Jovem de hoje: alienado ou muito pelo contrário?

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Inspirados nos empolgantes debates do XV Encontro de Ciências Sociais, convidamos alguns participantes do evento para ‘baterem uma bola’ aqui sobre o assunto

Por Gian Cornachini e Tania Neves
emfoco@feuc.br

Marina Ribeiro, egressa do curso de Ciências Sociais das FIC e pesquisadora do Ibase, acredita que o jovem reflete o mesmo comportamento da sociedade. Portanto, se convive com grupos desinteressados das questões políticas e sociais, será tão apático quanto, mas dizer que uma geração como um todo é mais ou menos alienada do que as anteriores, não faz qualquer sentido, segundo ela. “Não se pode comparar gerações, é preciso contextualizar o que era a vida em cada época para entender os dilemas que cada geração de jovens viveu ou vive”, afirma a pesquisadora. Marina lembra que, se em outros tempos o movimento juvenil era associado apenas ao movimento estudantil, hoje os jovens estão envolvidos nas mais diversas causas: política, movimentos sociais, movimento negro, causa LGBT, feminismo, mercado de trabalho, manifestações culturais… “E tem também os que não fazem nada disso, que refletem a parte alienada da sociedade”.

Carolina Dias, integrante do Levante Popular da Juventude, vê na atual configuração da sociedade elementos mais do que suficientes para empurrar para baixo os jovens menos resistentes, ou aqueles que não chegam a se questionar sobre que padrão está ditando o seu comportamento: “Acredito que o jovem de hoje é fruto de um tempo em que ele é constantemente bombardeado pela mídia, a sociedade de consumo foca nesse jovem. E a gente também tem que estudar, trabalhar, ganhar dinheiro e não sei o quê. Para uma pessoa parar e ser alguém pensante no meio disso tudo é difícil. Não é um problema individual. É um problema da sociedade que impõe dificuldades para esse jovem”, opina a militante, mas sem qualquer pessimismo: “Ao mesmo tempo vemos que têm acontecido mobilizações no mundo todo, que eu acredito que é um processo que só vai aumentar. Enfim, os jovens estão se mobilizando, procurando outros meios para ter voz”, diz.

Na mesma linha de pensamento de Carolina, o repper Fiell acha importante refletir sobre como chegamos a este ponto: “Os escravos, os negros, ficaram proibidos de se alfabetizar durante 300 anos. Mais de 40 anos após a ditadura militar no Brasil, a educação pública foi esfacelada. Nada disso é prática da natureza. Todas essas ações políticas são pensadas para o benefício de uma burguesia que explora, massacra os trabalhadores.  No Brasil estão funcionando várias ferramentas, não só de comunicação de massa, para manter a alienação. Uma criança, por exemplo, já vai para os primeiros dias de aula com 7 mil horas de programação televisiva. Isso é muito ruim, pois a criança sabe qual o biscoito que ela gosta, mas não sabe que teve uma escravidão no seu país”, argumenta Fiell.

Com o respaldo que lhe dão os seus cabelos brancos, o escritor e educador Vito Giannotti afirma que os velhos sempre acusam os jovens de serem alienados. “Isso é coisa de velho babaca”, dispara Giannotti, que assim como Fiell identifica na hegemonia da mídia comercial a articulação para fazer dos jovens um grupo cordato e consumidor. “A sociedade que está aí quer formar pessoas que não pensam, que não estão nem aí. E a sociedade hoje é muito mais capaz do que em outros tempos. Então, se você disser ‘o jovem é mais alienado hoje do que antigamente’ — e eu não estou dizendo que é — não tenho dúvidas de que o investimento do capital é para deixá-lo assim”, denuncia o escritor. Segundo ele, o conteúdo que se vê na mídia brasileira é tão fora da realidade das pessoas que a muitos não resta outra opção senão dissociar: “A menos que o jovem tenha um conjunto de experiência, que viva no coletivo, ou que tenha pessoas — como professores, educadores, formadores — que o estimulem a abrir os olhos, a ter um senso crítico e a se organizar”.

A doutora em Educação Daniela Patti, coordenadora pedagógica dos cursos de licenciatura da UFRJ, não esteve no Encontro de Ciências Sociais, mas foi chamada a opinar porque recentemente levantou um tema interessante em outro debate na FEUC: a tramitação, no Congresso, de projetos de lei instituindo no ensino básico as disciplinas de Cidadania, Moral e Ética e Ética Social e Política, numa espécie de reedição das velhas Educação Moral e Cívica e OSPB impostas pelo regime militar: “Em boa parte das ementas desses projetos de lei é recorrente a ideia do que eu chamo de uma ‘pedagogia do resgate’. Há, por parte do legislativo federal brasileiro, a intenção de resgatar valores que a juventude brasileira perdeu”, diz a educadora, questionando se haveria acordo na sociedade sobre quais valores éticos seriam esses. “É possível chegar a um consenso de que esses valores que precisam ser resgatados são universais?”, pergunta-se ela, finalizando: “Em um país tão desigual como o nosso, não se pode falar em juventude, mas em juventudes”.

 

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 O Tema em Questão de sua revista impressa continua aqui, com a publicação de conteúdo adicional e um convite para que você participe fazendo comentários ou enviando algum artigo de sua autoria sobre o assunto para enriquecer o debate.

 

Doutora em Educação escreve sobre a participação da juventude nas questões sociais

Daniela Patti* do Amaral acredita que ‘Em um país desigual como o nosso, não se pode falar em juventude, mas em juventudes’ 

 

‘Em um país desigual como o nosso, não se pode falar em juventude, mas em juventudes’ 

A perspectiva de participação da juventude nas discussões relevantes da sociedade é uma questão que merece destaque no cenário brasileiro atual. Seja nos desenhos das políticas educacionais, sociais, culturais ou políticas, a juventude brasileira é, hoje, alvo de ações articuladas do Estado. A criação, em 2005, da Secretaria e do Conselho Nacional da Juventude é apenas uma ilustração da preocupação do Estado brasileiro com o atendimento a essa parcela da população. Somam-se, ainda, políticas como o Programa Universidade para Todos (ProUni), o Projovem e a expansão da rede federal de instituições de ensino superior. Observo, com essas ações, os interesses do Executivo Federal em incluir a juventude pela via da educação inicial e continuada e aumentar as estatísticas de jovens entre 18 e 24 anos com escolarização.

"Creio que a juventude de hoje está diante de um quadro de oportunidades ampliado e confuso" — Daniela Patti do Amaral. (Foto: Tania Neves)

“Creio que a juventude de hoje está diante de um quadro de oportunidades ampliado e confuso” — Daniela Patti do Amaral. (Foto: Tania Neves)

Entretanto, não observo as mesmas ações no âmbito do legislativo. São muitos os Projetos de Lei tramitando na esfera federal que insistem na inclusão de novas disciplinas no ensino médio e mesmo no ensino superior. Em boa parte das ementas desses projetos de lei é recorrente a ideia do que eu chamo de uma “pedagogia do resgate”. Há, por parte do legislativo federal brasileiro, a intenção de resgatar valores que a juventude brasileira perdeu. Esses projetos ilustram uma forte corrente para a retomada da educação moral na escola através de um ponto de vista de cunho religioso que irá combater a falta de respeito, a desordem e o vandalismo que marcam o dia a dia das escolas e da sociedade tendo os jovens como protagonistas. A ética como disciplina escolar virou a panaceia para todos os males que assolam a juventude brasileira. E, também, uma forma de controle. Cabe destacar, no entanto, que valores éticos são esses que estão sendo veiculados pelos projetos de lei, pela mídia e se há consenso sobre eles. Indago: é possível chegar a um consenso de que esses valores que precisam ser resgatados são universais? Será que esses oradores no legislativo conseguirão persuadir os jovens através desses discursos? Será, ainda, que eles são vistos pela juventude como modelos? O ethos desses oradores, isto é, sua credibilidade assentada em seu caráter, sua honra, estão servindo de modelo para os jovens?

A juventude procura por modelos que servirão de inspiração para seus caminhos e percursos. Na falta de modelos que os jovens não encontram nas artes, na política, na religião, eles poderão substituir por padrões e modelos que a mídia impõe. Ser o mais magro, o mais bonito, o mais famoso e viver a vida que a sociedade do espetáculo legitima. No caso brasileiro, especialmente a mídia televisiva tem largo alcance. Logo, é preciso indagar que padrões e modelos são esses que estão sendo transmitidos pela mídia. Adicionalmente, é fundamental refletir que os valores que muitos dizem que precisam ser resgatados acabam por se tornar um discurso enfraquecido porque os acordos são firmados no tempo, conforme os interesses, desejos e necessidades dos diferentes grupos. Logo, não são imutáveis.

Finalizando, não acho que a juventude seja alienada nem que ela está sendo excluída das discussões. Creio que a juventude de hoje está diante de um quadro de oportunidades ampliado e confuso. O mundo do trabalho está muito mais complexo, há um alargamento no horizonte de possibilidades da formação inicial e continuada. E, ainda, há que se destacar que diante da realidade de um país tão desigual como o nosso não se pode falar em juventude, mas em juventudes, afinal as experiências de vida em tempos e espaços tão distintos vividas por jovens permitem diferentes concepções do que é que ser jovem no Brasil do século XXI.

*Daniela Patti do Amaral é professora adjunta do Programa de Pós Graduação em Educação da Faculdade de Educação da UFRJ

2 comments on “Jovem de hoje: alienado ou muito pelo contrário?

  1. Poucas pessoas diziam que jardim era encantado porque à noite perfume das flores se espalhava pelo
    quintal e também atraia muitas fadas e também essas fadas eram invisíveis.

    Feel free to visit my blog … http://www.festajardimencantado.com/

  2. Rayanne Alice disse:

    Os jovens de hoje, em sua maioria, buscam valores ditos pela mídia. Encontra-se um padrão que deve ser seguido, o celular que devem possuir, a roupa que devem vestir, tudo é imposto e o jovem abraça isso como sendo algo obrigatório no qual o mundo das “selfies” expões o que eles possuem. Pouco se tem interesse por ler bem, agregar conhecimento e participar mais ativamente de uma sociedade.

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