. Sua palestra “História do tempo presente: diálogos com Hobsbawm e Thompson” debateu a metodologia que deve ser usada na historiografia da história recente.

Nathalia Rodrigues: "O papel do historiador é reunir informações". Foto de Gian Cornachini

Nathalia Rodrigues: “O papel do historiador é reunir informações”. Foto de Gian Cornachini

Nathalia fez um questionamento em sua apresentação: “Pode o tempo presente ser objeto da História? Para ela, sim. Mas é preciso ter o mesmo rigor metodológico utilizado em qualquer pesquisa, e isso implica em como o historiador vai trabalhar com suas fontes. Para entrevistas orais, por exemplo, Nathalia dá dicas: “Você não pode espremer a sua fonte para ouvir o que você quer. Sua opinião deve ficar de lado. O papel do historiador é reunir informações”.

Poucos dias após o evento, a coordenadora do curso de História das FIC, professora Vivian Zampa, fez uma avaliação do Ciclo de Debates: “O evento proporcionou discussões relevantes, que se mostraram de extrema importância para a formação de nossos alunos e, em certa medida, bem atuais, tendo em vista as manifestações populares multifacetadas que se apresentam e que, certamente, renderiam uma boa análise sob as perspectivas de Thompson e Hobsbawn”, analisou Vivian.

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