Por dentro das FIC

Uma noite de homenagem ao professor Mauro Ferreira de Oliveira

 

                Frente aos olhos dos alunos, frente aos olhos da sociedade, não há quem seja mais observado e, ao mesmo tempo, ignorado. Ser professor é estar fadado a este contínuo paradoxo, cujo ofício requer constante dedicação e empenho, sem qualquer garantia de reconhecimento e tampouco ovação. Porém, no curso deste frutificar lento e não apercebido, há o momento em que os olhos passam a ver, substituindo paradoxismos por gratidão, e o professor se torna o melhor e mais reconhecido dos artistas – mesmo que por uma plateia peculiar.

                Foi com este clima que na noite da penúltima terça-feira (31), o auditório da FEUC se transformou em um ambiente de homenagem e celebração à carreira de Mauro Ferreira de Oliveira, professor de Espanhol e Literatura da FEUC.

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Auditório, Professor Mauro (de amarelo) recebe homenagem.

 

Próximo de atingir três décadas exercendo o ofício de magistério, Mauro, recebeu de amigos e alunos homenagens com um único objetivo: celebrar, em vida, a poesia inerente em um profissional apaixonado pelo que faz.

                Com uma mesa composta pelos professores Marcos Lopes, Américo Mano e Rita Gemino, a cerimônia teve início com os depoimentos destes que, muito gratos, declararam a influência do professor em suas trajetórias.

                Para Rita Gemino, hoje professora da FEUC, “Era difícil dormir nas aulas dele”. Culpando Mauro por ter semeado sua paixão pela Literatura, Gemino defendeu a importância da Literatura na trajetória de qualquer estudante. Ela ainda destacou a qualidade no ensino da instituição: “Os alunos que saem graduados pela FEUC vão para o mercado como profissionais diferenciados”.

 

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Da direita para a esquerda, Marcos Lopes, Rita Gemino e Américo Mano.

 

                Dentre as várias prioridades de um jovem que ingressa num curso pré-vestibular, certamente Literatura não costuma ser a principal. Em março do ano 2000, Marcos Lopes assistiu à primeira aula de Literatura do curso. Nela, ele conheceu o poema Psicologia de um vencido, de Augusto dos Anjos. O episódio tatuou-se na memória de Lopes quase de maneira instantânea, em parte pelas profundas dimensões dos versos do poeta, em parte pela enérgica recitação de quem o leu, Mauro Ferreira de Oliveira.        “Aquela foi a minha primeira e única aula com o professor Mauro”, revelou.

                A experiência, no entanto, valeu o suficiente para, dezessete anos depois, levá-lo a estar àquela mesa. Formado pela UFRJ e atualmente membro do corpo docente da UFRRJ, Marcos Lopes disse que “o papel fundamental do professor é chamar a atenção de seus alunos para outras formas de percepção da realidade”, denominando Mauro como um “disseminador” da Literatura.

                Assim como seus companheiros de mesa, o professor de Literatura Américo Mano direcionou ao homenageado a gratidão que não se podia trair, em vista da inegável relevância que este exerceu em sua trajetória. Emocionado, Mano não pôde conter as lágrimas ao lembrar, com nostalgia, os tempos como graduando na FEUC, lugar onde ele revelou ter descoberto a si mesmo – além de ter conhecido Rita Gemino, sua esposa.

                Sob o discurso “a importância do professor”, Américo trouxe à reflexão o quanto a categoria vem enfrentando dificuldades. “Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores”, declarou, ao ler o texto Verdades da profissão de professor, de Paulo Freire.

 “O professor medíocre conta; o bom explica; o superior demonstra; mas o grande professor, inspira”, concluiu, admitindo ser um professor privilegiado, sobretudo por antes ter sido aluno de Mauro Ferreira de Oliveira e tantos outros excelentes profissionais.

                Aliás, a palavra “inspiração” se repetiu constantemente ao longo das declarações. Segundo Janice, vice-diretora FEUC, num breve discurso, definiu Mauro como um grande inspirador e amigo. Ao encerrar, ela tomou a liberdade de prestar reverência ao companheiro e parabenizá-lo pelo seu empenho em humanizar através da educação.

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Professor Mauro recebe abraço de Janice.

 

                Visivelmente lisonjeado, o condecorado da noite agradeceu a Prof. Dr. José Ricardo amigos e alunos por organizarem a cerimônia. “Confesso que não sei se mereço todas essas palavras. Mas muito, muito obrigado”, disse. Evitando as lágrimas, Mauro fez uso de seu característico bom humor para falar sobre os 27 anos de FEUC e os inúmeros frutos gerados por este trabalho.

                Mas a cerimônia não foi feita só de ex-alunos. Os atuais compareceram ao palco com uma encenação que trouxe, sob uma bela caracterização e cativante texto, personalidades das artes, como Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marquez, Frida Kahlo e Dom Quixote. Todos declararam – com personalidade o bastante para fazê-lo exclusivamente em espanhol – seu contentamento por se manterem vivos por meio das animadas aulas de Mauro.

(Colocar após uma foto) Até mesmo o dramaturgo brasileiro Manuel Carlos fez-se “presente” para oferecer sua homenagem, já que o professor é um grande fã de dramaturgia. E ao som de Falando de amor e Samba de Verão, de Tom Jobim, os graduandos ignoraram os problemas técnicos e embalaram, à capela, as músicas com a plateia e o homenageado.

                Ainda se considerando não merecedor de tamanha honra, Mauro afirmou que educar é uma via de mão dupla. “Alunos também nos ensinam”, explicou, declarando seu amor pela instituição e a gratidão que nutre por ela. Porém, o agradecimento maior foi para o universo das letras: “Ele transformou a minha vida”.

                O Prof. Dr. Valmir Miranda de Oliveira (UFRJ), professor da FEUC, apresentou um texto de Antoine de Saint-Exupéry, Lettre à un otage, e, em um dado momento, citou: “O homem é governado pelo espírito”. E para ele, Mauro possui um espírito que emana positividade. “Um homem que enxerga a vida de maneira otimista e se mantém feliz, mesmo em momentos difíceis”, afirmou o professor, que ainda elogiou a ética e profissionalismo do amigo.

 

Pero no todo son flores

 

                Apesar da atmosfera comemorativa, a cerimônia também teve espaço para a abordagem de temas críticos.

                A língua espanhola vem perdendo espaço nos currículos escolares há alguns anos. Devido às recentes reformas no ensino e à polarização do Inglês, o Espanhol tem tido perspectivas nada promissoras. O Prof. Dr. José Ricardo Dordron Pinho apresentou, através de dados estatísticos levantados em uma pesquisa de sua autoria, o preocupante quadro do ensino de línguas estrangeiras no Brasil. “O governo prioriza apenas o Inglês”, declarou ele. Para José Ricardo, o fator geográfico deveria assegurar a presença do espanhol nas escolas brasileiras, uma vez que o Brasil faz fronteira com países falantes do idioma. Mas tudo indica que isso não será levado em consideração, ignorando, assim, a diversidade. Segundo a pesquisa, uma escola que hoje se configura como um “espaço de resistência” é o Colégio Pedro II, que ainda oferece aulas de Francês e Espanhol, por exemplo.

                Nutrindo uma amizade que já contabiliza mais de vinte anos, Lia Martins (UFRJ), professor da FEUC, e Mauro colecionam boas experiências juntos. Eles falaram um pouco sobre os aspectos linguísticos e as metáforas presentes no conto A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa. “É muito bom dividir este espaço com você, Mauro”, disse Lia, agradecendo a parceria e o companheirismo do amigo.

                Tudo era um pretexto para, através dos simbolismos tecidos por Guimarães Rosa, reintegrar a importância da Literatura como processo de libertação. Mauro comparou a terceira margem do rio com a busca de uma transcendência. Para ele, o rio representa a vida e, conforme confessou: “Hoje posso dizer, eu atravessei a terceira margem”. Martins, por sua vez, destacou esta personalidade do professor como sensível e poética.

                Celebrando não apenas a pessoa Mauro Ferreira de Oliveira, mas a educação, a cerimônia mostrou a necessidade de reconhecer, ainda em vida, o valor do professor como peça transformadora de vidas.

 

Texto: Matheus Machado (aluno do sexto período de Letras Inglês)

Fotos: Valmir Miranda (professor do curso de Letras).