Escola: mão de obra ou educação crítica?

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Somos ‘forçados’ a manter uma máquina social ou desfrutamos de um espaço ideal do conhecimento? Da educação técnica à formação de um ser pensante, a escola enfrenta críticas e elogios

Gian Cornachini*
emfoco@feuc.br

Veja também: Doutora em educação analisa o papel da escola

 

Tão presente na cultura ocidental, parece que a escola sempre existiu. Mas ela, tal como a conhecemos hoje, é uma instituição moderna e fruto, principalmente, do desenvolvimento econômico mundial. A partir daí, surgem questionamentos: para que a educação atual está voltada? Qual o papel dela na formação dos estudantes? Será que a escola sempre foi assim?

Um breve apanhado histórico

Para entender a escola de hoje, vamos voltar no tempo. A cultura oral, antecessora à escrita, era a responsável por manter a história dos povos. Os ensinamentos passados de pais a filhos eram informais, conforme sugere a filósofa e escritora Maria Lúcia de Arruda Aranha. Em seu livro Filosofia da Educação (2006), a autora explica que a educação informal é caracterizada pela sua forma casual e empírica, ou seja, não organizada a partir de um sistema, mas passada a partir de suas próprias vivências e bom senso.

O surgimento de sociedades mais complexas, fundadas em instituições políticas e práticas econômicas sofisticadas, começou a desvalorizar a educação informal. Considerado insuficiente e sem conhecimentos específicos, esse modelo de educação passou a ser substituído pelo formal. Surgiu, então, a figura do professor — geralmente um filósofo, especialista em repassar conhecimento intelectual e moral. Na Grécia Antiga, essa nova educação era um privilégio de poucos: homens ricos, que não tinham necessidade de trabalhar e dispostos a investir o tempo livre no saber.

Na Idade Média, a cultura escrita ganhou força: surgiram os estudos em gramática, retórica e filosofia, e a Igreja Católica criou escolas e transformou esses estudos em disciplinas. Para a historiadora Maria Lúcia Hilsdorf, a educação escolar começou a ser delineada na Idade Média, principalmente com o interesse da Igreja Católica em educar o clero. Posteriormente, outros saberes foram adicionados, como a estenografia — um processo de escrita por meio de abreviações que permite a transcrição das palavras tão rapidamente conforme são pronunciadas. Com o avanço da sociedade, os centros de ensino da Igreja Católica passaram a oferecer “cabeça de obra” para o Estado, ou seja, leigos educados para trabalhar na administração das cidades.

Já na Idade Moderna, a cultura humanista cresceu, as cidades começaram a inchar e a economia se tornou mais urbana. Bastou um passo ao período contemporâneo para a escola tomar as formas atuais. Movida pelos ideais iluministas, a educação escolar passou a ser orientada pela razão. O Estado também ficou responsável por mantê-la, e então ela se voltou para o público. O material escolar dispensou os livros religiosos e adotou os didáticos e de cunho laico.  O movimento educacional “Escola Nova”, no século XX, reviu as formas tradicionais de ensino e incorporou estudos voltados para as áreas de psicologia e biologia. Consolidou-se, então, a escolarização organizada em etapas – hoje com a nomenclatura de Ensino Básico (infantil e fundamental) e Secundário (médio e técnico).

O(s) papel(eis) da escola

Segundo dados do Ministério da Educação com base no último Censo (2010), a população em idade de escolarização básica (de 4 a 17 anos) no Brasil ultrapassa os 45 milhões de estudantes. Com tanta gente matriculada, será que a escola de hoje é a referência na Educação?

O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) foi um crítico da educação escolar. Ele via na escola moderna um espaço para vigiar e adestrar o corpo e a mente. É como se a criança fosse sequestrada de sua família para passar longos anos sob uma disciplina voltada para conduzir seu comportamento e formar seus pensamentos.  A isso ele deu o nome de “corpos dóceis”, e tal “docilização” geraria vantagens sociais e políticas: corpos dóceis significam corpos produtivos. O pensamento de Foucault sugere que o papel da escola moderna seria o de formar mão de obra para alimentar a necessidade contínua e crescente de produção, seja ela de bens materiais ou não. E quanto à questão de a escola formar um ser pensante, que vá além de conteúdo, habilidades e competências propostas pelo ensino tradicional? Para a doutora em Educação Andrea Ramal, a escola ainda é esse local de formação diferenciada do estudante: “O papel da escola é fundamental para formar seres pensantes e críticos”, afirma ela. “A escola, junto com a família, precisa ajudar os jovens a construir um olhar crítico, a avaliar o que aprendem e o que fazem a partir de determinados critérios, a construir o seu próprio projeto de vida de forma responsável, autônoma e solidária”.

Apesar de defender que a escola busca contribuir para a formação de seres críticos, Andrea Ramal não renega a crítica de Foucault: “Ela [a escola] assume também o papel — junto com a família — da formação cidadã, da formação ética, além de desenvolver competências ligadas ao mundo do trabalho, como a postura empreendedora, a capacidade de trabalhar em grupo ou de compartilhar conhecimento”, esclarece a especialista. Mesmo assim, segundo Andrea, a formação técnica da escola não deve ser descartada: “Esse movimento é positivo, pois a tendência é que os alunos passem a sair da escola com visões mais globais e, portanto, mais preparados para a vida”, completa.

 

A ‘decadência’ da escola em pauta

Documentário argentino “La Educación Prohibida” critica o modelo tradicional da educação (Foto: Divulgação)

Documentário argentino “La Educación Prohibida” critica o modelo tradicional da educação (Foto: Divulgação)

Os métodos de ensino e a estrutura prática da escola são grandes pautas de discussões. O documentário argentino “La Educación Prohibida” (2012), financiado vias redes sociais e disponibilizado gratuitamente na internet, propõe uma reflexão sobre o modelo tradicional da educação. Exibido no ‘Cinema na FEUC’ em setembro de 2012, o filme defende que a escola tradicional se baseia em um sistema repetitivo e autoritário, orientado à competição e limitador do aprendizado. O filme apresenta outras formas de pensar a educação, que valorizam a diversidade educativa, a liberdade pedagógica e a necessidade de democratização.

Outro tema que vem alimentando discussões é o chamado “abolicionismo escolar”, abordado pelo historiador Danilo de Camargo em sua dissertação de mestrado na USP (“O abolicionismo escolar: reflexões a partir do adoecimento e da deserção dos professores”). Na pesquisa, ele conclui que o problema de afastamento dos professores se dá pela conduta das escolas enquanto instituições. Danilo sugere que se questione a existência da escola como um grave problema político, pois, para ele, a instituição é falha e não se propõe a pensar um outro modelo educacional que substitua o atual.

*Com a colaboração de dados históricos fornecidos por Ellanny Brabo de Matos, professora do curso de História das FIC.

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